O Mistério e o Mundo. Paixão por Deus em tempos de descrença,

Maria Clara Bingemer. Rocco, Rio de Janeiro 2013.

 

O título mostra o desafio da temática no paradoxo de mistério e mundo, Deus e descrença. A A. enfrenta-o em três níveis. Começa, em reflexão ampla, com a questão cultural da modernidade tardia em que acontecem a cultura secular e a crise da religião. Em seguida, ela debruça-se especificamente sobre a experiência religiosa ou mística para perscrutá-la nas histórias místicas biográficas, exemplificadas em duas mulheres – Dorothy Day, Etty Hillesum – num jesuíta belga, Egide van Broeckhoeven.

 

No primeiro passo, a A. traçou amplo quadro da situação presente. Ela chama-a de modernidade prematura ou tardia. Encara-a como interpelação em face da presença de mística cristã não vinculada à Igreja, mas vivenciada por homens e mulheres em sintonia com a fé cristã e o Evangelho. A pesquisa pretende redimensionar o conceito de mística que tem “decaído de sua nobre significação original”, na expressão de H. Vaz.

 

Ao aproximar-se da modernidade do século XX, Bingemer aponta, logo de início, ponto fulcral, ao afirmar, que “já não é mais a razão iluminista que aparece como critério fundante e nuclear da vida humana, mas um estímulo a um desenfreado consumo que faz o ser humano acreditar que nisso se encontra a felicidade” (p. 29).

 

Começa a tecer o quadro do contexto cultural, constatando a queda das utopias. Como a utopia que dominou até recentemente o mundo político se vestiu de traços socialistas, com a queda desse sistema, restou unicamente o modelo capitalista, agora na forma neoliberal. Tal fato afetou também o cristianismo histórico que participava de traços da utopia socialista. Há uma crise geral das utopias, fragmentadas e privatizadas. Outros acreditam ainda na utopia crítica em face do individualismo exasperado.

 

Marca o mundo atual o fim das certezas. A metáfora do líquido na linguagem de Bauman ou a do fim das grandes narrativas de Lyotard ou do simulacro de Baudrillard traduzem tal situação. “Tudo é passageiro, nada é certo”.

 

Vivemos o fim das hegemonias e o predomínio da pluralidade. Constata-se deslocamento do social para o cultural, fragmentando o conceito de cultura. Designam-na como cultura da passividade, do espetáculo, do consumo, de instrumento de poder, da pluralização de valores, não raro anárquica. Lipovetsky fala de “individualismo hipermoderno”. Paradoxo da soberania do indivíduo e da perda da posse do indivíduo sobre sua pessoa.

 

Está em curso uma nova geografia em termos econômicos, políticos e religiosos a estabelecer o atual contexto mundial. O impacto da globalização, das migrações de massa influencia-lhe a configuração. Surgem graves problemas éticos.

 

Prosseguindo a análise, a A. aponta série de fatores que merecem consideração: a abundância de meios e a escassez de fins, a crise da memória e das tradições, a crise da ética e a volatilidade da moral, a crise das instituições e a nova subjetividade e, finalmente, a nebulosidade da Transcendência e a desconstrução da fé.

 

Temos assim penetrante análise da sociedade atual. Cada item elencado carrega em si abundantes elementos para compreender o que se verá adiante nos capítulos seguintes.

 

Como problema fundamental, que afeta a temática central do livro, defrontamo-nos com a tão estudada e propagada secularização e a consequente crise da religião. Só depois de penetrar-lhe o fundo da questão, entenderemos o surto religioso, místico atual e nele as biografias místicas, a narrativa teológica e os três testemunhas escolhidos para estudo detalhado.

 

A religião sofre no mundo atual de intrigante paradoxo. De um lado, continua vigorosa a afetar os anseios, as subjetividades das pessoas. Doutro lado, já não consegue configurar a sociedade, como o fizeram em tempos de Cristandade. A A. analisa tal tensão interna de força e fraqueza, de impacto e recesso.

 

A religião constitui-se no mais onipresente e universal dos traços constitutivos da humanidade. Todas as culturas, exceto a moderna, nasceram em contexto religioso. Mesmo no momento presente, apesar da força corrosiva da secularização, a religião continua ocupando espaço na vida do cotidiano pessoal e na academia. A secularização substitui o mito pelo discurso racional, desencantando-o. Na base está um humanismo que desbanca o Sagrado, o Divino, Deus. A A. cita o pe. Vaz que faz recuar os albores da modernidade a Platão, para chamar a atual modernidade de moderna ou de pós-cristã. Nesse longo processo, o texto salienta algumas tendências da modernidade: do teocentrismo para o antropocentrismo, da ciência tutelada à emancipada e autônoma, da religião como explicação do mundo à concepção do mundo como autoexplicativa; da teologia como rainha das ciências para as atuais ciências, de concepção teocêntrica do mundo para a racional.

 

Tais transformações chocam-se com o Cristianismo histórico, impondo-lhe modificações profundas na concepção de criação, de história, do culto a Deus, do mistério da Encarnação. Aí se estabelece o diálogo entra ambos: Cristianismo e modernidade secularizante.

 

Nessa linha, a A. aprofunda temas como o antropocentrismo e a autonomia do humano; a hegemonia da razão, o poder da ciência e o desmando da técnica; a pluralidade e o fim das unicidades; a profanidade do mundo e o silêncio de Deus; o ateísmo teórico e prático; o vazio do sentido; a atrofia da liberdade; a sede de Absoluto; o primado da experiência e a crise de instituições e dogmas.

 

A simples enumeração dos itens trabalhados mostra a relevância da reflexão e desperta-nos a curiosidade de penetrá-la. Vale realmente seguir a A. em caminho tão rico, que a breve recensão não consegue fazer.

 

Os capítulos seguintes constituem o coração da pesquisa. Foram preparados pelas análises dos anteriores. Logo de início, a categoria de experiência ocupa lugar privilegiado para ser adjetivada com os termos religiosa, mística, desenhando assim novo momento, nova configuração e novos desafios.

 

O surgimento reativo da experiência deve-se, sem dúvida, às provocações secularizantes, objetivantes, pragmáticas da modernidade avançada. Interessa deter-se no conceito de experiência na perspectiva da filosofia e da teologia. Ela permite entender melhor a dimensão religiosa do ser humano. A A. delimita, de modo especial, quatro tipos de experiência: Religiosa, mística, de Deus, cristã de Deus.

 

O apuramento conceitual visa a que se aprofunde na experiência narrativa de Deus e assim ter acesso ao Mistério de Deus, num contexto movediço e perturbador de tal percepção. Para elaborar o conceito de experiência a A. frequentou o campo da etimologia, compulsou dicionários e enciclopédias, além de aludir aos sentidos comuns e vulgares do termo e de aludir ao frenesi de tudo experimentar por força de provocações externas e assediantes.

 

O livro avança ao aduzir a necessária distinção entre experiências, emoções e sensações que se confundem frequentemente no linguajar comum e na falta de clareza das nuances e proximidades dos termos. Há vinculação, mas não identidade entre emoção e experiência. A experiência vai mais fundo que a emoção, mesmo quando esta acompanha aquela. Nem a emoção nem a sensação identificam-se com a experiência. Limitar-lhes-iam o alcance.

 

Avançando na compreensão de experiência, o livro aborda o uso feito pela filosofia e teologia, incluindo a dimensão de transcendência do sujeito que experimenta. Retoma a definição de H. Vaz de que a experiência é a face do pensamento que se volta para a presença do objeto. Acentua a interação objeto-sujeito. Aponta quatro níveis de experiência: empírico, antropológico, metafísico e teológico.

 

Prossegue a reflexão, explicitando a experiência religiosa nas pegadas de Rudolf Otto, que a define a partir da dupla clássica categoria da sedução [fascinas] e do temor [tremendum]. Ela se situa na ordem do “totalmente outro” [der ganz Andere]. Outros autores trabalham características diferentes como inefabilidade, noética, passividade, transitoriedade e integração. Oferecem-se critérios para discernir as autênticas experiências religiosas como não depender de fenômenos extraordinários, a consciência de certeza de sua realidade, repercussões afetivas como paz, gozo, fruição, alegria e, finalmente, a presença do amor.

 

A oração se apresenta como lugar privilegiado de tal experiência, mas não único. Ela cai sob o fato da interpretação pessoal e cultural. Cabe aproveitar as contribuições que a psicologia oferece para interpretá-la e salvá-la de riscos da anulação de si mesmo. A A. aponta também fatores modernos de rejeição da religião por razões tanto de limites da religião como também de atitudes pessoais equivocadas.

 

Na intelecção da experiência mística, há muita diversidade, seja por causa da natureza da abordagem psicológica, filosófica ou teológica, seja por causa dos percalços da linguagem que a exprime. Nela estão implicadas realidades teológicas fundamentais como o mistério e a graça, a encarnação e a vulnerabilidade e o fato de tantas testemunhas a narrarem.

 

Nos dois últimos capítulos, a A. se prende ao aspecto narrativo das experiências místicas, quer de maneira ampla quer no caso de três místicos concretos. As narrações dos místicos permitem-nos compreender o fenômeno e a experiência mística como um todo. Interpelam a teologia e levam-na a pensar. O testemunho refere-se ao que alguém viu, ouviu, experimentou, memorizou e juridicamente vale como prova de validade do acontecido. Experiência subjetiva exposta ao público. Na pós-modernidade, a teologia feita a partir de testemunhos recebe mais audiência. Daí a importância dos testemunhos de pessoas que se consomem no e pelo amor de Deus, os místicos.

 

A mística, continua a A., mantém aliança íntima com a ética, a saber, com a ação transformadora no mundo, marcado pelo conflito e sofrimento, com o compromisso político, com o diálogo respeito às outras experiências religiosas. Portanto, não se trata de realidade em que a pessoa se ensimesma e se prende à sua própria interioridade, mas se abre à práxis transformadora da realidade. Tal afirmação contundente encontra apoio em autores de renome como G. Gutiérrez, A. Schweitzer, M. Blondel, de Certeau, K. Rahner, J.B. Metz. Deste último, cita a bela frase de “ser místico de olhos abertos ao mundo para perceber seus desafios, sentir seus sofrimentos e conflitos”.

 

Ao prosseguir a leitura narrativa dos místicos, diz Bingemer, eles se definem como pessoas de olhos e ouvidos abertos para o divino, apaixonados por Deus. A mística mantém em face das instituições, inclusive eclesiásticas, atitude de tensão crítica, sobretudo no momento atual pós-moderno e pode ajudá-las no processo de encontrar na fé e na experiência de Deus o seu sentido último. Interessante perceber como os místicos vivem a experiência paradoxal. De um lado, escrevem, anotam, relatam em cartas as próprias experiências místicas e, de outro, não raro, sentem certa resistência em pôr por escrito essas experiências íntimas. Cabe notar que na tradição cristã se atribui importância ao escrito, ao livro, aos relatos. É uma religião do livro. Hoje se cultiva a teologia narrativa, processa-se a redescoberta da biografia como recurso teológico. Ao longo de toda a história da teologia, deparamos com maravilhosas biografias teológicas. Haja visto as famosas confissões de Santo Agostinho.

 

Para fechar esse livro profundo, bem detalhado, a A. relata-nos três histórias de vida com títulos significativos. Doroty Day, a revolução do coração; Etty Hillesum, a Shoá transfigurada; Egide Broeckhoeven, a intimidade com Deus e com os pobres. Lindas leituras espirituais para animar o cristão na vivência da vida de seguimento do Senhor.

 

Mais que um livro para leitura cursiva, trata-se de fonte de estudo para grupos que desejam penetrar a intrigante volta da mística em momento de tanto materialismo, consumismo e idolatria do indivíduo. Tanto as análises do contexto cultural dos primeiros capítulos, quanto o estudo da experiência, da linguagem e do exemplo de místicos oferecem luz para iluminar a complexa e quase contraditória experiência religiosa da pós-modernidade. Vale conferir.

 

João Batista Libanio