Em todos os jardins hei-de-florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

 

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de-abrir.

 

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

 

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen.

Obra poética. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p. 104.