Um Poema

A IMPLACÁVEL COLHEITA
 
 
Quando criança, roubaram-lhe
(em nome da cara boa conduta)
o direito à Alegria. Ele resistiu.
 
Quando jovem, roubaram-lhe
(em nome da ordem e progresso)
o direito à Rebeldia. Ele revidou.
 
Quando adulto, roubaram-lhe
(em nome do mais querido Ter)
o direito de Ser. Ele assentiu.
 
À meia idade, roubaram-lhe
(em nome dos bons costumes)
o sagrado Querer. Ele aceitou.
 
Quando completou seus 80 anos,
(aniversariante obediente ao rito)
viu o quê permitiu! Ele perdeu.
 
Ele, atônito fantasma de si à deriva:
que nada a ninguém pediu e culpa.
Ele, dono do Tempo agora inútil.
Ele, só – diante do horror do não-Ser!
 
*Jairo De Britto, em “Dunas de Marfim”
Imagem: O semeador (após Millet) , Arles, junho de 1888 Otterlo, Museu Kroller-Muller (Holanda).