Desdobramentos

 

Há quase trinta anos (1987), com o refrão “Que país é esse?”, o Legião Urbana, sintomaticamente gestado em Brasília, cantava a perplexidade de uma geração que, nascendo sob o regime militar, experimentava os primeiros passos da nossa até hoje frágil democracia.

 

A modo de denúncia, a música explodia sua indignação já nos primeiros versos proféticos:

 

“Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado.

Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação.

Que país é esse?

 

 

Que país é esse no qual ‘mar de lama’ deixou de ser metáfora, transformou-se em realidade, e volta, todos os dias, a ser metáfora da realidade, desta vez política, que se vê no país?

           

Que país é esse no qual um deputado investigado no Supremo por peculato, formação de quadrilha, crimes de responsabilidade e homicídio “simples”, continua deputado e simplesmente faz parte do Conselho de Ética da Câmara Federal?

           

Que país é esse em que o presidente da mesma Câmara Legislativa usa as prerrogativas e privilégios do cargo para impedir que seja apeado do mesmo cargo, sob uma coleção de acusações e constatações que não deixam a ele outro adjetivo senão “bandido”?

           

Que país é esse em que, um degrau acima na escala do poder, a presidência do Senado é ocupada por um sujeito que tem mais folha corrida que biografia? Sua excelência, há exatos oito anos, em dezembro de 2007, teve que renunciar para não ser cassado, numa manobra usada por muitos parlamentares que, flagrados no ato, apostam na ignorância de uns e no oportunismo de muitos, para voltar ao poder de onde, na verdade, nunca saíram.

           

Subindo mais um pouco, que país é esse em que uma presidente eleita se submete a proclamar as mentiras preparadas pelo marqueteiro de plantão, para ganhar uma reeleição e garantir um projeto de poder?

           

Que país é esse em que um partido eleito para ser diferente e fazer diferença, acolhe em seu meio bandidos que só estão lá para fazer o que sempre fizeram, roubar dinheiro e esperanças?

           

Que país é esse em que um amigo paga as passagens da lua de mel de um dos expoentes dessa mesma política, além da hospedagem numa suíte no luxuoso Waldorf Astoria, em Nova York? Pensou no amigo do Lula? Não, estou falando do banqueiro André Esteves, atualmente dando expediente numa cela de Bangu 8, de pijama vermelho e cabeça raspada. Quem foi o noivo feliz que recebeu o mimo? Aécio Neves.

           

Que país é esse em que bandido de alto escalão, não conseguindo explicar cada milhão, na Suiça ou não, diz que vendeu carne moída ou, da vaca, o embrião?

           

Que país é esse?

           

Que continua acordando, todo dia, de madrugada, enfrentando ônibus, metrô, trem de subúrbio, patrão (quando há), desemprego, subemprego, inflação, custo de vida nas alturas, salário no bueiro?

           

Que país é esse em que o pequeno empresário, o empreendedor, o agricultor, tem que dar piruetas, pra pagar os salários dos funcionários e mais os impostos dos seus sócios, federal, estadual e municipal? E se não pagar, vai pru pau!

           

Que país é esse, moçada?

           

É o nosso, e, ao contrário do que pregou o Tiririca, pior ele fica se a gente ficar só na reclamação, no espanto, no desencanto.

           

Já vivi um tiquinho a mais. E vi demais, e coisa pior. Na ditadura, da qual alguns idiotas dizem ter saudades, havia tudo isso e mais a mordaça. O pau, era de arara, e cada um que se opunha, virava inimigo, preso, torturado, banido, desaparecido.

           

Confesso que estou vendo coisas que não imaginava ver. Só meus netos, talvez. Em Brasília, ‘barata voa’ só de ver um japonês. O Judiciário, com seus muitos e graves pecados, está fazendo valer a lei. Só precisa fazer valer o pau que dá em Chico, pra pegar também o Francisco.

           

Que país é esse? É o país que está aprendendo a diferenciar o que é favor do que é direito, o que é promessa do que é conquista. O País que está aprendendo que democracia precisa ser participativa. Não basta eleger e esquecer.

 

O país só aprende se a gente aprender. Porque esse país, somos nós.

 

Eduardo Machado

é educador e escritor

16/12/2015