Uma oração de Kierkegaard, quase um poema, fala da dor e distingue as dores derivadas de preocupações inoportunas ou imaginárias das dores mais reais que chegam até nós. Das primeiras ele pede a Deus que nos livre, resultados que são de nossa agitação. Das segundas, as inseparáveis da existência, ele pede a Deus que dê a força e a humildade para suportá-las. Talvez Kierkegaard esteja falando menos de dores físicas e sim de outras dores, dessas dores que nós consideramos propriamente humanas. Há sim dores provocadas por nós mesmos, derivadas ora do nosso orgulho, ora de nossa incapacidade de conviver com nossas limitações, ora do receio das inevitáveis frustações que nos acompanham, enfim, dores que parecem desconhecer ou zombar da importância e da alta conta em que temos de nós. Todas elas, pode se dizer, são provocadas por nós próprios, pelo nosso autodesconhecimento, pela nossa impaciência.

Outras são as dores provenientes da existência, tantas vezes oriundas dessa nossa dupla origem, a finitude que nos habita e a infinitude que procuramos  habitar. Estão associadas à desproporção tantas vezes sentida entre a extensão de nossa sede e o quão pouco ela pode ser saciada. Estamos sempre a meio caminho diante da beleza, diante da verdade, diante da bondade. Se percebemos, pela ausência, o que nos falta, o vigor da presença, ainda que restrita, que nos é possível experimentar, lembra de que pátria estamos, em parte, extraviados.

Tomara que sejamos capazes, como diz a oração, de evitar essa tirania que exercemos sobre nós mesmos, o excessivo amor próprio, e de  acolhermos a falta  que é inseparável da existência, cujo enfrentamento é sempre fonte de humanização e de sentido.

Ricardo Fenati

08.05.2021

Imagem: