Desdobramentos

Entre um ano que termina e outro que começa, a braços com o tempo que corre fora e dentro de nós, e sentindo-nos talvez de maneira mais sensível modelados por aquele invisível oleiro que é o tempo, damo-nos conta de que a nossa é uma vida exposta. 

É impossível não detetar os sinais do tempo em nós: linhas de fragilidade, sombras, sobressaltos, erosões, áreas mais desvitalizadas, insuficiências. A unidade interior é um trabalho imenso. Assemelha-se à tela que Penélope tecia de dia para a desfazer à noite, na sua espera quase desesperada. Mas não podemos desistir de construir esta unidade do ser. Só o que amamos até ao extremo do amor não nos será tirado. 

Dizer, por exemplo, que a vida é marcada pela vulnerabilidade, significa reconhecer quanto ela está exposta á possibilidade de ser ferida. “Vulnus” é o correspondente termo latino e, como já anotava Virgílio, mas não alude unicamente ao que nos fere a pele, mas “vivit sub pectre vulnus”: a ferida que sangra oculta no coração. A vulnerabilidade é um fato total. 

Todavia, descobriremos que é por seu intermédio que nos chega também aquilo que nos redime. Só a vulnerabilidade nos eleva, como numa dança, à altitude do infinito, onde a gravidade é vencida pela graça. 

D. José Tolentino Mendonça | In "Avvenire" 20.08.2019