As épocas se parecem, basta um pouco mais de leitura, sobretudo de uma leitura historicamente mais diversificada, para que percebamos isso. Documentos mais próximos da intimidade humana, como, por exemplo, poemas, permitem observar a persistência, ao longo do tempo, de temas recorrentes: o amor, a amizade, a dor, a morte, a felicidade, a alegria, entre outros. Há um fundo humano que nos acompanha e é nele que, sob as águas mais superficiais e movimentadas, encontramos as correntes mais profundas e mais lentas. Considerar os nossos tempos como axiais e fazer proliferar observações como “uma crise de proporções inéditas” ou “os desafios a serem enfrentados parecem superar nossos recursos”, é, de fato, o resultado de um compreensível, mas errôneo, exercício de provincianismo temporal.

 

Feita essa ressalva mais geral, nada impede que recolhamos, nas águas mais movimentadas, a singularidade de nossa hora. São muitas, escolho uma delas. Ideias formam o repertório com o qual procuramos responder ao silêncio do mundo e dar sentido à nossa experiência. Que elas sejam insuficientes, que o mundo sempre as exceda, é conseqüência de nossa finitude. Mas se essa insuficiência se transforma numa impossibilidade plena, a mundo se torna opaco e a linguagem vazia.

 

Parte do nosso cotidiano é mais do que ilustrativo desse cenário. Dou um exemplo, a violência. Reclamamos ostensivamente, e com razão, da violência e lamentamos o crescimento dos seus indicadores. É de tal modo universal o protesto, que somos levados a pensar de que a violência cai sobre nós como um destino, em relação ao qual não cabe, a cada um de nós, qualquer responsabilidade.

 

Apesar disso, cometemos sem cessar pequenas violências: no trânsito, na falta de delicadeza no trato, na indiferença, na insensibilidade mais generalizada, na impaciência, no descuido de nós mesmos. Violentamos os outros e, também, a nós. Fazemos tudo isso e, curiosamente, permanecermos vociferando contra a violência, criando, desse modo, um hiato absurdo entre palavra e gesto. Assim, o gesto indesejado, e violento, persiste e a palavra pronunciada permanece vazia.

 

Quem sabe, investigar o que nos torna insensíveis a esse hiato e buscar, aqui e ali,  aproximar gesto e palavra, ideias e realidade, não sejam duas destas pequenas e imprescindíveis  tarefas ao alcance de todos nós?

 

Para pensar na quinzena:

“Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...” (Guimarães Rosa)

 

Ricardo Fenati

Equipe do Centro Loyola

27.03.2012