Um Filme

 

Diretor: Darren Aronofsky

EUA – 2010

 

Talvez vocês já saibam que esse não é o tipo de filme que mais me agrada. Mas, agradou-me a ideia de traçar algumas linhas sobre ele, que virará um “campeão de bilheterias”. E, quem sabe podemos encontrar, nele, alguns aspectos de valia para refletirmos sobre o viver, não é mesmo? Já acho valioso que ele possa ser oportunidade para que, sobretudo os nossos jovens, não fiquem como os jovens americanos, na cena do bar, que nada sabem de balé. Ou seja, que o filme desperte algum interesse pelo BALÉ, pela MÚSICA CLÁSSICA, ali representada pelo grande compositor russo TCHAIKOVSKY, em sua magnífica obra O LAGO DOS CISNES (1877). E ainda me lembrei do conto de fadas O patinho feio, do escritor dinamarquêsHans Christian ANDERSEN (1843): Era uma vez um patinho que era feio, mas não porque era patinho, mas sim, porque era cisne... O conto trata da importância de encontrarmos nossa verdadeira natureza. Lembremos disso...

 

O enredo do balé (não o do filme) tem como ideia dramática central uma linda moça, virginal, que está presa a um corpo de pássaro, por um feitiço que só terminará quando ela encontrar o amor verdadeiro; mas, surge a gêmea, que engana o príncipe e quer tomá-lo para si. No balé, a bailarina deverá ter uma técnica perfeita, na leveza dos movimentos dos braços, das articulações dos pés, na posição da cabeça e no alongamento do pescoço. E ainda deverá representar as diferenças emoções, ora do Cisne Branco, ora do Cisne Negro. Mas, vamos ao FILME! Depois da sessão, sem o susto e tensão, podemos começar a pensar. Aqui, vai importar menos se é ou não verdade o que ela vê, e que tipo de patologia psíquica ela tem.

 

Peguemos nós, o que nos interessa da vida de NINA e de seus aspectos emocionais:

 

Nina quer TER toda a técnica para o melhor desempenho (ainda não sabe que é preciso SER!). Sua mãe empenhou-se para ela ser bailarina (“eu insisti para você ficar na aula), e tudo para que ela (a filha?! Ou ela?) realize o SONHO, pois “eu deixei tudo para ter você”. Em seu quarto, há auto-retratos por todo lado, como que buscando a si mesma, sem parar! No quarto de Nina, só há bichos de pelúcia; ela é o “doce” e a “meiga” da mamãe! Para que ela durma, sua mãe liga a caixinha de música da bailarina. Nina não pode ser “amarga” e nem ter raivas. No entanto, tem “alergias” nas costas, pois “se coça” à noite, sem perceber: tensão e auto-destruição. Mãe e filha estão prisioneiras uma da outra. Nina precisa ser “perfeita”, a qualquer custo! Para comemorar Nina ter sido escolhida, a mãe compra o bolo “Sweet”; Nina não quer, mas não pode não querer... Os conflitos vão começar a nascer e crescer... E vão num crescendo enlouquecedor, como vimos, pois sua “vida lá fora”, terá que ser não só o “Cisne Branco”, mas também o “Cisne Negro”. Para realizar o desejo do diretor, que é dinheiro e sucesso para o “seu Balé”, ela terá que ter um desempenho completo, que é técnica e sentimento. Nina está encurralada entre o desejo da mãe, que a quer minha “menina doce”, e o do diretor, que a quer “mulher sedutora” (ele quer seu desempenho, não a ela!).

 

De qualquer forma, Nina tem que encontrar sua própria essência, sua identidade, a integração dos lados menina e mulher, dos lados “bom e mal”, a dualidade que sempre nos acompanha. Frente à necessidade de crescer e vencer, “copia” a bailarina-princesa anterior: rouba batom, lixa, e até os brincos (por isso os tira quando vai ao hospital), com os quais vai à sua apresentação oficial. Mente para a mãe e diz que “são falsos”; “rouba” para tentar ser o que não é! É verdade que criança “veste” o sapato da mãe para “copiar” a mãe. Mas, um dia ela terá que “vestir” os próprios sapatos! Não adiantará “jogar no lixo” os pertences da bailarina-modelo; não adiantará discutir com sua possível rival. Nina vai ter que “romper” com a filha-doce-meiga de sua mãe, e explorar (conhecer-se) o próprio corpo, masturbando-se, beijando-se, como quando “alucina” que é Lily que faz com ela ou contra ela. É Nina que está travando essa luta consigo mesma. Terá que enfrentar o que a “persegue”: a visão de seus machucados (mãos e pés), expressão de suas debilidades; a visão das rivais, expressão de não poder ser ela mesma. Como todos nós, precisa integrar o branco e o negro em si mesma. Não pode continuar sendo um espelho feito de vários pedaços, colagens de vários desejos (como o espelho de sua casa). “Joga no lixo” os seus bichos de pelúcia e ainda “quebra o espelho” do camarim. Quebrou a imagem que construíra para si, de si mesma. O feitiço, que pôs sobre si mesma, começa a sair: “tira” um galho de espinhos de sua alergia nas costas (infância), “tira” o pedaço de espelho de sua barriga, de “seu próprio umbigo”. Terá que integrar a “feia e má”, numa cena de “assassina e suicida”. É quando começa a PODER SER, e isso é poder “ficar perfeita”: integrar o branco e o preto, comono balé das penas brancas e pretas, que dançam sobre os créditos finais do filme.

 

 

Maria Tereza Moreira Rodrigues

Psicanalista – Espiritualidade Inaciana

01.12.2012