





A iniciada
A menina de coração sensível e desmedida fome
fica comendo a vida no quintal.
A flor do mamão-macho: ô cheiro!
O ovo no galinheiro: ô coisa!
Seu país verdadeiro são caminhos de chão,
sol e abelhas,
pai e mãe sem morrer,
um domingo sem fim.
A vida plausível
e os olhos do homem nela,
um susto novo.
E o coração batendo como um surdo.
Adélia Prado
In: O Jardim das Oliveiras
Record, Rio de Janeiro, 2025

Versos de Natal
Espelho, amigo verdadeiro, Tu refletes as minhas rugas, Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
Manoel Bandeira
In: BANDEIRA, Manuel. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguillar, 1986.

Tudo tão vago – Mário Quintana
Nossa senhora na beira do rio
Lavando os paninhos do bento filhinho...
São João estendia, São José enxugava
e a criança chorava do frio que fazia
Dorme criança, dorme meu amor
que a faca que corta dá talho sem dor.
(de uma cantiga de ninar)
Tudo tão vago...Sei que havia um rio...
Um choro aflito...Alguém cantou, no entanto...
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu...
O menino dormira... Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu...E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto...
E era a voz que eu ouvi em pequenino...
E era Maria junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino...
Eras tu...que ao me ver neste abandono
Daí do céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!...
13.12.25


PERIGO
é nas horas de descuido
enquanto
regamos as plantas
lavamos os pratos
fazemos café
que algo nos fere
sem aviso, corta
nosso gesto ao meio
aflora à superfície uma memória
submersa
um corpo
em busca de ar
Ana Costa dos Santos
in Voo Breve sob o Sol
Círculo de Poemas, São Paulo, 2025
foto: Fernando Campanella (2013)


HERÓI
Herói não é o que vai irrigar as lavouras
da morte nos campos de batalha.
Não é o que volta das trincheiras minadas
de explosivos com medalhas no peito
mutilações no corpo e na alma.
Herói não semeia tulipas de sangue
ramalhetes de napalm e rosas de átomo.
— Não é o aventureiro que fez xixi na lua.
— Herói é o que vai todas as tardes à padaria
mais próxima buscar o pão ainda morno
para testemunhar o mistério da vida.
Francisco Carvalho
in Centauros Urbanos
Imprece, Fortaleza, 2003



[PORQUE O AMOR TORNA FRÁGIL]
porque o amor torna frágil tudo o que toca
e porque eu mesma não evitei que
tocasse meu corpo
meus ossos
minha respiração
meu sono
por isso temo por mim —
pelo risco de desabar a um
tremor de pálpebras
Mar Becker
in: Noite Devorada
Círculo de Poemas, São Paulo, 2025

DESSALGA
não sei que água
vai dessalgar
a carne seca
da minha boca
não sei em que mar
vai desaguar
a minha dor cansada
não sei que palavra
vai nomear
essa água salgada:
que é suor
que é lágrima
que é enxurrada
Giselle Vianna
in Intempestiva. Patuá, São Paulo, 2023

O DEUS QUE VEM
Frêmito no alto céu,
morde Scorpio a Virgo escura.
Este o sinal de que se deve cantar os tempos
de juvenil tropel. Estua o vinho na uva por nascer
e a terra nas grotas úmidas de lágrimas fecha a boca.
A Lua espreita, enquanto dorme o Sol do liso flanco
de ouro. Acordêmo-lo e em procissão subamos
aos lugares altos. A noite é propícia para o germinar,
para o borbulhar de risos líquidos.
Lamenta a Virgem de verde sua casta solidão.
Ei-lo que desponta ao longe, nas dobras do mar:
no topo de um penhasco, grava-o a águia em sua
[pupila.
É o deus que vem, há um frêmito no alto céu
enquanto se une ao Sol a Lua desnudada,
submersos nos remoinhos das águas do dia por nascer.
Frutos brilharão nos campos e os celeiros não bastarão
para conter tantas espigas. O Novo Tempo vem,
[circundando
bosques, alvas colunas e imagens se dissolvem para
[que tudo
reverdeça: beberemos o vinho saboroso, o trigo terá
[sabor
de trigo e o deus vestirá de amor os corpos nus.
Dora Ferreira da Silva
[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999, pp. 244-246]

lá no umbral
umbilical, no bico
da primeira mamadeira
lá na murcha folhagem
do ipê transplantado
onde o pé largou a terra
para dar o passo
lá nesse sertão de alma
onde a comida é rala
e a farinha engrossa
o caldo
lá onde o desígnio é rio
intermitente
onde oscila o sinal
de internet e, de repente,
é lápis sem ponta o que era
traço, o suco faz-se sulco: é inverno
— na ponta seca do compasso,
lá onde o mundo cresce, lá
onde algo se perde,
lá — e somente lá —
é que eu existo
se a memória fenece
na cama
da calma, no imemorial
átomo
no antílope azul
e seu último sono terrestre
Giselle Vianna
In: Intempestiva - Patuá, São Paulo, 2023
imagem: pexels.com


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