
“... os discípulos estavam com as portas bem fechadas, por medo dos judeus” (Jo 20,19)
O relato pascal deste domingo descreve, com traços fortes, a situação da comunidade cristã quando em seu centro falta a presença do Cristo ressuscitado. Sem sua presença viva, a comunidade se reduz a um grupo de homens e mulheres que vivem “numa casa com as portas fechadas, por medo dos judeus”.
Com as “portas fechadas” não se pode saber o que acontece lá fora; não é possível captar a ação do Espírito no mundo; não dá para abrir espaços de encontro e diálogo com ninguém; apaga-se a confiança no ser humano e crescem os medos e pré-juízos. Uma comunidade que permanece no túmulo, mergulhada no medo e sem capacidade de encontro e diálogo, é uma tragédia, pois os seguidores de Jesus são chamados a tornar visível, no hoje da história, o eterno diálogo de Deus com a humanidade.
Grandes medos não aparecem com frequência; são os pequenos medos que surgem dos encontros diários com a realidade e roubam nossa vitalidade e dinamismo. O medo inibe o pensamento, impede a concentração e é, portanto, muito responsável por fazermos as coisas de modo medíocre, sem valor, abaixo das possibilidades e contra as nossas expectativas.
O medo não é um ato moral nem uma omissão. Sem ser convidado, ele cresce no nosso coração. Em tal atmosfera de medo, a imaginação e todas as energias criativas se atrofiam.
Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do nosso ser. O medo nos deixa vulneráveis à manipulação.
O “medo” pode paralisar o “movimento de vida” iniciado por Jesus e bloquear nossas melhores energias; sob o impacto do medo a tendência é nos fechar nos ritos estéreis, na doutrina fria, no legalismo e no moralismo doentios que nos levam a rejeitar o que é diferente e a condenar o que é novo. Com medo não é possível amar o mundo e as pessoas. E, se não o olhamos a realidade com os olhos de Deus, como vamos comunicar a Boa Notícia? Se vivemos com as portas fechadas, quem deixará o redil para buscar as ovelhas perdidas? Quem se atreverá a tocar a algum doente excluído? Quem se sentará à mesa com pecadores e marginalizados? Quem se aproximará dos esquecidos pela religião?
Aqueles que desejam buscar o Deus de Jesus nos encontrarão com as portas fechadas.
O relato de João é sugestivo e interpelador. Só quando vê a Jesus ressuscitado no meio deles, o grupo de discípulos se transforma, recuperam a paz, desaparecem seus medos, enchem-se de uma alegria desconhecida, recebem o Sopro de Jesus sobre eles e abrem as portas, porque se sentem enviados a viver a mesma missão que Ele havia recebido do Pai.
O relato joanino deste domingo traz uma série de expressões que revelam a profunda “ressurreição” vivida pela comunidade dos discípulos; ela precisou fazer a travessia da escuridão para a luz, do medo para a coragem, da timidez para a missão; são expressões carregadas de vida, de futuro, abertas ao novo e que mobilizam a retomar a mesma missão vivida por Jesus durante sua vida pública. O Ressuscitado reconstrói sua comunidade de seguidores, rompe as cadeias do medo e os devolve ao mundo.
* “O primeiro dia da semana”: começa uma nova Criação e com ela, uma nova Aliança. Em Jesus se
completa a criação do ser humano, levando a humanidade à sua plenitude. O local fechado, como consequência do medo, delimita o espaço da comunidade em meio a um mundo hostil. A mensagem de Maria Madalena fazendo-os saber que Jesus vivia, não os havia libertado do medo. Jesus sai ao encontro dos discípulos inesperadamente; sua presença se efetua diretamente. Ele é quem toma sempre a iniciativa e aparece no centro da comunidade, porque, agora, Ele é para eles a única referência e fator de unidade. A presença que experimentam não é uma invenção nem surge de um desejo ou expectativa dos discípulos. A nenhum deles teria passado pela cabeça que Jesus pudesse aparecer, uma vez que tinham testemunhado seu fracasso e sua morte.
* “A paz esteja convosco”: Jesus os saúda; o calor da saudação elimina o medo e as incertezas; é o gesto que conecta o que está acontecendo com o Jesus que viveu e comeu com eles.
A presença de Jesus se impõe como figura próxima e amistosa, que manifesta seu interesse por eles e que busca conduzi-los à sua plenitude de vida.
* “Soprou sobre eles”: É o mesmo gesto do Criador ao fazer do homem de barro um “ser vivente”. Tudo
isso é obra do Espírito. Deus atuou em Jesus, atua em nós e atua no mundo. A obra da Criação continua. No sétimo dia, Deus não descansa, o Salvador não descansa até que todos sejam filhos e filhas. Jesus é nova Criação; nós também. Somos criadores com Deus, à sua imagem e semelhança.
* “Meu Senhor e meu Deus”: A resposta de Tomé é tão extrema quanto sua incredulidade. Ao dizer-lhe
“Senhor”, reconhece o amor de Jesus e o aceita dando-lhe sua adesão. Ao dizer “meu” expressa sua proximidade, como Madalena. Não precisou tocar as chagas, mas precisou tomar consciência de que o Ressuscitado é infinitamente mais que aquilo que os próprios sentidos podem captar.
E ao reconhecê-Lo, modifica-se também a percepção de sua própria identidade e mergulha no assombro, na admiração e no louvor.
* “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”: O Ressuscitado convida a “crer” porque, quando alguém crê, recupera a capacidade de “ver”. A fé possibilita um olhar contemplativo: vê o que todo mundo vê, mas de maneira diferente. Vê sinais do Ressuscitado em tudo o que existe e compreende que tudo tem um sentido, imperceptível à luz dos sentidos externos. A ressurreição permite um olhar aberto, simples e natural, um olhar encantado diante de cada aspecto da realidade.
O relato evangélico deste domingo vem revelar que a nossa primeira atitude é deixar entrar o Ressuscitado através de tantas barreiras que levantamos para nos defender do medo. Que Jesus ocupe o centro de nossas vidas e de nossas comunidades; que só Ele seja a fonte de vida, de alegria e de paz. Que ninguém ocupe seu lugar; que ninguém se aproprie de sua mensagem; que ninguém imponha um modo de viver diferente do seu. Precisamos, mais do que nunca, abrir-nos ao alento do Ressuscitado para acolher seu Espírito.
Para quem fez a experiência do encontro com o Ressuscitado, não existe mais medo, não existem mais obstáculos nem portas fechadas, etc., que impeçam de realizar os caminhos do anúncio do Evangelho, da comunhão e da missão. A ressurreição nos compromete a abrir as portas para libertar as pessoas de uma religião esclerosada, uma religião de condenação e de exclusão. No Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII abriu as portas e as janelas da Igreja para arejá-la, para lhe permitir uma melhor circulação do ar, para libertar os cristãos que estavam doentes numa Igreja dogmática e doutrinal.
É por isso que o evangelho de hoje deve nos interpelar, a nós que somos seguidores(as) do Ressuscitado. Devemos compreender que é preciso abrir a Grande Porta, que é o Cristo, para permitir que todas as pessoas circulem livremente. Se quisermos ser fiéis a Ele e à nossa missão cristã, devemos abrir a porta para o mundo a fim de que todos possam entrar nas nossas comunidades com toda a liberdade.
Texto bíblico: Jo 20,19-31
Na oração: Para fazer a experiência do encontro com o Ressuscitado é preciso quebrar “ferrolhos” de nossa morada interior: ferrolhos das ideias fixas, dos sentimentos frios, das relações vazias, do legalismo mortal...
- No nível mais amplo: quais são os ‘ferrolhos” que travam a vida da Igreja, impedindo-se de ser sinal do Ressuscitado? Quais são os “medos” que bloqueiam a criatividade e a ousada da verdadeira comunidade de Jesus?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
11.04.2026

“As mulheres correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos” (Mt 28,8)
Ainda não é dia, mas amanhece um tempo novo, ressoam como ditas para nós as palavras de Isaías: “Algo novo está brotando, não o notais?” (Is. 43,18-19). É tempo de esperança.
A noite é o tempo do mistério e da promessa, é o lugar da espera e da realização, o espaço do desejo e do encontro, da invocação e da revelação, do sofrimento e da paixão, do silêncio e da oração, da vida e da morte, do Natal e da Páscoa...
A experiência da Ressurreição nos faz “passar” pela noite e perceber no seu interior os segredos ali escondidos, as surpresas que nos são reservadas. É a experiência da presença da “noite” no ritmo da vida: noite que causa medo, provoca arrepios, impede a visão, paralisa...
A partir da experiência pascal, a noite pode espantar, mas também pode ser chance para ver melhor; a morte pode ser ameaçadora, mas ela ensina a viver; o sepulcro vazio pode causar dúvida, mas ele aponta para a ressurreição; o infinito pode suscitar inquietação, mas consegue impulsionar para o além, até acender no coração uma chama persistente: a esperança.
Após a morte e o sepultamento de Jesus, os discípulos se refugiam em uma casa; anoitece em Jerusalém e também em seus corações. Ninguém os pode consolar de sua tristeza e desolação. Pouco a pouco, o medo vai se apoderando de todos; a única coisa que lhes dá certa segurança é “fechar as portas”. Estão reunidos, escondidos, polarizados na frustração, concentrados na perda dolorosa, desconfiados de tudo e de todos.
Na comunidade reina um vazio que ninguém pode preencher; também eles estão mergulhados na morte, literalmente vivendo numa “casa sepultura”: sem futuro, sem sonhos...
Os discípulos têm a sensação de estarem sufocados, como numa prisão, na qual a inquietude, a insegurança, a confusão, o vazio, a ansiedade e a tristeza são inevitáveis.
O evangelista Mateus descreve a transformação que acontece nas mulheres que foram ao sepulcro, de madrugada: sentem uma intensa alegria quando Jesus, cheio de vida, se faz presente diante delas. O Ressuscitado está de novo no centro de sua comunidade de seguidores; eles sentem Seu alento criador. Tudo começa de novo. Tal presença os liberta do medo e da dúvida, os faz escancarar as portas e dar início ao processo de evangelização.
O Ressuscitado se aproxima como Presença viva que dá Vida: deixa-se ver, fala, interpela, corrige, anima, comunica paz e alegria. Em uma palavra, presenteia seu Espírito.
Outra vez Jesus recria a comunidade que, depois da Paixão, estava desintegrada; as mulheres e os discípulos experimentam novamente o chamado e o envio, para serem testemunhas e cúmplices do Espírito; vivem a certeza existencial de que o Crucificado é o Ressuscitado, que a morte foi vencida, que Deus é o Senhor da Vida. Impulsionados pela força do Espírito, seguirão colaborando, ao longo dos séculos, no mesmo projeto salvador que o Pai confiou a Jesus.
Para isso, descobrem que é preciso escancarar portas e janelas das casas para anunciar a grande novidade: há “sinais” de Ressurreição perpassando todas as experiências humanas.
A imagem pascal é a da “porta da liberdade”, que possibilita uma vida sempre expansiva.
A Vida verdadeira implica saída de nossos espaços, muitas vezes atrofiados e de curto horizonte: por isso, precisamos de portas e janelas, nossa casa interior precisa de saída. Não podemos, não devemos permanecer fechados, pois isso atrofia nossas possibilidades de vida, sobretudo se estamos reclusos no egocentrismo.
Equivocadamente distraídos por alguma complacência ou comodidade interna, nem sempre caímos na conta de que vivemos fechados; não percebemos o perigo letal da asfixia existencial; não sentimos as amarras da dependência ou os vícios que a vontade fragilizada já não consegue romper.
Nesse sentido, podemos entender a imagem pascal da “porta” enquanto espaço aberto que permite a vida fluir. Porque vida é, antes de mais nada, espaçosa, amplitude ilimitada que tudo abarca e que se expressa em infinidade de formas, todas elas habitadas pela mesma e única Vida.
Precisamos nos libertar, nos desatar, sair; precisamos de uma porta! Precisamos sair de nossos túmulos!
Bendita porta de saída!
O próprio Jesus já tinha afirmado antes: “Eu sou a Porta”. E é verdade, porque Jesus, “ressuscitado dentre os mortos”, abriu um espaço no hermético ventre da morte. Com seu próprio corpo e sua vida, Jesus se transformou em Porta da Vida verdadeira e com a força do seu Espírito Ele nos liberta, nos desata para sair dos espaços atrofiados e passar para a vida ampla do amor, para a vida com os outros.
Uma porta aberta. Somos impactados pela luz que vem de fora e pelo ar vivificante. Nós ouvimos sua voz. Ele se dirige a cada um(a) e à sua voz nos colocamos em marcha. O oxigênio que aí respiramos é o Sopro do próprio Deus.
Jesus é uma Porta grande e aberta que favorece a circulação com toda a liberdade. Entrar por essa Porta é o mesmo que “aproximar-nos d’Ele”, “escutar sua voz”, “identificar-nos com Ele”.
Em Jesus, todo(a) seguidor(a) pode alcançar a verdadeira liberdade; “poderá entrar e sair”, terá liberdade de movimento.
As portas abertas, por sua vez, permitem ampliar nosso horizonte. Através delas purifica-se o ar denso e irrespirável do nosso interior, que geramos quando nos fechados em nós mesmos. Elas nos abrem à comunhão com a natureza, com os outros, com a realidade que nos cerca. Elas nos humanizam, pois servem para nos revelar aos outros quem somos, que eles fazem parte de nossa casa e que, abertas, indicam que eles podem entrar e sair livremente em nossas vidas.
Como seguidores(as) de Jesus, habitando em casas construídas sobre a rocha do Evangelho, deveríamos nos preocupar mais com as portas e janelas e menos com os espelhos. Outros rostos precisamos descobrir: rostos feridos, excluídos, carentes de proximidade e abraço.
Muitas vezes, as portas nos protegem da diversidade, blindam nossa individualidade e parecem itens indispensáveis à sobrevivência. Assim, somos prisioneiros de nossa estreita visão de mundo e fazemos de nossa casa uma couraça que enclausura. Melhor a viagem que nos faz vulneráveis do que a segurança que nos rouba o horizonte. Melhor enfrentar o impacto do diferente e usufruir da liberdade do que inventar portas seguras que nos fazem cativos e solitários dentro de nossas próprias casas.
Quando estamos atravessando graves crises, como aquela vivida pelos discípulos, depois da paixão e morte de Jesus, é reconfortante entrar na profundidade de nosso ser e deixar ressoar estas palavras: “alegrai-vos!”
É a experiência do encontro com o Ressuscitado que nos pacifica, mesmo em situações de crises, fracas-sos, horizontes sem saída..., quando o medo e a angústia se manifestam com mais força.
A serenidade é uma vivência profunda, íntima, salutar... De repente, alcançamos uma paz inspiradora, uma paz que ninguém pode nos comunicar; uma alegria serena que pacifica nosso interior.
Basta permanecer nessa paz, na nossa morada interior.
Através das mulheres, os discípulos receberam novamente a missão de Jesus. Elas se converteram em mensageiras da boa notícia; elas assumiram o protagonismo e relançaram o projeto do Reino a partir de sua grande intuição: na Galiléia começou a história e ali deverá ser reiniciada.
Seguir as pegadas do Galileu confirma que Ele vai adiante guiando os seus seguidores e seguidoras. Percorrer seus passos garante à sua comunidade a experiência de contar com Ele: “Ele irá à vossa frente, na Galiléia; lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos” (Mt 28,7).
Textos bíblicos: Mt 28,1-10
Na oração: - Que abramos as portas e as janelas da nossa vida, para que todos possam ver o quanto de vida há dentro dela, para que vejam quem somos, como vivemos..., de maneira que possamos oferecer e compartilhar espaço de perdão, de acolhida sem preconceitos, de amor oblativo...; é preciso afastar a pedra do dogmatismo, do legalismo, do ritualismo... que nos mantém sufocados ou respirando o ar fétido dos túmulos.
- Que sonhemos também com uma Igreja que rompa os túmulos do conservadorismo, do legalismo, da apatia, e se abra à desafiante situação de nosso mundo, “vivendo em saída” para “tocar” os chagados e lhes oferecer o dom da unção e do consolo.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
05.04.26
Uma inspirada Páscoa a todos!

“A partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,27)
O Sábado Santo é o dia do grande silêncio: “Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio porque o Rei dorme; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne” (de uma antiga homilia de Sábado Santo). É o silêncio sepulcral. Jesus morreu e foi sepultado. Os seus amigos provaram o fel amargo da desilusão. Os evangelhos afirmam que todos os discípulos o traíram; deixaram tudo para o seguir, confiaram-lhe as suas vidas e, afinal, o messianismo de Jesus reduziu-se a um sepulcro frio, escuro e silencioso, como todos os túmulos da terra.
Em todo caminho espiritual é preciso passar pela “noite”, pela “ausência”, pelo “silêncio”, para amadurecer. É inevitável experimentar, durante algum tempo, alguma forma desconcertante de sentir a presença-ausência de Deus.
A terrível “noite escura” do Sábado Santo corresponde a um incontestável estágio espiritual, como dura, mas inevitável “passagem” (Páscoa) para a Luz do Domingo.
Só atravessando o silêncio, a “Noite Amarga” se transforma em “Noite Amável”.
Um silêncio entendido como outra forma de presença de Deus.
O silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus filhos e filhas; o Pai não estará fazendo luto por seu Filho e por suas criaturas?
* Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar?
* Quê Deus não tem direito de guardar silêncio?
* Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente?
Se não oramos a partir desse silêncio, é porque ainda não mergulhamos no mistério do Amor compassivo.
Muitas vezes negamos a Deus o que de mais humano há em nós: o poder fazer comunidade compassiva e solidária, compartilhando a dor e o luto.
O Pai está de luto; toda a natureza está de luto; em silêncio, ela acolhe a semente do Corpo do Verbo, na esperança de germinar Vida plena. A Terra, mais uma vez, oferece casa e abrigo ao Corpo do Crucificado. Aquele que morrera “fora dos muros da cidade” encontra moradia no seio da mãe-terra.
O Sábado Santo, portanto, não é o mutismo de Deus, mas seu Silêncio, ou seja, a ação oculta de Deus estendida no tempo, quer na vida, quer na morte; Deus nos fala em sua mudez.
O silêncio do Senhor nos move a procurar, a escutar, a enxergar... O silêncio do sepulcro nos interpela.
Iluminados pelo dom da fé, sabemos que, depois do silêncio, renasce a Palavra. O que parecia o fim, na realidade aquele silêncio era o mesmo que precedeu a Palavra criadora: “Faça-se luz”. E do “caos da escuridão” surgiu a luminosidade do “cosmos”.
O silêncio de Deus é fecundo. É no tempo silencioso que a semente se torna fruto e o ser humano se torna pessoa. O silêncio permite transformar a morte em vida. Aquele túmulo, afinal, era uma fonte pujante de vida e de alegria. Aquele lugar, aparentemente escuro e vazio, veria uma luz que o mundo inteiro não pode conter. Por isso, para nós, as experiências do silêncio de Deus serão sempre um convite à fé e à esperança.
Não há razão para o medo, pois o silêncio esconde a vida e a consolação de Deus.
O enfoque dia sabático está no fato de que é preciso esperar no silêncio e na calma. Às vezes queremos passar da morte à vida sem espaços de esperas.
Sabemos que a vida da Igreja, como também a nossa vida pessoal, é feita de longos sábados santos, nos quais nem a dor da Paixão nem o consolo da festa Pascal marcam significativamente nossos dias e nossas noites, mas simplesmente a dura e paciente espera, na fé mais despojada, de um Senhor, que se faz esperar tanto que parece que já não vai chegar mais.
É o Sábado Santo de um credo pascal que sabe que amanhã florescerá a messe. Submergido no sepulcro do Senhor, espera-se simplesmente.
Ao sentir a própria incapacidade de levar adiante a exigência do Evangelho, cada um(a) se apresenta no sepulcro do Senhor de onde pode irromper a força transformadora da manhã da Ressurreição.
O Sábado Santo é um dia sem liturgia, em silêncio, não passa nada, não sucede nada, recorda a solidão do sepulcro, a tristeza das mulheres e dos discípulos, a desilusão diante do fracasso.
“O Rei dorme”, comenta uma antiga homilia sobre o Sábado Santo. O povo canta o “Shabat mater”, acompanha a Virgem dolorosa, espera com ela, em silêncio, a aurora pascal.
Da escuridão da morte do Filho de Deus brota a Luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição reflete-se no rosto de Maria. Nossa amizade e devoção a Maria da esperança, a transparência feminina do Espírito, nos mantém no ritmo da espera.
Segundo S. Inácio, no percurso dos Exercícios Espirituais a Paixão termina na casa de Nossa Senhora (EE. 208). É em sua casa que se abrirá também a semana da Ressurreição.
S. Inácio segue aqui uma tradição de sua época, onde se aceitava como fato revelado que a primeira aparição do Ressuscitado foi à Virgem Maria (EE. 299).
A Escritura não nos apresenta nenhum relato de aparição a Maria. Mas, segundo Inácio, mesmo que a Escritura não o diga, essa aparição é evidente. Talvez a mesma Escritura tenha dado por suposto, já que o caso de Maria é diferente: aqui Jesus não teve que educar a fé de sua mãe. Ele a encontrou em atitude de espera permanente. Sua fé tinha sido firme e por isso a tradição situa o início da vida da Igreja em torno a Maria, e Maria como aquela que congrega e apoia a fé conturbada dos discípulos.
Porque ela soube estar com o Crucificado, pode ver o Ressuscitado.
Junto a Maria, é preciso considerar o Sábado Santo como um tempo de luto e pranto: depois da dor intensa da Sexta-feira Santa dá-se lugar a uma dor silenciosa, contida, como a terra que vai se empapando até suas entranhas com a água caída torrencialmente sobre a superfície.
O que aconteceu na superfície da terra na Sexta-feira Santa, acontece nas profundezas da morte no Sábado Santo, para que no Domingo da Ressurreição sejam resgatados ambos os acontecimentos.
É preciso saber acolher este silêncio surdo, que marca a passagem entre duas experiências intensas: a Sexta-feira de dor e o Domingo de Ressurreição.
No sepulcro, Jesus se faz solidário com toda a morte humana. E é preciso esperar com Ele. É preciso esperar em nossos projetos e sonhos, na libertação dos povos, em uma nova humanidade.
Em nossas vidas teremos muitas sextas-feiras santas de dor e dias de Páscoa, mas, teremos muito mais sábados de espera.
O ser humano que espera não tem certeza, não fica seguro, não está satisfeito. Mas a esperança tem fundamento; não é uma ilusão e nem uma utopia; não é um sonho impossível e nem uma lembrança irre-cuperável; não é só futuro, mas permanece, disfarçadamente, presente; não é uma morada, mas um senti-mento sempre inédito. A esperança evita tropeçar no fracasso, no desânimo, na apatia e no silencioso de-
sespero. Ela se acende à noite, vence na impotência; começa na limitação; é ousada na fragilidade.
A esperança é caminho e meta, posse e dom, destino e encontro, antecipação e cumprimento, expectativa e busca, risco e proteção, nó e liberdade. A esperança é certa, mas não dá “garantias”.
Arrancados ao silêncio dos nossos túmulos, também nós podemos gritar como Maria Madalena no primeiro dia de Páscoa: “Vi o Senhor!” Este grito, que nos enche de esperança, rasgará todo o silêncio, e ecoará por toda a eternidade.
A força da esperança está oculta precisamente na sua impotência. A Cruz permanece em seu lugar, mas o sepulcro fica vazio para sempre! É Ressurreição: vida plena antecipada.
Texto bíblico: Jo 19,25-27
Oração: contemplar Maria em sua “segunda Anunciação”; na “primeira Anunciação” deu-se o início da vida
de Jesus. Agora, essa Vida se revela a ela como Vida definitiva.
Que Maria eduque nossa confiança; que ela nos encha de esperança!
Pe. Adroaldo Palaoro sj
04.04.2026
imagem: Corregio

“Tudo está consumado” (Jo 19,30)
A vida humana é fecunda, é potencialidade, é explosão de criatividade... Assim como na semente há vida latente esperando a oportunidade de expandir-se, também no ser humano encontram-se ricas possibilidades, esperando a morte do “eu mesquinho”, para se plenificarem.
A morte do falso “ego” é a condição para que a verdadeira vida se liberte. É preciso passar pela morte do que é terreno, caduco, transitório (paixões, apegos desordenados...) para deixar emergir a vida interior, a vida divina, a vida de Deus em nós.
O essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”.
O “depois da vida” é um grande encontro onde seremos perguntados: “o quanto você viveu sua vida?”
A vida é constantemente chamada a ser Páscoa. Porque na vitória da Vida entregue, ela ganha sentido, avança, como uma torrente que rega terras secas, ávidas de água, como um fogo que, na noite mais escura, traz uma luz que permite vislumbrar a vida oculta.
A vida é movimento e, portanto, energia expansiva. Podemos consumi-la em benefício do ego (falso eu) e então vem o fracasso. Podemos consumi-la em benefício dos outros e da causa do Reino; e então, consumá-la, dando-lhe plenitude. Ter apego à própria vida é destruir-se; entregar a vida por amor não é frustrá-la, mas levá-la à sua completude. Aqui há uma inversão na lógica natural das coisas; ganha-se quando perde, vive-se quando morre, multiplica-se quando divide.
Perder-ganhar, morrer-viver, entregar-reter, doar-receber..., parecem dimensões ou realidades contraditórias, mas captar a profundidade da verdade contida nesta “contradição aparente” é descobrir o Evangelho.
“Morrer”, “perder”, “entregar” ... é este instante de ruptura, onde toda uma vida incubada, trabalhada no silêncio e no sofrimento, marcada de alegrias e tristezas, vitórias e fracassos, desponta luminosa para a vida eterna. Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; ela nos desaloja de nossos “lugares estreitos” e nos faz caminhar em direção a novos horizontes.
A vida aumenta quando compartilha e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade.
De fato, aqueles que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança do conhecido e se dedicam apaixonadamente à missão de comunicar vida aos outros.
Ao contemplar o Crucificado, muitos questionamentos vão surgindo:
* a Cruz é sinal de solidariedade ou sinal de poder, sinal de libertação ou sinal de opressão, sinal de rebeldia ou sinal de submissão, sinal dos vencidos ou sinal dos vencedores...?
* Perguntamo-nos se é a Cruz dos condenados deste mundo ou a cruz dos que condenam, a Cruz dos crucificados da terra ou a cruz dos que continuam crucificando como em outro tempo crucificaram a Jesus?
A primeira coisa que descobrimos ao contemplar o Crucificado do Gólgota, torturado injustamente até à morte pelo poder político-religioso, é a força destruidora do mal, a crueldade do ódio e o fanatismo da mentira. Precisamente aí, nessa vítima inocente, nós seguidores de Jesus, vemos o Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos. Está na Cruz do Calvário e está em todas as cruzes sonde sofrem e morrem os mais inocentes. A partir da Cruz, Deus não responde o mal com o mal; Ele não é o Deus justiceiro, ressentido e vingativo, pois prefere ser vítima de suas criaturas antes que verdugo.
O Crucificado nos revela que não existe, nem existirá nunca um Deus frio, insensível e indiferente, mas um Deus que padece conosco, sofre nossos sofrimentos e morre nossa morte.
Despojado de todo poder dominador, de toda beleza estética, de todo êxito político e de toda auréola religiosa, Deus se revela a nós, no mais puro e insondável de seu mistério, como amor e somente amor.
Nós cristãos contemplamos o Crucificado para não esquecer nunca o “amor louco” de Deus para com a humanidade e para manter viva a recordação de todos os crucificados da história.
“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de proximidade curadora...
Nesse sentido, a cruz de Jesus não é um “peso morto”; ela tem sentido porque é consequência de uma opção radical em favor do Reino. A Cruz não significa passividade e resignação; ela nasce de sua vida plena e transbordante; ela resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de uma vida vivida por Jesus na fidelidade ao Pai que quer que todos vivam intensamente.
Existem cruzes que são vazias, sem sentido, in-sensatas..., pois elas fecham a pessoa em si mesma, no seu sofrimento e angústia; não apontam para o futuro, para a vida.
São cruzes que nós impomos sobre nossos ombros ou que os outros nos impõem. São cruzes que nascem dos fracassos, dos traumas, das rejeições, das experiências frustrantes... Tornam-se um “peso morto” pois não abrem um horizonte de vida; elas se fixam no passado, na morte... e nos deixam no túmulo.
Fazer o caminho contemplativo junto a Jesus que leva a Cruz da fidelidade nos ajuda a romper com as cruzes que nos afundam no desespero.
A Cruz assumida por Jesus é “expansiva” porque é expressão de uma vida entregue; ao mesmo tempo, ela O projeta para a “margem” onde Ele revela uma presença despojada, vulnerável, que se identifica com a dor do mundo, com a marginalização dos excluídos e com a desgraça de todos os miseráveis da terra. Sua Cruz manifesta que Deus é Compaixão porque continua do lado do inocente sofredor; Deus não apenas se solidariza, mas sofre “em sua pele”.
Acompanhando Jesus na paixão, também “vamos sendo talhados” pelas cenas que contemplamos, com o coração aberto à dor e à aflição. É o seguimento levada às últimas consequências.
Participando da morte de Jesus, podemos também fazer de nossas cotidianas mortes um ato de decisão, de entrega, de oblação. A certeza de nossa fé em Cristo, morto e ressuscitado, nos ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos egoístas de busca de segurança e proteção, e encontrar uma paz profunda que nos permita fazer de nossa vida uma oferenda gratuita em favor da vida dos outros.
É gratificante fazer memória de tantos homens e mulheres que foram presença compassiva e, à maneira de Jesus, consumiram suas vidas em favor da vida; histórias silenciosas de tantas pessoas que com sua presença ajudaram os outros a viver; pessoas que revelaram a paixão por viver em pequenas paciências cotidianas, que entregaram suas vidas sem brilho algum, sem vozes que a proclamassem; foram como o fermento silencioso que se dissolveram na massa para fazê-la crescer.
Com a Cruz “descemos” com Jesus até à cruz da humanidade.
A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica, nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, o “Justo e Santo”, identificado com os crucificados da história.
Como diz Jon Sobrino, não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela.
Entende-se, assim, o grande “grito” que brotou das profundezas da dor de Jesus na Cruz e que continua ecoando como clamor angustiado. Não são poucos os gritos dos mais pobres e excluídos.
O grande grito de Jesus é a certeza de tudo o que sustenta o seu coração; ao ecoar junto aos crucificados, provoca grandes novidades. Um grito que não fica no vazio, mas aponta para a Vida.
Texto bíblico: Jo 18,1-19,42
Na oração: Somos grãos de trigo na grande seara do mundo; e o grão de trigo eterniza-se na sua entrega-doação para que outros matem suas fomes e vivam com sentido.
Aprendamos a morrer para nossos interesses mesquinhos; só assim nossa vida terá a dimensão da eternidade.
- “Se a semente do trigo sou eu, a que devo morrer, para que a vida interior possa se expandir?”
- “Fazer memória” dos crucificados da história e que clamam por uma presença solidária: os sem teto, sem-terra, sem trabalho.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
03.04.2026

Casa: lugar do “lava-pés”
gesto ousado que quebra toda pretensão de poder
Lembremo-nos, antes de tudo, desta expressão: “a planta dos pés”. Esta “planta” clama por raízes. Os pés escutam a terra e nos enraízam na realidade histórica. É difícil ter os pés sobre a terra... Podemos sentir isso se “escutarmos” bem nossos pés. O Ocidente deseja que as pessoas pensem no céu, e alonguem a cabeça no ar para fazê-la olhar para cima e ver as nuvens.
O Oriente sabe que a melhor maneira de chegar ao céu é pisar solidamente na terra. Segundo a tradição oriental, quanto mais próximo do chão estiver o corpo, mais livre fica a mente e mais sensível o coração.
Quanto mais proximidade e intimidade com a terra, mais profunda é a experiência espiritual.
Cada passo deve ser uma oração e cada caminhar é um rosário de contas que marcam os caminhos da vida com a fé do caminhante.
Dá força e inspiração sentir a grande Casa, a Terra: apalpar sua firmeza, medir sua imensidade, contemplar sua beleza; ela é o altar cósmico sobre o qual celebra-se diariamente a liturgia da vida.
Não há uma “Terra Santa”, há uma maneira santa de caminhar sobre a terra. É a nossa maneira de caminhar sobre a terra que a torna sagrada.
Mudar o nosso modo próprio de caminhar, mudar o nosso modo de colocar o pé na terra, não é somente uma terapia psicossomática, mas pode ser um exercício espiritual. É aceitar-nos em nossa dimensão terrosa.
O equilíbrio do corpo, o equilíbrio do nosso psiquismo, o equilíbrio de nossa vida espiritual depende deste enraizamento. E se as raízes são sadias, toda a árvore é sadia. Algumas vezes somos jardineiros, muito atentos à flor e ao fruto, mas esquecemos as raízes, esquecemos os pés.
É por aí que devemos começar os nossos cuidados.
A tradição dos Padres do Deserto nos diz que todos nós temos os pés vulneráveis, muitas vezes feridos e maltratados. E temos necessidade de sermos cuidados e curados no nível de nossos pés. Precisamos fazer o caminho que vai dos “pés inchados e feridos” aos “pés alados”; partimos de nossos pés pesados como se tivéssemos um fardo de memórias para carregar conosco. Sentimos que este fardo de memória nos entrava a marcha e nos impede o caminhar.
É preciso cuidar dos próprios pés para que eles possam reencontrar suas asas; caminharemos, assim, sobre a terra com os pés livres, leves, soltos. E, como seres humanos, reencontraremos nossa condição divina.
Jesus sabia que seus discípulos tinham pés frágeis, pés de argila. Amar alguém não é querer que ele fique deitado a seus pés, mas é querer que ele se mantenha de pé em toda sua grandeza, na plenitude de sua humanidade. Amar alguém é querê-lo com os pés “livres, leves e soltos”. Lavar os pés é gesto de humanização e gesto humanizante. É devolver ao outro a dignidade e capacidade de dar destino à sua vida.
O gesto do “lava-pés” é inspirador para todo(a) seguidor(a) de Jesus Cristo; constitui um dos gestos mais ousados e expressivos da missão e da identidade para aqueles que exercem algum serviço em sua comunidade. É revelação e ensinamento. É amor e mandamento. É gesto-vida, gesto-horizonte, gesto-luz...
Não se pode amar alguém e olhá-lo de cima. Não se trata também de se “humilhar”, de se colocar “abaixo” de seus pés, mas de cuidar de seus pés para que esse alguém possa se manter de pé, para que ambos possam estar face a face e caminhar juntos.
O Evangelho de S. João substitui a instituição da Eucaristia pelo Lava-pés.
Audaciosa inovação que dirige o gesto eucarístico para a revolução das relações humanas: Jesus se esvazia de todo poder, faz-se servo e revela sua verdadeira identidade na capacidade para servir; a autoridade não se exerce submetendo o outro, mas possibilitando que o outro “seja” ele mesmo.
O Lava-pés é gesto ousado que quebra toda pretensão de poder. Jesus viu claramente que o perigo mais grave que ameaçava seus seguidores é a tentação do poder. Não há dúvida de que isso é o que causa o maior dano a todos, o que mais desumaniza.
A reação de Pedro expressa bem o escândalo que este gesto produz, porque Jesus revela que a autoridade - ser Senhor – é um serviço, não uma dominação. Pedro fica desconcertado e em dilema. Sua imagem do Messias seguro e vencedor não combina com a vulnerabilidade de um servo.
Por isso, com esse gesto, Jesus expressa que nunca quis agir como o superior que se impõe com poder; do mesmo modo, viu em semelhante comportamento uma conduta radicalmente inaceitável para seus seguidores. A relação que se estabeleceu entre os discípulos e Jesus não foi a de submissão a um poder que manda e dá ordens, mas a do “seguimento” que brota da experiência de sentir-se atraído e seduzido pelo “modo de proceder” do mesmo Jesus.
O “descendimento” do Senhor aos pés dos discípulos e fazendo-se servidor, transforma o status da servidão (“o servo não sabe o que faz seu senhor”) em fraternidade (“não vos chamo servos, mas amigos). Deste modo se mostra o verdadeiro senhorio de Jesus: a possibilidade de restabelecer a igualdade entre as pessoas através da superabundância de um amor que se derrama, sem reservas, para todos. Este gesto provocativo de serviço e despojamento d’Aquele que é “Senhor” desperta em cada seguidor o desejo de considerar suas qualidades e capacidades como veículos de doação, não de poder ou de manipulação.
A partir deste “ousado gesto” já não se justifica nenhum tipo de superioridade, mas somente a relação pessoal de irmãos e amigos. A cena do lava-pés revela profundidade e delicadeza, mútuo dom e acolhimento, comunhão e pressentimento. É um gesto profético, repleto de generosidade e de humildade. Com este gesto Jesus desvela uma imagem nova de Deus: o Todo-Misericordioso esvazia toda e qualquer expressão de poder e submissão entre os humanos. Ninguém serve a Deus, a não ser do jeito de Jesus, isto é, lavando os pés dos outros, amando-os até o fim.
Nosso Deus não é prepotência, mas condescendência. É o Criador que se põe aos pés da criatura.
Nosso Deus é um Deus que “desce”, que se “inclina” para acolher.
Mistério da Encarnação: Deus abraçando e sendo encontrado junto aos pés dos seus filhos(as).
Casa, mesa, lava-pés, refeição, hospitalidade..., são os grandes sinais do Reino. Em torno à mesa se expressam os valores de uma nova ordem social. A casa, a hospitalidade, a refeição partilhada são o sacramento do sonho de Deus sobre a humanidade e sobre o cosmos inteiro.
A casa-lar deve ser o ambiente privilegiado onde se prolonga e se visibiliza o gesto provocativo do lava-pés; gesto que desperta uma sensibilidade solidária diante daqueles que não tem morada digna para poderem viver os valores evangélicos da acolhida, da partilha, da convivência...
Na vivência do serviço evangélico, somos chamados a vestir o “avental de Jesus”. “Vestir o coração” com o avental da simplicidade, da ternura acolhedora, da escuta comprometida, da presença atenciosa, do serviço desinteressado...
Precisamos “levantar-nos da mesa” cotidianamente. Há sempre um lar que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Há pessoas que aguardam nossa presença compassiva e servidora, nosso coração aberto, nossa acolhida e cuidado...
Sempre teremos “pés” para lavar, mãos estendidas para acolher, irmãos que nos esperam, situações delicadas a serem enfrentadas com coragem...
Sempre teremos, também, a necessidade de nos “sentar à mesa” para renovarmos as forças e redobrarmos a coragem de nos levantar e, na humildade, sem manto, servir com amor, do jeito de Jesus.
“Levantar-nos da mesa” – “sentar-nos à mesa”: movimento de partida e de chegada; prolongamento
do gesto provocativo e escandaloso de Jesus.
Texto bíblico: Jo 13,1-15
Na oração: Seja você alguém que, na admiração da gratidão, se aproxima deste gesto ousado de Jesus (tirar o manto e vestir o avental), a fim de purificar sentimentos, endireitar caminhos e aprofundar a caminhada na convivência com os irmãos.
A sua identificação com Jesus lhe confere um novo modo de ver, avaliar e assumir atitudes mais evangélicas.
É a contemplação, o modo de orar mais envolvente que lhe pode fazer enxergar o milagre; e, sensibilizado(a), abrir-se à dimensão do maior serviço, por pura gratuidade.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
02.04.2026

“A casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo” (Jo 12,3)
No percurso contemplativo da vida pública de Jesus, o início desta Semana Santa nos conduze até Betânia, a ser e viver Betânia, a assumir Betânia:
- casa de hospitalidade e de escuta, onde todos somos irmãos sentados à mesma mesa, junto ao Mestre, o único Senhor, em quem se centra nossa hospitalidade e nossa escuta;
- lugar de descanso, como foi para Jesus, onde encontra humanidade, calor humano, compreensão, alívio;
- lugar de passagem, onde recuperamos forças para viver situações de Páscoa, onde acontece a intimidade do encontro dos amigos que falam de assumir as consequências de viver em favor dos outros, de deixar-nos levar pelo Espírito e amar até o extremo...;
- “casa dos pobres” (Beth-anawim): nela, em primeiro lugar, habitam nossas pobrezas pessoais e comunitá-rias, nossa pequenez e nossa fragilidade; mas, também, onde a dor de nosso mundo, da humanidade, têm lugar e tocam nosso estilo de viver, de nos relacionar, de nos confrontar em nosso seguimento de Jesus.
O tema da Campanha da Fraternidade deste ano – Fraternidade e moradia – nos ajuda a recordar que o mundo relacional de Jesus era amplo e diversificado; seus amigos e amigas se multiplicavam a cada passo que dava. Um exemplo disso é sua relação com os três irmãos, na casa em Betânia.
Betânia é para Jesus o lar da acolhida, da hospitalidade, da escuta, da amizade e do serviço. Ali, Ele expressa as atitudes humanas presentes na cotidianidade de uma família que Ele amava e que O amava.
Betânia é o templo onde Jesus percebe a presença e o agir de Deus nos fatos mais simples da vida cotidiana; Betânia é, para Jesus, um prolongamento de Nazaré, o lugar do cotidiano, do pequeno, do simples, o lugar da revelação. Betânia é o ícone de uma verdadeira comunidade de seguidores(as): casa da unção, do serviço, da escuta atenta; é o lugar da Páscoa que antecede a Páscoa do Filho de Deus.
Betânia nos desafia a gerar um novo estilo relacional que seja capaz de tornar visíveis os sinais do Reino, aqui e agora. Betânia é o lugar de uma nova mística: a do seguimento e identificação com Jesus, a mística da sensibilidade humana, que nos faz passar da morte à vida, como Lázaro. Ali, Ele deixa transparecer um coração carregado de amor oblativo, gratuito...
Jesus, perseguido pelos poderes civil e religioso, vai a Betânia, na casa das suas amigas Marta e Maria e de Lázaro. Mesmo sabendo que a polícia estava atrás de Jesus, os três irmãos receberam-no em casa e ofereceram-lhe um jantar. Acolher em casa uma pessoa perseguida e oferecer-lhe um jantar era perigoso. Mas o amor faz superar o medo.
Neste ambiente, já não há mais rivalidade entre as duas irmãs, Marta e Maria, mas colaboração e complementariedade. Juntas se fazem transparentes para algo maior que elas mesmas. Certamente Jesus deixou “refletir” em sua vida o que viu fazer estas duas mulheres. Os discípulos levavam muito tempo com Jesus e nenhum tinha feito com Ele o que estas duas mulheres fizeram. Ninguém lhe havia manifestado gestos de tanto amor. Elas se fazem totalmente presentes a Jesus; aceitam o que vai acontecer e o acompanham. Marta, servindo a mesa e as mãos de Maria acariciando e ungindo os pés de Jesus; e Ele deixando que elas expressem em gestos o que estava no coração delas: muito amor. Um gesto que Judas não compreendeu.
Marta e Maria expressam sua amizade e fazem com Jesus o que Ele logo fará com seus discípulos no momento de sua despedida, na Última Ceia: os servirá à mesa e lavará seus pés. Jesus se deixou fazer, para poder fazer isso com outros e quis tomar para si os gestos destas mulheres para fazer memória de sua vida.
Impressiona-nos que, neste relato, elas não falam, mas expressam todo seu amor “mais em obras que em palavras” (S. Inácio). Aqui, no centro do Evangelho de João, a comunidade, reconstruída no amor, exala o bom perfume que enche toda a casa. Em lugar do cheiro da morte, a casa enche-se do perfume: símbolo do amor que exala bom odor. É um amor que não tem preço. O perfume de Maria é o símbolo da vida e do amor de cada um. É um amor oblativo e gratuito e que está sempre voltado para os mais pobres. “Pobres, sempre os tereis convosco”, porque sempre haverá vítimas das estruturas sociais injustas e violentas.
À luz de Betânia e de nossa realidade, quais perfumes derramar para superar o mal odor dos nossos ambientes? O que cheira mal entre nós, seguidores(as) de Jesus? Medo risco e do novo, medo de perder seguranças; medo de equivocar-nos, de experimentar outras maneiras de viver; medo de enfrentar situações desafiantes na sociedade, medo da dor e da morte, medo do diferente...
Cheira mal as seguranças petrificadas, o imobilismo; cheira mal a indiferença e a acomodação, sobretudo diante das necessidades de nosso mundo; cheira mal o ódio, a intolerância, o julgamento; cheira mal a desesperança frente a um futuro incerto.
Há um forte mal odor dentro de nossas “bolhas mofadas”, dentro de nossas casas; custa-nos reforçar laços, alimentar solidariedade, entrar em sintonia com a paixão da humanidade. Preferimos conservar a arriscar; percebemos a inércia e a falta de renovação séria e profunda, uma falta de abertura frente ao diferente, uma perda de tempo gasto em estéreis conflitos entre pessoas, grupos, gerações, dentro de nossas famílias e comunidades.
Na unção em Betânia, Maria pode ser considerada como um ícone da nova sensibilidade que o evangelho nos oferece. Ela está dotada de uma sensibilidade muito superior à dos discípulos, tanto para perceber o que acontece como para expressar seus sentimentos com admirável fineza e liberdade. Os dirigentes judeus andavam buscando uma ocasião para matar Jesus. Maria, certamente havia escutado os rumores que chegavam da vizinha Jerusalém e que circulavam em voz baixa entre as pessoas do povo. Ela, no entanto, sintonizou com este momento dramático. Sua criatividade feminina encontrou no perfume um símbolo para expressar com grande delicadeza o que esse momento transbordava seu coração. Maria investiu num gesto gratuito e desmedido, expressão de um amor exagerado.
O excesso de seu gesto sintoniza perfeitamente com o amor sem medida de Jesus, mas ultrapassa a limitada capacidade de compreensão dos presentes à mesa, sobretudo Judas Iscariotes. Os perfumes e os aromas estiveram muito presentes na vida de Jesus, em seus momentos de dor e prazer. O perfume revela e oculta ao mesmo tempo, aviva o desejo, a abertura à surpresa de uma presença. Jesus o recebeu agradecido, e sua própria vida tomou o símbolo do frasco, precioso e caro, que se quebra para poder derramar-se em favor de muitos.
Quando a Vida nos unge, estamos potencialmente equipados para anunciar a boa nova, a luz, a cura, o cuidado... Ações que nos plenificam.
A casa de Betânia se encheu do “esbanjamento” do amor, da ternura, da misericórdia frente ao mal odor da violência, da exclusão, do orgulho autossuficiente. Junto a Jesus, somos também desafiados a esbanjar a vida com Ele, isto é, viver na e a partir da comunhão com o Deus da vida. Viver, em definitiva, como Jesus viveu: Ele “derramou”, doou toda sua vida através de um compromisso real para tornar visível o amor de Deus.
Assim, na experiência cristã, a vida se “derrama” para tornar visível o amor de Jesus a toda pessoa humana. Um “esbanjamento”, muitas vezes, incompreensível para tantos contemporâneos nossos. Eles nos lançam um duro questionamento: não seria a vivência cristã uma espécie de desperdício de energias humanas, um desperdício de talentos?
Textos bíblicos: Jo 12,1-11
Na oração: Na contemplação, somos convidados a entrar na casa em Betânia: casa de encontro, comunidade de amor e coração de humanidade:
- Com Jesus Mestre, somos inspirados a nos fazer mais humanos e próximos;
- Com Marta, somos movidos a professar a fé e a servir na diaconia;
- Com Lázaro, somos chamados a passar da morte à vida e caminhar na liberdade do Espírito;
- Com maria, somos desafiados a quebrar os frascos e a derramar o perfume da escuta e do amor.
- Criar Betânia em nosso interior e em nossas casas: lugar da mesa compartilhada, da unção e do cuidado; ambiente que exala perfume do amor, gratidão, amizade...
Pe. Adroaldo Palaoro sj
30.03.2026

“Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade inteira se agitou e diziam: ’Quem é este homem?’”
A primeira coisa que o Evangelho nos diz é que Jesus foi um buscador de alternativas.
Ele não foi conivente e nem compactuou com a estrutura social-política-religiosa de seu tempo, que era profundamente desumanizadora. Sonhou novas possibilidades de vida e novas relações entre as pessoas. Por isso, ao anunciar o Reino, transgrediu a situação vigente e, a partir das periferias, foi despertando uma alentadora esperança nos corações dos mais pobres e excluídos, vítimas de um mundo fechado.
Com sua entrada em Jerusalém, Jesus quis recuperar a cidade como lugar do encontro e da comunhão, como espaço da paz e da solidariedade... desalojando aqueles que se fechavam a qualquer tentativa de mudança. Por isso, seu gesto provocativo e escandaloso de entrar na cidade montado num jumentinho, símbolo da simplicidade e do despojamento de qualquer pretensão de poder e força, causou violenta reação naqueles que se beneficiavam da estrutura política e religiosa da cidade.
A Campanha da Fraternidade deste ano tem como tema - Fraternidade e moradia -, e como lema – “Ele veio morar entre nós”. Jesus fez sua morada nas terras excluídas da Galileia e sonhava também fazer morada na cidade de Jerusalém.
Vale destacar uma constante nos Evangelhos: a casa como lugar preferencial da ação de Jesus e da missão dos seus discípulos. Jesus, como um inspirado mestre, revelou um “novo ensinamento”, não em lugares fechados e controlados, mas em espaços abertos, nos campos, à beira do lago de Genezaré, nos caminhos poeirentos, nas casas...; Ele se dirigiu aos lugares onde homens e mulheres realizavam suas atividades comuns, no simples ambiente do trabalho cotidiano e, de maneira privilegiada, nas casas, começando pela sua própria, em Cafarnaum, onde fora residir.
Jesus, como itinerante, deu início a um “movimento de casas”. De fato, a casa acabou sendo o espaço alternativo que melhor correspondia à atuação do Mestre, enquanto ponto de partida e de chegada de sua missão itinerante. Foi a partir das casas que Jesus exerceu, à margem do que estava estabelecido, sua autoridade em favor da vida, sem depender de instituições e funções previamente normatizadas.
Assim, através de uma rede eficiente, ampliada e centrada no Mestre e com funções complementárias, seus seguidores, a partir das casas, prolongarão o mesmo ministério de Jesus: “viver em saída”, deslocar-se em direção aos excluídos, revelar a presença do Pai na simplicidade do cotidiano das pessoas, etc. Neste sentido, a casa cumpriu uma função vital para a expansão da causa do Reino de Deus. Em outras palavras, a causa de Jesus (Reino) encontrou nas casas seu lugar natural.
Jesus quis também levar para a Cidade Santa o “movimento de vida” iniciado nas casas, nas estradas da Galileia; Ele subiu a Jerusalém anunciando a chegada do Reino de Deus que deveria manifestar-se ali, mas de uma forma diferente: espaço aberto para todas as gentes, com uma nova estrutura humana aberta ao senhorio de Deus.
Jesus, Filho de Davi, precisava subir à cidade de seu antepassado Davi, não para conquistá-la militarmente e reinar, a partir dela, sobre o mundo, mas para instaurar ali outro Reinado, fundado precisamente nos pobres e expulsos dos reinos da terra. Para Jesus, Jerusalém como um conglomerado de casas abertas, deveria ser entendida como centro da nova humanidade messiânica, capital do Reino dos excluídos da velha história humana.
Por isso, Ele entrou em Jerusalém rodeado do povo, das pessoas simples. Este povo escravo e oprimido o aclamou porque viu em n’Ele uma luz de esperança, de vida, de libertação. Escutaram suas palavras e viram seus feitos durante alguns anos. Escutaram palavras de vida, de justiça, de amor, de misericórdia, de paz...
Viram seus gestos de cura dos enfermos, de defesa dos fracos, de dar alimento aos famintos, de reabilitar os desprezados, de acolher os marginalizados, de enfrentamento dos opressores...
Jesus quer continuar anunciando e realizando na cidade de Jerusalém aquilo que fizera na região excluída da Galiléia; quer também humanizar esta cidade para que ela seja sol de justiça e paz para todos os povos.
A espiritualidade da presença cristã no meio urbano convida a descobrir e indicar as presenças reais do Deus que “in-habita” em pessoas, casas, bairros, povos, cidades e metrópoles. “O coração dos povos é o santuário de Deus”. Trata-se de “passear com o Absoluto pelas ruas da cidade” (Michelstaeder)
O Deus presente nas cidades é um Deus que nos chama e interpela a partir do reverso da história, a partir dos lugares ocultos, dos “outros-espaços” de nossas cidades. A primitiva comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus não começa formando uma nova religião instituída, nem se preocupou com construções de templos ou com organizações hierarquizadas; ela se apresenta como uma federação de casas abertas, a partir dos pobres e para os pobres, criando redes de comunicação e de vida fraterna, casas-família, impulsionadas pelo testemunho e presença do Espírito do mesmo Jesus. “Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum... partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração” (At. 2,44-46).
A cidade que Deus quer: uma praça acolhedora, casas abertas e mesas para todos.
A praça é de todos e todos podem circular livremente, criar relações e convivência, com a experiência de ser aceito e reconhecido como humano.
A casa deve ser escola de encontro e fraternidade. A comunicação (comum união) se celebra entre suas paredes que, em seguida, se expande para além de seus limites, despertando uma sensibilidade solidária.
A casa prepara para a vida, pois é ali que os fundamentos de uma personalidade vão se solidificando.
A mesa é lugar de hospitalidade e partilha, de aceitação e de encontro, lugar de chegada e entrada da pluralidade e diversidade como a Nova Jerusalém. “Entrar na nossa Jerusalém” é comprometer-nos com uma cidade mais humana e humanizadora; a cidade que sonhamos e que queremos: a Cidade Nova. E o(a) seguidor(a) de Jesus tem em quem se inspirar.
A cidade moderna, globalizada pela tecnologia fria e sem alma, amordaçada pela funcionalidade e pela utilidade, com uma política submetida ao mercado, à produção e consumo, cidade estendida e sem muros de contorno, com horizonte atrofiado..., está cada vez mais distante da cidade sonhada por Jesus, cada vez mais refratária aos valores do Reino. É a paixão pelo Reino que deve nos mobilizar para levar adiante a missão de Jesus nos grandes centros, a ir aos lugares onde há mais necessidade e ali realizar obras duradouras de maior proveito e fruto.
O(a) discípulo(a) missionário(a) não é aquele(a) que, por medo, se distancia de sua cidade, mas é aquele(a) que, movido(a) por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença do Inefável; a cidade já não é percebida como ameaça ou como objeto de domínio, mas como dom pelo qual Deus mesmo se faz encontrar. A cidade não é lugar da exploração e da depredação, mas é o lugar da receptividade, da oferenda e do diálogo inspirador.
No Domingo de Ramos, portanto, temos duas procissões: a procissão de Pilatos que representava o poder, a dominação e a violência do império que dominava o mundo; e a procissão de Jesus que representava uma visão alternativa, aquela do Reino de Deus, centrada na comunhão, no serviço, no espírito solidário...
Frente a estas duas paixões e duas procissões, somos convidados a propor algumas perguntas fundamentais que devem ressoar neste domingo de Ramos, na Semana Santa e, em definitiva, na vida: a quem seguimos? Quem é o “senhor” que comanda o nosso coração? Em que valores nos inspiramos? Em que procissão estamos? Em que procissão queremos estar?...
Texto bíblico: Mt 21,1-11
Na oração: é preciso, em primeiro lugar, abrir espaço na própria casa interior, para que o Senhor circule com liberdade, levando luz e inspiração para sua vida (“desce depressa, pois eu preciso ficar em sua casa”).
- A partir do interior, cristificar a própria casa-lar: lugar de encontro, de hospitalidade, de relações sadias...
- Sua casa é luz para a cidade onde você habita?
- A cidade que você aspira, que sonha e que quer é a Nova Jerusalém? Espaço de beleza, de harmonia humana?
- Que atitudes você vai propiciar em suas relações interpessoais para favorecer a presença do Reino de Deus?
- Como você vai acompanhar Jesus durante as celebrações desta Semana Santa?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
29.03.2026

“Todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (Jo 11,26)
Depois do sinal da Água (samaritana) e da Luz (cego de nascimento), o evangelista João oferece hoje o terceiro de seus grandes sinais, a Vida (êxodo de Lázaro).
O tempo quaresmal abre um excelente caminho para aprofundarmos sobre este último tema: a vida é uma oportunidade, um dom, ou algo inevitável e, talvez, insuportável? Há algo mais valioso que a vida para o ser humano? Cuidamos dela e a amamos com empenho, buscamos preservá-la diante de qualquer anomalia ou temor de perdê-la? Porque existem pessoas que “arriscam” sua vida e há aqueles que até doam sua própria vida por uma causa justa?
A morte física nos angustia, nos transtorna. Mas há outra morte que nos ronda sem cessar, ao menos em determinados momentos de nossa existência, ou seja, a ausência do sentido da vida: para que vivemos, lutamos e morremos? O ser humano de hoje, como de todos os tempos, traz cravada em seu coração a pergunta mais inquietante e mais difícil de responder: o que vai ser de todos e de cada um de nós? É inútil fugir dela ou tentar nos enganar. Que podemos fazer diante da morte? Rebelar-nos? Deprimir-nos? Angustiar-nos?...
Sem dúvida, a reação mais generalizada é esquecer essa dura realidade e “tocar prá frente!”. Mas, o ser humano é chamado a viver sua vida com intensidade e inspiração, com lucidez e responsabilidade; ele não deve se aproximar de seu final de forma inconsciente e irresponsável, sem tomar atitude alguma. Diante do mistério último da morte não é possível apelar a dogmas científicos nem religiosos; eles não nos podem guiar para além desta vida.
E, no entanto, queremos continuar vivendo. Todos carregamos no mais íntimo de nosso ser um desejo insaciável de viver. Por que temos de morrer? Por que a vida não é mais ditosa, mais longa, mais segura, mais vida? Do mais profundo do nosso ser brota um anseio profundo que nos move a desejá-la, a amá-la, a cuidá-la, a aceitá-la.
Como cristãos, também temos de nos aproximar com humildade diante do fato obscuro de nossa morte. Mas, fazemos isso com uma confiança radical na bondade do mistério de Deus que vislumbramos em Jesus. Esta confiança não pode ser entendida a partir de fora; só pode ser vivida por quem responde, com fé simples, às palavras do mesmo Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; crês isto?” O teólogo Hans Kung, no final de sua vida, afirmou que, para ele, “morrer é descansar no mistério da misericórdia de Deus”.
A vida é tão valiosa que o centro mesmo da revelação cristã é o anúncio da salvação como vida oferecida a todo ser humano. Deus nos oferece e nos garante a salvação de nossa própria vida. O cristão sabe que a existência não acaba com a morte, no nada, no absurdo. Cremos no Deus que acolhe e abraça a vida de toda criatura e a leva à sua plenitude.
No evangelho deste domingo, em um novo relato catequético, o evangelista João nos apresenta Jesus como “ressurreição e vida”, diante da morte de seu amigo Lázaro.
Progressivamente, ao longo de todo o seu evangelho, o autor vai apresentando Jesus com várias imagens: pão de vida, água viva, luz do mundo, porta, pastor, vinha, caminho, verdade e vida, ressurreição... Todas elas têm um elemento comum: Jesus é reconhecido como portador e doador de vida. E todas pretendem um mesmo objetivo: que a comunidade dos seus seguidores se fundamente sobre esta verdade. Daí a pergunta ao redor da qual giram todas essas catequeses: “crês isto?”.
É preciso compreender, de modo mais profundo, a proclamação que o quarto evangelho põe na boca de Jesus: “Eu sou a Vida”. Assim, tomamos consciência que, com essas palavras, Jesus está revelando nossa verdadeira identidade, que está profundamente unida com a sua. De fato, quando uma pessoa sábia fala, o que diz é válido não só para ela, mas para todo ser humano. A afirmação de Jesus não é a de alguém separado, mas a própria Vida; só a Vida pode dizer “eu sou a vida”. Por isso, para além da pessoa – corpo, mente, psiquismo – na qual nos experimentamos, podemos dizer que em nossa verdade mais profunda “somos vida”. Nós não “temos vida”, mas, na essência, “somos vida”. E esta nunca “morre”.
São muitas as “leituras literais” de “Lázaro” que confundem a ressurreição com o reviver. Lázaro não revive, não volta a esta vida, mas sai desta vida para a Vida, é um êxodo para a verdadeira vida.
Há um forte apelo de Jesus no relato de João, encontrado no versículo 44, e que dá a chave do sentido do grande sinal: “Desatai-o e deixai-o caminhar!” É como se Jesus dissesse: “deixai-o ir mais além, deixai-o ir para a Vida da vida?”
Infelizmente, a mentalidade dualista não consegue compreender os evangelhos; a linguagem religiosa é simbólica, pois aponta para uma outra dimensão. Não podemos nos prender à “materialidade” do relato. Sem a sensibilidade para a criatividade poética dos relatos bíblicos, é impossível deixar-nos transformar pela leitura evangélica. É preciso aprender a ler, reler e deixar-nos “afetar” pelos sinais bíblicos, pois despertam nossa vida da letargia, da acomodação, da paralisia.
Todos somos “lázaros”, fechados em nossos túmulos existenciais, atados em nossas preocupações, travados em nossas “práticas religiosas” estéreis, carentes de sentido na vida, atrofiados em nossa criatividade e busca, presos à “normalidade doentia” do ritmo cotidiano... E o trágico está em “acostumar-nos” a uma vida de “túmulo”. Quantas potencialidades enterradas, quantos recursos não ativados, quanta energia bloqueada!... Muitas vezes nos preocupamos com o “pós-morte” e não temos a coragem de nos perguntar: “há vida antes da morte?”
O relato joanino deste domingo é tremendamente provocativo; tal relato só tem sentido quando provoca uma sacudida em nossa vida e nos arranca da acomodação. É muito fácil nos perder na interpretação fundamentalista do texto sagrado e continuarmos bloqueados por uma pesada pedra na entrada do nosso coração. É preciso deixar ressoar o grito de Jesus nas profundezas de nossa existência: “vem para fora! Deixai-vos desatar e caminhai! Não fostes criados para a paralisia mortal, mas para serdes itinerantes em busca do novo! Deixai-vos conduzir pelo Pai que, com sua graça, fazeis passar da vida medíocre à Vida plena!”
Releiamos, portanto, e reinterpretemos, recriando a narração à luz das palavras de Jesus: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”. Devemos estar centrados na Pessoa de Jesus, que é Vida em plenitude, e não nos percamos no “assombroso” do relato de João, ou seja, um morto que sai do túmulo todo amarrado. Encontrar-nos com Aquele que é Ressurreição e Vida é despertar a vida que quer se expandir em nós.
Com uma autoridade, soberana e amiga, a ordem de Jesus é dada com voz forte, com um grito...
Esta é a mensagem central que o evangelista João quer transmitir:
a verdadeira vida consiste em ouvir a Voz do Enviado pelo Pai para dar a vida ao mundo; o importante não é o maravilhoso, mas mostrar e compreender que Jesus tem a autoridade de dar a Vida. Jesus desata as ataduras, as amarras da morte; elas mantêm os homens cegos, mudos e surdos, atados e asfixiados. Seu lugar não é entre os mortos, mas entre os vivos. Eles precisam ser libertados e soltos por ordem de Jesus para que possam seguir seus caminhos, viver suas vidas livremente, voltar à comunhão com os outros. Não foi só Lázaro que saiu das suas faixas.
Todos os que estavam enclausurados em seus hábitos, presos em suas memórias, sufocados e conformados pela mediocridade, todos os que preparavam túmulos antes da hora de seu último suspiro... todos ouviram esta voz: “Saia!... Saia daí, vão além de vocês mesmos, a caminho!”
Texto bíblico: Jo 11,1-45
Na oração: - quais são as “faixas” que estão travando o fluir de sua vida: religiosas, políticas, sociais, intolerâncias, preconceitos, julgamentos... e que o(a) fazem permanecer no ambiente de morte?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
19.03.2026

“Jesus ia passando, quando viu um cego de nascença” Jo 9,1)
A Quaresma pode ser o ponto de partida de uma transformação profunda de vida; os quarenta dias de duração são um tempo propício para viver a “operação saída”, ou seja, expandir a vida em novas direções, rompendo com aquilo que é rotineiro, estreito e atrofiante.
Este tempo litúrgico especial certamente mobilizará e ativará todas as dimensões de nosso ser: nossos sentidos se expandirão, olhando, escutando e sentindo a realidade que nos envolve; nossa mente tornar-se-á mais clara, sabendo discernir e não se deixando manipular; nosso coração se fará mais atento e misericordioso diante do sofrimento humano; nossa alegria será o fermento do pão cotidiano, compartilhado com os outros. E, se dedicarmos mais tempo ao silêncio e à oração, recobraremos energia e sentido, necessários para sair da “normose doentia” de todos os dias.
Neste percurso transformador, Jesus é o grande “pedagogo” que nos toma pela mão e nos ajuda a fazer a travessia em direção à Terra Prometida. Ele se revela como presença inspiradora e que desperta o “melhor” que há em cada um de nós. Por isso, o tempo litúrgico da quaresma nos situa diante das grandes realidades existenciais que nos humanizam: Fonte de Água viva, Luz, Vida...
No relato catequético deste domingo, o evangelista João resume todo o percurso de qualquer pessoa que se encontra com Jesus, que se deixa recriar por Ele, que caminha na sua fé descobrindo-O aos poucos, até acolhê-lo como Luz do mundo.
No encontro com o “cego de nascença”, Jesus se revela como Luz que desperta a luz atrofiada no interior daquele homem paralisado, impotente, dependente dos outros (marginalizado). Todos o olham como um pecador castigado por Deus. Mas Jesus o olha de maneira diferente; logo que o vê, sente o impulso de resgatá-lo daquela vida de mendigo, desprezado por todos como um amaldiçoado. Ele se sente chamado pelo Pai para defender, acolher e curar precisamente aqueles que vivem excluídos e humilhados.
Depois dos gestos terapêuticos de Jesus, o cego descobre a luz pela primeira vez. Jesus o cura, mas o cego também deve colaborar; ele é confrontado com sua própria força e vontade, pois precisa “descer” até às águas de Siloé, até às profundezas de seu próprio ser. Com o “toque” das benditas mãos de Jesus, as dimensões mais profundas do pobre homem são despertadas, uma nova energia é ativada, a liberdade é reacendida; reconstruído em sua autonomia, agora ele pode dar direção à sua própria vida.
No encontro com Jesus, o cego obtém a visão; mais ainda, o encontro com Jesus é como um banho que não destrava somente o sentido da visão, mas toda sua vida é reconstruída, prolongando o sexto dia da Criação; finalmente, ele poderá desfrutar de uma vida digna, sem temor de envergonhar-se diante dos outros.
O evangelista João, com uma certa ironia, diz que os vizinhos e as autoridades do Templo discutiam se aquele que agora vê era o mesmo que, um pouco antes, não via. Efetivamente é o mesmo, mas não é o mesmo: sendo o mesmo, é outro. Era “o mesmo”, e graças a Jesus não era mais “o mesmo”, pois agora vê a vida de outra maneira. É a diferença entre o homem dependente, sem iniciativa, sem liberdade..., e o homem livre, capaz de abrir-se às surpresas da vida.
O homem, cego até agora, mendigava, era um personagem marginalizado. O encontro com Jesus o reabilita para a vida; volta a ser uma pessoa na convivência. Ele não sabe se é sábado ou segunda-feira, não sabe se aquele que o curou é pecador ou não; o que ele sabe é que antes não via e agora vê. Aos poucos redescobre sua identidade essencial. Todo aquele que se aproxima do “Eu Sou” (Jesus), redescobre seu “eu sou”, ou seja, participa do mesmo ser, da mesma luz de Jesus. Quem se aproxima de Jesus termina sendo como Ele, “eu sou”. Aquele ex-cego fica transformado por ver a vida a partir de Jesus; recupera sua dignidade.
Mas, ser reconstruído em sua identidade tem um preço; o homem curado provoca conflitos com as autoridades religiosas e acaba sendo expulso da sinagoga. Nessa expulsão se revela um conflito radical dos dirigentes judeus que não aceitam Jesus porque está abrindo os olhos das pessoas, para que estas vejam outro mundo, para que tenham um olhar alternativo. “Vim a este mundo para instaurar um processo, para que os cegos vejam e os que veem fiquem cegos” (9,39).
O conflito de Jesus com os dirigentes vai desembocar na morte. Alguns acolhem a visão e a vida que Jesus traz, mas outros se sentem ameaçados em seus privilégios. São as trevas que rejeitam Jesus. As trevas amam as sombras, as prisões e tumbas desconhecidas, os negócios turvos sem testemunhas, os conluios noturnos, os métodos inconfessáveis, os desaparecidos, os arquivos fechados, as alianças clandestinas. “A luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (1,5).
Mas Jesus não abandona a quem o ama e o busca. Ele tem seus caminhos para se encontrar com aqueles que são rejeitados e expulsos. Ninguém lhe pode impedir. Ele vem sempre ao encontro daqueles que não são acolhidos oficialmente pela religião, daqueles que são excluídos das comunidades e instituições religiosas; aqueles que não têm lugar em nossas igrejas, tem um lugar privilegiado em seu coração.
Quem levará hoje a mensagem da Boa-Nova de Jesus para os grupos ou minorias excluídas que, a todo momento, escutam condenações públicas injustas de dirigentes religiosos cegos, que se aproximam das celebrações cristãs com medo de serem reconhecidos, que não podem comungar com paz em nossas eucaristias, que se veem obrigados a viver sua fé em Jesus no silêncio de seu coração de maneira secreta e clandestina?
Como seguidores(as) de Jesus, precisamos passar por um processo de desobstrução de nossas “cataratas existenciais” que impedem viver em atitude de contínuo assombro e vibrar com a vida do outro. É preciso “cristificar” nosso olhar para sermos reconstruídos em nossa essência.
Jesus olha cada ser humano como tal, mas este gesto não é um simples “ver” as pessoas, mas um olhá-las a fundo; ou seja, Jesus dirige seu olhar às pessoas para perceber nelas aquilo que para Ele é o mais importante: os traços e a imagem de Deus que elas deixam transparecer para quem as olha.
O olhar de Jesus não se restringe ao exercício da visão; seu olhar possui uma eficácia transformadora, encarnada em sua capacidade de amar, isto é, de olhar as pessoas com o amor de seu Pai. Ao olhar as pessoas, Jesus faz emergir a dignidade que elas carregam: filhas de Deus, as criaturas mais apreciadas pelo Criador.
Na verdade, o que imobiliza e petrifica é o olhar que se fecha no egocentrismo, que não se abre ao outro numa atitude de respeito, de fidelidade criativa. “Nossa civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era do olhar escravo” (Eugênio Bucci).
Muitas vezes, o presente mais precioso que podemos dar a alguém é um olhar diferente; o futuro, a acolhida, o perdão, a alegria... dessa pessoa podem depender desse olhar novo, cheio de afeto e confiança. Em muitas situações difíceis da vida, o que salva é o olhar.
Num contexto de relações afetivas, onde os sentimentos são determinantes, qualquer caminho de volta ou de diálogo inicia-se sempre com um olhar conciliador ou reconciliador.
Olhar admirado e gratuito, como aquele de Jesus, que transforma, que liberta e que se comove diante da realidade humana, sobretudo daqueles que “não são olhados”.
Texto bíblico: Jo 9,1-41
Na oração: - torne o seu coração vulnerável ao olhar do Pai, receptivo a todo apelo que vem d’Ele, deixando-se tocar pelo inesperado, pela novidade, pela iniciativa amorosa d’Ele; o Amor d’Ele é sempre recriador, suscitando em você lampejos de ressurreição.
- orar é ter acesso ao seu “eu profundo” sob o olhar de Deus e desejar ser visto por Ele até as profundidades mais secretas do seu próprio ser;
- evangelize seu olhar para aprender a olhar como Jesus Cristo, ultrapassando as aparências.
- como você “olha” as pessoas, as coisas, os fatos, o mundo...?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
14.03.2026

“O Espírito conduziu Jesus ao deserto...” (Mt 4,1)
O primeiro domingo da Quaresma nos desloca até o “deserto das tentações”; ali Jesus se deparou com as grandes “forças que desumanizam”: “pão do ego”, “poder autocentrado”, “vaidade estéril”.
Jesus foi conduzido ao deserto imediatamente depois do seu batismo, com a palavra do Pai ressoando em seu coração: “Tu és meu filho amado...”; mas agora, no deserto, vai escutar outras palavras que “tentam” convencê-lo para que não ponha o centro de sua vida nesse amor, mas no poder, na vida fácil, na fama, nas posses... O relato das tentações resume simbolicamente outros momentos da vida de Jesus nos quais esteve submetido à alternativa entre “a maneira de pensar de Deus” ou “a maneira humana”.
Conduzido pela força do Espírito, Ele viveu uma integração a partir de seu coração e não se deixou levar pelas aparências enganosas. Sua vocação à messianidade ficou clara no batismo; daí em diante, buscou os melhores meios para viver sua missão. No seu discernimento, Jesus sentiu que o poder, a riqueza, o prestígio, não eram “meios” para realizar a Vontade do Pai; pelo contrário, inspirado pelo Espírito, elegeu o caminho do esvaziamento de si, da pobreza e do compromisso solidário com os mais pobres e excluídos. Sua missão como Messias devia começar nas periferias, junto aos abandonados pelo poder religioso e civil da época.
O deserto, na tradição bíblica, é um lugar ambivalente: por um lado, é o cenário das maiores dificuldades, onde o ser humano, sem seguranças às quais apegar, se sente submetido às provas mais duras; por outro, no entanto, aparece como o espaço no qual se goza de uma especial intimidade com Deus: “Levá-la-ei ao deserto e lhe falarei ao coração”, diz Oséias (2,14). Sem dúvida, não é casual que ambos significados apareçam unidos.
Mas existe outro “deserto” não buscado e, por isso, com frequência, mais desconcertante e mais difícil de assimilar. Entram aí todas aquelas situações e circunstâncias que a vida nos apresenta, geralmente em forma de crise ou fracasso, nas quais somos convidados a viver um despojamento, um esvaziamento daquilo com o qual tínhamos nos identificado. Trata-se de uma experiência de “deserto” porque também acontece uma quebra das falsas seguranças, nas quais fundamentávamos a vida e, assim, nos encontramos diante daquilo que que se revela como o mais vulnerável e obscuro de nossa existência.
Trata-se de um momento tão difícil como privilegiado. Difícil, inclusive doloroso, porque nos sentimos sacudidos. Este deserto inesperado se caracteriza pela aridez, pela secura, pelo sem-sentido e pela desesperança. A obscuridade parece invadir o espaço que antes nos parecia luminoso e o desconcerto ameaça introduzir-nos numa espiral de vazio.
E, no entanto, é então quando acontece o milagre. Leonard Cohen afirma: “Há uma greta, uma greta em tudo. Por aí é onde entra a luz”. Deus tem mais facilidade de entrar em nossa vida pelas fendas dos fracassos, das feridas, das crises... Esvaziados de nosso ego inflado e inflamados pela força divina, começamos a reescrever nossa história a partir de novas bases, mais humanas, mais inspiradoras... Este é o processo de conversão a que somos chamados a viver: sair dos “lugares estritos” e entrarmos no movimento de plenitude e sentido.
No relato das tentações de Jesus destacam-se os impulsos mais fortes do ego. É facilmente compreensível: nossa primeira e permanente tentação é a de nos identificar com o ego e viver para ele.
É um engano que conduz à confusão e ao sofrimento, porque implicae esquecer-nos de nossa verdadeira identidade e reduzir-nos a “algo” que nos escraviza. O ego, alimenta necessidades e medos, obscurece nossa visão e nos faz ver a realidade a partir de uma reduzida lente contaminada. Prisioneiro de uma insatisfação constante, o ego dedica toda sua vida a acumular, a ser o centro das atenções, a alimentar vaidade e buscar prestígio: esse é o único modo de sentir-se vivo.
O tempo quaresmal nos sacode e nos desnuda, porque desmascara nossas falsas seguranças, centradas na riqueza, no poder, na vaidade. Inspirados pelo “discernimento” de Jesus no deserto, somos também movidos a buscar nossas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido de maneira intensa, o Espírito nos conduzirá ao fundo estável e sereno, nos conduzirá à “casa”, à nossa verdadeira identidade, à
“Terra prometida”, onde há fartura de nutrientes. É preciso retornar à nossa “casa interior” para esvaziá-la de todo desejo de poder, de vaidade, de prestígio e de ridículos ídolos; somente Deus é Senhor de nossa vida.
O tempo quaresmal põe às claras aquelas atitudes que afogam a possibilidade de viver o seguimento de Jesus com mais inspiração; tal vivência desmascara um modo de viver acomodado aos critérios do mundo que petrifica nosso coração: deixar-nos prender pelas garras do consumismo, concretizado nos “afetos desordenados” ou apegos aos bens, poder, autoimagem, lugares, pessoas, títulos..., que esvaziam a vida e nos deslocam do essencial.
Diante das carências existenciais, surge a tentação de buscar compensações, que exigem investimento afetivo, nos tiram do foco e nos fazem cair em estado de letargia e acomodação. Todas essas compensações têm algo em comum: elas nos fazem adormecer e, desse modo, abortam a novidade que poderia brotar em nós e atrofiam a esperança, pois nos prende ao mais imediato (fixação afetiva).
É preciso ter os olhos abertos para além das preocupações cotidianas e poder entrar em sintonia com a presença d’Aquele que vem sempre ao nosso encontro. O maior inimigo de nossa existência é a dispersão, ou seja, investir afetivamente nas coisas cotidianas mais imediatas e esvaziar o horizonte de sentido de nossa vida. Para investir afetivamente no seguimento de Jesus, é preciso alargar espaço em nossas moradas internas, reordenar os afetos, expandir o coração.
Assim, a contemplação de Jesus no deserto nos move à liberdade e se manifesta como um chamado a uma vida mais simples, partilhada, apaixonada, natural, livre, transcendente, intensa, comprometida...
Como seguidores(as) de Jesus, todos nós também temos a experiência do que significa a tentação do poder. Em um mundo onde as relações se estabelecem através da força, da dominação, de uma maneira de exercer o poder, onde o forte se impõe sobre o fraco, o rico sobre o pobre, o que possui informação sobre o ignorante..., o fruto do discernimento de Jesus nos introduz na nova ordem de relações que devem caracterizar o Reino: nele a vinculação fundamental é a da irmandade no serviço mútuo.
A partir do deserto, a prática de Jesus vai desestabilizar todos os padrões e modelos mundanos de poder, desqualificando qualquer manifestação de domínio de uns sobre os outros: inaugura-se um estilo novo no qual o “desenho circular” desloca e dá por superado o “modelo hierárquico”. Sua maneira de se relacionar com as pessoas marginalizadas e excluídas vai pôr em marcha um movimento de inclusão onde, uma casa acolhedora e uma mesa partilhada com os menos favorecidos, invalidam qualquer pretensão de poder, de prestígio, de situar-se acima dos outros, devolvendo a todos a dignidade perdida.
À luz do tema da Campanha da Fraternidade (Fraternidade e moradia), podemos dizer que, no Projeto-Reino de Jesus, a casa-lar ocupa o centro, pois ela convida, convoca e abre espaço na vida de seus moradores, possibilitando a sociabilidade, a partilha, a vivência de valores interpessoais, de humanização.
Nela e com ela aprendemos a acolher o outro como dom; aprendemos a nos doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade.
A casa é também o lugar onde acolhemos as alegrias e as tristezas do outro, os êxitos e os fracassos... Ela é o lugar do suporte das relações, espaço que garante o sustento que alimenta o corpo, o emocional, o psíquico, o espiritual e o social. Esse lugar humano é revelador de cultura, de aprendizado e base para a vivência dos valores individuais e coletivos. Lugar fecundo, onde o imprevisível pode acontecer.
Texto bíblico: Mt 4,1-11
Na oração: No silêncio de seu deserto, entre em diálogo profundo com Aquele que faz morada em seu interior.
- Você é convidado(a) a adentrar-se no território sagrado, chamado “deserto do encontro”. Tão rico é esse lugar que sua espiritualidade, vista como manancial da vida, não exclui nenhum momento: situações tristes, felizes, momentos de sofrimento, de luta, de vitória...
- Nesse espaço, onde o Eterno quer habitar, é que você encontrará o bálsamo e o alívio para sua existência psíquica e espiritual. Nessa fonte sagrada, o sofrimento pode ser compartilhado, a tristeza transformada em alegria, as trevas em luz, o desejo em realidade, a esperança pode ser reacendida...
Pe. Adroaldo Palaoro sj
19.02.26

“Tu, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido” (Mt 6,6
A Quaresma chega de novo, sempre nos chamando a acolher a Boa Notícia a partir de dentro, a partir da conversão do coração. Embora “sejamos pó e ao pó retornaremos”, o que é mais autêntico em nós se revela no serviço e no amor, como Aquele que afirmou ser o caminho, a vida e a verdade.
Estamos iniciando mais um percurso quaresmal, centrados na pessoa de Jesus Cristo, crescendo na identificação com Ele e dando uma feição nova ao seguimento.
Sabemos que a Quaresma é um caminho de discernimento e mudança. Os meios que ela oferece para esta transformação espiritual são as chamadas “práticas quaresmais”: jejum, oração e esmola. O jejum nos ajuda a recuperar a liberdade frente às desordens de todo tipo, adotando um estilo de vida mais simples; a oração faz com que todo o nosso ser se volte para Deus e nos deixemos conduzir por Ele; a esmola nos arranca de nossa comodidade e ativa em nós as atitudes de compaixão, solidariedade e cuidado, fazendo-nos passar da indiferença à responsabilidade diante dos outros, sobretudo dos mais pobres e excluídos.
“Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas” (Mário Quintana). Para podermos viver o tempo quaresmal com mais intensidade e inspiração, vamos entrar em sintonia com a Igreja no Brasil que nos propõe a Campanha da Fraternidade como mediação para despertar nossa sensibilidade diante de situações desumanizantes em nossa realidade. Com o tema: “fraternidade e moradia”, e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a CF quer trazer à tona o drama da falta de moradia que afeta grande parcela de nosso povo.
O que é “estar em casa” para nós hoje, num mundo estranho e em constante mudança? O que significa “casa” para nós atualmente? Que tipo de sentimento está conectado a ela? Onde nos “sentimos em casa”? O drama da falta de moradia para todos é sintoma do caos presente no interior de cada um. O problema da moradia não é só uma realidade externa; existe uma crise de moradia muito mais grave que a falta de casas: é a escassez de pessoas interiormente acolhedoras e disponíveis para seus irmãos.
Uma das metáforas bíblicas mais adequadas para entender nosso momento atual é aquela que fala do “regresso à casa”. Embora existam demasiados ruídos, fugas, competições, vivências superficiais nesta sociedade incerta e estressada e que parecem afogar a pessoa, não é difícil perceber um anseio interno que se expande e que pode ser resumida nesta expressão: “desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa!”.
Com frequência, as pessoas se acomodam em sobreviver, não investem seus recursos internos numa causa mobilizadora e acabam atrofiando o sentido de suas vidas. E, no entanto, se elas prestarem um mínimo de atenção à voz interior, sentirão o brotar do desejo de uma vida mais plena, ativarão a escuta do Mestre interior que, com frequência, sussurra: “retorna à tua casa!”
O ser humano aspira viver em sua casa interior e, por mais distante que esteja da mesma, o sentimento mais forte é o da saudade. Na vida de cada pessoa acontece uma transformação radical quando ela é capaz de experimentar, em si mesma, esse “lugar” interior, referido com a imagem da “casa”. Um lugar de silêncio, em meio a qualquer agitação das ondas; de calma, em meio a qualquer tempestade; de luz, em meio a qualquer obscuridade; de alegria serena em meio a qualquer mal-estar ou angústia...
Esse é o lugar onde a pessoa se reconhece a si mesma: ali ela sente o seu ser, para além daquilo que ela faz. E só ali é possível o “descanso”, no sentido mais profundo dessa palavra. E é justamente desse lugar onde brota o convite que se repete: “retorna à tua interioridade!”
“O ser humano só está em casa no mistério de Deus” (Clemenz Schmeing). Só quando ele experimenta o “mistério de Deus” que está presente nele é que poderá verdadeiramente se “sentir em casa”. Ele só pode permanecer nele mesmo porque se sente habitado pelo próprio Deus que o sustenta e lhe fala ao coração.
Trata-se da “tenda interior” na qual o próprio Deus faz sua morada nele; ali, é plenamente ele mesmo, verdadeiramente em casa. Ele precisa apenas olhar para dentro e transitar pelos espaços interiores. Descobrirá, então, que o céu está nele e ali, no céu interior, está a verdadeira “terra prometida” que ninguém pode roubar ou destruir.
No contexto social pós-moderno as pessoas relatam que perderam não somente seu lar exterior, mas também o interior. Elas se percebem sem o sentimento de acolhida e proteção; elas já não sabem mais quem são; perderam seu vínculo de pertença, além de não mais saberem o que as sustenta; não sabem mais onde poderão encontrar segurança e acolhimento.
Diante da “cultura líquida” e “deslocada” na qual vivemos, é urgente gerar espaços e tempos que facilitem reabrir as vias da interioridade, possibilitar o retorno à “morada interior”, onde é gestada a própria identidade e as opções mais sólidas. Espaço e tempo no qual podemos entrar em contato com algo que a plenifica e a expande.
Nesse sentido, a vivência da Quaresma revela-se como uma excelente oportunidade para “voltar à casa interior”. Pacificados em nossa “casa interior”, brotará em nós uma sensibilidade solidária para lutar em favor de uma moradia digna para todos.
Neste mundo disperso e distraído, a vivência quaresmal pode dar referências e amparo; no percurso que fará, cada um vivenciará sua casa interior; entrará em contato com algo nobre no coração que pode estar encoberto por feridas, traumas, fracassos, sentimentos negativos...; ativará o anseio pelas raízes, a partir das quais poderá viver com mais inspiração e criatividade.
Quem habita em si mesmo, quem está desperto para aquilo que é mais nobre e que cuida dos seus movimentos interiores (inspirações, intuições, desejos...), construirá uma casa que será convidativa para que outros se aproximem, se sintam acolhidos, protegidos, amados...
No evangelho indicado para esta Quarta-feira de Cinzas, Jesus nos convida a retirar-nos para o nosso “quarto”; é aí o nosso deserto: trata-se de um lugar íntimo, sagrado, onde nenhum estranho tem acesso, todo impregnado de solitude e silêncio. É o lugar sagrado da nossa casa. Esse “quarto interior” é habitado por uma Presença providente e compassiva; só quem tem acesso ao seu “eu” mais profundo descobrirá que ele é “morada” do Senhor e que quer estabelecer um diálogo amoroso com ele.
Em grego, o termo “quarto” (“tameión”) significa também celeiro, local onde se guardam as provisões. Por isso “quarto” quer dizer também lugar onde estão guardados os alimentos, o sustento de cada dia, as energias, a criatividade, os sonhos, as intuições... É o lugar dos nutrientes indispensáveis para a vida.
Jesus insiste no caráter secreto desse lugar, de onde podemos escapar dos olhares alheios. É decisivo que a nossa única preocupação seja a de nos colocar apenas diante o olhar de Deus; o que conta é rezar com o coração: trata-se de reservar aí um espaço destinado exclusivamente a Deus.
Quando fazemos a experiência desse retorno à nossa “morada interna”, descobrimos que esse é o tesouro escondido, tão próximo, tão íntimo, capaz de transformar a nossa vida, nosso modo de proceder, de nos relacionar e de nos comprometer.
Texto bíblico: Mt 6,1-6.16-18
Na oração: - Quê mediações você vai ativar durante a Quaresma para ajudar a esvaziar sua “casa interior” e abrir espaço para a atuação livre de Deus?
- Como você se sente em sua casa interior? Precisa abri-la, arejá-la, modificá-la, iluminá-la... É espaço de acolhida, de gratuidade, de serviço...? Ou há falsos senhores que a habitam, travando o fluir de sua vida?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
16.02.2026

“Vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo”
Estamos no início do Sermão da Montanha, onde Jesus nos ensina e nos proporciona belas imagens, parábolas e histórias; elas só permanecem no coração e na mente quando são consideradas através da imaginação e não meramente explicadas como uma lição.
A proclamação das Bem-aventuranças desemboca nesta constatação: quando as vivemos, nós nos tornamos, naturalmente, “sal da terra e luz do mundo”. Trata-se de duas imagens profundamente eloquentes, que tem a ver com dois de nossos sentidos e que apontam para algo que todos aspiramos: o sabor e a luz.
As imagens não precisam de explicação nem de comentário. Explicam-se por si mesmas. Exigem, isso sim, uma resposta vital do leitor ou ouvinte. Quando nos deixamos interpelar por elas, descobriremos uma nova dimensão da existência à qual somos convidados. Podemos aceitar o desafio ou rejeitá-lo. As imagens nos colocam frente uma alternativa: ou continuar como estávamos em nosso modo de ser e viver, ou aceitar a nova maneira de assumir a vida que elas nos sugerem.
Embora o sal e a luz não tenham nada em comum, há um aspecto no qual coincidem. Nenhuma das duas é proveitosa em si mesma. O sal sozinho não serve para a saúde, só é útil quando acompanha os alimentos. A luz não é para ser vista; ela possibilita ter uma visão clara das coisas.
O sal e a luz têm duas formas diferentes de realizar sua ação: o sal remete a uma ação invisível; no entanto, próprio da luz é brilhar. De acordo com o texto, as formas de presença, significadas pela luz e pelo sal, não se eliminam; as duas são inseparáveis. Sal e luz são elementos expansivos; a importância não está neles mesmos, mas na relação com a realidade onde se fazem presentes: o sal realça o sabor dos alimentos; a luz revela a realidade escondida na escuridão.
O sal atua no anonimato. Se um alimento tem a quantidade precisa, passa desapercebido, ninguém se lembra do sal. Quando a um alimento lhe falta sal ou tem demasiado, então nos lembramos dele. Não se pode comê-lo diretamente. Se não há comida, o sal é simplesmente veneno. O que importa não é o sal, mas a comida temperada com sal. Quando a comida tem excesso de sal se faz intragável. A dose tem que estar bem calculada.
O significado é tão simples como profundo: o sal serve para que os alimentos realçam seu sabor; a luz serve para que se possa ver o que já existe. Ambos têm uma só função: servir para que outras coisas sejam válidas, para que sejam o que são. Ser sal e luz é ressaltar e potenciar tudo o que é positivo na vida humana.
“Vós sois a luz do mundo”: não é uma expressão de futuro, mas de uma realidade que já é presente.
Um pouco antes, Mateus nos havia dito que Jesus era “a luz que brilhou na Galiléia” (4,16). Agora, Jesus afirma que é luz todo aquele que encarna o espírito das bem-aventuranças. Ou seja, somos luz, como Jesus, na medida em que, esvaziando-nos de nosso eu, permitimos simplesmente que a luz “passe” através de nós sem encontrar obstáculo.
O texto do evangelho de hoje constitui uma clara afirmação de que a missão dos discípulos no mundo faz parte de sua própria identidade. Neles aparecem os traços fundamentais que caracterizam esta missão. “Vós sois” diz Jesus e não “vós deveis ser”, ou “tendes que se transformar em...” Os discípulos “são”, querendo ou não, pela força do chamado que lhes foi dirigido. “Sois”: este tempo verbal no presente refere-se a uma identidade marcada pelo modo de ser e de agir de Jesus. Quem o segue, afetado pelo seu chamado, fica plenamente transformado em sal da terra e luz do mundo.
Na brisa calma do monte, Jesus evoca uma imagem cálida e pede que imaginemos uma pequenina chama. É de uma lamparina que ilumina uma casa. Vemos uma chama dançante que expande sua luz.
E Ele pergunta aos seus ouvintes: “onde deve ser colocada a lamparina: dentro de um alqueire ou no candeeiro?” O alqueire era um recipiente que se utilizava para medir a quantidade de grãos. Não tem nada a ver com a lamparina. É absurdo utilizar um alqueire para cobrir uma chama que ilumina uma casa escura. Se está acesa, é evidente que a luz deve ser visível e tornar visível as coisas.
O tom das palavras que emprega revela uma grande preocupação por parte de Jesus: é como se quisesse nos alertar de que em nós há uma tendência inata à obscuridade, à penumbra, que corremos o risco de deixar na sombra o que deveria brilhar (nossos dons, nossos recursos...).
Por isso, suas palavras estão cheias de amor, são fogo, são chama. Isso é o que nós, como seus seguidores devemos ser, e não presenças obscuras e, talvez, sem sol. Suas palavras são pronunciadas para despertar a luz vacilante e tímida de nosso interior, e assim expandi-la amplamente.
Somos portadores da “luz nova”; não extinguir essa luz que ilumina dentro. Abafar essa luz é menosprezar a vida da Graça, o tesouro que nos foi confiado no batismo. Devemos guardá-la ciosamente, velar por ela, valorizá-la pela nossa colaboração, estimá-la e protegê-la, como a chama olímpica que nos levará à vitória.
Se voltamos ao início do relato da Criação, a primeira coisa que ouvimos é que Deus cria a luz; “faça-se a luz”: esta é a primeira palavra que Ele pronuncia como potência criadora e que possibilita a vida.
As trevas, as sombras, a obscuridade é não-ser e não-existir. Nossa fonte original é Luz.
O simbolismo da luz está muito presente em toda a Escritura, mas, de maneira especial, em dois momentos: a) na sua primeira carta, João define a Deus como Luz sem mistura de trevas; b) a afirmação de Paulo de que somos filhos da luz, a caminhar na luz, a desmascarar as trevas, a conectar com a Luz fontal, para que nossas obras sejam luz.
Através do apelo de Jesus, no evangelho deste domingo, somos convidados a aprender a gerir nossa luz e sabor/sabedoria, a viver em conexão com nossa verdadeira identidade, a gerar espaços de conhecimento daquilo que é essencial para que nós mesmos, nossas comunidades, nosso mundo, nossa casa comum, sejam reflexo do movimento profundo da fonte da Vida.
No último parágrafo do evangelho deste domingo, há um ensinamento esclarecedor: “...para que vejam as vossas boas obras e louvem o Pai que está nos céus”. A única maneira eficaz para transmitir a mensagem são as obras. Uma atitude verdadeiramente evangélica se transformará inevitavelmente em obras.
Evangelizar não é propor uma doutrina muito bem elaborada e convincente. As obras que os outros percebem devem desvelar as nossas atitudes internas. Quando elas são fruto só de uma programação externa, não ajudam os outros a encontrar seu próprio caminho. Só as obras que são reflexo de uma atitude vital autêntica, são canal por onde flui iluminação para os demais. O que existe em nosso interior, só pode chegar aos outros através das obras. Toda obra feita a partir do amor e da compaixão é luz.
Quando nos é pedido que sejamos luz, está nos dizendo algo decisivo para a vida espiritual, própria e dos outros. A luz brota sempre de uma fonte incandescente. Se o nosso coração não arde, não poderemos emitir luz. Mas se há brasas incandescentes, não poderemos deixar de emitir luz. Só se vivemos nossa humanidade, poderemos ajudar os demais a desenvolver a sua própria humanidade.
Ser luz significa pôr toda nossa bagagem espiritual a serviço dos outros.
Texto bíblico: Mt 5,13-16
Na oração: “O amadurecimento da experiência e uma visão de fé mais profunda evidenciam a grande Luz que nos precede, acompanha e segue no percurso da vida”.
- Deixa-te iluminar, leva a Luz nas suas pobres e frágeis mãos, iluminando os recantos do seu cotidiano.
- Deixa-te iluminar para seres presença que desperta o sabor da vida.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
08.02.2026

“Quando entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe” (Mt 2,11)
Para a Igreja do Oriente, hoje é o dia da Natividade, o dia que Jesus se manifestou como a Luz do mundo, o dia que Deus elegeu para manifestar-se a todos os homens através da pequenez do filho de Maria. Esta festa nos convida a descobrir a “epifania” não só em nós, mas em tudo e em todos. Tudo é transparência de Deus, tudo é manifestação de Sua presença providente e iluminadora.
O evangelho de Mateus nos faz aproximar do nascimento de Jesus através de um relato original, carregado de simbolismos que nos orientam e nos ajudam a captar o verdadeiro significado deste evento divino.
Por isso, é importante não ler o texto de forma linear, mas dando atenção aos diferentes cenários que se cruzam para ter uma visão panorâmica de tudo o que está acontecendo.
O primeiro cenário, que abre e fecha o relato, é o fato simples e cotidiano do nascimento de um menino numa pequena aldeia. Um menino em quem transparece a salvação de Deus, renovada e persistente em seu desejo de convidar todo ser humano a vivê-la.
Mas essa iniciativa divina carregada de gratuidade e ternura é vista como ameaça pelo rei Herodes e pela elite religiosa de Jerusalém que protagonizam a ação do segundo cenário. Herodes usa estratégias para cortar pela raiz a ameaça ao seu poder, quando fica sabendo que o anúncio da salvação de Deus brota a partir de baixo, da periferia, das fendas cotidianas da história.
Por sua parte, os Magos vindos do Oriente, que ignoravam os grandes desígnios divinos, só conhecidos pelos representantes religiosos de Israel, aparecem como buscadores honestos, pondo todo seu conhecimento e seu esforço em encontrar Aquele que salva e dá vida. Para isso, não duvidam em colocar-se a caminho, em questionar sua própria verdade e arriscar tudo a partir de uma intuição do coração.
Os Magos, dos quais Mateus se refere, representam o dinamismo próprio das religiões que vão mais além delas mesmas; um dinamismo que é busca da verdade, a busca do verdadeiro Deus, a busca da sabedoria, a busca de um sentido para a vida. Por isso, os magos são representantes dos “buscadores” de todos os tempos. Eles deixam transparecer a verdadeira identidade de todo ser humano, que se define como buscador.
Viver é desafiador na medida que viver é buscar. A dinâmica da busca marca a caminhada humana e define os rumos da vida. Vive-se em permanente busca e só à medida que se vive para buscar é que a vida se torna, de verdade, vida, com mais sabor e sentido. O que se busca define e determina o que é a vida da pessoa. “Diga-me o que você busca e lhe direi quem você é”.
É decisivo ter claro o que é que se busca. No supermercado da vida pode-se buscar tudo. As ofertas são muitas e são sedutoras. Viver para buscar “outras coisas” é correr o risco de perder o rumo, priorizar o menos importante, apegar-se ao que é passageiro, não perceber o que é e onde está o essencial. Muitas buscas, que permanecem na superfície da vida, acabam gerando prejuízos graves porque a atitude de busca, tão própria do ser humano, desemboca em algo sem sentido, sem horizonte, vazio.
É difícil alimentar o “espírito de busca” quando nossa realidade insiste na vivência do imediato, entendido como carência de um projeto de vida consistente, de uma causa mobilizadora, de uma razão por viver enraizada no coração. É difícil buscar quando alguém se encontra acomodado e satisfeito de tudo e, ao mesmo tempo, de nada. Então, para que buscar? Como despertar e alimentar a fome e sede da busca?
A força da busca que move o próprio coração exige cuidado e especial atenção. Toda busca inclui a purificação de motivações para permitir, como fruto, o encontro de tudo o que garante e promove a vida. É exercício de discernimento constante: “o quê busco? Por que busco? Tem sentido e valor aquilo que busco? Para onde me leva a força da busca?...” É preciso buscar sempre, pois é esta atitude que dá garantias de fecundidade e criatividade à vida.
Nesse sentido, o relato dos Magos é uma das passagens bíblicas mais belas que descrevem o sentido, o valor e a dinâmica da busca. De fato, todo o relato e todos os protagonistas são pessoas que estão em busca: Herodes e toda Jerusalém, os sumos sacerdotes e os escribas do povo e, obviamente, os Magos. Todos envolvidos na inquietante busca do Messias. No entanto, quanta diferença nas motivações e nos êxitos desta busca.
Herodes não é somente o cínico e perverso rei que teme pela estabilidade do seu trono. É também aquele que vive na mentira e que tem medo da verdade. Quer, portanto, buscar a verdade, mas para eliminá-la radicalmente da face da terra. Tudo faz para conservar egoisticamente o seu poder. Este é o seu ídolo e este é o seu verdadeiro deus. Os sumos sacerdotes e os escribas sabem onde buscar a verdade, tem a Escritura, são “experts” em indagar e investigar a verdade, mas permanecem fechados e resistentes em sua posição. No fundo estão a serviço do poder e tem medo de perder seu lugar.
Quão diferente, contrastante e diametralmente oposto foi a atitude de busca dos Magos!
E não foi ingenuidade o fato de irem perguntar ao rei da Judéia onde tinha nascido o Rei dos judeus; foi, antes de tudo, o desejo de envolver os outros na própria busca da verdade. Não viram grandes prodígios, mas experimentaram uma grande alegria. Compreenderam que a aventura da busca não se dá nas alturas, mas no encontro com a humanidade. Por isso, depois de um longo e penoso percurso, encontraram-se diante d’Aquele que se humanizou. Só lhes restou “caírem de joelhos diante dele e o adoraram”. E quando aqueles homens se levantaram, já não eram mais os mesmos.
Ajoelhar-se pode parecer um gesto servil, mas, em ocasiões como esta, é um gesto de humildade. Implica descer do pódio do ego, sobre o qual ele busca subir constantemente, acreditando ser o melhor, o mais sábio, o mais famoso, o mais perfeito. De joelhos, clama-se por compaixão, ajuda, clemência, compreensão, misericórdia. E levantar-se é poder de novo estar de pé, tendo passado pela experiência da pequenez.
Além disso, pôr-se de joelhos diante daquele menino significa abrir passagem na própria vida à ternura, à grandeza que não está em saber mais, nem ser mais forte, mas a de ser mais humano e, por isso, profundamente imagem de Deus. Ajoelhar-se diante daquele menino é, acima de tudo, despertar o deslumbramento, o assombro, a admiração. Quando alguém se encontra com aquele que “é” luz, parece que tudo em sua vida se torna mais luminoso, e essa luz se revela expansiva.
Herodes e sua corte representam o mundo do “ego” inflado, prepotente, que busca seus próprios interesses e vê ameaça por todos os lados. Tudo vale nesse mundo quando se trata de garantir o próprio poder: o cálculo, a estratégia e a mentira. Vale inclusive a crueldade, o terror, o desprezo ao ser humano e a destruição de inocentes. Apresenta a falsa imagem de ser defensor da ordem e da justiça, mas é vulnerável e mesquinho, pois termina sempre buscando um “menino” para matá-lo.
Para reconhecer a dignidade do ser humano, em vez de destruí-la, é preciso percorrer um caminho oposto àquele que Herodes segue. Como os Magos saem de sua terra para buscar o Menino, nós precisamos sair de nosso “ego”, de nossas seguranças terrenas para buscá-Lo. Sem essa atitude, embora tenha nascido o Menino, embora apareça a estrela, o encontro não acontecerá.
Texto bíblico: Mt 2,1-12
Na oração: Diante de milhões de estrelas de nosso mundo que ofuscam nossos olhos, é preciso aprender a discernir aquela que nos conduz a Jesus. Nesse sentido, o relato dos Magos é paradigma de discernimento.
- Pedir a graça de ser libertado(a) das atitudes e comportamentos que geram resistência e acomodação; e graça de saber descobrir e discernir no céu, na história e em si mesmo(a) os sinais externos, as moções interiores e os caminhos que levam ao Deus da Vida e à vida plena das pessoas que Deus ama.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
02.01.2026
imagem: Bartome Estevaban Murilo

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20)
No início deste Novo Ano busquemos inspiração no relato do evangelho de Lucas sobre os pastores dos arredores de Belém, pastores que buscam, encontram e constroem a paz. Relato que quer abrir nossos olhos, despertar nossa esperança, suscitar nosso compromisso e abrir um novo horizonte de sentido na nossa vida.
Muitas vezes costumamos cair neste erro: considerar o ano civil como um “ciclo”, como um tempo circular que volta sempre, sem mudança, repetindo-se mecanicamente. Esta sensação de circularidade imprime monotonia e rotina à nossa vida e não corresponde ao que proclamamos como cristãos; continuamente celebramos o Deus da surpresa, o Deus da novidade, Aquele que vai sempre à frente, que não se repete, Aquele que sustenta e impulsiona nossa história (pessoal, comunitária, mundial, eclesial...), que nos interpela e nos compromete na construção do Reino, até que Jesus (o centro de nossa vida) seja realmente “tudo em todos”.
Foi assim que os pastores, ao se deslocarem para a gruta de Belém, se depararam com a surpreendente novidade de Deus: a salvação se fez visível na margem, na periferia da vida. No rosto de uma criança recém-nascida se revelou a ternura acolhedora de Deus. O “novo” brotou do chão despojado da vida e não dos palácios, dos templos.
Neste primeiro dia do Ano vamos reler o relato dos pastores com a liberdade com a qual foi escrito por Lucas. É de noite. Alguns pastores velam seus rebanhos dos perigos. São pobres, marginalizados da sociedade e do sistema religioso. Desejam a paz, a paz da justiça ou a justiça na paz. Não querem a paz do império romano, de seu poder violento. Tampouco podem esperar que algum “messias” (rei ou sacerdote) traga a paz. Que podiam eles esperar de Deus, pois são considerados como gente de duvidosa moralidade e ritualmente impura e, portanto, excluída dos benefícios divinos do templo, gente privada do perdão e da paz divina que a religião promete? Que podem esperar do “Deus altíssimo”, invocado pelos poderosos e a quem os sacerdotes do templo imolam os cordeiros de seus rebanhos? Que podem esperar do Deus manipulado pelos mestres da lei que os exclui, por serem ignorantes e inferiores? Por acaso existe outro Deus?
E, de repente, sentem que, na noite da desesperança, uma luz os envolve e uma voz os consola. E se põem a caminho, guiados pelo coração e pela luz. E na gruta, onde costumam guardar seus rebanhos, a luz de seus olhos se encontra com a glória da vida e do universo, encarnada no sinal mais humilde e luminoso: um recém-nascido. Nas ruínas do velho mundo quebrado, do mundo desgarrado, se acende a luz da justiça que garante a paz verdadeira, a luz da paz que gera a justiça. Nas profundezas do universo e de cada ser humano se acende e brota sem cessar um mundo novo, onde as honras não fascinam, as riquezas são compartilhadas, os poderes se rendem, um mundo onde a justiça e a paz se encontram.
“Já não há mais um Deus altíssimo”, poderiam ter dito aqueles simples pastores. Não existe o Deus dos reis com seus exércitos, tronos e palácios, nem o Deus das religiões com suas doutrinas, cleros e templos. Deus é o Ser fontal de tudo quanto existe. É a Luz originária da qual tudo nasce e vive desde sempre. É a luz da energia que tudo atrai e tudo impulsiona. É a Paz na justiça, a paz ativa, terna e subversiva, que cria e recria tudo incessantemente, de transformação em transformação. É o Amor universal que atrai tudo e tudo impulsiona para o “novo céu e a nova terra”.
É preciso ter um coração de um humilde pastor para compreender o “mistério” da Gruta de Belém. O Deus de Jesus não é o Deus que já tem tudo preparado, atado e bem atado; não é o Deus da inércia ou da rotina, mas o Deus que faz tudo novo e, por isso, nos move à renovação permanente e nunca à acomodação. É o Deus sempre criativo que suscita o “novo” e o “surpreendente”, que não “ata” as coisas nem amarra a Criação; por isso, nos convida a sermos co-criadores e colaboradores com Ele na criação contínua através do trabalho e da ação humana. É o Deus da surpresa e da liberdade; uma liberdade humana que conduz a situações imprevisíveis.
Naquela noite de Natal, numa Gruta despojada de qualquer tecnologia, aconteceu uma conexão muito especial, a melhor conexão jamais inventada. Deus, rompe as distâncias, faz-se “humano” e se põe em contato com a humanidade, sem mensagens nem mensageiros. É certo que fora anunciado pelos profetas, mas fazia muitos anos e não havia nenhum sinal extraordinário de que fosse acontecer naquele momento. Mas, esta é a surpresa: Ele vem em pessoa, rompe as distâncias entre o céu e a terra, entre sua divindade e nossa humanidade; naquela luminosa noite, Deus, em Jesus, nascido da Virgem Maria, se faz um de nós, “um entre tantos” e nos faz partícipes de sua vida. O “Verbo se humaniza para nos divinizar”; e assim recebemos a filiação divina e nos tornamos filhos e filhas de Deus.
O Deus do “novo” vem dar sentido e inspiração ao Novo Ano que se inicia. É Ele que desperta nossa imaginação, reacende nossos desejos e alimenta nosso espírito de busca. Imaginação, inspiração, originalidade, criatividade... são o sal da vida e o sopro do Espírito; é o que faz sair luz das sombras e ordem da confusão; é o início de tudo. Tudo o que é novo começa por uma inspiração e o que não é novo é apenas repetição do que já foi. A criação é privilégio do Criador. Participar de alguma maneira humilde, simples, mínima, na emoção suprema da criação primeira é o prazer mais íntimo que o ser humano pode ter sobre a terra. A criatividade e a inspiração são a faísca do divino no coração do ser humano. É a expressão da inspiração que, tal como vento, não se sabe de onde vem e nem para onde vai. Por nossa conta não podemos fazer muito, apenas nos preparar, estar atentos, observar o horizonte, esperar a oportunidade. Mas quando a inspiração surge é preciso lançar-nos. Quem hesita diante da oportunidade perde a vida, que é feita de oportunidades. É preciso aprender a reconhecê-la, acolhê-la com imediata alegria e vontade decidida. “Cada um deve inventar sua vida”.
A vida só tem sentido quando se torna “história”, isto é, quando não se limita a repetir o passado, senão que gera algo novo a partir de uma origem. Todo ser humano experimenta, de alguma maneira, “impulsos para a superação de si”; sua vida está orientada para algo definitivo, pleno... e ele vai construindo-se a si mesmo até converter-se em alguém único e irrepetível. A maneira de fazer isso não pode ser forçada, mas consiste em aceitar o que já se tem e, partindo daí, dar uma direção nova à sua história.
Somos impulsionados, continuamente, a romper com a vida formal e convencional, a vida ordenada com normas claras e recompensas seguras, o exercício de virtudes pessoais... e caminhar para uma vida mais audaz e incerta, de horizontes amplos, de exigências que nos impulsionam a “começar de novo”, de significado mais universal; despertar a motivação e a intenção daquilo que vivemos e fazemos: por quê? para quem?... Temos um coração maior que o mundo e desejos que nos fazem ter asas de águia.
O ser humano é, em sua essência, mudança, movimento, dinamismo, energia... Deus não nos deu um espírito de timidez, de medo, de fuga, de acomodação..., mas de audácia, de criatividade, de luta, de participação... Quando alguém não vive a vida a fundo, só lhe resta a rotina da vida e o vazio vital.
Texto bíblico: Lc 2,16-21
Na oração: Não percebemos precisamos de um coração novo? Não sentimos a necessidade de sacudir nossa apatia e autoengano? Como despertar o melhor que há em cada um de nós? Como reavivar a atitude humilde e transparente dos simples pastores que “glorificavam e louvavam a Deus” depois de terem encontrado o Menino na Gruta?
- Qual é o “novo” que Deus quer realizar em nós e conosco, em nossos ambientes, neste ano que começa?
- É preciso nos aproximar da Gruta de Belém “com todo acatamento e reverência possível” e, se fazemos isso de boa vontade e de bom coração teremos o privilégio de nos sentir envolvidos pela rede do amor misericordioso de Deus.
Se conseguirmos que o ano de 2026 seja “novo” com a eterna novidade da bondade, então também teremos um ano feliz.
Um inspirado 2026!
Pe. Adroaldo Palaoro sj
01.01.2026
imagem: pexels.com

“Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12)
Há mais de um mês que somos continuamente bombardeados pela publicidade, oferecendo um “natal” esvaziado, centrado no consumo, no impacto das luzes que nos cegam, nas insistentes ofertas que nos ensurdecem... A impressão que temos é que tudo no Natal é publicidade, consumismo, materialismo...
Há uma pergunta que todos os anos nos incomoda, quando observamos pelas ruas os preparativos que anunciam a proximidade do Natal: o que existe ainda de verdadeiro no fundo desta festa tão esvaziada por interesses consumistas e por nossa própria mediocridade? Não há algo mais nobre e profundo que os interesses do mundo não conseguem afogar?
Continuamente ouvimos falar da superficialidade da festa natalina, da perda de seu caráter familiar, da vergonhosa manipulação dos símbolos religiosos e de tantos excessos e despropósitos que deterioram hoje o sentido do verdadeiro Natal.
Mas, o problema é mais profundo. Como pode celebrar o mistério de um “Deus feito homem” uma humanidade que vive praticamente de costas para Deus e que destrói, de tantas maneiras, a dignidade do ser humano? Como pode celebrar “a humanização de Deus” uma sociedade marcada por uma desumana indiferença, onde os grandes sonhos e causas mobilizadoras estão esvaziados?
Para muitas pessoas não faz diferença crer ou não crer, ouvir que “Deus morreu” ou que “Deus nasceu”. Sua vida continua funcionando como sempre. Não parecem necessitar mais de Deus.
A realidade contemporânea está nos empurrando para esta grave situação: já faz algum tempo que se falou da “morte de Deus”; hoje, fala-se da “morte do ser humano”; faz alguns anos que foi proclamado o “desaparecimento de Deus”; hoje, anuncia-se “o desaparecimento do ser humano”. Não será que a morte de Deus arrasta consigo, de maneira inevitável, a morte do ser humano?
No entanto, para quem tem um coração contemplativo, percebe que junto a tantos luminosos sinais, há outros mais discretos, que ninguém anuncia: relatos que falam daquela noite em Belém, de uma Boa Notícia, de um Deus que nasce nas entranhas da terra, que é acolhido por humildes pastores...
Nesta Noite Santa, a esperança que foi sendo alimentada durante séculos, rompe o céu e se derrama numa gruta de uma aldeia insignificante com o nome de poesia: Belém.
Nesta Noite Santa, o rebento de um tronco já seco germina para a vida do Universo, abrindo um novo tempo e uma nova Criação, onde não haverá pranto nem lágrimas.
Nos olhos fechados de um recém-nascido, deitado em um presépio, se revela e se faz visível toda a ternura de Deus, toda a espera de muitos séculos, todos os sonhos de muitas gerações.
Nesta Noite Santa, Deus se faz um de nós, passando a transitar, como um “clandestino”, por entre os mais excluídos e revelando que todos somos incrivelmente amados e com capacidade ilimitada de amar.
Nesta Noite Santa, o silêncio se faz gesto radical de entrega, amor transbordante, humanidade plenificada. Na presença repousante de uma criança, encontra-se toda a humanidade que sonha um mundo diferente, de paz, de justiça e de concórdia.
A festa de Natal nos conecta com a essência de nossa própria humanidade. O que se celebra é um Deus-menino, que está chorando entre animais, e que não mete medo nem julga ninguém. É bom que os cristãos voltem a esta imagem; ela representa o “puer aeternus”: o eterno menino que, no fundo, nunca deixamos de ser.
Ter o “eterno Menino” diante dos olhos desperta em nós renovação da esperança, o retorno à inocência perdida, o surgimento de novas possibilidades de vida que correm em direção ao futuro.
Imaginamos “outro Natal possível”, mais próximo do Menino Jesus, nascido humildemente em um presépio, onde, em lugar de “dar presentes”, nos “faremos presentes” junto aos famintos, necessitados e excluídos, abriremos corações e portas à chegada salvadora do Deus que se humaniza. A solidariedade e a ternura abrirão passagem frente ao individualismo, ao egoísmo e ao consumismo.
Imaginamos um Natal onde aproveitaremos para fazer uma viagem ao interior de nosso coração, ali onde habita o Deus da Vida que dá fundamento à nossa verdadeira identidade.
Imaginamos um Natal simples, solidário, alegre... sem luxos, onde abriremos espaços em nosso interior para que ali encontrem hospedagem todas as pessoas que sofrem e que são as preferidas de Deus Pai e Mãe.
Desejamos ardentemente que Deus nasça de novo entre nós, que brote com Luz nova em nossas vidas, que abra caminho em meio aos nossos conflitos e contradições.
Para encontrar-nos com esse Deus não é preciso ir muito longe. Basta nos aproximar silenciosamente de nós mesmos; basta “descer” em nossa gruta interior, em nossos desejos mais profundos.
Deus sempre é surpreendente e novo; é assim que Ele, como um anônimo, se aproxima de nós, onde estamos, para fazer de nosso eu profundo sua Gruta, onde a Vida se revela. O Deus “inacessível” se fez humano e sua proximidade misteriosa nos envolve. Em cada um de nós pode nascer Deus.
Caminhemos até Belém! Vamos todos fazer este caminho em direção ao “Deus clandestino”, para que as águas do Natal possam empapar nossas vidas e despertar em nós o assombro, a acolhida, o olhar contemplativo... diante do Menino que não fala, mas revela tudo de Deus.
Basta “ser gruta” para Ele.
“Eu vos anuncio uma grande alegria... nasceu para vós um Salvador”. Quem está preparado para escutar e acolher esta surpreendente notícia? Somente os pastores, a profissão mais desprezada e marginalizada daquele tempo. A Salvação é anunciada em primeiro lugar aos oprimidos, aos que não são contados, aos excluídos. Os demais estão descansando, adormecidos, acomodados; não precisam de nenhuma salvação.
Deus sempre é Boa Notícia. Deus deixa transparecer seu rosto salvífico no rosto de um recém-nascido.
Atualizando este mistério, podemos assim afirmar: Deus está vindo sempre em nossa direção, para nos comunicar vida plena. Os pastores saem correndo. Não é fácil encontrá-Lo. Alguma pista? Um menino, enrolado em faixas e deitado entre palhas, num coxo de animais. Seus pais não dizem nenhuma palavra. O que poderiam dizer? Deus decide enviar sua Palavra e nos envia um recém-nascido que não sabe falar.
Tudo o que nos torna mais humanos deve ser incorporado a esta Festa: o encontro familiar, a refeição, os abraços, a memória celebrativa...; tudo pode nos ajudar a descobrir o que somos na nossa essência humana e manifestar isso com muita alegria. A festa adquirirá sentido para todos os momentos em que soubermos unir o humano e o divino. Se formos capazes de ir mais além da superficialidade, poderemos nos encontrar celebrando a única realidade que interessa: a Vida que está em nós e espera ser ativada.
Deus continua nascendo entre nós se O deixamos transparecer em nossas atitudes diante dos outros, em nossa entrega e sensibilidade oblativa. Deus está onde nós O descobrimos e nos fazemos presentes. Deus está onde há amor, compaixão, vida partilhada, acolhida...; ali onde um ser humano é capaz de superar seu egoísmo e viver descentrado; ali onde há compreensão, perdão, abertura ao diferente...; ali está Deus, “assim novamente encarnado” (S. Inácio).
Texto bíblico: Lc 2,1-14
Na oração: O mais importante acontece no silêncio, acontece no centro de sua própria vida e o convida a olhar para além das aparências. Viver um Natal inspirado implica fazer uma viagem ao interior de seu coração, ali onde habita o Deus da Vida que dá fundamento à sua verdadeira identidade.
Continua sendo Natal em cada história, em cada terra, em cada vida que se abre ao Mistério, em cada verbo que se faz eco das palavras de justiça e de paz, em cada gesto que se soma na mobilização dos direitos de todos, dos direitos da Terra, dos direitos da vida.
Um Natal com sabor de Evangelho fará toda a diferença em sua vida!
Um inspirado Natal a todos!
Pe. Adroaldo Palaoro sj
23.12.2025

“Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado, e aceitou sua esposa” (v. 24)
O Advento nos oferece uma excelente oportunidade para nos aproximar dos verdadeiros protagonistas da história: homens e mulheres de todos os tempos, pessoas pouco ou quase nada conhecidas que, com sua passagem humilde por esta terra, com sua presença despojada, sua espiritualidade do serviço, sua confiança no Deus providente, nos inspiram e nos conduzem a viver o verdadeiro progresso humano e espiritual.
Os Evangelhos narram a história vivida e contada por protagonistas de “segunda fila”, ocultos nos relatos históricos “oficiais” e que só narram as façanhas dos poderosos, com suas ambições, seus privilégios e a opressão que exercem sobre os povos.
O tempo do Advento nos faz entrar em sintonia com S. José e seu assombro diante daqueles momentos tão desconcertantes que ele viveu. E, nele, podemos todos nos reconhecer. Quem não experimentou em seu interior a insatisfação cheia de resistências frente às mudanças que fizeram cair o que fora planificado com toda expectativa. A mudança de planos, seguida de dúvidas, nos alteram, nos dividem por dentro, nos deixam na obscuridade. E é na resposta confiada onde aparece o caminho que nos faz crescer de verdade como pessoas.
A figura de S. José nos permite retornar à essência dos Evangelhos. “A boa notícia do Evangelho consiste em mostrar como, apesar da arrogância e da violência dos governantes terrenos, Deus sempre encontra um caminho para cumprir seu plano de salvação” (Papa Francisco, Patris Corde, 5).
É preciso, portanto, reorientar nosso olhar: primeiro para ler a história a partir dos últimos, dos pequenos e descartados; e, segundo, para desejar profundamente permanecer entre os que estão “à margem”. É por ali que Deus “entra” na história; é ali que surge o broto de um novo tempo e de uma nova esperança.
O testemunho de José vem, além disso, reafirmar a convicção de que nos mais humildes repousa o melhor e mais belo da humanidade. Das periferias, dos “menos-valorizados” ..., surgem valores e experiências que nos fazem progredir a todos, nos propõem perguntas e apontam para novos horizontes...
O evangelista Mateus inseriu o personagem José, "o esposo de Maria" (Mt 1,16), no início de sua catequese, e o descreveu como modelo de quem adere ao discipulado do Reino, proclamado e vivido por Jesus de Nazaré. O leitor-ouvinte de sua catequese, ao longo da narração, deve se dispor a assumir atitudes idênticas às de José na relação com o querer divino, inspirando-se nesse discípulo ideal.
O texto evangélico de hoje afirma claramente o conflito vivido por José. Ele viveu a experiência de uma verdadeira “noite escura”, do “silêncio de Deus”. Mais uma vez é Deus quem toma a iniciativa.
José era um pobre noivo, pertencente a uma nação oprimida e a uma categoria social esquecida, mas conservava límpidos os olhos do espírito, prontos para perceber e acolher a presença surpreendente de Deus em sua vida. Na narração de Mateus, o anjo comunicou ao confuso José o mistério que estava acontecendo com sua esposa Maria. Por essa revelação do anjo, José foi atingido como que por um raio, foi tomado de surpresa: sua noite, seu silêncio, seu sono, sua rotina diária foram quebrados por uma novidade absoluta.
O que José recebeu no sonho foi o chamado a uma existência marcada por constantes “deslocamentos”, pois, a mulher que entrou em sua vida e vai entrar em sua casa, Maria, levava em suas entranhas Aquele que para muitos será uma presença provocativa, uma ameaça ao poder estabelecido, um transgressor das leis e normas religiosas... A vida inteira de José, o justo, vai ficar desestabilizada a partir deste momento porque foi convidado a aproximar-se do mistério surpreendente do Deus feito homem.
Exteriormente, o mundo permanecia como estava, aparentemente nada mudou; mas, ao associar-se ao destino do “Deus que se humaniza”, também José se revelará como presença surpresa, marcada pelo cuidado, pelo silêncio e pela prontidão ao chamado de Deus.
José de Nazaré é o ícone da maior parte dos homens da humanidade que, a partir do silêncio e do anonimato, transitam pelo caminho do trabalho e da família, ambas primitivas vocações dadas no Genesis, no momento da Criação. Na era da imagem em que vivemos, na qual é mais importante “aparecer” que “ser”, a figura de S. José é contracultural e ilumina milhares de seres humanos, para que sejam pessoas com dignidade e não massa amorfa de consumidores e excluídos, presos nas redes sociais e caminhando em direção ao abismo da solidão e do sem-sentido.
A essência da figura de S. José continua sendo seu amor comprometido e kenótico (esvaziamento); não se pode assumir tanto amor sem um esvaziamento e um desmonte do egoísmo e da vaidade. S. José é a imagem daqueles que estão continuamente abertos à Graça transformadora e, portanto, plenamente humanos, em sintonia com a humanidade nova dos construtores do Reino; aqueles que sabem que não são ilhas perdidas de boas intenções, mas que sentem sua pertença a uma História e a um Povo; aqueles que sabem que, para além do êxito ou fracassos pessoais, visibilidade ou invisibilidade midiática, contribuem com suas vidas a um plano maior, a do amor de Deus.
No evangelho de Mateus, a personalidade de José está marcada por uma atitude eloquente de silêncio e discernimento. Um silêncio que não era um vazio, mas um espaço rico na alma, para escutar continuamente, em seu interior, a voz de Deus e o clamor dos demais. Seu silêncio também era habitado por incertezas e sofrimentos, momentos de solidão, de conflito interior, de escuta...
Como discípulos autênticos do Reino entramos em sintonia com o querer e o desejar de Deus nas situações onde nos falta clareza e parece nos encontrar num impasse. São muitas as circunstâncias em que, como José, devemos trilhar o caminho da justiça confrontado com decisões dramáticas a serem tomadas.
O discípulo do Reino, em hipótese alguma, age por impulso, tampouco movido por razões arbitrárias. Antes, nos momentos difíceis, quando deve tomar decisões importantes, valoriza o discernimento como tempo de ponderar tudo diante de Deus, com o desejo de ouvir sua voz, como José na escuta do anjo do Senhor. A voz divina faz-se ouvir de muitas maneiras, de modo especial, nas palavras das pessoas carregadas de sabedoria espiritual e experientes na arte de discernir o desejo de Deus no emaranhado de vozes e apelos em que o ser humano se vê enredado. Nas encruzilhadas difíceis da vida, vale a pena escutá-las!
O evangelista Mateus aponta outro detalhe: “José, era justo...”. Esta expressão na linguagem bíblica é qualificativo de uma pessoa honrada, que se abre à Presença do Deus Amor sem colocar resistência, que busca fazer o bem e retificar o que está torto. É o “anawin” na linguagem bíblica (o pobre de Javé). Como a Virgem Maria, também S. José é o “pobre do Senhor” e pode cantar o “Magnificat”. José é “justo” porque não sucumbiu à tentação do poder, do prestígio social, da febre obsessiva de tudo possuir.
Como homem “justo”, José acolheu Maria sem impor condições prévias. Um gesto inspirador para este nosso mundo onde a violência psicológica, verbal e física sobre a mulher é patente.
Acolhendo Maria numa situação de pessoa “suspeitosa e indefesa”, José nos convida a acolher os outros, sem exclusões, tal como são, com preferência pelos mais fracos. Cada necessitado, pobre, sofredor, estrangeiro, prisioneiro, enfermo, é “o Menino” que José protege e cuida. Neste sentido, sua figura evoca a multidão de pessoas “justas” cuja conduta, em todos os rincões do mundo, é germen de vida e sinal de esperança.
Texto bíblico: Mt 1,18-24
Na oração: A espiritualidade do Advento pede de nós uma docilidade à audição da Voz que nos habita; é também o sussurro que vem da realidade e das coisas, carregada da Presença d’Aquele que desperta o nosso ser para o assombro, para a maravilha e para o milagre.
Diante do “Mistério” que nos envolve e nos escapa, brota do mais profundo do nosso ser, o grito cheio de surpresa.
Eis a plenitude da vida: mergulhar naquela Presença benfazeja que nos enche de sentido, de alegria, e nos surpreende a cada momento, nos invade e nos conduz a caminhos novos.
- Fazer memória das “surpresas” de Deus que despertaram um novo “movimento” em sua vida.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
19.12.25

“Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo...” (Mt 11,4)
Hoje precisamos ativar uma nova sensibilidade contemplativa para perceber a misteriosa ação de Deus em nosso mundo, marcado pela injustiça, pela violência, pela cultura da indiferença, do preconceito e da intolerância. Encontrar Deus numa realidade de profunda desumanização foi e será sempre um desafio.
Jesus, movido por uma sensibilidade oblativa, manda dizer a João Batista e a nós para que abramos nossos sentidos à realidade, ao novo. Não nos diz, como em outras ocasiões, “recordem”, “façam memória”, “pensem”, “reflitam”, “ponderem” ..., mas, sim, “olhem”, “escutem”, “abram bem os sentidos, percebam a realidade de outra maneira, tirem de suas vidas as formatações que lhes travam o olhar e entopem os ouvidos, sacudam para fora de vocês a escuridão e o frio do inverno que os tem congelados, percebam os brotos, o germinal que rompe as cascas endurecidas e os terrenos petrificados que lhes querem silenciar; descubram o novo que Deus realiza em cada momento”.
Jesus revela uma sensibilidade diferente. Em seu coração arde a certeza de que a criatividade de Deus não pode ser bloqueada e, portanto, é preciso estar sempre atento, acordado, olhando a realidade com olhos contemplativos, porque a qualquer momento pode brotar algo inesperado e surpreendente. A fidelidade de Deus é como uma semente que permanece aberta à vida debaixo da terra completamente seca e desolada. Basta uma chuva para que brotem as folhas verdes e pintem de esperança a paisagem sem vida.
É preciso estar olhando sempre o horizonte da história para ver se aparece um ponto pequeno, insignificante, que balança e cresce ao aproximar-se como novidade salvadora. É preciso estar olhando sempre o silêncio dos corações para ver se Deus faz surgir algo novo, uma intuição pequena que cruze o firmamento interior como uma estrela fugaz, algum sonho que abra a vida a novas possibilidades.
O Advento revela-se como um itinerário espiritual que vai nos transformando desde a “cegueira” e “surdez”, que pode levar-nos à perdição e morte, até a possibilidade de ver Deus presente em tudo, sem exclusão nenhuma, trabalhando sem descanso, para que possamos contemplá-lo em tudo, unindo-nos a Ele e à Sua atividade que tudo recria.
Nossa sensibilidade, cada vez mais petrificada pelo excesso de imagens e sons, tem maior dificuldade em perceber os detalhes mais finos da vida. Assim, esta mesma vida vai se banalizando, de tal maneira que vemos mortes, miséria e violência sem nos alterarmos, sem distinguirmos se é uma notícia ou um filme a mais que compete pela audiência, alimentando as atrocidades mais explícitas. Por outro lado, a contemplação das “margens da dor e da injustiça” nos faz mergulhar no Mistério profundo de Deus. A experiência cristã nas margens da história é “mistério e contradição”, superabundância e sequidão, mística e vazio... Por isso é necessário reacender a “mistagogia do olhar” para poder compreender, ou ao menos vislumbrar, a “faísca de luz” que reluz nos contextos de exclusão.
“Tudo é segundo a dor com que se olha” (Benedetti). Ver a vida a partir da tela de um computador, ou auscultar os lamentos a partir de um celular, ou experimentar a vida a partir de um belo “powerpoint” carregado de música emotiva e imagens impactantes, não nos capacita para “ver o novo nas margens da história”. João Batista pede um sinal porque teme por sua vida e quer deixar uma boa herança para seus seguidores. Envia uma delegação e Jesus lhes responde citando Isaías: “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”
Jesus não veio impor nada, nem complicar a vida com mais leis e ritos, mas estabelecer um movimento de vida centrado no serviço e no cuidado. Sua atividade de não-violência, seu ministério terapêutico, seu anúncio da Boa Notícia, sua liberdade diante da lei e das tradições religiosas, escandalizou a todos.
Não podemos imaginar Jesus pregando a conversão pelos povoados e oferecendo penitência aos pecadores. Ele quebrou as distâncias, aproximou-se dos enfermos e dos sofredores de tal maneira que, poderíamos dizer, Jesus introduziu uma revolução religiosa de caráter curativo, uma religião terapêutica que não tinha precedentes na tradição judaica. Ele anunciou a salvação curando; isto foi tremendamente novo.
Jesus revelou que o maior pecado é praticar a injustiça, causar sofrimento ou tolerar a exclusão, dando as costas aos preferidos de Deus. Para Ele, o pecado não é uma simples transgressão de leis, mas quebra de relação, indiferença diante dos excluídos ou daqueles que são vítimas de uma estrutura social e religiosa. O pecado revela seu rosto desumanizador encarnado naquelas pessoas que estão sofrendo, vítimas da dureza de coração de muitos e que estão sendo esquecidas por todos. Começou, então, a curar...
Jesus curou não de maneira arbitrária ou por sensacionalismo, mas movido pela compaixão; revelou que os sofredores são os primeiros a experimentarem, em sua própria carne, o que é a bondade de Deus; os mais excluídos, os mais desesperançados, os mais quebrados, os que já não tem nem rosto humano..., são aqueles que devemos colocar no centro de nosso coração, porque são o centro do coração do Pai.
A grande revolução de Jesus, portanto, foi nos mostrar que Deus é de todos, que o encontro com Ele vai além dos templos magníficos, das vestimentas ostentosas, dos ritos sofisticados, dos sacerdotes que não “sentem o cheiro das ovelhas”. Os sábios, os entendidos, os moralistas e legalistas não eram os seus preferidos; mais ainda, se nos deixamos inspirar por aquilo que vemos em Jesus, percebemos que Seu coração sempre se inclinou para os marginalizados, os impuros, os excluídos, os enfermos... Poderíamos dizer que o Deus de Jesus não é “justo”, mas “compassivamente parcial” em favor dos mais necessitados. Jesus viu o Pai criando a vida nova e inimaginável, soltando todas as amarras que, precisamente por razões religiosas e por má interpretação do sábado e de Deus, paralisavam e mantinham seus filhos na escravidão.
Esse é o dinamismo do Amor de Deus que se faz ternura e abraço acolhedor de todo ser humano.
Há um modo contemplativo de estar no mundo que nos capacita para perceber a Deus como Presença primeira e constitutiva da Realidade, pulsando em todas as coisas. Porque, em definitiva, o que nossos olhos querem ver, o que nossos ouvidos querem ouvir, é o Rosto-mais-além-dos-rostos que se manifesta através da realidade. Revelar a beleza de alguém é revelar o seu valor e dignidade, dedicando-lhe tempo, atenção e ternura.
Amar não é apenas fazer algo pelo outro, mas revelar ao outro sua própria originalidade, comunicando-lhe, assim, que ele é especial e digno de atenção. Podemos expressar essa revelação por meio da nossa presença aberta e gentil, pela maneira como olhamos e escutamos uma pessoa, pelo modo como falamos com ela e cuidamos dela. Os sentidos, cristificados, nos impulsionam em direção ao outro e nos fazem acreditar na beleza e dignidade escondidas na fragilidade da condição humana. Mergulhar na realidade que nos cerca, por meio dos sentidos bem abertos e evangelizados, é deixar estremecer de vida divina a fragilidade de nossa condição humana.
Uma comunidade de seguidores(as) Jesus não é só um lugar de iniciação à fé, nem só um espaço de celebração. Deve ser, de muitas maneiras, fonte de vida mais sadia, lugar de acolhida e casa para quem necessita de um lar.
Uma comunidade que segue o “Amigo da Vida” deve se constituir como “comunidade curadora”: mais próxima daqueles que sofrem, mais atenta aos doentes desassistidos, mais acolhedora daqueles que precisam ser escutados e consolados, mais presente nas situações dolorosas das pessoas...
Texto bíblico: Mt 11,2-11
Na oração: Se alguém nos pergunta se somos seguidores do Messias Jesus: que obras em favor da vida podemos lhes mostrar? Que mensagem libertadora eles podem escutar de nós?
- Quais são as marcas características que não podem faltar em uma comunidade de seguidores(as) de Jesus?
- Sua comunidade cristã é “curadora” e “cuidadora”? É aberta à vida ou só se preocupa com ritualismos e moralismos? É “comunidade-em-saída” ou autocentrada?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
13.12.2025

“Vigiai porque não sabeis em que dia virá o Senhor” (Mt 24,42)
Mais uma vez nos deparamos com ritos de passagem: final de ano litúrgico, a expectativa ardente alimentada pelo Advento, a memória natalina, a ansiedade diante dos desafios do novo ano que virá...
Advento: tempo celebrativo marcado pela gratidão, para acolher as experiências vividas e aprender com elas; tempo de inspiração e criatividade diante da certeza do novo; e, sobretudo, tempo para recompor a esperança, tantas vezes reprimida ao longo do ano.
O Advento nos situa no clima das grandes esperanças da humanidade; neste dezembro mágico nosso coração caminha mais rápido, rompe o tempo, já está lá na frente, pronto para acolher a surpresa. Tudo aponta para o Eterno que nos escapa e nos encontra. Aqui a imaginação trabalha e cria momentos felizes. Com essa esperança, podemos dar sabor à nossa vida, muitas vezes modesta e simples.
A esperança tem raízes na eternidade, mas ela se alimenta de pequenas coisas. Nos despojados gestos ela floresce e aponta para um sentido novo. É preciso um coração contemplativo para captar o “mistério” que nos envolve.
Em meio às sombras, perplexidades, contradições, provocações e inquietudes, que constituem o atual momento histórico, queremos dar vez a um brado de esperança e expressar a fé no futuro da nossa vida. Mesmo diante dos profundos dilemas sociais, achamos possível ser e viver de outro modo, inventamos e reinventamos opções, criamos novas saídas... e, sem cessar, sonhamos com o “mais” e o “melhor”. Ainda que soframos ventos contrários e as nuvens se adensem no horizonte, sabemos e confessamos com o profeta Jeremias: “Há uma esperança para o teu futuro” (31,17). Nesse sentido é que compreendemos a esperança como geradora do futuro; ela se revela como espera criativa e nos prepara para acolher as surpresas da vida.
Quem ama e espera (esperançar) o futuro não pode “conformar-se” com a realidade tal como é hoje. A esperança não tranquiliza, mas inquieta, gera protesto, nos desperta da apatia e da indiferença... nos desinstala. Aquele que vive com esperança se sente impulsionado a fazer o que espera. O futuro que espera se converte em projeto de ação e compromisso, alimenta a solidariedade, desperta a ternura, a acolhida compassiva...
E este compromisso é precisamente o que gera esperança no mundo. “Estamos abastecidos de futuro” (Pedro Arrupe, sj). É preciso desatá-lo.
Nossa concepção de futuro se atrofiou: vivemos “tempos sem futuro”. Não podemos prever o futuro com segurança. Hoje, o futuro se apresenta a nós muito mais aberto que em qualquer outra época de nossa humanidade. Os conhecimentos, os meios de comunicação, a tecnologia... não nos asseguram uma certeza do que virá. Aventurar no futuro torna-se cada dia mais complexo e difuso, pois predomina a incerteza que nós mesmos geramos.
Vivemos uma geração que teme o futuro; por isso vivemos um “presente esticado” porque o futuro nos apavora. Já que preferimos não imaginar o futuro, alargamos o presente. Precisamente porque faltam valores e um sentido para a existência é que se irrompe o medo do futuro, a acomodação, o refúgio no efêmero e no imediato, sem raízes e sem esperança. O medo do futuro nos ajuda a entender a mediocridade e o vazio do presente.
Não esqueçamos que o Advento é toda uma possibilidade de vida que temos à frente. Por isso o grande grito deste primeiro domingo é “Vigiai!” porque “não sabeis quando virá o vosso Senhor”. Ninguém vigia o passado que já passou e já não existe mais. Vigiamos o que está por vir, o que está vindo. A vigilância olha sempre o futuro. Um futuro que depende de Deus e depende de nós. Porque uma coisa é a ação de Deus em cada um de nós neste tempo do Advento e outra coisa é o que nós fazemos para que algo novo aconteça.
Nós mesmos somos um “advento”, porque nosso futuro humano depende do que esperamos. Haverá aqueles que já não esperam nada. Haverá outros que esperam algo novo, mas duvidam. E haverá aqueles que esperam o novo e dedicam suas vidas a criá-lo já agora.
Porque em cada momento definimos nossas vidas; em cada momento algo surpreendente pode acontecer em nossa vida; em cada momento nossa vida pode apagar-se ou pode rejuvenescer-se.
No evangelho deste domingo, as duas pequenas parábolas insistem na atitude da vigilância. A primeira delas nos adverte com uma intencionalidade clara: o maior inimigo da vigilância é a dispersão, revestida de rotina e apego ao costumeiro (“comer, beber, casar-se”). Viver vigilantes para olhar mais além de nossos pequenos interesses e preocupações. Na segunda, a insistência se situa na importância de “estar vigilante”, porque o que está em jogo é nada menos que a segurança da “casa”, ou seja, a consistência da própria pessoa.
Não é raro que, ao sentir um mal-estar ou medo frente ao nosso mundo interior, optemos pela “distração” ou “dispersão”. Por outro lado, vivemos dispersos e ansiosos porque crescemos com a ideia de que nos falta “algo” que, supostamente, se encontra “fora” de nós, com o qual conseguiríamos, finalmente, desfrutar da felicidade desejada.
A dispersão é o estado habitual de quem se encontra identificado com seus pensamentos, sentimentos, emoções ou reações, ignorando sua verdadeira identidade. Vivemos num contexto marcado pela “dispersão”, seduzidos por estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos de fora, cativado pela mídia, pelas inovações rápidas, magnetizado por ofertas alucinantes... E então, nós nos esvaziamos, nos diluímos, perdemos a interioridade e... nos desumanizamos.
A pessoa “dispersa”, por não ter um horizonte de sentido que a atraia, fixa-se no cenário externo, agarra-se ao mundo circundante, apega-se às coisas, na ilusão de alcançar uma segurança almejada. Ela foge de si mesma, tem medo de encontrar-se. Por isso, acompanha o ritmo dos outros, repete a linguagem dos outros, adota os critérios dos outros, e acaba sendo influenciada e dominada por pressões e hábitos externos.
A “dispersão” corrói a interioridade da pessoa e dissolve aquilo que é mais nobre em seu interior. Longe de uma humanidade dinâmica, operante, ousada... o que a pessoa deixa transparecer é uma humanidade neutra, apática, estagnada; é humanidade lenta, afogada na “normose”, estacionada na repetição dos gestos e dos passos. Ela gira em torno de si mesma e não consegue fazer um salto libertador. Isso tudo leva a pessoa a debilitar-se, provocando a redução da vitalidade humana em vez de favorecer o crescimento pessoal.
Advento é tempo propício – “kairós” - para ajudar a superar nossa “dispersão” e poder recuperar a densidade humana interna. Para isso, precisamos entrar em “estado de vigilância”, repensar a interioridade perdida, reconquistar a autodeterminação.
Estar atentos e vigilantes é uma condição humana e cristã para viver intensamente; viver distraídos e dispersos é perder as oportunidades de muitos encontros, é deixar que o outro passe ao nosso lado sem nos darmos conta, é deixar que Deus passe sem que o percebamos, é deixar passar o momento em que Ele nos chama e perdemos a oportunidade de dar uma resposta vivificadora.
Viver é estar atentos à vida, a nós mesmos, aos demais. Viver é estar atentos às ocasiões únicas, às oportunidades que não voltam; viver é estar com os olhos abertos para contemplar, é estar com os ouvidos atentos para escutar.
É nessa direção que o “tempo do Advento”, centrado n’Aquele que vem, mobiliza e reordena todas as dimensões da vida e propõe um caminho de humanização. Ele desafia cada um a assumir o potencial humano criativo que está latente em seu interior.
Texto bíblico: Mt 24,37-44
Na oração: - Em quê dimensões da vida você sente a força desagregadora da “dispersão”?
- “Vida atenta” é vida com largos horizontes: neste Advento, o que você está “lendo” no seu horizonte pessoal, social, profissional, familiar, religioso...?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
27.12.2025
![]()
“Acima dele havia um letreiro: ‘Este é o rei dos judeus’” (Lc 23,38)
Ao longo do ano litúrgico fizemos um percurso catequético e espiritual da história da salvação, vivendo e celebrando os momentos mais significativos da vida e missão de Jesus Cristo: encarnação, nascimento, vida pública, anúncio da boa-notícia, paixão-morte-ressurreição-ascensão...
Agora, no final deste tempo litúrgico, nos encontramos com a festa de Cristo Rei, cume do caminho percorrido, de nossa vida pessoal, da história e da missão da Igreja. Ele é o horizonte. Rei: não há outra palavra menos apropriada para Jesus. Jesus, rei atípico. Os reis deste mundo vivem às custas de seus súditos. Jesus crucificado é um estranho rei: seu reinado não se dá de forma impositiva, violenta ou cruel. N’Ele descobrimos um Rei que não se apoia na força e no poder, mas na fragilidade e no escândalo da Cruz; seu trono é o madeiro da cruz: sinal de fracasso; sua coroa é a de espinhos; seu cetro é a toalha para lavar os pés: sinal de serviço; não tem manto, está desnudo; até os seus seguidores o abandonaram.
Lucas nos diz onde e como Jesus ganha este título de rei: na entrega de sua vida até a morte. Seu senhorio é de amor incondicional, de compromisso com os pobres, de liberdade e justiça, de solidariedade e de misericórdia. Jesus reina perdoando, amando e comunicando vida a partir de uma situação de humilhação e impotência extremas. Um rei crucificado é uma contradição e um escândalo.
Usamos, ainda hoje, sobretudo na linguagem religiosa, imagens que nasceram em outro tempo e em outro contexto cultural. Que reações provoca o título de “rei” numa sociedade na qual os reis já são tão pouco estimados e menos amados? A realeza atribuída a Jesus necessita de uma oportuna iluminação.
O título de Cristo Rei corre o risco de ser utilizado de uma forma pagã, como uma pura imitação dos reis deste mundo. O triunfalismo religioso e político tem utilizado este título para defender ideias conservadoras, concepções triunfalistas e dominadoras, poderes vazios... Se continuarmos escondendo Jesus debaixo de vestes suntuosas e trono de ouro, tão distantes do que Ele foi na realidade, o reduziremos a uma entidade quase mítica que só pode interessar às pessoas esotéricas, supersticiosas e saudosas do passado.
Esse é o maior paradoxo da história humana: o Crucificado é esperança dos pobres, dos pecadores e de todos os sofredores. Jesus é Rei desta forma e não da forma triunfalista como querem os cristãos “triunfalistas”. Um rei que toca leprosos, que prefere a companhia dos excluídos e não dos poderosos deste mundo. Seu reinado passa pela dinâmica do serviço, do perdão e da disponibilidade, da acolhida, da misericórdia e da proximidade. Um rei que lava os pés dos seus, um rei que não tem riquezas e que não pode defender-se, pois não tem exército... Um rei sem trono, sem palácio, sem poder. Pobre rei!
Por isso, para poder aplicar a Jesus o título de “rei”, devemos despojá-lo de toda conotação de poder, força ou dominação. Jesus sempre se manifestou contrário a todo tipo de poder. E não só condenou aqueles que que se impõem sobre os outros, como também condenou, com a mesma veemência, aqueles que se deixam submeter e se fazem subservientes.
Jesus quer seres humanos completos, isto é, livres. Ele quer pessoas ungidas pelo Espírito de Deus, que sejam capazes de manifestar o divino através de sua humanidade. Tanto o que escraviza como o que se deixa escravizar, deixa de ser humano e se afasta do divino.
Jesus quer que todos sejamos “reis”, ou seja, que não nos deixemos escravizar por nada nem por ninguém. Quando responde a Pilatos, não diz “sou o rei”, mas “sou rei”; com isso, está demonstrando que não é o único, que qualquer um pode descobrir seu verdadeiro ser e agir segundo esta exigência. Há uma nobreza e uma realeza presentes em nosso interior e que são ativadas no encontro com o outro, através da compaixão, do serviço, do amor solidário...
Devemos estar conscientes de que o sentido que queremos dar a esta festa não é aquele dado pelo papa Pio XI que, em 1926, num momento delicado para a Igreja diante da perda de seu prestígio e de seu poder, quis ressaltar o “poder espiritual” de Cristo como rei da história e do mundo; ao mesmo tempo, quis reafirmar, frente aos poderes deste mundo, o poder de Cristo como origem de toda autoridade real ou política e, sobretudo, como fundamento do poder da própria Igreja.
Uma leitura mais repousada do Evangelho e do Concílio Vaticano II nos convida a reler de novo esta festa para despojá-la, como fizeram com Jesus, de suas roupagens políticas, dos adereços dos poderosos e influentes. A Igreja não deve e não pode ser um poder real no mundo, mas uma presença inspiradora de transformação do coração e das estruturas que excluem o ser humano e o esvaziam de sua dignidade.
Devemos, sim, conservar o título, mas mudar a maneira de entendê-lo, ou seja, com o Evangelho na mão podemos continuar falando de “Jesus Cristo, rei do universo”. Jesus será “Rei do Universo” quando a paz, o amor e a justiça reinarem em todos os rincões da terra, quando todos sejamos testemunhos da verdade, quando em todos os ambientes a mesa do Reino se tornar mesa de inclusão e de acolhida... Jesus será Rei quando estivermos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que hoje estão dependurados nela.
O Evangelho da festa de hoje faz parte da narração da Paixão de Jesus. Ele nos relata a investidura do rei Jesus de Nazaré, que se dá na Cruz, em meio a zombarias, açoites e blasfêmias. Fixemos nosso olhar nos personagens que assistiam ao tremendo espetáculo da crucifixão. O povo estava ali olhando. Não era a multidão que habitualmente O seguia, mas pessoas que assistiam com curiosidade zombadora.
Os chefes, as autoridades religiosas escarneciam de Jesus. Eles conservavam a ideia de um Messias triunfal. Tinham um Deus feito à medida de seus interesses. A mensagem de Jesus não os afetou. Julgavam-se em posse da verdade. Os soldados também lhe zombavam. Aproximavam-se dele para dar-lhe vinagre. Os executores da violência do poder romano não podiam entender um rei que não fazia nada para defender-se. O letreiro também indicava ironia: “Este é o rei dos judeus”.
Um dos ladrões o insultava: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”. Ninguém pareceu ter entendido Sua vida e Sua mensagem. Ninguém compreendeu seu perdão aos algozes. Ninguém viu em seu rosto o olhar compassivo do pai. Ninguém percebeu que, pendente da Cruz, Jesus se unia para sempre a todos os crucificados e sofredores da história.
A resposta de Jesus diante dos insultos foi o silêncio carregado de mistério. Silêncio que poderia ser interpretado como impotência resignada ou reconhecimento do fracasso. No entanto, Ele transformou a onda de insultos em manifestação de misericórdia e salvação. Ele só respondeu ao bom ladrão com a força de suas palavras salvadoras: “ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. Em sua entrega cumpre a vontade do Pai.
O título da Cruz, registrado pelos quatro evangelhos, provavelmente é uma chave muito completa para interpretar a impressão que Jesus causou às autoridades: “este é o rei dos judeus”. O crucificado era um rei que colocava em questão os poderes deste mundo. E que, além disso, questionava os valores que regiam a sociedade bem pensante de então e de agora. Dizia que tinha vindo para chamar os pecadores e não os justos.
Deus está mais interessado pelos que se sabem pecadores que pelos que acreditam serem piedosos. As palavras e a maneira de agir de Jesus são uma denúncia para aqueles a quem o poder lhes encanta e para aqueles que se dedicam a condenar os que não pensam ou atuam como eles.
Um denunciante assim só pode acabar expulso, marginalizado, rejeitado.
Texto bíblico: Lc 23,35-43
Na oração: quando levantamos nossos olhos até o rosto do Crucificado, contemplamos o Amor insondável de Deus; se O contemplamos mais atentamente, logo descobriremos nesse Rosto o rosto de tantos outros crucificados, longe ou perto de nós, clamando por nosso amor solidário e compassivo.
- Diante do Crucificado, trazer à memória os crucificados de hoje: isto o(a) afeta? o(a) deixa inquieto(a)? o(a) incomoda?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
21.11.2025

“Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” (Jo 2,16)
Os profetas de Israel costumavam recorrer a “gestos proféticos” para expressar, de um modo visual e contundente, mensagens que lhes pareciam decisivas. Na mesma linha dos profetas de seu povo, Jesus realiza também gestos repletos de simbolismo: suas refeições com os pecadores, o lava-pés, a ação contra o Templo... É disso que trata o Evangelho da festa de hoje (Dedicação da Basílica do Latrão), ou seja, uma ação simbólica na qual se pretende mostrar que o tempo do Templo terminou. A expressão “purificação do Templo” não é a mais adequada, porque não se trata de purificar o espaço que se tinha convertido em centro comercial, mas de substituí-lo. Jesus prescindiu do Templo para relacionar-se com o Pai.
A partir de seu projeto, que chamava “Reinado de Deus”, foi questionando uma religião que desumanizava as pessoas. Ele mesmo, durante sua vida, foi relativizando e esvaziando os pilares da religião judaica: o sábado, a “pureza” legal, o Templo, o jejum, o culto, os sacrifícios, as doutrinas, os sacerdotes... E pouco a pouco foi colocando tudo isso em questão, transgredindo suas normas e atacando a hipocrisia de um culto a Deus que desprezava as pessoas.
O simbólico ataque final ao Templo foi determinante para ser considerado como um “subversivo” pelo sistema político e um blasfemo pelo sistema religioso. Aquele Templo já não era a casa de um Deus Pai, pois não era espaço de acolhida, mas de exclusão. Jesus se sentia como um estranho naquele lugar. O que seus olhos viam nada tinha a ver com o verdadeiro culto ao Pai. Deus não pode ser o protetor e encobridor de uma religião tecida de interesses e egoísmos. Deus é um Pai a quem só se pode prestar culto trabalhando por uma comunidade humana mais solidária e fraterna.
Nesse gesto ousado de Jesus, fica claro o que Ele pretende: denunciar os “templos e as religiões” que se absolutizam como lugares da presença divina, criando dicotomias ou dualismos estranhos entre o “religioso” e “o profano”. A novidade de Jesus consiste em afirmar que existe só um caminho para encontrar a Deus e que não passa pelo Templo. Na religião, o determinante está no “sagrado”; no projeto de Jesus, o centro de tudo está no “humano”, na dignidade e felicidade das pessoas, na vida. Jesus não suprimiu o “sagrado”, mas o deslocou do religioso ao humano. Para Ele o sagrado é o ser humano como pessoa, com os demais seres humanos. Desse modo, supera-se definitivamente aquele dualismo e se reconhece a vida como lugar da Presença. Os templos não são fronteiras que dividem o sagrado e o profano; são espaços onde se vive a sacralidade de toda a vida. O verdadeiro “templo” é a vida, e vida destravada, aberta...
Ao “substituir” o Templo por seu Corpo, Jesus nos convida a viver o encontro com Deus no centro de nossa pessoa e da vida mesma. E Ele se torna referência para nos ajudar a ver o que é uma vida vivida desse modo: uma existência marcada pelo amor compassivo e pela alegria de uma vida plena.
Ali é onde vamos encontrar Deus com certeza; ali se enraíza o “segredo” do viver humano: no amor e na alegria intensa. As pessoas não serão mais ou menos santas porque vão rezar no templo; sua santidade se fará visível na vida cotidiana.
A superação do Templo significa recuperar o verdadeiro lugar da religião na vida cristã. Não no sentido de que é preciso deixá-la de lado (tanto a religião como o templo podem ser meios valiosos para muitas pessoas), mas no sentido de não absolutizá-la. A absolutização da religião provocou e provoca muita exclusão e sofrimento entre os humanos.
As religiões se fazem indigestas e sumamente perigosas quando pretendem apoderar-se do Absoluto.
Devemos fazer de nossas comunidades cristãs um espaço onde todos possam se sentir na “casa do Pai”; uma casa acolhedora e calorosa onde não se fecham as portas a ninguém, onde nenhum é excluído e nem se sente discriminado; uma casa onde aprende-se a escutar o sofrimento dos filhos mais desvalidos de Deus e não lugar de busca do próprio interesse e poder; uma casa onde pode-se invocar a Deus como Pai de todos, porque todos se sentem seus(suas) filhos(as) e buscam viver como irmãos(ãs).
Com seu gesto provocativo, Jesus põe abaixo todas as barreiras existentes: religiosas, sociais, culturais ... De maneira especial, Ele acaba com o predomínio do poder sagrado, que tanta divisão, submissão, marginalização e sofrimento causaram durante séculos aos seres humanos. Aqueles que acreditam em Jesus, seguindo suas pegadas, não iniciam uma nova religião com caráter sagrado, senão um novo estilo de vida, assimilando os principais critérios do Reinado de Deus, que Ele deixou nos evangelhos.
Jesus teve consciência que o poder religioso divide, discrimina, subordina e alimenta medo, enquanto o serviço e a solidariedade criam irmandade e igualdade. Jesus desencadeou um movimento que teve inicio nas periferias da Galiléia. Ele não foi sacerdote do Templo, consagrado a cuidar e promover uma religião; nem funcionário do Templo, nem ostentou cargo algum relacionado com a religião, nem foi um mestre da Lei, fechado em seu legalismo.
Jesus, como os profetas de Israel, não formou parte da estrutura política nem do sistema religioso. Não foi nomeado por nenhum poder. Sua autoridade não vinha da instituição, não se baseava nas tradições religiosas. Provinha de sua experiência de Deus, empenhado em conduzir seus filhos e filhas pelos caminhos da justiça.
Jesus fugiu de todo poder e se preocupou especialmente das pessoas marginalizadas. Não organizou nenhuma religião; pelo contrário, entrou em conflito com a religião judaica e suas instituições (sinagoga, Templo de Jerusalém, Lei). Cercou-se de pessoas, homens e mulheres, dispostas a continuar seu caminho anunciando a mensagem do Reino de Deus. Proclamou as bem-aventuranças, como projeto do reino de Deus. Denunciou as opressões e injustiças, tornando realidade a salvação do Deus pai e Mãe, através de suas curas.
Jesus superou as antigas divisões (sacerdotes ou laicos, judeus ou gentios, homens ou mulheres...) e a estrutura social dominante que geravam exclusão e violência. Não veio complicar a vida com mais exigências legais e cultuais, nem alimentar as “vantagens” de quem pretende se impor sobre os outros, na linha do poder ou do conhecimento, senão para romper esse esquema de valores e privilégios.
Esta é a sua novidade messiânica. Ele não nos impõe pesadas leis, não exige que cumpramos simplesmente alguns preceitos religiosos... Ao contrário, quer que todos vivamos e possamos desenvolver em plenitude nossas potencialidades. Jesus não veio para sancionar uma ordem existente, deixando cada um com sua exclusão, senão para oferecer a todos um caminho de humanização. Por isso tornou-se um transgressor: rompeu as fronteiras que foram traçadas pelos poderosos, abrindo um caminho de humanidade a partir de baixo, ao lado dos excluídos e dos últimos... Um transgressor consequente, a serviço da vida e dos mais pobres.
Assim foi Jesus. Assim devem viver seus seguidores.
Texto bíblico: Jo 2,13-22
Na oração: Muitas pessoas pensam que é somente no templo (capela, lugar santo e cerimônias sagradas) onde é possível fazer uma experiência de encontro com Deus. Se o Deus que é experimentado no templo não coincide com o Deus que move nossa vida nas casas, na convivência com os outros, no compromisso com os últimos..., então o templo e seu suposto “deus” não tem nada a ver com o Deus de Jesus, e a prática religiosa é vazia.
- O decisivo é o “templo interior”, com portas abertas a todas as pessoas que queiram se aproximar e entrar.
- Somos também o “novo templo”, morada do Espírito, presença que alarga nosso interior para que todos possam ali ter acesso.
- Quem são os “frequentadores” do seu “templo interior”?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
07.11.2025

“Quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Lc 18,14)
No seu inspirado ensinamento, são impactantes os diferentes personagens que Jesus apresentou como modelos de vida e que eram, social e religiosamente, considerados “impuros” e “imperfeitos” entre os membros daquela comunidade judaica que resistia acolher a sua mensagem de amor e seu chamado libertador.
Por outro lado, Jesus denunciou com severidade as atitudes dos fariseus, porque eram exigentes, rigoristas, tradicionalistas, intolerantes, sentindo-se superiores aos demais. Não sentiam a necessidade de se converterem e de restabelecerem a fraternidade com aqueles que não eram de seu grupo.
Com frequência, pessoas assim são desumanas, pouco compassivas, aferram-se às suas opiniões e desprezam os outros. Sua autossuficiência lhes impede se reconhecerem como filhos de Deus e irmãos dos outros, porque Deus só pode ser reconhecido de verdade nos outros e através dos outros e, de uma maneira muito especial, no rosto dos mais oprimidos deste mundo.
A indiferença, o julgamento, a intolerância e a “imagem aureolada” de si mesmo que exige méritos, são sinais distintivos de um ego inflado em seu modo de se situar na vida e na religião. O ego é incapaz de compaixão e de empatia: vive fechado em sua couraça de necessidades e de medos, empenhando-se por conseguir uma existência agradável para si, à margem de qualquer outro critério. E a religião tem sido um campo fértil para a manifestação das mazelas de um ego prepotente, julgador, rigorista, vazio de vida.
A parábola contada por Jesus revela que o fariseu é um observante escrupuloso da lei e um praticante fiel de sua religião. Sente-se seguro no templo. Ora de pé e com a cabeça erguida. Sua oração é autocentrada: uma oração de louvor e ação de graças a Deus, mas não lhe dá graças por Sua grandeza, Sua bondade ou misericórdia, mas pela própria grandeza e por aquilo que realiza.
Ele pensa que pode “ficar de pé” diante de Deus, que pode estabelecer o confronto sem problemas, como de igual para igual. O fariseu não suplica a Deus e nem tem necessidade de ouví-Lo; já eliminou as distâncias com as suas palavras e se ilude de ter uma linha direta com o Altíssimo.
Em 2º lugar, o fariseu despreza os outros. Como ele se considera perfeito e não vê nenhuma falha em si mesmo, considera-se superior aos outros. Ao mesmo tempo que se autoelogia, critica e despreza os outros. De fato, não descobre nenhum projeto divino sobre si, basta-lhe saber que é melhor que todos.
Na realidade, de acordo com o evangelho deste domingo, a oração é o lugar privilegiado onde cada pessoa deixa transparecer sua identidade; a oração é reveladora de quem é o ser humano. Observamos uma falsidade na oração do fariseu. Mais que orar, este homem se contempla a si mesmo. Narra sua própria história cheia de méritos. Necessita sentir-se com créditos diante de Deus e exibir-se como superior aos outros.
Na verdade, este homem não sabe o que é orar. Não reconhece a grandeza misteriosa de Deus nem confessa sua própria pequenez. Busca a Deus para enumerar diante d’Ele suas “boas obras” e despreza os outros: isso é próprio dos perfeccionistas e legalistas. Por detrás de sua aparente piedade se esconde uma oração “ateia”. Este homem não precisa de Deus, não lhe pede nada; na sua soberba, basta-se a si mesmo.
Em sua oração, o fariseu aparece centrado em si mesmo, naquilo que faz. Sabe o que ele não é: ladrão, injusto ou adúltero; nem tampouco é como o publicano, mas não sabe quem é ele na realidade. A parábola nos leva a reconhecer quem de fato ele é, precisamente não pelo que faz (jejuar, pagar o dízimo...), mas pelo que deixa de fazer (relacionar-se bem com os outros).
A oração do publicano, no entanto, é muito diferente. Sabe que sua presença no templo é malvista por todos. Seu ofício de cobrador de impostos é odiado e desprezado. Não se desculpa; reconhece que é pecador. Suas batidas no peito e as poucas palavras que sussurra já dizem tudo: “Meu Deus, tem compaixão de mim que sou pecador!”.
Este homem sabe que não pode vangloriar-se. Não tem nada que oferecer a Deus, mas sim muito que receber d’Ele: seu perdão e sua misericórdia. Em sua oração há autenticidade. Este homem é pecador, mas está no caminho da verdade.
O fariseu não se encontra com Deus, mas com seu ego inflado. O publicano, pelo contrário, encontra a atitude correta diante de Deus: a atitude daquele que não tem nada e necessita tudo. Não se detém sequer a confessar com detalhe suas culpas. Reconhece-se pecador. Dessa consciência brota sua oração: “Tem compaixão deste pecador!”. Por estar longe de sua própria verdade, o fariseu não pode viver a prazerosa gratuidade – está esperando uma recompensa – e cai no desprezo do outro. Pelo contrário, o publicano apoia-se na verdade sobre si mesmo; e é a verdade que o salva e o reconcilia.
Jesus era um profundo conhecedor da condição humana; sabia que a pessoa consciente das suas imperfeições é mais disponível para acolher o anúncio do Reino. Sabemos que as escolhas de Jesus não caíram sobre os chamados “perfeitos”. As pessoas com quem Ele entrou em contato não eram conhecidas por suas boas maneiras nem por práticas religiosas; antes, eram pecadoras públicas.
A parábola narrada por Jesus tem força para desmascarar atitudes egóicas e que nos distanciam dos outros e do próprio Deus. Por “delicadeza”, ou para satisfazer os outros, ou por viver dependente da autoimagem aureolada, ou alimentar a perfeição..., podemos perder a vida, nossa vida tão bela, tão frágil e efêmera.
Somente quando integrarmos e nos reconciliarmos com os aspectos de nós mesmos que tínhamos negado ou até rejeitado, poderemos alcançar a paz e a harmonia estáveis. Portanto, nosso esforço não consiste em sermos “perfeitos”, mas “completos”. Na medida em que somos mais “completos”, porque acolhemos de maneira integral toda a nossa verdade, vamos nos tornando mais compassivos e humanos.
O que Deus quer de nós não pode ser conhecido por meio da busca da perfeição e das altas exigências que estabelecemos para nós mesmos. Pois é nisso que justamente se manifesta a nossa ambição. Queremos alcançar altos ideais para darmos a impressão de estar bem diante dos outros e, também, diante de Deus.
É esse modelo de perfeição que gerou demasiado sofrimento inútil, causando verdadeiros estragos na vivência do seguimento de Jesus. Gostaríamos de ser pessoas fortes, perfeitas, ascetas virtuosos; sonhamos ser onipotentes, “feitos para vencer” ... Na realidade, estamos mais preocupados com a própria glória, poder e perfeição que com a glória de Deus.
E aqui nos deparamos com uma das práticas mais comuns e universais do ser humano: a justificação. Buscar continuamente argumentos para esconder nossas fragilidades e incoerências. Somos peritos em alimentar um “fariseu” dentro de nós, com a lei na mão e rigidez no coração.
Elaboramos discursos e mais discursos para nos autoconvencer e convencer os outros daquilo que julgamos que somos. Tanto esforço para nada. Impossível cobrir a verdade tão simples como evidente daquilo que, na realidade, somos: “pobres pecadores(as)”.
O “fariseu”, que todos hospedamos em nosso interior, realiza seu trabalho em silêncio, mas com uma eficácia impressionante: torna o nosso coração impermeável à experiência divina e petrifica nossa compaixão na relação com os outros.
O publicano, por outro lado, nos revela que basta redescobrir o caminho da humildade (do húmus), bem no fundo de nós mesmos: este é o lugar da oração. E quanto mais baixo for o ponto de partida, tanto mais alta ela vai subir... A salvação que esperamos não é fruto de nosso esforço e penitências, de nossa prática legal e de nossas virtudes perfeitas. Ela é puro dom de Deus, divino presente de seu coração de Pai. Só nos resta acolhê-la em atitude de humilde gratidão.
Texto bíblico: Lc 18,9-14
Na oração: A humildade é a coragem de acolher a verdade sobre si mesmo; ela é o caminho para Deus; ela é a resposta para a experiência de Deus; ela é o lugar onde nós podemos ir ao encontro do Deus verdadeiro. A humildade é acolher as próprias fragilidades e alargar o espaço interior para que o Infinito possa atuar livremente nas “fendas” de nossa existência.
- Trazer à memória os possíveis sintomas da presença do “fariseu” em sua relação com os outros: rigidez, julgamento, legalismo, perfeccionismo, indiferença, religiosidade autocentrada...
Pe. Adroaldo Palaoro sj
23.10.2025
imagem: James Tissot
Página 1 de 41