Livro: Quero que sejas

Editora Vozes, 2018

Autor: Tomás Halík

 

«Dirijo-me às pessoas com quem me encontro todos os dias e que são simultaneamente crentes e não-crentes. Por outras palavras, não são de modo algum "religiosamente surdos", mas, no seu caminho de fé, conhecem momentos de silêncio da parte de Deus, e a sua própria aridez interior; às vezes extraviam-se do caminho, e depois voltam a encontrá-lo; têm interrogações por responder e também passam por momentos de revolta. Dirijo-me a pessoas que são obrigadas a gritar uma e outra vez, como o homem do Evangelho: "Eu creio. Ajuda a minha pouca fé!"»

É nestes termos que Tomáš Halík situa o livro ""Quero que tu sejas! - Podemos acreditar no Deus do amor?", que a Editora Vozes publicou.

«Eu conheço pessoas que não se atrevem a acreditar que Deus existe; apesar disso, desejariam sinceramente que Ele existisse. Conheço outras pessoas que estão firmemente convencidas da existência de Deus; contudo, têm uma tal ideia dele que, na verdade, prefeririam que Ele não existisse. Quais destes dois tipos de pessoas estão mais próximos de Deus?». Esta é uma das interrogações suscitadas no volume, de que apresentamos alguns excertos.

 

Trechos selecionados do Livro

Muitas vezes me tenho interrogado, mas sem encontrar resposta, de onde provém a doçura e a bondade. Ainda hoje não o sei, e agora tenho de partir, escreveu Gottfried Benn. A autenticidade e a tristeza deste poema é o que nos cativa. Qualquer coisa mais profunda e mais universal brilha através da sincera humildade do poeta: um testemunho acerca da época em que vivemos. O influxo constante até ao mar do conhecimento humano oculta e revela, em simultâneo, esse não-saber, o abismo do desamparo quando nos confrontamos com a questão do de onde definitivo que desafia todas as tentativas de resposta. Na primeira metade do século XX, tendo por pano de fundo todos os horrores da guerra e dos genocídios, a pergunta milenar «de onde vem o mal?» foi levantada de novo com uma nova urgência. É muito possível que hoje em dia nos tenhamos acostumado tanto ao mal, à violência e ao cinismo, que façamos a nós próprios, com surpresa, outra pergunta: de onde provém a ternura e a bondade? Que fazem elas aqui, no nosso mundo cruel? Emergirão a ternura e a bondade – tal como o mal e a violência – algures no meio das condições do nosso mundo (será que o mal e o bem dependem, principalmente, da forma como organizamos a sociedade?) ou de alguns recantos ainda por explorar dos processos inconscientes ou complexos dos nossos cérebros?

Há inúmeros estudos científicos acerca dos processos psiconeurobiológicos que acompanham todas as nossas emoções, e acerca dos centros cerebrais que são ativados quando nós recebemos ou manifestamos ternura, e quando fazemos bem a alguém ou as pessoas são boas para nós. Não duvido de que tudo aquilo que nós sentimos e pensamos passa primeiro por inúmeros portais do nosso «mundo natural», sendo afetado e influenciado pelo nosso organismo e pelo nosso ambiente, bem como pela cultura em que nascemos, incluindo a língua em que pensamos. Afinal, o nosso corpo e a nossa mente, o nosso cérebro e tudo o que neles sucede, fazem parte do «mundo» ou da «natureza», esse intrincado corredor ao longo do qual o rio da vida flui. Mas onde se encontra a fonte verdadeiramente última? Será que podemos simplesmente rejeitar a antiga intuição de que a bondade e a ternura, a luz e o calor da vida a que hoje em dia quase hesitamos em dar o elaborado nome de «amor» entram no nosso mundo – e, a partir dele, na nossa mente e no nosso comportamento – não apenas como um mero produto de nós mesmos e do nosso mundo, mas como um dom, como uma qualidade radicalmente nova, que nos enche, uma e outra vez, do assombro e da gratidão adequados? Não será o próprio mundo um dom? Não seremos nós um dom para nós próprios? E não é esse dom renovado uma e outra vez e revivido a partir desse «de onde» do qual brota o amor? Contudo, se insistirmos em procurar essa fonte para lá do nosso mundo – fora dele –, porventura não perderemos a oportunidade de o encontrar onde o ignoramos, visto estar tão próximo, ou seja, dentro de nós? Onde está a fonte da ternura e da bondade? Será que eu o sei? Devo confessar que não. Todas as respostas que me ocorrem parecem-me uma pesada cortina que cobre a janela aberta dessa pergunta. Há algumas interrogações demasiado boas para serem estragadas com respostas. Há perguntas que devem continuar a ser uma janela aberta. Tal abertura não nos deve conduzir à resignação, mas à contemplação.

O leitor, consciente de que o autor é um teólogo, talvez já esteja impaciente, à espera que eu diga, por fim, que a resposta à pergunta acerca da realidade última é Deus, claro. Contudo, dentro de mim foi amadurecendo gradualmente a convicção de que Deus se aproxima de nós mais como uma pergunta do que como uma resposta. Talvez Aquele a quem nos referimos com a palavra Deus esteja mais presente, para nós, quando hesitamos em proferir essa palavra de forma demasiado precipitada. Talvez Ele se sinta melhor connosco no espaço aberto da interrogação do que na sufocante estreiteza das nossas respostas, das nossas afirmações definitivas, das nossas definições e das nossas noções. Tratemos o seu Santo Nome com a maior contenção e prudência! Talvez os momentos da história em que reina um silêncio educado ou indiferente acerca de Deus, no mundo académico, constituam uma preciosa oportunidade de o teólogo corrigir a piedosa tagarelice da época anterior e de regressar àquilo que o santo mestre da fé, Tomás de Aquino, sublinhava como o início das suas investigações filosóficas e teológicas: Deus não é «evidente». Por nós mesmos, não sabemos o que é ou quem é Deus. Não temamos as vertigens ao olhar para as profundezas do Desconhecido. Não temamos a humilde confissão «Eu não sei»: afinal, esse não é o fim, mas sempre um novo recomeço na nossa caminhada interminável. Além disso, para a fé (e também para a esperança e o amor), para essas três formas de «paciência com Deus», com o seu carácter oculto, a frase «Não sabemos » não constitui uma barreira intransponível. (...)

A expressão «amor a Deus» parece tão absurda a muitos daqueles que nos rodeiam como as palavras «amor ao próprio inimigo». Além disso, ao fim de trinta e cinco anos de ministério pastoral, atrevo-me a afirmar que a frase: «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6,5) também é desconcertante para um número razoável de crentes. O que é que Ele quer especificamente de nós? Os meus livros não são destinados àqueles que têm a certeza absoluta de que compreendem perfeitamente o que significa o mandamento do amor a Deus.

Dirijo-me às pessoas com quem me encontro todos os dias e que são simultaneamente crentes e não-crentes. Por outras palavras, não são de modo algum «religiosamente surdos», mas, no seu caminho de fé, conhecem momentos de silêncio da parte de Deus, e a sua própria aridez interior; às vezes extraviam-se do caminho, e depois voltam a encontrá-lo; têm interrogações por responder e também passam por momentos de revolta. Dirijo-me a pessoas que são obrigadas a gritar uma e outra vez, como o homem do Evangelho: «Eu creio. Ajuda a minha pouca fé!»

Em vários dos meus livros falo do diálogo entre crença e incredulidade, sugerindo que isso não é uma discussão entre duas «partes em guerra», mas algo que tem lugar dentro de muita, muita gente. Ao mesmo tempo, tento demonstrar que a crença (de determinado tipo) e a incredulidade (de determinado tipo) são duas interpretações diferentes, duas vistas da mesma montanha, a partir de ângulos diferentes, veladas por uma luz de mistério e silêncio. Tenho interpretado uma e outra vez a incredulidade da nossa época como uma «noite escura coletiva da alma», como o momento do «eclipse de Deus» de Sexta-Feira Santa, que os não-crentes podem interpretar como a «morte de Deus», ao passo que os crentes a consideram a passagem necessária para a manhã da Páscoa. Neste livro, dou mais um passo ao longo desse caminho. Mostro que o «desaparecimento de Deus» não precisa de ser uma mera «noite escura».

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Fui aprendendo gradualmente a ler a Bíblia de tal modo que, agora, procuro perguntas nela, em vez de respostas. Por vezes até fico impressionado ao ver que ao longo de toda a Bíblia Hebraica Deus faz mais perguntas do que dá respostas. Para muitas das nossas interrogações, não encontramos respostas na Bíblia, pelo menos respostas diretas e claras. Muitas vezes, as pessoas pegam na Bíblia para procurar uma resposta para a pergunta sobre se Deus existe. Então ficam surpreendidas ao descobrir que esse livro não só não consegue resolver essa questão, como nem sequer a levanta. Não perde tempo a tentar «provar a existência de Deus» de forma especulativa: em vez disso, contém histórias acerca de pessoas que nos deixam entrar na sua experiência com Deus. Nas reflexões que se seguem preparei outra surpresa com que deparei na minha leitura dos Evangelhos: Deus espera claramente outra coisa de nós, que é bastante diferente de se acreditamos ou não na sua existência. Pensar que a «questão de Deus» se resolve simplesmente respondendo na afirmativa, quando confrontados com o dilema acerca da existência ou não de Deus, é continuar muito longe da fé cristã.

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Não me parece que a nossa salvação dependa das nossas opiniões, noções e convicções religiosas. São Tomás de Aquino afirmou, há muito tempo, que nós não sabemos o que significa «ser» no caso de Deus, por que Deus existe de uma forma diferente de tudo o que existe.

A fé sem amor é oca; na verdade, muitas vezes não passa de uma projeção dos nossos desejos e medos, e, nesse sentido, muitos críticos ateus da religião têm razão. A fé sem amor está morta, tal como o sal que perde o seu sabor.

«Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças!», diz Jesus, quando lhe perguntam qual é o maior e o mais importante mandamento da Lei. Mas como é que isso se faz? Meu Deus, não me poderias dar alguma instrução específica? Deus não pode ser objeto de amor porque Deus não é um objeto; a perceção objetiva de Deus conduz à idolatria. Eu não posso amar a Deus da mesma maneira que amo outro ser humano, a minha cidade, a minha paróquia ou o meu trabalho. Deus não está diante de mim, tal como a luz também não está diante de mim: eu não consigo ver a luz, só posso ver as coisas iluminadas pela luz. De igual modo, também não posso ver nem visualizar Deus. A própria fé não o «mostra» («A Deus nunca ninguém o viu», declara a Bíblia inequivocamente). Com a Fé, a única coisa que eu posso fazer é «ver» o mundo «em Deus».

A Escritura está sempre disponível para nos ajudar. Diz-nos ela que «Deus é amor». Obviamente, é difícil fazer do próprio amor o objeto do nosso amor. Nós amamos a Deus amando «em Deus». Nós amamos as pessoas e o mundo «em Deus», tal como vemos as pessoas e o mundo iluminados pela luz. Deus é o facto de que nós amamos e de como amamos, mais do que o «objeto» do nosso amor. Ele é a «biosfera» de todo o verdadeiro amor.

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Se Deus existe, está situado a um nível muito mais profundo do que as gerações passadas pensavam; se Ele é a «causa primeira», então devemos afirmar que não é tão detetável nem tão «demonstrável» como parecia àqueles que ainda não conheciam suficientemente a selva complexa de «causas secundárias» que impelem a natureza, os seres humanos e a história. Devemos procurar Deus mais profunda e exaustivamente, agora que sabemos que não o encontraremos na caixa de diálogo, no gabinete, de fácil acesso do diretor do teatro conhecido por «mundo». O conhecimento adquirido ao longo do século passado abalou naturalmente os sistemas fixos de noções religiosas (e a maioria de todos os outros sistemas fixos existentes). Contudo, estou profundamente convencido que esta situação constitui uma bênção e um momento oportuno (kairós), para a fé, porque a fé, mais uma vez, se transforma mais num ato livre, num ato que não se pode forçar – ou seja, numa corajosa escolha pessoal.

No Concílio Vaticano II, a Igreja católica reconheceu que a imagem cristã tradicional do ateu como alguém com um defeito, um desvario intelectual ou moral já não era sustentável. O mundo é ambivalente, está cheio de paradoxos e, se os ateus optarem por uma das várias explicações possíveis, nomeadamente, que a vida e o mundo são uma história sem Deus, então pode haver muitas razões para isso, e a sua escolha poderá ser uma escolha honesta e, pelo menos, subjetivamente respeitável. Os cristãos que não vivem num gueto mental ou cultural conhecem, sem dúvida, pessoas honradas e intelectualmente honestas que não são explicitamente religiosas. Não é necessário que os cristãos demonizem todos os ateus como tantas vezes fizeram na época em que os temiam.

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O pensador judeu Pinchas Lapide também considera que há muito menos ateus reais do que as pessoas pensam porque o rótulo de ateu aplica-se essencialmente a três grupos de pessoas, a quem essa designação – quer aplicada a eles por outros quer por si próprios – na realidade não lhes diz respeito. O primeiro grupo são os anticlericais […].

Mestre Eckhart foi buscar às cartas de Paulo a distinção entre o «homem interior» e o «homem exterior », e desenvolveu esse conceito de uma forma notável: o homem exterior tem um «Deus exterior», ao passo que o homem interior conhece um Deus interior, «um Deus acima de Deus» – uma profundeza de divindade que transcende infinitamente as piedosas noções, teorias e fantasias da religiosidade superficial.

Dêmos graças a Deus pelo ateísmo, se este destrói deuses como esses! O deus exterior tem de morrer, para que caia o véu de esquecimento em relação a Deus, pondo termo à confusão entre religiosidade e fé superficial – uma relação com o Deus vivo. Mas isso também deve significar a morte da pessoa superficial «exterior».

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«O amor é a única força que pode unificar as coisas sem as destruir», escreveu Teilhard de Chardin. Esta afirmação é típica da fé de um homem que era cientista, teólogo e poeta ao mesmo tempo; ela caracteriza esse grande visionário da unificação planetária da humanidade no Cristo cósmico, no «ponto ómega», meta do processo evolutivo universal. Essa frase terá sido provavelmente entendida como uma reação à tentativa dos regimes totalitários do século XX de unir a Europa e o mundo mediante a violência revolucionária. Teilhard acreditava que o amor pela Terra e pela matéria, associado à confiança na força criativa do homem e da natureza, traria ao mundo um impulso suficiente para completar o processo evolutivo da convergência cósmica. Será o Cristianismo de hoje capaz dessa força criativa de renovação? Estará disposto a aproveitar a iniciativa dessa forma?

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Já dissemos que só podemos amar o mundo «em Deus». Isso significa com o «desapego» ou distanciamento crítico que a fé nos confere, mas também com a responsabilidade e o afeto que também são o dom de uma fé e de um amor vivos. Se estamos ligados a Deus mediante a fé e o amor, Deus faz-nos participar parcialmente, tanto na sua transcendência como na sua imanência, na nossa relação com o mundo, permitindo-nos «estar no mundo, mas não ser do mundo», para nos mostrarmos solidários, mas não nos conformarmos com ele. Estar no mundo, mas não ser do mundo, é outro dos koans que Jesus deu aos seus discípulos na Última Ceia, segundo João. É essa a fonte da dinâmica mais intrínseca da existência cristã no mundo, na sociedade e na história.

O cristianismo, o humanismo secular e o neopaganismo (várias tentativas de fazer reviver a religiosidade pré-cristã e não cristã) são, hoje em dia, três propostas separadas, tal como na Antiguidade também havia a tríade: cristianismo, judaísmo e paganismo antigo. A tríade contemporânea está mais obviamente presente na cultura europeia do que a tantas vezes citada tríade dos «monoteísmos abraâmicos»: cristianismo, judaísmo e islamismo, embora o Islão esteja a começar a desempenhar um papel crescente no Ocidente. São três propostas, três caminhos diferentes, mas, hoje em dia, esses mundos sobrepõem-se, de forma ainda mais intensa do que na Antiguidade tardia; há uma interpenetração e várias tentativas de síntese, bem como novos e velhos conflitos e novas e velhas alianças.

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Nietzsche ensinou-me a coragem de não me esquivar a qualquer objeção ou dúvida, a «atrever-me a fazer-me ao largo no mar das dúvidas, sem levar uma bússola»; a não temer a ambivalência da realidade ou a perceber tudo a partir de vários ângulos em simultâneo, a não hesitar em ter «duas opiniões acerca de tudo»; a não temer avançar sozinho ou nadar contra a maré; a não desdenhar do nacionalismo, da mentalidade de rebanho e da idolatria, pura e simplesmente porque as coisas idolatradas são consideradas por muitos como incontestáveis e eternas; a ignorar os sinais de «proibida a entrada» nos caminhos do pensamento; a não perguntar o caminho, mas a pôr em questão os próprios caminhos. Ele ensinou-me que, para além do mundo do dia e da luz da razão, também existe a verdade da noite, quando o mundo é mais profundo do que jamais pareceu ao dia. Se eu aprendesse alguma coisa com isso, talvez o Senhor o atribua ao «mais ateu dos ateus»! Foi ele que me ensinou que os grandes pensamentos e as grandes ideias merecem ter grandes inimigos (o Cristianismo já teve mais do que suficientes pequenos inimigos), e muitas vezes devemos mais aos inimigos do que ao aplauso dos amigos.

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É no amor que nós somos mais verdadeiramente nós próprios. No amor somos humanos, mais realmente humanos. Mas, precisamente, só quando somos mais profundamente humanos, plenamente humanos, humanos ao máximo, quando somos demasiado humanos, é que nos é mostrado e dado aquilo que é mais do que humano.

 

Publicado em 2018 pela Editora  Vozes