Espiritualidade

  

“E olhando para aqueles que estavam sentados ao seu redor...” (Mc 3,34)

Depois do percurso quaresmal e pascal, retomamos o tempo litúrgico conhecido como Tempo Comum, seguindo o evangelista Marcos. Será uma longa caminhada contemplativa, através da qual buscaremos dar uma “nova feição” ao nosso seguimento de Jesus. O Evangelho deste domingo nos mostra como Jesus exerce um grande poder de atração sobre as pessoas; são muitos aqueles que o buscam: a multidão, os membros de sua família, os mestres da lei... São muitos e diferentes, como são diferentes as razões pelas quais se aproximam e se situam em torno a Jesus.

Os primeiros, as multidões, admiradas de seu ensinamento e de sua capacidade de “destravar vidas”, buscam-no com intenso desejo; aglomeram-se nas portas das casas onde Jesus se encontra, acudindo a Ele vindo de todos os lugares. Todos estão maravilhados e são capazes de reconhecer que Deus atua nele. Estes são os simples e frágeis, enfermos e incapazes, limitados e sem forças, que não duvidam que Jesus os atenderá, os escutará e oferecer-lhes-á seu consolo e seu tempo, até o ponto de ser capaz de deixar de comer para estar com eles.

Por outro lado, seus familiares querem “agarrá-lo” e levá-lo para casa; querem preservar a honra da família, pois estão preocupados pelos comentários que se fazem sobre Ele. A atitude desses familiares se restringe a preservar a boa reputação de sua tradição.  E, por último, aparecem os mestres da lei, que tinham descido de Jerusalém para acusá-lo de realizar seus exorcismos com a força do chefe dos demônios, e assim esvaziar sua fama.

Esta crítica, sendo muito grave, revela a petrificação daqueles que fazem da lei o centro da vida e não se abrem à novidade que Jesus apresenta. O ministério terapêutico de Jesus em favor da vida colocava em questão a estabilidade da estrutura social e religiosa na qual os mestres da lei empenhavam-se por mantê-la. Jesus confronta-os com inteligência e serenidade, para que compreendam que as acusações não têm fundamento e que reconheçam que quem o move a libertar as pessoas de suas “amarras” é o mesmo Espírito Santo, o Alento de Deus.

Resistir a reconhecer isso é “pecar contra o Espirito Santo”. O pecado contra o Espírito Santo tem raízes profundas no coração e não é simplesmente um ato, mas uma disposição interior permanente, é uma cegueira culpável por si mesma, um resistir-se à ação salvadora de Deus.

Quando o coração está fechado aos sinais de Deus, a pessoa se coloca numa atitude contrária à conversão, petrificando-se de tal modo que Deus não tem como lhe perdoar.

Trata-se da opção fundamental pelo mal: impedir o Espírito Santo de atuar, tanto em Jesus como nas pessoas. O perdão requer mudança de atitude: deixar o Espírito agir livremente. Não adianta pedir perdão sem uma correspondência. O blasfemo se exclui a si mesmo do perdão, se separa de Deus. 

Diante das diferentes reações das pessoas, o que nos impressiona é a atitude de Jesus, um homem essencialmente livre e comprometido com a causa da vida. Ele desafia a todos, também os seus familiares e mestres da lei, a não permanecerem “fora”, a tomarem parte de seu círculo íntimo, situando-se ao seu redor e deixando-se impactar pelo seu modo de ser e agir. Aqui está o sentido do verdadeiro discipulado, a constituição de sua nova família.

Jesus aproveita a visita de sua mãe e seus irmãos para falar do nascimento da nova família: aquela que vive em sintonia com a vontade do Pai, reforçando os laços entre as pessoas, constituindo a nova comunidade.  Por isso, é preciso sair do que é “meu”: minha família, minha religião, minha Igreja...

Jesus transgride os espaços: família, religião, povo, cultura... Ele alarga os espaços estreitos da família; não permanece dentro das quatro paredes. Há uma tendência em todo ser humano a se fixar numa zona de conforto, nos espaços estreitos, bons, nutrientes... mas que precisam ser ampliados. 

Nesta perspectiva, fica em segundo plano a consangüinidade. Doravante, ser mãe ou irmão de sangue não tem importância. O critério de pertença à família do Reino consiste em abrir-se à vontade do Pai.

Aí o agir do(a) seguidor(a) identifica-se com o agir do Mestre, a ponto de Jesus poder considerá-lo como irmão e irmã: a vontade do Pai é o imperativo na vida de ambos. Basta alguém viver um projeto de vida fundado na vontade do Pai, para que Jesus o reconheça como pertencente à sua família.

A identidade dessa nova família se configura por um idêntico modo de proceder, fundado no amor e na prática da justiça. Por esse caminho, os discípulos se reconhecem como irmãos e irmãs, unidos para além de qualquer divergência, cultura ou raça. Essa fraternidade não é mera formalidade. Existe entre eles e elas uma efetiva comunhão de vida.

“E olhando para os que estavam sentados ao seu redor…” Esta imagem circular expressa um tom diferente do seguimento. A imagem habitual que temos é aquela em que alguém vai adiante – Jesus – e nós

vamos atrás. Aqui, no entanto, aparece outra forma de proximidade com Jesus: é a circularidade, reunir-nos ao redor do próprio Jesus que nos convoca. Estar em círculo, portanto, também quer dizer que estamos vinculados uns aos outros numa postural corporal que tem Jesus no centro.

Estamos diante de uma imagem de relação com Jesus que tem muito de circularidade, de proximidade espacial, de intimidade na identificação com Ele.

Nossa vida cristã, como expressão do seguimento de Jesus, tem muito disto: estamos e vivemos em círculo. Não somos “anacoretas”, somos pessoas que vivem em circularidade e a coesão do grupo depende, em grande parte, de que o Centro vincule aos que estão ao redor. 

A imagem do círculo quebra toda estrutura piramidal, hierárquica, de poder, de prestígio... Todos estão ao redor de Jesus, vivendo ministérios e serviços diferentes.

Jesus inicia um novo movimento humanizador a partir das casas: nova família. Ele amplia o conceito de família: inclui a todos. Já não são os laços de sangue que contam. Família que se abre ao diferente, que valoriza a diferença e todos aprendem com as diferenças.

Situar-nos no círculo do seguimento Jesus implica acolher a diversidade das pessoas que compõem este mesmo círculo; isso permite nos enriquecer, adquirir mais humanismo. Diferença é expressão inerente ao ser humano, é modo de pensar, de dizer, de trabalhar, de existir e de conviver.

Somos diferentes, mas todos pertencemos com igual direito à “cidadania planetária”; todos temos direito a ser singulares, direito a ser diferentes, direito a partilhar e receber as diferentes riquezas.

A ideia de unidade da espécie humana não deve eliminar a ideia de sua diversidade.

Saber conviver com as diferenças é sinal de maturidade.

A diversidade racial, sexual, cultural, religiosa... supera a monotonia e oferece a criatividade de muitas formas. A harmonia fecunda entre as pessoas está na diversidade das diferenças, não na repetição mecânica. O conformismo repete cópias, mas não facilita a união autêntica. Sem as diferenças entre pessoas, a sociedade seria apenas um marasmo. Por isso, as diferenças pluralistas são valores, não anomalias. Além disso, são sedutoras, não amedrontadoras. A diferença pessoal mantém certo fascínio.

Muitas vezes, o zelo religioso, moral ou político degenera em formas de intransigência e intolerância.

Com isso, nos colocamos “fora” do círculo familiar de vida.

Texto bíblicoMc 3,20-35 

Na oração: Os tecelões e as comunidades cristãs têm muito em comum. Quanta necessidade temos, nestes tempos pandêmicos, de forjadores-tecedores de comunidade!

Hoje, mais do que nunca, precisamos de artesãos que sejam construtores de relações, de novos tecidos comunitários. Homens e mulheres que, inspirados em Jesus, teçam com arte e paciência, uma relacionalidade que fortaleça a comunidade. E assim, deixar transparecer a nova família dos(as) seguidores(as) do artesão de Nazaré.

- Onde você se situa: dentro do círculo jesuânico, como participante ativo(a), ou fora, como mero(a) espectador(a).

- Sua presença no interior da “nova família do Reino” faz diferença? Você contribui tecendo novas relações ou é propagador do “fio” do ódio, do preconceito e da intolerância...?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

04.06.2021