Abra uma dessas revistas de "famosos", como se diz, ou veja uma coluna social (isto ainda existe) de um jornal qualquer. Certamente, as pessoas estarão sorrindo, não importa a situação. A proximidade de um fotógrafo gera sorrisos aos montes. Talvez seja assim mesmo, as pessoas andam felizes e, por via de consequência, sorridentes. Será? Pode ser que sim, mas pode ser que não. Penso, mas não afirmo sem mais, que estamos diante de um fenômeno da nossa época: ninguém quer parecer triste, sisudo ou preocupado. Essas imagens não vendem, desagradam, afastam. Não importa se, de fato, estamos tristes, se preferimos um pouco de solidão ou se precisamos tomar decisões que nos levam a franzir a testa (cuidado com as rugas!). Assim como uma mercadoria deve vir bem embalada, é melhor que saibamos cuidar de nossa estampa, mesmo porque as relações quase sempre param por aí mesmo, na superfície. O sorriso é um aviso, indica que seu portador é daqueles que não estão dispostos a qualquer discussão, que concordam com tudo e que, se a coisa aperta, dizem que não têm nada contra, que cada um deve levar a vida como achar melhor. Contrariamente ao que se recomendava à mulher de César, o imperador, não se precisa ser alegre, basta parecer.

 

Protegendo-se da dor, disfarçando o desejo, passando ao largo da própria alma, acabam como vítimas. Forçadas ao sorriso automático, perdem a chance da alegria efetiva, a que brota da coragem de ser o que somos.  Alma ou desejo, é disto que vivemos, é disto que devemos cuidar ou então nos tornaremos, de fato, o que estamos tentando ser: sonâmbulos sorridentes e monstruosamente tristes.

 

Para pensar na quinzena:

“Não por orgulho meu, mas antes me faltar o raso da paciência, acho que sempre desgostei de criaturas que com pouco e fácil se contentam.” (Guimarães Rosa)

 

Ricardo Fenati

15.05.2012