Um Livro

Teologia e literatura: afinidades e segredos compartilhados. Rio de Janeiro: PUC-Rio & Vozes, 2015.

BINGEMER, Maria Clara Lucchetti

 

O livro reúne os textos da teóloga Maria Clara Bingemer sobre essas duas áreas do conhecimento. Para ela, teologia e literatura são saberes que estão cada vez mais conectados – em toda poesia há algo de teologia e em toda autêntica teologia há um quê poético. A obra divide-se em duas partes para discutir essa relação: uma dedicada à literatura brasileira e a outra destinada à literatura estrangeira, com ênfase em autores franceses.

 

A presença feminina se faz predominante em todo o livro. Entre os escritores comentados e estudados, está a poeta Adélia Prado e Etty Hillesum, a jovem judia autora de diários que relatam os horrores do holocausto. A autora alia a poesia de Adélia ao valor literário dos registros de Hillesum.

 

Um dos textos do livro analisa os romances de Clarice Lispector Paixão segundo G.H. e Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres para demonstrar como a escritora ensina mais sobre o amor entendido como ágape do que muitos manuais de teologia – incluindo o Eros e a experiência do absoluto como kenosis.

 

Simone Weil também é protagonista da obra. Amplamente estudada por Maria Clara Bengemer, a literatura da filósofa, que sempre foi uma grande leitora dos mitos e das narrativas simbólicas, é relacionada com um dos contos dos Irmãos Grimm.

 

Ainda no universo dos autores franceses, Teologia e literatura retrata o escritor Albert Camus. Para a autora, a obra desse filósofo é uma declaração de fé na transcendentalidade da pessoa humana, enquanto se debate com o problema do mal e a questão da teodiceia. Nesse ponto aproxima-se bastante do também escritor João Guimarães Rosa, cuja obra Grande sertão: veredas, com sua discussão sobre o bem e o mal, situa-se no centro do pensar sobre o ser humano.

 

Já o tema teológico da salvação e da santidade é tratado por meio de Georges Bernanos e François Mauriac. Os personagens sacerdotais de Alain Forcas, de Mauriac, e do pároco de Ambricourt, de Bernanos, valorizam algo importante para a vivência do cristianismo corre o risco de perder: a carga de dramaticidade que a salvação carrega em si mesma.