Desdobramentos

 

Precisamos de ficar mais vezes. De ficarmos conosco mesmos. Decifrarmos o que existe em nós e que, tantas e tantas vezes, não conseguimos dar uma explicação. Permitirmos descobrirmo-nos inteiramente sem medo das respostas que possam advir deste caminhar, muitas vezes turbulento, mas que no final se transforma em bonança cheia de esperança. Temos de ficar mais tempo em nós, não num mero ato de egoísmo, mas sim num alinhamento de um caminho percorrido, frequentemente, à pressa e sem tempo para deixarmos que a vida nos conte os seus sinais.  

Precisamos de ficar mais vezes. De ficarmos uns com os outros e deixarmos que eles se alonguem em nós nas conversas, nos sorrisos, nos choros, nos olhares e nos abraços. Estarmos uns com os outros para podermos estar plenamente connosco. Estarmos uns com os outros para que se dê bom nome à vida e, assim, dar bom nome àqueles que partilham, em comunhão com a nossa humanidade, este verdadeiro dom. Ficarmos nos outros sem tempo, nem demoras. Sem preconceitos, nem cobranças. Simplesmente ficarmos com a certeza de que não será só mais uma passagem. Necessitamos de ficar mais vezes, mas que fiquemos eternizados no coração de cada um de nós.  

Precisamos de ficar mais vezes. De nos deixarmos habitar por sítios que nos convidam a fazer morada. Não existe morada permanente, mas existem pessoas e locais que nos ajudam a alcançar essa morada eterna. Sabermo-nos colocar em contemplação e sentir que cada pedaço de terra nos relembra de onde vimos e para onde vamos. Sentirmos que cada brisa nos convida a esta liberdade autêntica e desafiadora. Sentirmos que cada montanha nos incita a procurar a grandeza dos pequenos. Sentirmos que podemos ser, efetivamente, morada para tantos e tantas que se cruzam nas nossas vidas.  

Precisamos de ficar mais vezes se quisermos chegar mais longe na vida e com a vida!

Emanuel Antônio Dias

In: imissio.net 20.09.2019