
“... sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29)
Jesus nos diz muito pouco, em primeira pessoa, sobre si mesmo. O que sabemos dele descobrimos através dos olhos de um cego que vê, de um paralítico que corre a contar aos outros sobre Ele, de uma mulher que vibra diante da bondade d’Ele... Mas, no evangelho deste domingo, através de uma explosão de profunda gratidão, Jesus deixa transparecer sua essência; manifesta sua verdadeira identidade através destes dois atributos, tão humanos e divinos: mansidão e humildade.
Jesus, ao revelar sua identidade como “manso e humilde de coração”, está manifestando estas virtudes como sintonia com o sentir e atuar do Deus Pai. Seus discípulos são chamados a romper o círculo de ódio, intolerância, cólera, agressão, prepotência, domínio, arbitrariedade; são convidados a abandonar “os jogos de poder” e sua dinâmica de revide e vingança. Para isso é preciso ativar as bem-aventuranças da mansidão e da humildade, escondidas nas profundezas do coração.
Somos formados(as) no discipulado de “Jesus manso e humilde de coração”. Este é um aprendizado que se dá no decorrer de toda uma vida de seguimento do Bom Pastor. Ao referir-se a si mesmo como manso e humilde de coração, Jesus nos oferece a graça de uma profunda identificação com Ele e um dinamismo constante de transformação pessoal e comunitária.
A mansidão parece ser a chave de leitura de todas as bem-aventuranças; é a característica existencial que dá estilo e autenticidade ao ser puro de coração, promotores de paz, misericordiosos, etc...
A bem-aventurança da mansidão é o gesto profético para o diálogo e a busca de soluções diante dos conflitos atuais. “A finalidade do caminho espiritual está na pessoa mansa”.
“Mansos” – em grego “praeis” – não são aqueles que buscam evitar a prepotência e o orgulho (como uma atitude meramente interior), senão aqueles que se despojam de todo poder diante dos olhos do mundo; são aqueles que não oprimem a ninguém, nem tiram partido (de sua situação), nem pensam na vingança nem na violência para alcançar seus objetivos. São os pacientes e generosos de coração.
Manso e humilde de coração, portanto, é quem vive distanciado de seu ego e nem se identifica com ele.
É manso, sobretudo, quem se apresenta diante de Deus, de mãos vazias. A pessoa mansa é alguém que não confia no poder humano, mas entrega-se nas mãos de Deus. Só quem se entrega ao Pai pode ser manso com seu irmão. Apresenta-se, então, diante dos outros, desarmado, não como quem quer levar vantagem, mas como quem está disposto a “estar com os outros”. E nisso manifesta uma força diferente e misteriosamente eficaz: a força de carregar o peso dos outros, de lavar-lhes os pés, de estar disponível para os serviços...
A mansidão é tão decisiva que só ela é capaz de transformar o coração do ser humano, tornando-o aberto para Deus e, ao mesmo tempo, transforma o duro coração de pedra no misericordioso coração de carne. “A raiz básica de nossa crise cultural reside na aterradora falta de ternura, de mansidão, de caridade e de cuidado de uns para com os outros, de todos para com a natureza e o nosso próprio futuro” (Boff).
Esta virtude, manifestada na bem-aventurança, é a forma mais delicada do amor, da suavidade, que é paciente e serviçal, não é egoísta, tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...
A terra resiste ao violento; ela não pode se doar ao violento. Em Tagore, a não-violência é exercida sem esforço. Quando ele anda pelos campos, acaricia o solo. Ele tem uma espécie de doçura natural. A doçura é o respeito: é respeitar o que se toca, o que se vê, o que se escuta. A doçura é força, é o domínio sobre o instinto de violência que há dentro de si. Existe um grande segredo na doçura: ela é realmente uma bem-aventurança, um atributo humanizador que quebra toda pretensão do domínio sobre os outros.
A mansidão está profundamente unida à humildade, a atitude mais importante para viver de maneira cristã. A paciência, como arte para a vida serena, também está emparentada com a mansidão.
A mansidão, a ternura, a humildade cristã ultrapassam a violência amarga e a insípida fraqueza. Elas revelam a solidez de um ser firme nos seus fundamentos, que acolhe o dom de sua vida e aceita a si mesmo, caminhando sempre para o melhor; é ser senhor de si, não para defender-se, mas para doar-se.
A mansidão é a face externa ou o direito da humildade, como diz S. Bernardo: “é a humildade do exterior, assim como a humildade é a mansidão de dentro”. É um ser em estado de doação. É o despojamento pelo amor e o desejo do bem do irmão. Seu melhor sinal é que seu cuidado se dirige antes aos fracos, aos pequeninos, aos desamparados do que aos fortes e aos poderosos. Nunca faz carga sobre os infelizes e, tal como Jesus Cristo, é capaz de vencer o mal com o bem.
A mansidão, tal como a ternura, não é fraqueza, mas sinal de maturidade e liberdade interior; é um dos tantos valores com os quais o Senhor tem enriquecido a natureza humana, um dom presente em cada um.
Os mansos e humildes se destacam porque são senhores de si, e isto nos indica um nível sólido de maturidade e de equilíbrio. Não se deixam afetar pelos ventos da superficialidade, da vaidade e do prestígio. Vivem uma pacífica solidez em si mesmos, sem necessidade de atacar nada nem a ninguém. Com muito pouco, tem tudo porque se possuem a si mesmos.
Vivem no instante presente, desfrutam e agradecem a vida. Experimentam que sua força está em sua debilidade, apoiado no centro indestrutível de seu eu sagrado, seu ser essencial que se sabe envolvido pela Presença. São o melhor exemplo do rosto amoroso de Deus, contemplativos na ação.
São pessoas que sorriem a partir do coração, que aprenderam a escutar e transmitem verdadeira paz.
Em definitiva, as pessoas mansas e humildes têm uma grande força interior na confiança de se sentirem nas mãos de Deus. Quem vive a mansidão leva a sério a afirmação: “Deus me ama imensamente; logo, deposito minha total confiança n’Ele”.
O manso e humilde de coração não enfrenta os outros como se fossem seus inimigos. Respeita-os e os valoriza porque sabe que também foram criados à imagem de Deus. Vivem com a expectativa de que sempre aprenderão algo mais, graças às experiências que Deus traz à sua vida. Mostram que o amor de Deus é para todas as pessoas, sem distinção.
Em contraposição ao orgulho dos mestres e entendidos de Israel, Jesus aparece oferecendo humildemente seu caminho: “pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. Jesus se dirige aos que estão abatidos e levam pesadas cargas impostas por uma religião centrada na lei e no templo. Há tantas cargas pesadas que continuam sendo impostas nos ombros de tantos inocentes, sobretudo por aqueles que se dizem “representantes” de Deus e que controlam as pessoas através da cultura do medo, das mortificações estéreis, do legalismo doentio, da culpa mórbida, da ameaça do “inferno” ...
É preciso aprender de Jesus a viver como Ele. Ele não complica nossa vida; pelo contrário, torna-a mais clara e mais simples, mais humilde e mais sadia. Oferece descanso. Não propõe nunca a seus seguidores algo que Ele não tenha vivido. Convida-nos a segui-lo pelo mesmo caminho que Ele percorreu. Por isso pode entender nossas dificuldades e nossos esforços, pode perdoar nossas fragilidades e erros, animando-nos sempre a nos levantar e a viver continuamente em clima de gratidão.
Basta ter o coração aberto para perceber o quanto “Deus é bom para conosco”, como nos envolve com ternura, sem esquecer-se das pequenas coisas, ajudando-nos assim a alcançar as grandes.
Tudo é ocasião para contemplar, entre as cores cinzas da vida cotidiana, a cor do Amor de Deus.
Texto bíblico: Mt 11,25-30
Na oração: Eis o tempo para agirmos com mansidão e humildade no palco da história sacudida pelos ventos do ódio, da intolerância, da vaidade!
- É sobretudo no clima da oração que a gratidão nasce com naturalidade e espontaneidade nos corações mansos e humildes, nas pessoas conscientes de que aquilo que recebem não é por mérito ou retribuição. Tudo é gratuidade.
- Disse Jesus: “Venham a mim todos os que estão cansados e abatidos, e eu vos aliviarei” Quais são seus cansaços? O que os provoca: o trabalho pelo Reino ou seus interesses pessoais, seus egoísmos? Onde e como você busca alívio para meu cansaço?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
04.07.2026

“Não tenhais medo!” (Mt 10,31)
O apelo “não tenhais medo!”, que aparece com insistência no evangelho deste domingo, está situada no contexto da missão. Jesus acaba de dizer a seus seguidores que serão perseguidos, encarcerados, inclusive serão mortos. No entanto, está claro que a advertência pode ser aplicada a todas as situações de medo parali-sante que podemos encontrar na vida.
Provavelmente, o medo é o que mais trava os cristãos no seguimento fiel de Jesus Cristo. O medo do vazio existencial, da noite escura da vida; o medo do futuro, do desconhecido, do não saber...; as pessoas têm medo do que pode descobrir se escuta seu coração, medo de seus próprios “infernos interiores” ou de sua beleza interior, que lhe está oculta; têm medo do novo, como se “conservar o passado” garante automa-ticamente a fidelidade ao Evangelho; têm medo de assumir as tensões e os conflitos que brotam do seguimento de Jesus: calam-se quando deveriam falar, inibem-se quando deveriam denunciar.
Há um medo instintivo que é produto da evolução humana. Este é imprescindível para garantir a sobrevivência de qualquer ser vivo. Seu objetivo é defender a vida, seja fugindo, seja liberando energia para enfrentar as ameaças. Este medo é natural e seria inútil lutar contra ele. Sabemos que o medo é um sentimento que brota no ser humano quando ele, diante de certas situações externas, interpreta como perigosas para sua sobrevivência. O medo é o resultado da evolução humana e, portanto, positivo.
Mas, como seres humanos, podemos ser presas fáceis de um medo introjetado, ilusório, que nos impedem ativar nossas possibilidades de verdadeira humanidade. Este é o que nos trai e provoca transtornos constantes porque nos paralisa e nos atormenta. Com tais condicionamentos, não é estranho que a mente veja perigos por todos os lugares, instalando-nos no medo de maneira habitual, alimentando a ansiedade e trancando-nos em um cárcere interno que nos oprime cada vez mais.
O pior é quando o medo é utilizado por aqueles que pretendem submeter o outro; ele é o sentimento fúnebre mais eficaz para dominar pessoas, grupos e nações. Todas as autoridades, civis e religiosas, utilizaram-no sempre para conseguir a submissão e a obediência de seus súditos. Não só é explorado por empresas que se dedicam a vender todo tipo de seguros, mas também pelas religiões que exploram seus seguidores, oferecendo-lhes seguranças absolutas, prêmios eternos, depois de ter-lhes infundido o medo irracional.
Também na Igreja atual há infidelidades e fragilidades, mas há sobretudo medo de correr riscos. Estamos vivendo tempos sem audácia para renovar criativamente a vivência da fé cristã.
O anúncio da Boa Notícia do Reino exige uma boa dose de coragem e ousadia; no entanto, infelizmente, o medo teve e continua tendo uma influência nefasta; muitos dirigentes religiosos caem na armadilha de potenciar esse medo e apelam para o legalismo, o moralismo, o ritualismo estéril, a ameaça... A causa de não se atreverem a atualizar doutrinas, ritos e normas morais, é o medo de perder o controle absoluto (poder de consciência).
As expressões religiosas de inspiração cristã continuam alimentando a falsa imagem de um Deus que é todo-poderoso, juiz universal, ameaçador..., e essa imagem está a serviço de seus interesses e poder.
Quão distante estamos do Deus Pai/Mãe de infinita misericórdia e amor, revelado por Jesus. Por isso mesmo, temos de confiar totalmente n’Ele, porque nada pode mudar seu amor e seu compromisso com seus filhos e filhas. A causa de Deus é a causa do ser humano. Não nos enganemos; colocar-nos no caminho do seguimento de Jesus é situar-nos no compromisso com as pessoas. Deus não está, com seu capricho, manejando sua criação a partir de fora e ameaçando a todos. Ele está implicado nela entranhavelmente; faz de toda a Criação sua morada. Sua vontade é imutável.
Este medo artificial e “religioso”, em lugar de ajudar a nos defender, nos aniquila. Este medo é o contrário da fé-confiança. Se Jesus nos convida a não ter medo, não é porque nos promete um caminho de rosas. Não se trata de confiar que não acontecerá nada desagradável, ou que, se algo mau acontecer, alguém nos livrará disso. Trata-se de uma segurança que permanece intacta em meio às dificuldades e limitações, sabendo que os contratempos não podem anular o que somos de verdade. Deus não é a garantia de que tudo irá bem, mas a segurança de que Ele estará aí em qualquer situação. Quando exigimos de Deus que nos liberte de nossas limitações, estamos demonstrando que não amamos o que Deus fez.
A fé não é uma apólice de seguro, nem um tranquilizador, mas um desafio. A fé não tira o véu do mistério, mas ensina a olhar através dele com admiração e esperança.
A verdadeira compreensão da fé prepara a mente e o coração para os riscos da vida cotidiana, sob o olhar amoroso de Deus. As pessoas se libertam do medo à medida que se fazem merecedoras da vida.
A fé é, na prática, a capacidade de viver num mundo de dúvida e insegurança, mas com uma promessa de verdade. A fé não suprime a condição humana, a visão limitada, a mente vacilante, o coração indeciso..., mas dá ânimo e coragem de caminhar onde o chão não está firme, de ver onde o céu não está claro, de zarpar quando o mar está agitado; ela se manifesta como o poder de despertar em meio ao desânimo, de amar em meio à indiferença, de sorrir em meio à falta de compreensão.
A confiança não surge de um voluntarismo a toda prova, mas de uma experiência profunda do que Deus é em nós. “A finitude, quando é acolhida na verdade, não empobrece o ser humano, mas abre-o ao reconhecimento do rosto de Deus e do outro. Aliás, precisamente porque experimenta os limites – a vulnerabilidade, a dor, o insucesso –, ele pode reconhecer como inviolável a sua dignidade e a dos outros. E, na mesma experiência dos limites, continua capaz de intuir uma fraternidade maior do que ele próprio e de reconhecer a injustiça como escândalo” (Papa Leão XIV, MH n. 122)
Acolher nossas limitações e fragilidades e descobrir nossa verdadeira riqueza é o único caminho que nos faz chegar à total confiança. A confiança significa sair de nós mesmos e descobrir que nosso fundamento não depende de nós. O fato de que nosso ser não dependa de nós mesmos, não significa uma perda, mas um ganho, porque dependemos d’Aquele que é muito mais seguro que nós mesmos. Nosso passado é Deus mesmo, nosso futuro é também Deus; nosso presente está nas mãos de Deus e não temos nada a temer.
Só a ânsia de buscar seguranças e de controlar nosso próprio ser é o que nos faz entrar nesse beco sem saída que é a perturbação, o mal-estar, a insegurança, em uma palavra, o medo.
Falar de uma verdadeira confiança em Deus é nos situar em um terreno diferente porque nos obriga a quebrar as falsas imagens que temos d’Ele.
Confiar em Deus é confiar em nosso próprio ser, na vida, naquilo que somos de verdade. Não se trata de confiar em um Ser que está fora de nós e que pode nos dar, a partir de fora, aquilo que tanto desejamos. Trata-se de descobrir que Deus é o fundamento de nosso próprio ser e que podemos estar tão seguros de nós mesmos como Deus está seguro de si. Por maior que seja o motivo para temer, sempre será maior o motivo para confiar. Se cremos que Deus habita em tudo e em todos, então surgirá em nós um sentimento de total segurança, de total confiança em nós, naquilo que somos e naquilo que nós significamos para Deus.
Jesus nos convida a não ter medo de nada nem de ninguém: nem das coisas, nem de Deus, nem sequer de nós mesmos. Como seguidores(as) somos chamados(as) a superar o medo covarde, permanente, irracional, os sofrimentos imaginários, sombrios que nos tornam infelizes e nos fazem experimentar provações falsas e ilusórias. O compromisso com a proposta de Jesus sela o amor, que abole o medo da vida.
Texto bíblico: Mt 10,26-33
Na oração: Devemos estar sempre mais convencidos de que a experiência de Deus, tal como Jesus no-la oferece e comunica, infunde uma paz inconfundível em nosso coração, cheio de inquietações, medos e inseguranças. Esta paz é sempre o melhor sinal de que temos escutado, desde as profundezas de nosso ser, seu chamado: “Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.
- Dê nomes aos medos que estão paralisando sua vida.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
19.06.2026
imagem: pexels.com/Julianascimento

“Vós o conheceis, porque Ele permanece junto de vós e estará dentro de vós” (Jo 14,17)
Segundo o evangelista João, Jesus não prometeu um magistério externo com dogmas e doutrinas; tampouco deixou uma estrutura de poder ou uma organização religiosa. Sua verdade se expressa no ensino interior do Espírito, que atua através do testemunho dos seus seguidores.
Acolher o Espírito de Deus quer dizer deixar de falar só com um Deus a quem quase sempre o colocamos longe e fora de nós, mas aprender a escutá-lo no silêncio do coração. Deixar de pensar em Deus só com a nossa cabeça, e aprender a percebê-lo no mais íntimo de nosso ser.
O Espírito é “o Deus de guarda”: está em missão ativa desde o primeiro dia da Criação, na inspiração dos patriarcas e profetas, no momento da concepção de Jesus e em sua vida pública, quando do alto da cruz “entregou seu espírito”, como último alento nesta vida (Jo 19,30), no seu primeiro Sopro como Ressuscitado (Jo 20,22), nas línguas ou labaredas de fogo em Pentecostes (At 2,3-4).
O Espírito da verdade sempre se manifestou e se revela como espírito forte, um vento e uma força que transforma os medrosos em valentes, os mudos em anunciadores, os desanimados em fiéis seguidores, comprometidos com a causa de Jesus, o Reinado do Pai.
O “Espírito da verdade” está sempre distante das instituições petrificadas e se revela presente nas situações mais surpreendentes. Brisa suave, Vento impetuoso, Sopro primaveril, Hálito de vida, Línguas de fogo...: são diferentes formas de sua manifestação e que abrem nossas consciências, não nos deixa tranquilos, desperta o melhor que há em nós, nos impulsiona a viver o compromisso em favor da vida.
O Espírito nos livra da indiferença, do fantasma do relativismo. do medo à mudança, à pluralidade. Porque o Espírito nos ensina que a única coisa que não muda é seu Sopro que nos faz mudar, fazendo tudo novo.
Não é fácil expressar esta experiência. O Evangelista João chama “Espírito da verdade”. É uma expressão muito acertada, pois Jesus, que se deixou conduzir por Ele, revelou-se como força e luz que o fez “viver na verdade”. Qualquer que seja a situação em que nos encontremos na vida, acolher Jesus significa acolher seu Espírito em nós e que nos leva para a verdade.
O evangelista o chama também “Espírito defensor”, porque nos defende daquilo que nos poderia separar de Jesus. Este Espírito “estará sempre conosco”, continuará sempre vivo no mundo. Se o acolhemos em nossa vida, não nos sentiremos órfãos e desemparados.
O tempo pascal vem nos recordar que Jesus não prometeu uma sociedade sem excluídos, nem um mundo sem males, um corpo sem enfermidades, uma realidade sem conflitos; mas, sim, nos prometeu o Espírito Paráclito, que estará sempre conosco e tornará possível os sonhos de Deus sobre a humanidade.
No atual contexto, marcado por tanto ódio e violência, descobrimos sementes de bondade espalhadas sobre a terra, uma primavera de boas atitudes, de amizade, de ajuda mútua, de criatividade... Quem vive bloqueado e petrificado é incapaz de descobrir o Espírito que sopra em toda a criação, em toda a humanidade e de conectar-se a Ele para poder respirar.
O “Espírito da verdade” é o “Espírito do momento presente”. O Espírito não está no mais além, mas aqui, nos envolve e nos constitui em nossa essência; Ele não é patrimônio de nenhuma religião. É o fundamento de toda espiritualidade que responde à sede de transcendência, para que a vida seja algo mais que deixar passar o tempo, acontecimentos, etapas..., inclusive projetos, êxitos e fracassos. O Espírito nos lança para além de nosso individualismo absurdo e nos faz cair na conta de que não podemos buscar só nosso próprio bem-estar.
O Espírito Santo, é a “marca” de Deus no coração do ser humano, é a energia divina que nos faz capazes de participar do seu Reino, na condição de filhos e filhas, e continuar o caminho de Jesus, sem desviar-nos por outros caminhos, seduzidos por outros “espíritos”.
O Espírito do Ressuscitado, neste momento crucial da história, remorde nossas consciências e nos desafia a romper nossas atrofias; uns, conduzidos por Ele, transformam por completo seu estilo de ser para uma vida mais ecológica e despojada; outros salvam vidas, literalmente, dos ventos tempestuosos do mar ou dos desertos que separam países e fronteiras; outros ainda se atrevem enfrentar as máfias das drogas, das armas e do tráfego de pessoas; há ainda aqueles que acreditam que as pessoas são “redimíveis” e podem se transformar em novos seres com o acompanhamento devido; outros se fazem eco do Espírito em despertar consciências: sabem ler ler os sinais de seu tempo e não se amedrontam diante dos ventos contrários, da perseguição; têm consciência de sua missão profética na sociedade porque não buscam nem alimentam vaidade; sua autoridade não procede de seus conhecimentos, mas de seu interior, do espírito.
Ninguém nos poderá destruir, pois somos morada do Paráclito. O Espírito e nós não somos dois; somos “seres espirituais vivendo uma aventura humana” (Theilhard de Chardin).
Na nova perspectiva, o Espírito é não-separado de nada; mais ainda, é o “núcleo” de tudo o que existe, a “outra face” de todo o invisível.
Como “Espírito da verdade”, Ele des-vela nosso ser essencial, é o grande multiplicador do melhor de cada um, o portador das “células-tronco” de nossa vida interior. O Espírito nos faz forte em nossa fraqueza e nos faz amadurecer quanto mais nos humanizamos. Seu modo de nos proteger é abrindo-nos; seu modo de nos defender é desarmando-nos e quebrando nossa rigidez. Soltar as asas nos momentos mais petrificados e pesados de nossa vida é sinal de sua silenciosa Presença. De imediato, nos sentiremos livres do peso que fomos arrastando durante tanto tempo e nos atreveremos a “viver como filhos e filhas do Vento”.
O quarto evangelho nomeia o Espírito como “Defensor” (“Paráclito”) e afirma algo completamente novo: “vive em vós e está em vós”. É assim: o Espírito – outro nome para referir-se Àquilo que está mais além de todos os nomes – constitui simplesmente nossa mais profunda identidade. Nossa existência é expansão do Espírito, vivendo em cada um de nós uma aventura humana.
Tal reconhecimento não significa uma inflação do ego, mas, pelo contrário, sua dissolução. Porque não está identificando nosso “ego” com o Espírito, mas afirmando que o Espírito é a identidade real que transcende por completo o ego, “des-egocentrando-nos” por completo.
Ali onde nosso ego se esvazia, o Espírito toma o lugar que lhe pertence desde o princípio e para sempre.
Esse lugar não é um espaço físico nem está situado no tempo, senão que esse lugar está dentro, vai conosco lá onde vamos. São “terras do Espírito”, e habitá-las é nossa promessa.
A humanidade sempre sonhou e buscou a “terra prometida”; no entanto, esta não se reduz a um lugar geográfico ou um espaço paradisíaco. São as “terras do Espírito”, terras prometidas a nossos pais e mães que viveram a partir de sua própria interioridade. É preciso descalçar-nos para entrar nessas terras, tornar-nos cada vez mais leves, mais humildes, peregrinos... Quem se deixa conduzir pelo Espírito, nenhuma terra lhe é estranha; ao contrário, tudo lhe é familiar.
Texto bíblico: Jo 14,15-21
Na oração: Na Igreja, fala-se muito do Espírito, mas, onde e quando escutamos sua presença silenciosa no mais profundo do coração? Onde e quando acolhemos o Espírito do Ressuscitado em nosso interior? Quando vivemos em comunhão com o Mistério da Trindade a partir de dentro?
- No silencioso sussurro da voz do Espírito toda realidade interior fica abençoada: os sentimentos contraditórios, os dinamismos opostos... Ele “desce” para encontrar-nos e despertar nossa vida atrofiada. Com seu toque, uma identidade nova ressurge: não seremos mais estrangeiros, nem inimigos de nós mesmos. Sua presença dá calor e sabor à nossa existência.
- O Evangelho é experiência de nascimento: faz-nos ver que somos filhos(as) de Deus, com Jesus, no Espírito.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
07.05.2026

“... e as ovelhas escutam a sua voz” (Jo 10,3)
Somos seres em permanente comunicação. Comunicamo-nos com nossos gestos, com nossa postura corporal, com nosso olhar, com nossa roupa, com nossa expressão facial, com nosso silêncio e, sobretudo, com nossa voz: uma voz que, por sua vez, comunica com seu volume, com seu timbre, com sua força ou com seus balbucios ou titubeios... Tudo em nós é permanente comunicação.
“...porque conhecem a sua voz”. Já somos mais de oito bilhões de pessoas que compartilhamos este planeta. Não há duas vozes iguais. A voz nos dá identidade, faz parte da nossa genética, do nosso ser, como a cor dos olhos, nosso jeito de andar, nossa impressão digital ou nossa caligrafia.
Através da voz nos reconhecemos e nos identificamos. A mãe reconhece a voz do seu filho muito antes que ele possa emitir qualquer som articulado. Pela voz, tanto como pelo olhar, mostramos a “alma”, canalizamos e refletimos nossas alegrias, nossas conquistas e nossos fracassos e tristezas: “posso notar pela tua voz”. Todos nós já experimentamos isso alguma vez: há vozes que nos enchem de ânimo e vida, e outras, pelo contrário, nos causam pequenas ou grandes mortes. Há vozes que gostaríamos de escutar com mais frequência e as guardamos como um tesouro em nossas lembranças; outras, no entanto, que gostaríamos de apagá-las para sempre da nossa memória.
Como cristãos, somos seguidores e seguidoras de uma Pessoa, Jesus Cristo, o verdadeiro Pastor. Quando Ele é o centro de nossas vidas, a identificação com Ele vai assumindo feições sempre novas e inspiradoras. Suz Voz inconfundível passa a ter um timbre diferente em nosso interior: voz que nos eleva, que comunica vida, que rompe nossos medos, que nos faz sair de nosso “redil” estreito e nos impulsiona a sermos presenças comprometidas com a vida.
É preciso discernir para reconhecer a Voz do Pastor entre tantas vozes que ressoam ao nosso redor todos os dias; é preciso distingui-la e interpretá-la como sua saudação vivificadora, como fonte de vida, de futuro, de projeto e de esperança; é preciso permitir que essa Voz gere vida, que pulse em nosso interior e que se derrame no mundo como uma voz construtiva, uma voz de “Boa Nova”.
Mesmo no interior das comunidades cristãs surgem “vozes” que estão muito distantes da Voz original do Pastor; são vozes egóicas, autocentradas, que apelam para o medo, o poder, o julgamento... São os “mercenários da fé” que não estão a serviço das “ovelhas”, mas de seus interesses.
Para discernir os pastores dos mercenários, a última frase do evangelho de hoje nos oferece uma pista interessante: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10b). O que quer dizer que cada vez que escutamos uma palavra que liberta, que salva, que reconforta, que dá esperança e vida, devemos seguir a voz de quem a profere. Trata-se de uma voz que prolonga a Voz do Pastor da Vida. Mas quando ouvimos uma voz que julga, condena e exclui, há fortes indícios de que estamos na presença de um mercenário, de um falso pastor, de um ladrão ou de um salteador. Esse último não está a serviço das ovelhas; ele se serve delas para se convencer de seu poder e do seu prestígio pessoal.
Neste tempo pascal celebramos Jesus como “pastor da liberdade”: sua voz nos arranca dos nossos estreitos lugares, das atitudes petrificadas, das visões limitadas..., e nos conduz para a vida livre. Certamente não somos “ovelhas” em sentido literal, mas pessoas. E Jesus, bom pastor, abre a porta da Vida e nos permite sair para o espaço amplo da Liberdade e da Páscoa. Este Pastor, desprovido de poder, revela sua autoridade na força de sua Voz, no assobio amoroso de sua melodia, no conhecimento pessoal de cada ovelha. A única forma de fazer com que a porta se abra e de conduzir as ovelhas à liberdade é chamá-las de um modo pessoal, com a palavra da vida e do amor. Este é o Jesus que liberta, que conduz as ovelhas para as pastagens da vida, para o campo aberto do amor compartilhado.
As ovelhas atendem à sua voz porque a conhecem. Uma frase com profundas ressonâncias bíblicas. Ouvir a voz do Senhor é conhecer e realizar sua vontade. Sua voz é libertadora. Ele as chama pelo seu nome, porque para Ele não existe massa; cada uma tem nome próprio; cada ser humano é único e irrepetível; cada uma é importante para Deus e para o mundo.
Este Pastor, a quem lhe abrem a porta, é alguém que, com sua voz, vai traçando uma rota de vida. Depois de ter chamado as ovelhas e tê-las tirado do aprisco, caminha à frente, sabe aonde vai. Abre um caminho de humanidade.
A Igreja está carente de “bons pastores”, homens e mulheres como Jesus que nos ajudem a sair do aprisco onde nos encontramos fechados, controlados e manipulados, para assim buscar e celebrar a liberdade, com Ele (Jesus) e com todos os homens e mulheres da terra. Este aprisco pode ser um tipo de Igreja fechada em si mesma, em seu dogmatismo, em seus ritos estéreis, em sua doutrina fria, que não escuta os clamores que surgem da realidade tão desumanizada. Uma Igreja assim torna-se incapaz de impulsionar seus fiéis para que saiam, respirem um novo ar, deixem-se afetar pelos desafios e provocações do mundo. É preciso que venha alguém para despertar e conduzir as “ovelhas” ao campo da vida, para que caminhem, para que amem, para que vivam em liberdade.
Todos nós, como seguidores(as) do verdadeiro Pastor, podemos e devemos ser “pastores(as)” e “porta de liberdade” para os outros, pastores(as) que os ajudem a encontrar o caminho e os acompanhem.
No caminho do Seguimento percebemos que há portas que já se abriram e que nos permitem transitar pelos caminhos da vida; há portas que devem manter-se fechadas, para deixar para trás estilos autocentrados que nos afastam de Jesus e dos outros; por fim, há outras portas que devem se abrir, para que um novo ar renove nosso interior e nos encha de fé, esperança e amor. “Abrir portas” é abrir-nos às novas possibilidades, ao futuro, ao encontro, à vida expansiva... Sabemos, por experiência, como é a alegria que nos acompanha quando nos abrem uma porta, cruzamos o umbral e nos chega o abraço, a acolhida e nos é oferecido o dom de uma amizade.
A vida é um êxodo permanente. Podemos afirmar que esse é o dilema da Igreja através dos séculos: ou fechar-se atrás dos muros do poder e autossuficiência, ou abrir-se missionariamente. Os melhores e mais criativos seguidores de Jesus, ao longo dos séculos, foram aqueles que se lançaram abertamente ao exterior, para servir, para acolher os desafios da realidade, para assumir uma atitude de serviço e cuidado, para se colocar no lugar dos últimos, das vítimas da história.
Tivemos grandes eventos na Igreja (Vaticano II, Medellin e Puebla...) que foram grandes “portas” e que lançaram as bases para uma abertura e diálogo com a sociedade atual. Infelizmente, continuam as tentativas por fechar portas e janelas numa atitude defensiva e medrosa. Mas, a esperança por uma Igreja pobre para os pobres continua se revelando como voz e apelo a um deslocamento contínuo para as “periferias existenciais”, convidando-nos a um novo êxodo.
A vivência pascal nos torna mais sensíveis e capazes de escutar os acontecimentos, alimentando uma atenção contemplativa frente à realidade que nos cerca, respondendo a seus apelos e tomando decisões maduras e evangélicas.
Texto bíblico: Jo 10,1-10
Na oração: Seguir o Bom Pastor e ouvir a sua voz é deixar-se “con-figurar” por Ele, é movimento pelo qual cada um vai sendo modelado à imagem d’Ele.
- A Voz do Bom Pastor modela identidades únicas e originais; deixe ressoar em seu coração esta Voz, para que ela se visibilize nos seus gestos e no seu cuidado em favor da vida.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
23.04.2026

“Não estava ardendo o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32)
Certamente, todos nós já passamos por experiências de decepção na vida. Sabemos que, muitas vezes, as pessoas que mais amamos são aquelas que nos decepcionam. O grau de decepção é diretamente proporcional às pessoas mais próximas; quanto mais afeiçoadas a elas, maior é a decepção. Aquelas que não amamos, ou quase não as conhecemos, não nos decepcionam tanto. Decepcionam-nos aquelas de quem esperamos muito. Podemos recordar quantas pessoas que nos decepcionaram em nossa vida, ou aquelas a quem decepcionamos.
Também nós nos decepcionamos a nós mesmos. Acreditávamos que daríamos conta daquilo que tínhamos prometido realizar e não conseguimos; assumimos decisões e ficamos no meio do caminho. Grandes decepções que nos abalam e pequenas decepções cotidianas que sugam nossas energias e criatividade.
Cada ano, no Tempo Pascal, nos encontramos com um texto de decepcionados: relato dos “discípulos de Emaús”. Dois discípulos que queriam muito a Jesus, que estiveram a seu lado, e que, decepcionados, afastaram-se do grupo dos seguidores. Não suportaram estar decepcionados e continuar como discípulos. Dois discípulos que conviveram com Jesus durante três anos; alimentaram expectativas pessoais e não entenderam bem qual era a proposta d’Ele. Por isso, ficaram decepcionados diante da trágica morte e do fracasso da missão do mesmo Jesus. Procuraram sair de cena, desiludidos com o que lhes parecia ser o desfecho de uma história, a mesma que suscitara neles expectativas tão altas (“nós esperávamos...). Para eles, já não valia mais a pena seguir a quem os decepcionou. O melhor era afastar-se d’Ele e retomar a vida anterior que tinham deixado. E foram embora, mergulhados na solidão, sozinhos, tristes e “discutindo” pelo caminho. Voltaram para a casa com sua decepção. Isolaram-se.
À luz do relato dos “discípulos de Emaús” podemos afirmar que a decepção é pensar ou alimentar uma ideia das possibilidades de alguém de quem se espera muito e que a realidade acaba revelando o contrário. Foi a decepção que atrofiou o olhar deles e não os deixava ver; travou a mente deles e não os deixava ter uma percepção mais ampliada; secou os sentimentos mais nobres deles e os mergulhou na tristeza.
A decepção alimenta remorsos e faz dar voltas sempre sobre o mesmo assunto. “O que ides conversando pelo caminho?” E os discípulos começaram a falam de sua decepção, da “propaganda enganosa” que Jesus lhes fizera. “Ele não era como eles haviam pensado, imaginado”. E isso os afundou na tristeza, no fracasso e os fizera “voltar para casa, deixando o projeto de viver com os amigos de Jesus”. Falavam, discutiam e voltavam a falar do mesmo. Davam voltas às coisas para dizer sempre o mesmo. Não entendiam Aquele que os decepcionou. Não era possível. Tentaram apagá-lo de sua existência e por isso se afastaram da comunidade dos seguidores d’Ele.
Para romper o círculo da conversa repetida e doentia foi preciso que alguém lhes ajudasse, lhes explicasse, lhes abrisse os olhos, lhes fizesse unir o fato acontecido com as profecias, para poder sair de suas queixas estéreis. Foi preciso passar da memória mórbida, fracassada, triste..., à memória sadia, redentora; foi preciso sair do “porque isso aconteceu?” e voltar-se ao “para que isso aconteceu?” Foi preciso situá-los em outro horizonte, mais instigante e inspirador.
Assim fez o peregrino Ressuscitado junto aos dois discípulos que iam embora.
Qual é a boa-nova do evangelho deste domingo?
Que a decepção e o fracasso podem ser também o lugar de revelação, de encontro, de poder ver as coisas sob outra perspectiva, de dar-se conta de que tinham investido a vida em alguém, segundo os próprios critérios. O caminho empreendido pela decepção, ou seja, o voltar para casa e deixar o grupo de seguidores é, em Emaús, o caminho onde o Ressuscitado também vem ao encontro deles e estabelece uma conversação carregada de afeto e ternura. Nada de julgamento, de acusação. A decepção para com o Mestre da Galiléia foi a oportunidade de novo encontro com Ele.
No caminho da decepção é onde encontramos com pessoas, com acontecimentos, com ocasiões que podem ajudar a revisar e a iluminar nossa própria decepção. No caminho da decepção é onde Deus também sai ao nosso encontro como decepcionados. A decepção nos leva sempre, como os discípulos de Emaús, a descobrir que temos falsas ideias de Deus, de nós mesmos, dos outros, que construímos “imagens” segundo nossos critérios, que esperamos que tudo se cumpra segundo “o que nós imaginamos e cremos”.
Nas grandes decepções, como também nas pequenas decepções de cada dia, Deus está nos convidando a ir mais além, a reconhecê-lo de verdade como Senhor, a tirar as capas que fazem com que o Deus em quem cremos seja uma construção nossa. Em Emaús, a maneira que o Ressuscitado encontrou para abrir os olhos dos discípulos foi fazer-se peregrino, como um de tantos que vão pelo caminho, e iniciar uma conversação amigável. Outras vezes Ele se deixou encontrar no silêncio, no grupo, numa conversação à beira da praia, alentando e aquecendo o coração dos decepcionados.
Há um detalhe que não deveria passar desapercebido no relato deste domingo: enquanto os dois discípulos continuam falando e discutindo, o Ressuscitado se aproxima, gasta seu tempo, caminha a seu lado, guarda silêncio e escuta-os. E toda esta aproximação... para quê? Para pôr-se a caminho com eles. Chama a atenção que não haja outra intenção em Jesus. Não há uma pretensão oculta, pois não se trata de uma aproximação interesseira ou de uma estratégia pastoral. Simplesmente, se põe a caminhar, dando tempo para criar um clima de confiança, de confidência e diálogo. Pura gratuidade! Assim, Ele vai “ressuscitando” e desbloqueando a vida daqueles que fogem e buscam refúgio no passado.
Chama a atenção que não há recriminação da parte do Ressuscitado para com os discípulos que abandonam tudo num momento no qual se torna inconcebível crer no anúncio das mulheres, “enlouquecidas” de alegria diante do túmulo vazio do Nazareno. Jesus se põe a caminhar com eles sem importar-se para onde vão, sem pretender mudar-lhes o rumo que tomaram, sem forçar a voltar para a comunidade.
A aproximação gratuita e o pôr-se a caminhar com os discípulos fracassado, sem se importar para onde iam, possibilita criar um ambiente favorável para poder fazer decisivas perguntas: “De que estais falando? Que aconteceu?”. O silêncio e as perguntas do Ressuscitado lhe permitem não só escutar a narrativa dos acontecimentos ocorridos, mas, sobretudo, perceber as vivências e os sentimentos que os dois de Emaús deixam transparecer: decepção diante daquilo que foi prometido e não se realizou; frustração diante de expectativas não realizadas. Por debaixo daquilo que é narrado, Jesus sente o drama vivido pelos dois discípulos. E sua resposta se situa justamente nesse nível: o da vivência.
Os dois discípulos de Emaús não poderiam reconhecer o Senhor ressuscitado na “fração do pão” se antes não tivessem vivido atitudes para isso: acolhê-lo como companheiro de caminho, escutar sua Palavra e deixar que Ele abrisse seus olhos.
Depois que “seus olhos se abrem”, os discípulos passam da mais profunda tristeza e da mais radical decepção para uma alegria e um entusiasmo nunca experimentado. Invadidos por uma imensa alegria, voltam para Jerusalém, sem pensar no cansaço nem na distância do caminho, sem temer a escuridão nem os perigos da noite. Não fazem o “caminho da volta” arrastando os pés e cabisbaixos, como tinham feito o caminho de ida, mas correndo, com os olhos iluminados e o coração ardendo no meio da noite.
A dimensão comunitária é, portanto, constitutiva da experiência do encontro com o Ressuscitado.
Dito de outro modo: o encontro pessoal com o Senhor edifica a comunidade. O re-encontro e a restauração da comunhão com Jesus, agora ressuscitado, movem os dois discípulos a realizar o caminho de volta para a comunidade e para a missão.
Texto bíblico: Lc 24,13-31
Na oração: Busque, na oração, inspirar-se na aproximação do Ressuscitado para ativar sua capacidade de se colocar e caminhar ao lado de tantas pessoas tristes e frustradas que, como os dois de Emaús, também estão se afastando. Atuar desta maneira supõe assumir riscos, ou seja, adentrar-se em seu terreno, em suas visões da vida, nas motivações que os movem. E aproximar-se não significa só um movimento de saída do lugar que proporciona segurança, senão que, sobretudo, implica a superação de pré-juízos, de imagens pré-concebidas, de suspeitas...
Pe. Adroaldo Palaoro sj
17.04.2026

“... os discípulos estavam com as portas bem fechadas, por medo dos judeus” (Jo 20,19)
O relato pascal deste domingo descreve, com traços fortes, a situação da comunidade cristã quando em seu centro falta a presença do Cristo ressuscitado. Sem sua presença viva, a comunidade se reduz a um grupo de homens e mulheres que vivem “numa casa com as portas fechadas, por medo dos judeus”.
Com as “portas fechadas” não se pode saber o que acontece lá fora; não é possível captar a ação do Espírito no mundo; não dá para abrir espaços de encontro e diálogo com ninguém; apaga-se a confiança no ser humano e crescem os medos e pré-juízos. Uma comunidade que permanece no túmulo, mergulhada no medo e sem capacidade de encontro e diálogo, é uma tragédia, pois os seguidores de Jesus são chamados a tornar visível, no hoje da história, o eterno diálogo de Deus com a humanidade.
Grandes medos não aparecem com frequência; são os pequenos medos que surgem dos encontros diários com a realidade e roubam nossa vitalidade e dinamismo. O medo inibe o pensamento, impede a concentração e é, portanto, muito responsável por fazermos as coisas de modo medíocre, sem valor, abaixo das possibilidades e contra as nossas expectativas.
O medo não é um ato moral nem uma omissão. Sem ser convidado, ele cresce no nosso coração. Em tal atmosfera de medo, a imaginação e todas as energias criativas se atrofiam.
Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do nosso ser. O medo nos deixa vulneráveis à manipulação.
O “medo” pode paralisar o “movimento de vida” iniciado por Jesus e bloquear nossas melhores energias; sob o impacto do medo a tendência é nos fechar nos ritos estéreis, na doutrina fria, no legalismo e no moralismo doentios que nos levam a rejeitar o que é diferente e a condenar o que é novo. Com medo não é possível amar o mundo e as pessoas. E, se não o olhamos a realidade com os olhos de Deus, como vamos comunicar a Boa Notícia? Se vivemos com as portas fechadas, quem deixará o redil para buscar as ovelhas perdidas? Quem se atreverá a tocar a algum doente excluído? Quem se sentará à mesa com pecadores e marginalizados? Quem se aproximará dos esquecidos pela religião?
Aqueles que desejam buscar o Deus de Jesus nos encontrarão com as portas fechadas.
O relato de João é sugestivo e interpelador. Só quando vê a Jesus ressuscitado no meio deles, o grupo de discípulos se transforma, recuperam a paz, desaparecem seus medos, enchem-se de uma alegria desconhecida, recebem o Sopro de Jesus sobre eles e abrem as portas, porque se sentem enviados a viver a mesma missão que Ele havia recebido do Pai.
O relato joanino deste domingo traz uma série de expressões que revelam a profunda “ressurreição” vivida pela comunidade dos discípulos; ela precisou fazer a travessia da escuridão para a luz, do medo para a coragem, da timidez para a missão; são expressões carregadas de vida, de futuro, abertas ao novo e que mobilizam a retomar a mesma missão vivida por Jesus durante sua vida pública. O Ressuscitado reconstrói sua comunidade de seguidores, rompe as cadeias do medo e os devolve ao mundo.
* “O primeiro dia da semana”: começa uma nova Criação e com ela, uma nova Aliança. Em Jesus se
completa a criação do ser humano, levando a humanidade à sua plenitude. O local fechado, como consequência do medo, delimita o espaço da comunidade em meio a um mundo hostil. A mensagem de Maria Madalena fazendo-os saber que Jesus vivia, não os havia libertado do medo. Jesus sai ao encontro dos discípulos inesperadamente; sua presença se efetua diretamente. Ele é quem toma sempre a iniciativa e aparece no centro da comunidade, porque, agora, Ele é para eles a única referência e fator de unidade. A presença que experimentam não é uma invenção nem surge de um desejo ou expectativa dos discípulos. A nenhum deles teria passado pela cabeça que Jesus pudesse aparecer, uma vez que tinham testemunhado seu fracasso e sua morte.
* “A paz esteja convosco”: Jesus os saúda; o calor da saudação elimina o medo e as incertezas; é o gesto que conecta o que está acontecendo com o Jesus que viveu e comeu com eles.
A presença de Jesus se impõe como figura próxima e amistosa, que manifesta seu interesse por eles e que busca conduzi-los à sua plenitude de vida.
* “Soprou sobre eles”: É o mesmo gesto do Criador ao fazer do homem de barro um “ser vivente”. Tudo
isso é obra do Espírito. Deus atuou em Jesus, atua em nós e atua no mundo. A obra da Criação continua. No sétimo dia, Deus não descansa, o Salvador não descansa até que todos sejam filhos e filhas. Jesus é nova Criação; nós também. Somos criadores com Deus, à sua imagem e semelhança.
* “Meu Senhor e meu Deus”: A resposta de Tomé é tão extrema quanto sua incredulidade. Ao dizer-lhe
“Senhor”, reconhece o amor de Jesus e o aceita dando-lhe sua adesão. Ao dizer “meu” expressa sua proximidade, como Madalena. Não precisou tocar as chagas, mas precisou tomar consciência de que o Ressuscitado é infinitamente mais que aquilo que os próprios sentidos podem captar.
E ao reconhecê-Lo, modifica-se também a percepção de sua própria identidade e mergulha no assombro, na admiração e no louvor.
* “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”: O Ressuscitado convida a “crer” porque, quando alguém crê, recupera a capacidade de “ver”. A fé possibilita um olhar contemplativo: vê o que todo mundo vê, mas de maneira diferente. Vê sinais do Ressuscitado em tudo o que existe e compreende que tudo tem um sentido, imperceptível à luz dos sentidos externos. A ressurreição permite um olhar aberto, simples e natural, um olhar encantado diante de cada aspecto da realidade.
O relato evangélico deste domingo vem revelar que a nossa primeira atitude é deixar entrar o Ressuscitado através de tantas barreiras que levantamos para nos defender do medo. Que Jesus ocupe o centro de nossas vidas e de nossas comunidades; que só Ele seja a fonte de vida, de alegria e de paz. Que ninguém ocupe seu lugar; que ninguém se aproprie de sua mensagem; que ninguém imponha um modo de viver diferente do seu. Precisamos, mais do que nunca, abrir-nos ao alento do Ressuscitado para acolher seu Espírito.
Para quem fez a experiência do encontro com o Ressuscitado, não existe mais medo, não existem mais obstáculos nem portas fechadas, etc., que impeçam de realizar os caminhos do anúncio do Evangelho, da comunhão e da missão. A ressurreição nos compromete a abrir as portas para libertar as pessoas de uma religião esclerosada, uma religião de condenação e de exclusão. No Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII abriu as portas e as janelas da Igreja para arejá-la, para lhe permitir uma melhor circulação do ar, para libertar os cristãos que estavam doentes numa Igreja dogmática e doutrinal.
É por isso que o evangelho de hoje deve nos interpelar, a nós que somos seguidores(as) do Ressuscitado. Devemos compreender que é preciso abrir a Grande Porta, que é o Cristo, para permitir que todas as pessoas circulem livremente. Se quisermos ser fiéis a Ele e à nossa missão cristã, devemos abrir a porta para o mundo a fim de que todos possam entrar nas nossas comunidades com toda a liberdade.
Texto bíblico: Jo 20,19-31
Na oração: Para fazer a experiência do encontro com o Ressuscitado é preciso quebrar “ferrolhos” de nossa morada interior: ferrolhos das ideias fixas, dos sentimentos frios, das relações vazias, do legalismo mortal...
- No nível mais amplo: quais são os ‘ferrolhos” que travam a vida da Igreja, impedindo-se de ser sinal do Ressuscitado? Quais são os “medos” que bloqueiam a criatividade e a ousada da verdadeira comunidade de Jesus?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
11.04.2026

“As mulheres correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos” (Mt 28,8)
Ainda não é dia, mas amanhece um tempo novo, ressoam como ditas para nós as palavras de Isaías: “Algo novo está brotando, não o notais?” (Is. 43,18-19). É tempo de esperança.
A noite é o tempo do mistério e da promessa, é o lugar da espera e da realização, o espaço do desejo e do encontro, da invocação e da revelação, do sofrimento e da paixão, do silêncio e da oração, da vida e da morte, do Natal e da Páscoa...
A experiência da Ressurreição nos faz “passar” pela noite e perceber no seu interior os segredos ali escondidos, as surpresas que nos são reservadas. É a experiência da presença da “noite” no ritmo da vida: noite que causa medo, provoca arrepios, impede a visão, paralisa...
A partir da experiência pascal, a noite pode espantar, mas também pode ser chance para ver melhor; a morte pode ser ameaçadora, mas ela ensina a viver; o sepulcro vazio pode causar dúvida, mas ele aponta para a ressurreição; o infinito pode suscitar inquietação, mas consegue impulsionar para o além, até acender no coração uma chama persistente: a esperança.
Após a morte e o sepultamento de Jesus, os discípulos se refugiam em uma casa; anoitece em Jerusalém e também em seus corações. Ninguém os pode consolar de sua tristeza e desolação. Pouco a pouco, o medo vai se apoderando de todos; a única coisa que lhes dá certa segurança é “fechar as portas”. Estão reunidos, escondidos, polarizados na frustração, concentrados na perda dolorosa, desconfiados de tudo e de todos.
Na comunidade reina um vazio que ninguém pode preencher; também eles estão mergulhados na morte, literalmente vivendo numa “casa sepultura”: sem futuro, sem sonhos...
Os discípulos têm a sensação de estarem sufocados, como numa prisão, na qual a inquietude, a insegurança, a confusão, o vazio, a ansiedade e a tristeza são inevitáveis.
O evangelista Mateus descreve a transformação que acontece nas mulheres que foram ao sepulcro, de madrugada: sentem uma intensa alegria quando Jesus, cheio de vida, se faz presente diante delas. O Ressuscitado está de novo no centro de sua comunidade de seguidores; eles sentem Seu alento criador. Tudo começa de novo. Tal presença os liberta do medo e da dúvida, os faz escancarar as portas e dar início ao processo de evangelização.
O Ressuscitado se aproxima como Presença viva que dá Vida: deixa-se ver, fala, interpela, corrige, anima, comunica paz e alegria. Em uma palavra, presenteia seu Espírito.
Outra vez Jesus recria a comunidade que, depois da Paixão, estava desintegrada; as mulheres e os discípulos experimentam novamente o chamado e o envio, para serem testemunhas e cúmplices do Espírito; vivem a certeza existencial de que o Crucificado é o Ressuscitado, que a morte foi vencida, que Deus é o Senhor da Vida. Impulsionados pela força do Espírito, seguirão colaborando, ao longo dos séculos, no mesmo projeto salvador que o Pai confiou a Jesus.
Para isso, descobrem que é preciso escancarar portas e janelas das casas para anunciar a grande novidade: há “sinais” de Ressurreição perpassando todas as experiências humanas.
A imagem pascal é a da “porta da liberdade”, que possibilita uma vida sempre expansiva.
A Vida verdadeira implica saída de nossos espaços, muitas vezes atrofiados e de curto horizonte: por isso, precisamos de portas e janelas, nossa casa interior precisa de saída. Não podemos, não devemos permanecer fechados, pois isso atrofia nossas possibilidades de vida, sobretudo se estamos reclusos no egocentrismo.
Equivocadamente distraídos por alguma complacência ou comodidade interna, nem sempre caímos na conta de que vivemos fechados; não percebemos o perigo letal da asfixia existencial; não sentimos as amarras da dependência ou os vícios que a vontade fragilizada já não consegue romper.
Nesse sentido, podemos entender a imagem pascal da “porta” enquanto espaço aberto que permite a vida fluir. Porque vida é, antes de mais nada, espaçosa, amplitude ilimitada que tudo abarca e que se expressa em infinidade de formas, todas elas habitadas pela mesma e única Vida.
Precisamos nos libertar, nos desatar, sair; precisamos de uma porta! Precisamos sair de nossos túmulos!
Bendita porta de saída!
O próprio Jesus já tinha afirmado antes: “Eu sou a Porta”. E é verdade, porque Jesus, “ressuscitado dentre os mortos”, abriu um espaço no hermético ventre da morte. Com seu próprio corpo e sua vida, Jesus se transformou em Porta da Vida verdadeira e com a força do seu Espírito Ele nos liberta, nos desata para sair dos espaços atrofiados e passar para a vida ampla do amor, para a vida com os outros.
Uma porta aberta. Somos impactados pela luz que vem de fora e pelo ar vivificante. Nós ouvimos sua voz. Ele se dirige a cada um(a) e à sua voz nos colocamos em marcha. O oxigênio que aí respiramos é o Sopro do próprio Deus.
Jesus é uma Porta grande e aberta que favorece a circulação com toda a liberdade. Entrar por essa Porta é o mesmo que “aproximar-nos d’Ele”, “escutar sua voz”, “identificar-nos com Ele”.
Em Jesus, todo(a) seguidor(a) pode alcançar a verdadeira liberdade; “poderá entrar e sair”, terá liberdade de movimento.
As portas abertas, por sua vez, permitem ampliar nosso horizonte. Através delas purifica-se o ar denso e irrespirável do nosso interior, que geramos quando nos fechados em nós mesmos. Elas nos abrem à comunhão com a natureza, com os outros, com a realidade que nos cerca. Elas nos humanizam, pois servem para nos revelar aos outros quem somos, que eles fazem parte de nossa casa e que, abertas, indicam que eles podem entrar e sair livremente em nossas vidas.
Como seguidores(as) de Jesus, habitando em casas construídas sobre a rocha do Evangelho, deveríamos nos preocupar mais com as portas e janelas e menos com os espelhos. Outros rostos precisamos descobrir: rostos feridos, excluídos, carentes de proximidade e abraço.
Muitas vezes, as portas nos protegem da diversidade, blindam nossa individualidade e parecem itens indispensáveis à sobrevivência. Assim, somos prisioneiros de nossa estreita visão de mundo e fazemos de nossa casa uma couraça que enclausura. Melhor a viagem que nos faz vulneráveis do que a segurança que nos rouba o horizonte. Melhor enfrentar o impacto do diferente e usufruir da liberdade do que inventar portas seguras que nos fazem cativos e solitários dentro de nossas próprias casas.
Quando estamos atravessando graves crises, como aquela vivida pelos discípulos, depois da paixão e morte de Jesus, é reconfortante entrar na profundidade de nosso ser e deixar ressoar estas palavras: “alegrai-vos!”
É a experiência do encontro com o Ressuscitado que nos pacifica, mesmo em situações de crises, fracas-sos, horizontes sem saída..., quando o medo e a angústia se manifestam com mais força.
A serenidade é uma vivência profunda, íntima, salutar... De repente, alcançamos uma paz inspiradora, uma paz que ninguém pode nos comunicar; uma alegria serena que pacifica nosso interior.
Basta permanecer nessa paz, na nossa morada interior.
Através das mulheres, os discípulos receberam novamente a missão de Jesus. Elas se converteram em mensageiras da boa notícia; elas assumiram o protagonismo e relançaram o projeto do Reino a partir de sua grande intuição: na Galiléia começou a história e ali deverá ser reiniciada.
Seguir as pegadas do Galileu confirma que Ele vai adiante guiando os seus seguidores e seguidoras. Percorrer seus passos garante à sua comunidade a experiência de contar com Ele: “Ele irá à vossa frente, na Galiléia; lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos” (Mt 28,7).
Textos bíblicos: Mt 28,1-10
Na oração: - Que abramos as portas e as janelas da nossa vida, para que todos possam ver o quanto de vida há dentro dela, para que vejam quem somos, como vivemos..., de maneira que possamos oferecer e compartilhar espaço de perdão, de acolhida sem preconceitos, de amor oblativo...; é preciso afastar a pedra do dogmatismo, do legalismo, do ritualismo... que nos mantém sufocados ou respirando o ar fétido dos túmulos.
- Que sonhemos também com uma Igreja que rompa os túmulos do conservadorismo, do legalismo, da apatia, e se abra à desafiante situação de nosso mundo, “vivendo em saída” para “tocar” os chagados e lhes oferecer o dom da unção e do consolo.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
05.04.26
Uma inspirada Páscoa a todos!

“A partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,27)
O Sábado Santo é o dia do grande silêncio: “Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio porque o Rei dorme; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne” (de uma antiga homilia de Sábado Santo). É o silêncio sepulcral. Jesus morreu e foi sepultado. Os seus amigos provaram o fel amargo da desilusão. Os evangelhos afirmam que todos os discípulos o traíram; deixaram tudo para o seguir, confiaram-lhe as suas vidas e, afinal, o messianismo de Jesus reduziu-se a um sepulcro frio, escuro e silencioso, como todos os túmulos da terra.
Em todo caminho espiritual é preciso passar pela “noite”, pela “ausência”, pelo “silêncio”, para amadurecer. É inevitável experimentar, durante algum tempo, alguma forma desconcertante de sentir a presença-ausência de Deus.
A terrível “noite escura” do Sábado Santo corresponde a um incontestável estágio espiritual, como dura, mas inevitável “passagem” (Páscoa) para a Luz do Domingo.
Só atravessando o silêncio, a “Noite Amarga” se transforma em “Noite Amável”.
Um silêncio entendido como outra forma de presença de Deus.
O silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus filhos e filhas; o Pai não estará fazendo luto por seu Filho e por suas criaturas?
* Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar?
* Quê Deus não tem direito de guardar silêncio?
* Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente?
Se não oramos a partir desse silêncio, é porque ainda não mergulhamos no mistério do Amor compassivo.
Muitas vezes negamos a Deus o que de mais humano há em nós: o poder fazer comunidade compassiva e solidária, compartilhando a dor e o luto.
O Pai está de luto; toda a natureza está de luto; em silêncio, ela acolhe a semente do Corpo do Verbo, na esperança de germinar Vida plena. A Terra, mais uma vez, oferece casa e abrigo ao Corpo do Crucificado. Aquele que morrera “fora dos muros da cidade” encontra moradia no seio da mãe-terra.
O Sábado Santo, portanto, não é o mutismo de Deus, mas seu Silêncio, ou seja, a ação oculta de Deus estendida no tempo, quer na vida, quer na morte; Deus nos fala em sua mudez.
O silêncio do Senhor nos move a procurar, a escutar, a enxergar... O silêncio do sepulcro nos interpela.
Iluminados pelo dom da fé, sabemos que, depois do silêncio, renasce a Palavra. O que parecia o fim, na realidade aquele silêncio era o mesmo que precedeu a Palavra criadora: “Faça-se luz”. E do “caos da escuridão” surgiu a luminosidade do “cosmos”.
O silêncio de Deus é fecundo. É no tempo silencioso que a semente se torna fruto e o ser humano se torna pessoa. O silêncio permite transformar a morte em vida. Aquele túmulo, afinal, era uma fonte pujante de vida e de alegria. Aquele lugar, aparentemente escuro e vazio, veria uma luz que o mundo inteiro não pode conter. Por isso, para nós, as experiências do silêncio de Deus serão sempre um convite à fé e à esperança.
Não há razão para o medo, pois o silêncio esconde a vida e a consolação de Deus.
O enfoque dia sabático está no fato de que é preciso esperar no silêncio e na calma. Às vezes queremos passar da morte à vida sem espaços de esperas.
Sabemos que a vida da Igreja, como também a nossa vida pessoal, é feita de longos sábados santos, nos quais nem a dor da Paixão nem o consolo da festa Pascal marcam significativamente nossos dias e nossas noites, mas simplesmente a dura e paciente espera, na fé mais despojada, de um Senhor, que se faz esperar tanto que parece que já não vai chegar mais.
É o Sábado Santo de um credo pascal que sabe que amanhã florescerá a messe. Submergido no sepulcro do Senhor, espera-se simplesmente.
Ao sentir a própria incapacidade de levar adiante a exigência do Evangelho, cada um(a) se apresenta no sepulcro do Senhor de onde pode irromper a força transformadora da manhã da Ressurreição.
O Sábado Santo é um dia sem liturgia, em silêncio, não passa nada, não sucede nada, recorda a solidão do sepulcro, a tristeza das mulheres e dos discípulos, a desilusão diante do fracasso.
“O Rei dorme”, comenta uma antiga homilia sobre o Sábado Santo. O povo canta o “Shabat mater”, acompanha a Virgem dolorosa, espera com ela, em silêncio, a aurora pascal.
Da escuridão da morte do Filho de Deus brota a Luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição reflete-se no rosto de Maria. Nossa amizade e devoção a Maria da esperança, a transparência feminina do Espírito, nos mantém no ritmo da espera.
Segundo S. Inácio, no percurso dos Exercícios Espirituais a Paixão termina na casa de Nossa Senhora (EE. 208). É em sua casa que se abrirá também a semana da Ressurreição.
S. Inácio segue aqui uma tradição de sua época, onde se aceitava como fato revelado que a primeira aparição do Ressuscitado foi à Virgem Maria (EE. 299).
A Escritura não nos apresenta nenhum relato de aparição a Maria. Mas, segundo Inácio, mesmo que a Escritura não o diga, essa aparição é evidente. Talvez a mesma Escritura tenha dado por suposto, já que o caso de Maria é diferente: aqui Jesus não teve que educar a fé de sua mãe. Ele a encontrou em atitude de espera permanente. Sua fé tinha sido firme e por isso a tradição situa o início da vida da Igreja em torno a Maria, e Maria como aquela que congrega e apoia a fé conturbada dos discípulos.
Porque ela soube estar com o Crucificado, pode ver o Ressuscitado.
Junto a Maria, é preciso considerar o Sábado Santo como um tempo de luto e pranto: depois da dor intensa da Sexta-feira Santa dá-se lugar a uma dor silenciosa, contida, como a terra que vai se empapando até suas entranhas com a água caída torrencialmente sobre a superfície.
O que aconteceu na superfície da terra na Sexta-feira Santa, acontece nas profundezas da morte no Sábado Santo, para que no Domingo da Ressurreição sejam resgatados ambos os acontecimentos.
É preciso saber acolher este silêncio surdo, que marca a passagem entre duas experiências intensas: a Sexta-feira de dor e o Domingo de Ressurreição.
No sepulcro, Jesus se faz solidário com toda a morte humana. E é preciso esperar com Ele. É preciso esperar em nossos projetos e sonhos, na libertação dos povos, em uma nova humanidade.
Em nossas vidas teremos muitas sextas-feiras santas de dor e dias de Páscoa, mas, teremos muito mais sábados de espera.
O ser humano que espera não tem certeza, não fica seguro, não está satisfeito. Mas a esperança tem fundamento; não é uma ilusão e nem uma utopia; não é um sonho impossível e nem uma lembrança irre-cuperável; não é só futuro, mas permanece, disfarçadamente, presente; não é uma morada, mas um senti-mento sempre inédito. A esperança evita tropeçar no fracasso, no desânimo, na apatia e no silencioso de-
sespero. Ela se acende à noite, vence na impotência; começa na limitação; é ousada na fragilidade.
A esperança é caminho e meta, posse e dom, destino e encontro, antecipação e cumprimento, expectativa e busca, risco e proteção, nó e liberdade. A esperança é certa, mas não dá “garantias”.
Arrancados ao silêncio dos nossos túmulos, também nós podemos gritar como Maria Madalena no primeiro dia de Páscoa: “Vi o Senhor!” Este grito, que nos enche de esperança, rasgará todo o silêncio, e ecoará por toda a eternidade.
A força da esperança está oculta precisamente na sua impotência. A Cruz permanece em seu lugar, mas o sepulcro fica vazio para sempre! É Ressurreição: vida plena antecipada.
Texto bíblico: Jo 19,25-27
Oração: contemplar Maria em sua “segunda Anunciação”; na “primeira Anunciação” deu-se o início da vida
de Jesus. Agora, essa Vida se revela a ela como Vida definitiva.
Que Maria eduque nossa confiança; que ela nos encha de esperança!
Pe. Adroaldo Palaoro sj
04.04.2026
imagem: Corregio

“Tudo está consumado” (Jo 19,30)
A vida humana é fecunda, é potencialidade, é explosão de criatividade... Assim como na semente há vida latente esperando a oportunidade de expandir-se, também no ser humano encontram-se ricas possibilidades, esperando a morte do “eu mesquinho”, para se plenificarem.
A morte do falso “ego” é a condição para que a verdadeira vida se liberte. É preciso passar pela morte do que é terreno, caduco, transitório (paixões, apegos desordenados...) para deixar emergir a vida interior, a vida divina, a vida de Deus em nós.
O essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”.
O “depois da vida” é um grande encontro onde seremos perguntados: “o quanto você viveu sua vida?”
A vida é constantemente chamada a ser Páscoa. Porque na vitória da Vida entregue, ela ganha sentido, avança, como uma torrente que rega terras secas, ávidas de água, como um fogo que, na noite mais escura, traz uma luz que permite vislumbrar a vida oculta.
A vida é movimento e, portanto, energia expansiva. Podemos consumi-la em benefício do ego (falso eu) e então vem o fracasso. Podemos consumi-la em benefício dos outros e da causa do Reino; e então, consumá-la, dando-lhe plenitude. Ter apego à própria vida é destruir-se; entregar a vida por amor não é frustrá-la, mas levá-la à sua completude. Aqui há uma inversão na lógica natural das coisas; ganha-se quando perde, vive-se quando morre, multiplica-se quando divide.
Perder-ganhar, morrer-viver, entregar-reter, doar-receber..., parecem dimensões ou realidades contraditórias, mas captar a profundidade da verdade contida nesta “contradição aparente” é descobrir o Evangelho.
“Morrer”, “perder”, “entregar” ... é este instante de ruptura, onde toda uma vida incubada, trabalhada no silêncio e no sofrimento, marcada de alegrias e tristezas, vitórias e fracassos, desponta luminosa para a vida eterna. Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; ela nos desaloja de nossos “lugares estreitos” e nos faz caminhar em direção a novos horizontes.
A vida aumenta quando compartilha e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade.
De fato, aqueles que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança do conhecido e se dedicam apaixonadamente à missão de comunicar vida aos outros.
Ao contemplar o Crucificado, muitos questionamentos vão surgindo:
* a Cruz é sinal de solidariedade ou sinal de poder, sinal de libertação ou sinal de opressão, sinal de rebeldia ou sinal de submissão, sinal dos vencidos ou sinal dos vencedores...?
* Perguntamo-nos se é a Cruz dos condenados deste mundo ou a cruz dos que condenam, a Cruz dos crucificados da terra ou a cruz dos que continuam crucificando como em outro tempo crucificaram a Jesus?
A primeira coisa que descobrimos ao contemplar o Crucificado do Gólgota, torturado injustamente até à morte pelo poder político-religioso, é a força destruidora do mal, a crueldade do ódio e o fanatismo da mentira. Precisamente aí, nessa vítima inocente, nós seguidores de Jesus, vemos o Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos. Está na Cruz do Calvário e está em todas as cruzes sonde sofrem e morrem os mais inocentes. A partir da Cruz, Deus não responde o mal com o mal; Ele não é o Deus justiceiro, ressentido e vingativo, pois prefere ser vítima de suas criaturas antes que verdugo.
O Crucificado nos revela que não existe, nem existirá nunca um Deus frio, insensível e indiferente, mas um Deus que padece conosco, sofre nossos sofrimentos e morre nossa morte.
Despojado de todo poder dominador, de toda beleza estética, de todo êxito político e de toda auréola religiosa, Deus se revela a nós, no mais puro e insondável de seu mistério, como amor e somente amor.
Nós cristãos contemplamos o Crucificado para não esquecer nunca o “amor louco” de Deus para com a humanidade e para manter viva a recordação de todos os crucificados da história.
“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de proximidade curadora...
Nesse sentido, a cruz de Jesus não é um “peso morto”; ela tem sentido porque é consequência de uma opção radical em favor do Reino. A Cruz não significa passividade e resignação; ela nasce de sua vida plena e transbordante; ela resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de uma vida vivida por Jesus na fidelidade ao Pai que quer que todos vivam intensamente.
Existem cruzes que são vazias, sem sentido, in-sensatas..., pois elas fecham a pessoa em si mesma, no seu sofrimento e angústia; não apontam para o futuro, para a vida.
São cruzes que nós impomos sobre nossos ombros ou que os outros nos impõem. São cruzes que nascem dos fracassos, dos traumas, das rejeições, das experiências frustrantes... Tornam-se um “peso morto” pois não abrem um horizonte de vida; elas se fixam no passado, na morte... e nos deixam no túmulo.
Fazer o caminho contemplativo junto a Jesus que leva a Cruz da fidelidade nos ajuda a romper com as cruzes que nos afundam no desespero.
A Cruz assumida por Jesus é “expansiva” porque é expressão de uma vida entregue; ao mesmo tempo, ela O projeta para a “margem” onde Ele revela uma presença despojada, vulnerável, que se identifica com a dor do mundo, com a marginalização dos excluídos e com a desgraça de todos os miseráveis da terra. Sua Cruz manifesta que Deus é Compaixão porque continua do lado do inocente sofredor; Deus não apenas se solidariza, mas sofre “em sua pele”.
Acompanhando Jesus na paixão, também “vamos sendo talhados” pelas cenas que contemplamos, com o coração aberto à dor e à aflição. É o seguimento levada às últimas consequências.
Participando da morte de Jesus, podemos também fazer de nossas cotidianas mortes um ato de decisão, de entrega, de oblação. A certeza de nossa fé em Cristo, morto e ressuscitado, nos ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos egoístas de busca de segurança e proteção, e encontrar uma paz profunda que nos permita fazer de nossa vida uma oferenda gratuita em favor da vida dos outros.
É gratificante fazer memória de tantos homens e mulheres que foram presença compassiva e, à maneira de Jesus, consumiram suas vidas em favor da vida; histórias silenciosas de tantas pessoas que com sua presença ajudaram os outros a viver; pessoas que revelaram a paixão por viver em pequenas paciências cotidianas, que entregaram suas vidas sem brilho algum, sem vozes que a proclamassem; foram como o fermento silencioso que se dissolveram na massa para fazê-la crescer.
Com a Cruz “descemos” com Jesus até à cruz da humanidade.
A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica, nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, o “Justo e Santo”, identificado com os crucificados da história.
Como diz Jon Sobrino, não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela.
Entende-se, assim, o grande “grito” que brotou das profundezas da dor de Jesus na Cruz e que continua ecoando como clamor angustiado. Não são poucos os gritos dos mais pobres e excluídos.
O grande grito de Jesus é a certeza de tudo o que sustenta o seu coração; ao ecoar junto aos crucificados, provoca grandes novidades. Um grito que não fica no vazio, mas aponta para a Vida.
Texto bíblico: Jo 18,1-19,42
Na oração: Somos grãos de trigo na grande seara do mundo; e o grão de trigo eterniza-se na sua entrega-doação para que outros matem suas fomes e vivam com sentido.
Aprendamos a morrer para nossos interesses mesquinhos; só assim nossa vida terá a dimensão da eternidade.
- “Se a semente do trigo sou eu, a que devo morrer, para que a vida interior possa se expandir?”
- “Fazer memória” dos crucificados da história e que clamam por uma presença solidária: os sem teto, sem-terra, sem trabalho.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
03.04.2026

Casa: lugar do “lava-pés”
gesto ousado que quebra toda pretensão de poder
Lembremo-nos, antes de tudo, desta expressão: “a planta dos pés”. Esta “planta” clama por raízes. Os pés escutam a terra e nos enraízam na realidade histórica. É difícil ter os pés sobre a terra... Podemos sentir isso se “escutarmos” bem nossos pés. O Ocidente deseja que as pessoas pensem no céu, e alonguem a cabeça no ar para fazê-la olhar para cima e ver as nuvens.
O Oriente sabe que a melhor maneira de chegar ao céu é pisar solidamente na terra. Segundo a tradição oriental, quanto mais próximo do chão estiver o corpo, mais livre fica a mente e mais sensível o coração.
Quanto mais proximidade e intimidade com a terra, mais profunda é a experiência espiritual.
Cada passo deve ser uma oração e cada caminhar é um rosário de contas que marcam os caminhos da vida com a fé do caminhante.
Dá força e inspiração sentir a grande Casa, a Terra: apalpar sua firmeza, medir sua imensidade, contemplar sua beleza; ela é o altar cósmico sobre o qual celebra-se diariamente a liturgia da vida.
Não há uma “Terra Santa”, há uma maneira santa de caminhar sobre a terra. É a nossa maneira de caminhar sobre a terra que a torna sagrada.
Mudar o nosso modo próprio de caminhar, mudar o nosso modo de colocar o pé na terra, não é somente uma terapia psicossomática, mas pode ser um exercício espiritual. É aceitar-nos em nossa dimensão terrosa.
O equilíbrio do corpo, o equilíbrio do nosso psiquismo, o equilíbrio de nossa vida espiritual depende deste enraizamento. E se as raízes são sadias, toda a árvore é sadia. Algumas vezes somos jardineiros, muito atentos à flor e ao fruto, mas esquecemos as raízes, esquecemos os pés.
É por aí que devemos começar os nossos cuidados.
A tradição dos Padres do Deserto nos diz que todos nós temos os pés vulneráveis, muitas vezes feridos e maltratados. E temos necessidade de sermos cuidados e curados no nível de nossos pés. Precisamos fazer o caminho que vai dos “pés inchados e feridos” aos “pés alados”; partimos de nossos pés pesados como se tivéssemos um fardo de memórias para carregar conosco. Sentimos que este fardo de memória nos entrava a marcha e nos impede o caminhar.
É preciso cuidar dos próprios pés para que eles possam reencontrar suas asas; caminharemos, assim, sobre a terra com os pés livres, leves, soltos. E, como seres humanos, reencontraremos nossa condição divina.
Jesus sabia que seus discípulos tinham pés frágeis, pés de argila. Amar alguém não é querer que ele fique deitado a seus pés, mas é querer que ele se mantenha de pé em toda sua grandeza, na plenitude de sua humanidade. Amar alguém é querê-lo com os pés “livres, leves e soltos”. Lavar os pés é gesto de humanização e gesto humanizante. É devolver ao outro a dignidade e capacidade de dar destino à sua vida.
O gesto do “lava-pés” é inspirador para todo(a) seguidor(a) de Jesus Cristo; constitui um dos gestos mais ousados e expressivos da missão e da identidade para aqueles que exercem algum serviço em sua comunidade. É revelação e ensinamento. É amor e mandamento. É gesto-vida, gesto-horizonte, gesto-luz...
Não se pode amar alguém e olhá-lo de cima. Não se trata também de se “humilhar”, de se colocar “abaixo” de seus pés, mas de cuidar de seus pés para que esse alguém possa se manter de pé, para que ambos possam estar face a face e caminhar juntos.
O Evangelho de S. João substitui a instituição da Eucaristia pelo Lava-pés.
Audaciosa inovação que dirige o gesto eucarístico para a revolução das relações humanas: Jesus se esvazia de todo poder, faz-se servo e revela sua verdadeira identidade na capacidade para servir; a autoridade não se exerce submetendo o outro, mas possibilitando que o outro “seja” ele mesmo.
O Lava-pés é gesto ousado que quebra toda pretensão de poder. Jesus viu claramente que o perigo mais grave que ameaçava seus seguidores é a tentação do poder. Não há dúvida de que isso é o que causa o maior dano a todos, o que mais desumaniza.
A reação de Pedro expressa bem o escândalo que este gesto produz, porque Jesus revela que a autoridade - ser Senhor – é um serviço, não uma dominação. Pedro fica desconcertado e em dilema. Sua imagem do Messias seguro e vencedor não combina com a vulnerabilidade de um servo.
Por isso, com esse gesto, Jesus expressa que nunca quis agir como o superior que se impõe com poder; do mesmo modo, viu em semelhante comportamento uma conduta radicalmente inaceitável para seus seguidores. A relação que se estabeleceu entre os discípulos e Jesus não foi a de submissão a um poder que manda e dá ordens, mas a do “seguimento” que brota da experiência de sentir-se atraído e seduzido pelo “modo de proceder” do mesmo Jesus.
O “descendimento” do Senhor aos pés dos discípulos e fazendo-se servidor, transforma o status da servidão (“o servo não sabe o que faz seu senhor”) em fraternidade (“não vos chamo servos, mas amigos). Deste modo se mostra o verdadeiro senhorio de Jesus: a possibilidade de restabelecer a igualdade entre as pessoas através da superabundância de um amor que se derrama, sem reservas, para todos. Este gesto provocativo de serviço e despojamento d’Aquele que é “Senhor” desperta em cada seguidor o desejo de considerar suas qualidades e capacidades como veículos de doação, não de poder ou de manipulação.
A partir deste “ousado gesto” já não se justifica nenhum tipo de superioridade, mas somente a relação pessoal de irmãos e amigos. A cena do lava-pés revela profundidade e delicadeza, mútuo dom e acolhimento, comunhão e pressentimento. É um gesto profético, repleto de generosidade e de humildade. Com este gesto Jesus desvela uma imagem nova de Deus: o Todo-Misericordioso esvazia toda e qualquer expressão de poder e submissão entre os humanos. Ninguém serve a Deus, a não ser do jeito de Jesus, isto é, lavando os pés dos outros, amando-os até o fim.
Nosso Deus não é prepotência, mas condescendência. É o Criador que se põe aos pés da criatura.
Nosso Deus é um Deus que “desce”, que se “inclina” para acolher.
Mistério da Encarnação: Deus abraçando e sendo encontrado junto aos pés dos seus filhos(as).
Casa, mesa, lava-pés, refeição, hospitalidade..., são os grandes sinais do Reino. Em torno à mesa se expressam os valores de uma nova ordem social. A casa, a hospitalidade, a refeição partilhada são o sacramento do sonho de Deus sobre a humanidade e sobre o cosmos inteiro.
A casa-lar deve ser o ambiente privilegiado onde se prolonga e se visibiliza o gesto provocativo do lava-pés; gesto que desperta uma sensibilidade solidária diante daqueles que não tem morada digna para poderem viver os valores evangélicos da acolhida, da partilha, da convivência...
Na vivência do serviço evangélico, somos chamados a vestir o “avental de Jesus”. “Vestir o coração” com o avental da simplicidade, da ternura acolhedora, da escuta comprometida, da presença atenciosa, do serviço desinteressado...
Precisamos “levantar-nos da mesa” cotidianamente. Há sempre um lar que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Há pessoas que aguardam nossa presença compassiva e servidora, nosso coração aberto, nossa acolhida e cuidado...
Sempre teremos “pés” para lavar, mãos estendidas para acolher, irmãos que nos esperam, situações delicadas a serem enfrentadas com coragem...
Sempre teremos, também, a necessidade de nos “sentar à mesa” para renovarmos as forças e redobrarmos a coragem de nos levantar e, na humildade, sem manto, servir com amor, do jeito de Jesus.
“Levantar-nos da mesa” – “sentar-nos à mesa”: movimento de partida e de chegada; prolongamento
do gesto provocativo e escandaloso de Jesus.
Texto bíblico: Jo 13,1-15
Na oração: Seja você alguém que, na admiração da gratidão, se aproxima deste gesto ousado de Jesus (tirar o manto e vestir o avental), a fim de purificar sentimentos, endireitar caminhos e aprofundar a caminhada na convivência com os irmãos.
A sua identificação com Jesus lhe confere um novo modo de ver, avaliar e assumir atitudes mais evangélicas.
É a contemplação, o modo de orar mais envolvente que lhe pode fazer enxergar o milagre; e, sensibilizado(a), abrir-se à dimensão do maior serviço, por pura gratuidade.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
02.04.2026

“A casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo” (Jo 12,3)
No percurso contemplativo da vida pública de Jesus, o início desta Semana Santa nos conduze até Betânia, a ser e viver Betânia, a assumir Betânia:
- casa de hospitalidade e de escuta, onde todos somos irmãos sentados à mesma mesa, junto ao Mestre, o único Senhor, em quem se centra nossa hospitalidade e nossa escuta;
- lugar de descanso, como foi para Jesus, onde encontra humanidade, calor humano, compreensão, alívio;
- lugar de passagem, onde recuperamos forças para viver situações de Páscoa, onde acontece a intimidade do encontro dos amigos que falam de assumir as consequências de viver em favor dos outros, de deixar-nos levar pelo Espírito e amar até o extremo...;
- “casa dos pobres” (Beth-anawim): nela, em primeiro lugar, habitam nossas pobrezas pessoais e comunitá-rias, nossa pequenez e nossa fragilidade; mas, também, onde a dor de nosso mundo, da humanidade, têm lugar e tocam nosso estilo de viver, de nos relacionar, de nos confrontar em nosso seguimento de Jesus.
O tema da Campanha da Fraternidade deste ano – Fraternidade e moradia – nos ajuda a recordar que o mundo relacional de Jesus era amplo e diversificado; seus amigos e amigas se multiplicavam a cada passo que dava. Um exemplo disso é sua relação com os três irmãos, na casa em Betânia.
Betânia é para Jesus o lar da acolhida, da hospitalidade, da escuta, da amizade e do serviço. Ali, Ele expressa as atitudes humanas presentes na cotidianidade de uma família que Ele amava e que O amava.
Betânia é o templo onde Jesus percebe a presença e o agir de Deus nos fatos mais simples da vida cotidiana; Betânia é, para Jesus, um prolongamento de Nazaré, o lugar do cotidiano, do pequeno, do simples, o lugar da revelação. Betânia é o ícone de uma verdadeira comunidade de seguidores(as): casa da unção, do serviço, da escuta atenta; é o lugar da Páscoa que antecede a Páscoa do Filho de Deus.
Betânia nos desafia a gerar um novo estilo relacional que seja capaz de tornar visíveis os sinais do Reino, aqui e agora. Betânia é o lugar de uma nova mística: a do seguimento e identificação com Jesus, a mística da sensibilidade humana, que nos faz passar da morte à vida, como Lázaro. Ali, Ele deixa transparecer um coração carregado de amor oblativo, gratuito...
Jesus, perseguido pelos poderes civil e religioso, vai a Betânia, na casa das suas amigas Marta e Maria e de Lázaro. Mesmo sabendo que a polícia estava atrás de Jesus, os três irmãos receberam-no em casa e ofereceram-lhe um jantar. Acolher em casa uma pessoa perseguida e oferecer-lhe um jantar era perigoso. Mas o amor faz superar o medo.
Neste ambiente, já não há mais rivalidade entre as duas irmãs, Marta e Maria, mas colaboração e complementariedade. Juntas se fazem transparentes para algo maior que elas mesmas. Certamente Jesus deixou “refletir” em sua vida o que viu fazer estas duas mulheres. Os discípulos levavam muito tempo com Jesus e nenhum tinha feito com Ele o que estas duas mulheres fizeram. Ninguém lhe havia manifestado gestos de tanto amor. Elas se fazem totalmente presentes a Jesus; aceitam o que vai acontecer e o acompanham. Marta, servindo a mesa e as mãos de Maria acariciando e ungindo os pés de Jesus; e Ele deixando que elas expressem em gestos o que estava no coração delas: muito amor. Um gesto que Judas não compreendeu.
Marta e Maria expressam sua amizade e fazem com Jesus o que Ele logo fará com seus discípulos no momento de sua despedida, na Última Ceia: os servirá à mesa e lavará seus pés. Jesus se deixou fazer, para poder fazer isso com outros e quis tomar para si os gestos destas mulheres para fazer memória de sua vida.
Impressiona-nos que, neste relato, elas não falam, mas expressam todo seu amor “mais em obras que em palavras” (S. Inácio). Aqui, no centro do Evangelho de João, a comunidade, reconstruída no amor, exala o bom perfume que enche toda a casa. Em lugar do cheiro da morte, a casa enche-se do perfume: símbolo do amor que exala bom odor. É um amor que não tem preço. O perfume de Maria é o símbolo da vida e do amor de cada um. É um amor oblativo e gratuito e que está sempre voltado para os mais pobres. “Pobres, sempre os tereis convosco”, porque sempre haverá vítimas das estruturas sociais injustas e violentas.
À luz de Betânia e de nossa realidade, quais perfumes derramar para superar o mal odor dos nossos ambientes? O que cheira mal entre nós, seguidores(as) de Jesus? Medo risco e do novo, medo de perder seguranças; medo de equivocar-nos, de experimentar outras maneiras de viver; medo de enfrentar situações desafiantes na sociedade, medo da dor e da morte, medo do diferente...
Cheira mal as seguranças petrificadas, o imobilismo; cheira mal a indiferença e a acomodação, sobretudo diante das necessidades de nosso mundo; cheira mal o ódio, a intolerância, o julgamento; cheira mal a desesperança frente a um futuro incerto.
Há um forte mal odor dentro de nossas “bolhas mofadas”, dentro de nossas casas; custa-nos reforçar laços, alimentar solidariedade, entrar em sintonia com a paixão da humanidade. Preferimos conservar a arriscar; percebemos a inércia e a falta de renovação séria e profunda, uma falta de abertura frente ao diferente, uma perda de tempo gasto em estéreis conflitos entre pessoas, grupos, gerações, dentro de nossas famílias e comunidades.
Na unção em Betânia, Maria pode ser considerada como um ícone da nova sensibilidade que o evangelho nos oferece. Ela está dotada de uma sensibilidade muito superior à dos discípulos, tanto para perceber o que acontece como para expressar seus sentimentos com admirável fineza e liberdade. Os dirigentes judeus andavam buscando uma ocasião para matar Jesus. Maria, certamente havia escutado os rumores que chegavam da vizinha Jerusalém e que circulavam em voz baixa entre as pessoas do povo. Ela, no entanto, sintonizou com este momento dramático. Sua criatividade feminina encontrou no perfume um símbolo para expressar com grande delicadeza o que esse momento transbordava seu coração. Maria investiu num gesto gratuito e desmedido, expressão de um amor exagerado.
O excesso de seu gesto sintoniza perfeitamente com o amor sem medida de Jesus, mas ultrapassa a limitada capacidade de compreensão dos presentes à mesa, sobretudo Judas Iscariotes. Os perfumes e os aromas estiveram muito presentes na vida de Jesus, em seus momentos de dor e prazer. O perfume revela e oculta ao mesmo tempo, aviva o desejo, a abertura à surpresa de uma presença. Jesus o recebeu agradecido, e sua própria vida tomou o símbolo do frasco, precioso e caro, que se quebra para poder derramar-se em favor de muitos.
Quando a Vida nos unge, estamos potencialmente equipados para anunciar a boa nova, a luz, a cura, o cuidado... Ações que nos plenificam.
A casa de Betânia se encheu do “esbanjamento” do amor, da ternura, da misericórdia frente ao mal odor da violência, da exclusão, do orgulho autossuficiente. Junto a Jesus, somos também desafiados a esbanjar a vida com Ele, isto é, viver na e a partir da comunhão com o Deus da vida. Viver, em definitiva, como Jesus viveu: Ele “derramou”, doou toda sua vida através de um compromisso real para tornar visível o amor de Deus.
Assim, na experiência cristã, a vida se “derrama” para tornar visível o amor de Jesus a toda pessoa humana. Um “esbanjamento”, muitas vezes, incompreensível para tantos contemporâneos nossos. Eles nos lançam um duro questionamento: não seria a vivência cristã uma espécie de desperdício de energias humanas, um desperdício de talentos?
Textos bíblicos: Jo 12,1-11
Na oração: Na contemplação, somos convidados a entrar na casa em Betânia: casa de encontro, comunidade de amor e coração de humanidade:
- Com Jesus Mestre, somos inspirados a nos fazer mais humanos e próximos;
- Com Marta, somos movidos a professar a fé e a servir na diaconia;
- Com Lázaro, somos chamados a passar da morte à vida e caminhar na liberdade do Espírito;
- Com maria, somos desafiados a quebrar os frascos e a derramar o perfume da escuta e do amor.
- Criar Betânia em nosso interior e em nossas casas: lugar da mesa compartilhada, da unção e do cuidado; ambiente que exala perfume do amor, gratidão, amizade...
Pe. Adroaldo Palaoro sj
30.03.2026

“Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade inteira se agitou e diziam: ’Quem é este homem?’”
A primeira coisa que o Evangelho nos diz é que Jesus foi um buscador de alternativas.
Ele não foi conivente e nem compactuou com a estrutura social-política-religiosa de seu tempo, que era profundamente desumanizadora. Sonhou novas possibilidades de vida e novas relações entre as pessoas. Por isso, ao anunciar o Reino, transgrediu a situação vigente e, a partir das periferias, foi despertando uma alentadora esperança nos corações dos mais pobres e excluídos, vítimas de um mundo fechado.
Com sua entrada em Jerusalém, Jesus quis recuperar a cidade como lugar do encontro e da comunhão, como espaço da paz e da solidariedade... desalojando aqueles que se fechavam a qualquer tentativa de mudança. Por isso, seu gesto provocativo e escandaloso de entrar na cidade montado num jumentinho, símbolo da simplicidade e do despojamento de qualquer pretensão de poder e força, causou violenta reação naqueles que se beneficiavam da estrutura política e religiosa da cidade.
A Campanha da Fraternidade deste ano tem como tema - Fraternidade e moradia -, e como lema – “Ele veio morar entre nós”. Jesus fez sua morada nas terras excluídas da Galileia e sonhava também fazer morada na cidade de Jerusalém.
Vale destacar uma constante nos Evangelhos: a casa como lugar preferencial da ação de Jesus e da missão dos seus discípulos. Jesus, como um inspirado mestre, revelou um “novo ensinamento”, não em lugares fechados e controlados, mas em espaços abertos, nos campos, à beira do lago de Genezaré, nos caminhos poeirentos, nas casas...; Ele se dirigiu aos lugares onde homens e mulheres realizavam suas atividades comuns, no simples ambiente do trabalho cotidiano e, de maneira privilegiada, nas casas, começando pela sua própria, em Cafarnaum, onde fora residir.
Jesus, como itinerante, deu início a um “movimento de casas”. De fato, a casa acabou sendo o espaço alternativo que melhor correspondia à atuação do Mestre, enquanto ponto de partida e de chegada de sua missão itinerante. Foi a partir das casas que Jesus exerceu, à margem do que estava estabelecido, sua autoridade em favor da vida, sem depender de instituições e funções previamente normatizadas.
Assim, através de uma rede eficiente, ampliada e centrada no Mestre e com funções complementárias, seus seguidores, a partir das casas, prolongarão o mesmo ministério de Jesus: “viver em saída”, deslocar-se em direção aos excluídos, revelar a presença do Pai na simplicidade do cotidiano das pessoas, etc. Neste sentido, a casa cumpriu uma função vital para a expansão da causa do Reino de Deus. Em outras palavras, a causa de Jesus (Reino) encontrou nas casas seu lugar natural.
Jesus quis também levar para a Cidade Santa o “movimento de vida” iniciado nas casas, nas estradas da Galileia; Ele subiu a Jerusalém anunciando a chegada do Reino de Deus que deveria manifestar-se ali, mas de uma forma diferente: espaço aberto para todas as gentes, com uma nova estrutura humana aberta ao senhorio de Deus.
Jesus, Filho de Davi, precisava subir à cidade de seu antepassado Davi, não para conquistá-la militarmente e reinar, a partir dela, sobre o mundo, mas para instaurar ali outro Reinado, fundado precisamente nos pobres e expulsos dos reinos da terra. Para Jesus, Jerusalém como um conglomerado de casas abertas, deveria ser entendida como centro da nova humanidade messiânica, capital do Reino dos excluídos da velha história humana.
Por isso, Ele entrou em Jerusalém rodeado do povo, das pessoas simples. Este povo escravo e oprimido o aclamou porque viu em n’Ele uma luz de esperança, de vida, de libertação. Escutaram suas palavras e viram seus feitos durante alguns anos. Escutaram palavras de vida, de justiça, de amor, de misericórdia, de paz...
Viram seus gestos de cura dos enfermos, de defesa dos fracos, de dar alimento aos famintos, de reabilitar os desprezados, de acolher os marginalizados, de enfrentamento dos opressores...
Jesus quer continuar anunciando e realizando na cidade de Jerusalém aquilo que fizera na região excluída da Galiléia; quer também humanizar esta cidade para que ela seja sol de justiça e paz para todos os povos.
A espiritualidade da presença cristã no meio urbano convida a descobrir e indicar as presenças reais do Deus que “in-habita” em pessoas, casas, bairros, povos, cidades e metrópoles. “O coração dos povos é o santuário de Deus”. Trata-se de “passear com o Absoluto pelas ruas da cidade” (Michelstaeder)
O Deus presente nas cidades é um Deus que nos chama e interpela a partir do reverso da história, a partir dos lugares ocultos, dos “outros-espaços” de nossas cidades. A primitiva comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus não começa formando uma nova religião instituída, nem se preocupou com construções de templos ou com organizações hierarquizadas; ela se apresenta como uma federação de casas abertas, a partir dos pobres e para os pobres, criando redes de comunicação e de vida fraterna, casas-família, impulsionadas pelo testemunho e presença do Espírito do mesmo Jesus. “Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum... partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração” (At. 2,44-46).
A cidade que Deus quer: uma praça acolhedora, casas abertas e mesas para todos.
A praça é de todos e todos podem circular livremente, criar relações e convivência, com a experiência de ser aceito e reconhecido como humano.
A casa deve ser escola de encontro e fraternidade. A comunicação (comum união) se celebra entre suas paredes que, em seguida, se expande para além de seus limites, despertando uma sensibilidade solidária.
A casa prepara para a vida, pois é ali que os fundamentos de uma personalidade vão se solidificando.
A mesa é lugar de hospitalidade e partilha, de aceitação e de encontro, lugar de chegada e entrada da pluralidade e diversidade como a Nova Jerusalém. “Entrar na nossa Jerusalém” é comprometer-nos com uma cidade mais humana e humanizadora; a cidade que sonhamos e que queremos: a Cidade Nova. E o(a) seguidor(a) de Jesus tem em quem se inspirar.
A cidade moderna, globalizada pela tecnologia fria e sem alma, amordaçada pela funcionalidade e pela utilidade, com uma política submetida ao mercado, à produção e consumo, cidade estendida e sem muros de contorno, com horizonte atrofiado..., está cada vez mais distante da cidade sonhada por Jesus, cada vez mais refratária aos valores do Reino. É a paixão pelo Reino que deve nos mobilizar para levar adiante a missão de Jesus nos grandes centros, a ir aos lugares onde há mais necessidade e ali realizar obras duradouras de maior proveito e fruto.
O(a) discípulo(a) missionário(a) não é aquele(a) que, por medo, se distancia de sua cidade, mas é aquele(a) que, movido(a) por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença do Inefável; a cidade já não é percebida como ameaça ou como objeto de domínio, mas como dom pelo qual Deus mesmo se faz encontrar. A cidade não é lugar da exploração e da depredação, mas é o lugar da receptividade, da oferenda e do diálogo inspirador.
No Domingo de Ramos, portanto, temos duas procissões: a procissão de Pilatos que representava o poder, a dominação e a violência do império que dominava o mundo; e a procissão de Jesus que representava uma visão alternativa, aquela do Reino de Deus, centrada na comunhão, no serviço, no espírito solidário...
Frente a estas duas paixões e duas procissões, somos convidados a propor algumas perguntas fundamentais que devem ressoar neste domingo de Ramos, na Semana Santa e, em definitiva, na vida: a quem seguimos? Quem é o “senhor” que comanda o nosso coração? Em que valores nos inspiramos? Em que procissão estamos? Em que procissão queremos estar?...
Texto bíblico: Mt 21,1-11
Na oração: é preciso, em primeiro lugar, abrir espaço na própria casa interior, para que o Senhor circule com liberdade, levando luz e inspiração para sua vida (“desce depressa, pois eu preciso ficar em sua casa”).
- A partir do interior, cristificar a própria casa-lar: lugar de encontro, de hospitalidade, de relações sadias...
- Sua casa é luz para a cidade onde você habita?
- A cidade que você aspira, que sonha e que quer é a Nova Jerusalém? Espaço de beleza, de harmonia humana?
- Que atitudes você vai propiciar em suas relações interpessoais para favorecer a presença do Reino de Deus?
- Como você vai acompanhar Jesus durante as celebrações desta Semana Santa?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
29.03.2026

“Todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (Jo 11,26)
Depois do sinal da Água (samaritana) e da Luz (cego de nascimento), o evangelista João oferece hoje o terceiro de seus grandes sinais, a Vida (êxodo de Lázaro).
O tempo quaresmal abre um excelente caminho para aprofundarmos sobre este último tema: a vida é uma oportunidade, um dom, ou algo inevitável e, talvez, insuportável? Há algo mais valioso que a vida para o ser humano? Cuidamos dela e a amamos com empenho, buscamos preservá-la diante de qualquer anomalia ou temor de perdê-la? Porque existem pessoas que “arriscam” sua vida e há aqueles que até doam sua própria vida por uma causa justa?
A morte física nos angustia, nos transtorna. Mas há outra morte que nos ronda sem cessar, ao menos em determinados momentos de nossa existência, ou seja, a ausência do sentido da vida: para que vivemos, lutamos e morremos? O ser humano de hoje, como de todos os tempos, traz cravada em seu coração a pergunta mais inquietante e mais difícil de responder: o que vai ser de todos e de cada um de nós? É inútil fugir dela ou tentar nos enganar. Que podemos fazer diante da morte? Rebelar-nos? Deprimir-nos? Angustiar-nos?...
Sem dúvida, a reação mais generalizada é esquecer essa dura realidade e “tocar prá frente!”. Mas, o ser humano é chamado a viver sua vida com intensidade e inspiração, com lucidez e responsabilidade; ele não deve se aproximar de seu final de forma inconsciente e irresponsável, sem tomar atitude alguma. Diante do mistério último da morte não é possível apelar a dogmas científicos nem religiosos; eles não nos podem guiar para além desta vida.
E, no entanto, queremos continuar vivendo. Todos carregamos no mais íntimo de nosso ser um desejo insaciável de viver. Por que temos de morrer? Por que a vida não é mais ditosa, mais longa, mais segura, mais vida? Do mais profundo do nosso ser brota um anseio profundo que nos move a desejá-la, a amá-la, a cuidá-la, a aceitá-la.
Como cristãos, também temos de nos aproximar com humildade diante do fato obscuro de nossa morte. Mas, fazemos isso com uma confiança radical na bondade do mistério de Deus que vislumbramos em Jesus. Esta confiança não pode ser entendida a partir de fora; só pode ser vivida por quem responde, com fé simples, às palavras do mesmo Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; crês isto?” O teólogo Hans Kung, no final de sua vida, afirmou que, para ele, “morrer é descansar no mistério da misericórdia de Deus”.
A vida é tão valiosa que o centro mesmo da revelação cristã é o anúncio da salvação como vida oferecida a todo ser humano. Deus nos oferece e nos garante a salvação de nossa própria vida. O cristão sabe que a existência não acaba com a morte, no nada, no absurdo. Cremos no Deus que acolhe e abraça a vida de toda criatura e a leva à sua plenitude.
No evangelho deste domingo, em um novo relato catequético, o evangelista João nos apresenta Jesus como “ressurreição e vida”, diante da morte de seu amigo Lázaro.
Progressivamente, ao longo de todo o seu evangelho, o autor vai apresentando Jesus com várias imagens: pão de vida, água viva, luz do mundo, porta, pastor, vinha, caminho, verdade e vida, ressurreição... Todas elas têm um elemento comum: Jesus é reconhecido como portador e doador de vida. E todas pretendem um mesmo objetivo: que a comunidade dos seus seguidores se fundamente sobre esta verdade. Daí a pergunta ao redor da qual giram todas essas catequeses: “crês isto?”.
É preciso compreender, de modo mais profundo, a proclamação que o quarto evangelho põe na boca de Jesus: “Eu sou a Vida”. Assim, tomamos consciência que, com essas palavras, Jesus está revelando nossa verdadeira identidade, que está profundamente unida com a sua. De fato, quando uma pessoa sábia fala, o que diz é válido não só para ela, mas para todo ser humano. A afirmação de Jesus não é a de alguém separado, mas a própria Vida; só a Vida pode dizer “eu sou a vida”. Por isso, para além da pessoa – corpo, mente, psiquismo – na qual nos experimentamos, podemos dizer que em nossa verdade mais profunda “somos vida”. Nós não “temos vida”, mas, na essência, “somos vida”. E esta nunca “morre”.
São muitas as “leituras literais” de “Lázaro” que confundem a ressurreição com o reviver. Lázaro não revive, não volta a esta vida, mas sai desta vida para a Vida, é um êxodo para a verdadeira vida.
Há um forte apelo de Jesus no relato de João, encontrado no versículo 44, e que dá a chave do sentido do grande sinal: “Desatai-o e deixai-o caminhar!” É como se Jesus dissesse: “deixai-o ir mais além, deixai-o ir para a Vida da vida?”
Infelizmente, a mentalidade dualista não consegue compreender os evangelhos; a linguagem religiosa é simbólica, pois aponta para uma outra dimensão. Não podemos nos prender à “materialidade” do relato. Sem a sensibilidade para a criatividade poética dos relatos bíblicos, é impossível deixar-nos transformar pela leitura evangélica. É preciso aprender a ler, reler e deixar-nos “afetar” pelos sinais bíblicos, pois despertam nossa vida da letargia, da acomodação, da paralisia.
Todos somos “lázaros”, fechados em nossos túmulos existenciais, atados em nossas preocupações, travados em nossas “práticas religiosas” estéreis, carentes de sentido na vida, atrofiados em nossa criatividade e busca, presos à “normalidade doentia” do ritmo cotidiano... E o trágico está em “acostumar-nos” a uma vida de “túmulo”. Quantas potencialidades enterradas, quantos recursos não ativados, quanta energia bloqueada!... Muitas vezes nos preocupamos com o “pós-morte” e não temos a coragem de nos perguntar: “há vida antes da morte?”
O relato joanino deste domingo é tremendamente provocativo; tal relato só tem sentido quando provoca uma sacudida em nossa vida e nos arranca da acomodação. É muito fácil nos perder na interpretação fundamentalista do texto sagrado e continuarmos bloqueados por uma pesada pedra na entrada do nosso coração. É preciso deixar ressoar o grito de Jesus nas profundezas de nossa existência: “vem para fora! Deixai-vos desatar e caminhai! Não fostes criados para a paralisia mortal, mas para serdes itinerantes em busca do novo! Deixai-vos conduzir pelo Pai que, com sua graça, fazeis passar da vida medíocre à Vida plena!”
Releiamos, portanto, e reinterpretemos, recriando a narração à luz das palavras de Jesus: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”. Devemos estar centrados na Pessoa de Jesus, que é Vida em plenitude, e não nos percamos no “assombroso” do relato de João, ou seja, um morto que sai do túmulo todo amarrado. Encontrar-nos com Aquele que é Ressurreição e Vida é despertar a vida que quer se expandir em nós.
Com uma autoridade, soberana e amiga, a ordem de Jesus é dada com voz forte, com um grito...
Esta é a mensagem central que o evangelista João quer transmitir:
a verdadeira vida consiste em ouvir a Voz do Enviado pelo Pai para dar a vida ao mundo; o importante não é o maravilhoso, mas mostrar e compreender que Jesus tem a autoridade de dar a Vida. Jesus desata as ataduras, as amarras da morte; elas mantêm os homens cegos, mudos e surdos, atados e asfixiados. Seu lugar não é entre os mortos, mas entre os vivos. Eles precisam ser libertados e soltos por ordem de Jesus para que possam seguir seus caminhos, viver suas vidas livremente, voltar à comunhão com os outros. Não foi só Lázaro que saiu das suas faixas.
Todos os que estavam enclausurados em seus hábitos, presos em suas memórias, sufocados e conformados pela mediocridade, todos os que preparavam túmulos antes da hora de seu último suspiro... todos ouviram esta voz: “Saia!... Saia daí, vão além de vocês mesmos, a caminho!”
Texto bíblico: Jo 11,1-45
Na oração: - quais são as “faixas” que estão travando o fluir de sua vida: religiosas, políticas, sociais, intolerâncias, preconceitos, julgamentos... e que o(a) fazem permanecer no ambiente de morte?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
19.03.2026

“Jesus ia passando, quando viu um cego de nascença” Jo 9,1)
A Quaresma pode ser o ponto de partida de uma transformação profunda de vida; os quarenta dias de duração são um tempo propício para viver a “operação saída”, ou seja, expandir a vida em novas direções, rompendo com aquilo que é rotineiro, estreito e atrofiante.
Este tempo litúrgico especial certamente mobilizará e ativará todas as dimensões de nosso ser: nossos sentidos se expandirão, olhando, escutando e sentindo a realidade que nos envolve; nossa mente tornar-se-á mais clara, sabendo discernir e não se deixando manipular; nosso coração se fará mais atento e misericordioso diante do sofrimento humano; nossa alegria será o fermento do pão cotidiano, compartilhado com os outros. E, se dedicarmos mais tempo ao silêncio e à oração, recobraremos energia e sentido, necessários para sair da “normose doentia” de todos os dias.
Neste percurso transformador, Jesus é o grande “pedagogo” que nos toma pela mão e nos ajuda a fazer a travessia em direção à Terra Prometida. Ele se revela como presença inspiradora e que desperta o “melhor” que há em cada um de nós. Por isso, o tempo litúrgico da quaresma nos situa diante das grandes realidades existenciais que nos humanizam: Fonte de Água viva, Luz, Vida...
No relato catequético deste domingo, o evangelista João resume todo o percurso de qualquer pessoa que se encontra com Jesus, que se deixa recriar por Ele, que caminha na sua fé descobrindo-O aos poucos, até acolhê-lo como Luz do mundo.
No encontro com o “cego de nascença”, Jesus se revela como Luz que desperta a luz atrofiada no interior daquele homem paralisado, impotente, dependente dos outros (marginalizado). Todos o olham como um pecador castigado por Deus. Mas Jesus o olha de maneira diferente; logo que o vê, sente o impulso de resgatá-lo daquela vida de mendigo, desprezado por todos como um amaldiçoado. Ele se sente chamado pelo Pai para defender, acolher e curar precisamente aqueles que vivem excluídos e humilhados.
Depois dos gestos terapêuticos de Jesus, o cego descobre a luz pela primeira vez. Jesus o cura, mas o cego também deve colaborar; ele é confrontado com sua própria força e vontade, pois precisa “descer” até às águas de Siloé, até às profundezas de seu próprio ser. Com o “toque” das benditas mãos de Jesus, as dimensões mais profundas do pobre homem são despertadas, uma nova energia é ativada, a liberdade é reacendida; reconstruído em sua autonomia, agora ele pode dar direção à sua própria vida.
No encontro com Jesus, o cego obtém a visão; mais ainda, o encontro com Jesus é como um banho que não destrava somente o sentido da visão, mas toda sua vida é reconstruída, prolongando o sexto dia da Criação; finalmente, ele poderá desfrutar de uma vida digna, sem temor de envergonhar-se diante dos outros.
O evangelista João, com uma certa ironia, diz que os vizinhos e as autoridades do Templo discutiam se aquele que agora vê era o mesmo que, um pouco antes, não via. Efetivamente é o mesmo, mas não é o mesmo: sendo o mesmo, é outro. Era “o mesmo”, e graças a Jesus não era mais “o mesmo”, pois agora vê a vida de outra maneira. É a diferença entre o homem dependente, sem iniciativa, sem liberdade..., e o homem livre, capaz de abrir-se às surpresas da vida.
O homem, cego até agora, mendigava, era um personagem marginalizado. O encontro com Jesus o reabilita para a vida; volta a ser uma pessoa na convivência. Ele não sabe se é sábado ou segunda-feira, não sabe se aquele que o curou é pecador ou não; o que ele sabe é que antes não via e agora vê. Aos poucos redescobre sua identidade essencial. Todo aquele que se aproxima do “Eu Sou” (Jesus), redescobre seu “eu sou”, ou seja, participa do mesmo ser, da mesma luz de Jesus. Quem se aproxima de Jesus termina sendo como Ele, “eu sou”. Aquele ex-cego fica transformado por ver a vida a partir de Jesus; recupera sua dignidade.
Mas, ser reconstruído em sua identidade tem um preço; o homem curado provoca conflitos com as autoridades religiosas e acaba sendo expulso da sinagoga. Nessa expulsão se revela um conflito radical dos dirigentes judeus que não aceitam Jesus porque está abrindo os olhos das pessoas, para que estas vejam outro mundo, para que tenham um olhar alternativo. “Vim a este mundo para instaurar um processo, para que os cegos vejam e os que veem fiquem cegos” (9,39).
O conflito de Jesus com os dirigentes vai desembocar na morte. Alguns acolhem a visão e a vida que Jesus traz, mas outros se sentem ameaçados em seus privilégios. São as trevas que rejeitam Jesus. As trevas amam as sombras, as prisões e tumbas desconhecidas, os negócios turvos sem testemunhas, os conluios noturnos, os métodos inconfessáveis, os desaparecidos, os arquivos fechados, as alianças clandestinas. “A luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (1,5).
Mas Jesus não abandona a quem o ama e o busca. Ele tem seus caminhos para se encontrar com aqueles que são rejeitados e expulsos. Ninguém lhe pode impedir. Ele vem sempre ao encontro daqueles que não são acolhidos oficialmente pela religião, daqueles que são excluídos das comunidades e instituições religiosas; aqueles que não têm lugar em nossas igrejas, tem um lugar privilegiado em seu coração.
Quem levará hoje a mensagem da Boa-Nova de Jesus para os grupos ou minorias excluídas que, a todo momento, escutam condenações públicas injustas de dirigentes religiosos cegos, que se aproximam das celebrações cristãs com medo de serem reconhecidos, que não podem comungar com paz em nossas eucaristias, que se veem obrigados a viver sua fé em Jesus no silêncio de seu coração de maneira secreta e clandestina?
Como seguidores(as) de Jesus, precisamos passar por um processo de desobstrução de nossas “cataratas existenciais” que impedem viver em atitude de contínuo assombro e vibrar com a vida do outro. É preciso “cristificar” nosso olhar para sermos reconstruídos em nossa essência.
Jesus olha cada ser humano como tal, mas este gesto não é um simples “ver” as pessoas, mas um olhá-las a fundo; ou seja, Jesus dirige seu olhar às pessoas para perceber nelas aquilo que para Ele é o mais importante: os traços e a imagem de Deus que elas deixam transparecer para quem as olha.
O olhar de Jesus não se restringe ao exercício da visão; seu olhar possui uma eficácia transformadora, encarnada em sua capacidade de amar, isto é, de olhar as pessoas com o amor de seu Pai. Ao olhar as pessoas, Jesus faz emergir a dignidade que elas carregam: filhas de Deus, as criaturas mais apreciadas pelo Criador.
Na verdade, o que imobiliza e petrifica é o olhar que se fecha no egocentrismo, que não se abre ao outro numa atitude de respeito, de fidelidade criativa. “Nossa civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era do olhar escravo” (Eugênio Bucci).
Muitas vezes, o presente mais precioso que podemos dar a alguém é um olhar diferente; o futuro, a acolhida, o perdão, a alegria... dessa pessoa podem depender desse olhar novo, cheio de afeto e confiança. Em muitas situações difíceis da vida, o que salva é o olhar.
Num contexto de relações afetivas, onde os sentimentos são determinantes, qualquer caminho de volta ou de diálogo inicia-se sempre com um olhar conciliador ou reconciliador.
Olhar admirado e gratuito, como aquele de Jesus, que transforma, que liberta e que se comove diante da realidade humana, sobretudo daqueles que “não são olhados”.
Texto bíblico: Jo 9,1-41
Na oração: - torne o seu coração vulnerável ao olhar do Pai, receptivo a todo apelo que vem d’Ele, deixando-se tocar pelo inesperado, pela novidade, pela iniciativa amorosa d’Ele; o Amor d’Ele é sempre recriador, suscitando em você lampejos de ressurreição.
- orar é ter acesso ao seu “eu profundo” sob o olhar de Deus e desejar ser visto por Ele até as profundidades mais secretas do seu próprio ser;
- evangelize seu olhar para aprender a olhar como Jesus Cristo, ultrapassando as aparências.
- como você “olha” as pessoas, as coisas, os fatos, o mundo...?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
14.03.2026

“O Espírito conduziu Jesus ao deserto...” (Mt 4,1)
O primeiro domingo da Quaresma nos desloca até o “deserto das tentações”; ali Jesus se deparou com as grandes “forças que desumanizam”: “pão do ego”, “poder autocentrado”, “vaidade estéril”.
Jesus foi conduzido ao deserto imediatamente depois do seu batismo, com a palavra do Pai ressoando em seu coração: “Tu és meu filho amado...”; mas agora, no deserto, vai escutar outras palavras que “tentam” convencê-lo para que não ponha o centro de sua vida nesse amor, mas no poder, na vida fácil, na fama, nas posses... O relato das tentações resume simbolicamente outros momentos da vida de Jesus nos quais esteve submetido à alternativa entre “a maneira de pensar de Deus” ou “a maneira humana”.
Conduzido pela força do Espírito, Ele viveu uma integração a partir de seu coração e não se deixou levar pelas aparências enganosas. Sua vocação à messianidade ficou clara no batismo; daí em diante, buscou os melhores meios para viver sua missão. No seu discernimento, Jesus sentiu que o poder, a riqueza, o prestígio, não eram “meios” para realizar a Vontade do Pai; pelo contrário, inspirado pelo Espírito, elegeu o caminho do esvaziamento de si, da pobreza e do compromisso solidário com os mais pobres e excluídos. Sua missão como Messias devia começar nas periferias, junto aos abandonados pelo poder religioso e civil da época.
O deserto, na tradição bíblica, é um lugar ambivalente: por um lado, é o cenário das maiores dificuldades, onde o ser humano, sem seguranças às quais apegar, se sente submetido às provas mais duras; por outro, no entanto, aparece como o espaço no qual se goza de uma especial intimidade com Deus: “Levá-la-ei ao deserto e lhe falarei ao coração”, diz Oséias (2,14). Sem dúvida, não é casual que ambos significados apareçam unidos.
Mas existe outro “deserto” não buscado e, por isso, com frequência, mais desconcertante e mais difícil de assimilar. Entram aí todas aquelas situações e circunstâncias que a vida nos apresenta, geralmente em forma de crise ou fracasso, nas quais somos convidados a viver um despojamento, um esvaziamento daquilo com o qual tínhamos nos identificado. Trata-se de uma experiência de “deserto” porque também acontece uma quebra das falsas seguranças, nas quais fundamentávamos a vida e, assim, nos encontramos diante daquilo que que se revela como o mais vulnerável e obscuro de nossa existência.
Trata-se de um momento tão difícil como privilegiado. Difícil, inclusive doloroso, porque nos sentimos sacudidos. Este deserto inesperado se caracteriza pela aridez, pela secura, pelo sem-sentido e pela desesperança. A obscuridade parece invadir o espaço que antes nos parecia luminoso e o desconcerto ameaça introduzir-nos numa espiral de vazio.
E, no entanto, é então quando acontece o milagre. Leonard Cohen afirma: “Há uma greta, uma greta em tudo. Por aí é onde entra a luz”. Deus tem mais facilidade de entrar em nossa vida pelas fendas dos fracassos, das feridas, das crises... Esvaziados de nosso ego inflado e inflamados pela força divina, começamos a reescrever nossa história a partir de novas bases, mais humanas, mais inspiradoras... Este é o processo de conversão a que somos chamados a viver: sair dos “lugares estritos” e entrarmos no movimento de plenitude e sentido.
No relato das tentações de Jesus destacam-se os impulsos mais fortes do ego. É facilmente compreensível: nossa primeira e permanente tentação é a de nos identificar com o ego e viver para ele.
É um engano que conduz à confusão e ao sofrimento, porque implicae esquecer-nos de nossa verdadeira identidade e reduzir-nos a “algo” que nos escraviza. O ego, alimenta necessidades e medos, obscurece nossa visão e nos faz ver a realidade a partir de uma reduzida lente contaminada. Prisioneiro de uma insatisfação constante, o ego dedica toda sua vida a acumular, a ser o centro das atenções, a alimentar vaidade e buscar prestígio: esse é o único modo de sentir-se vivo.
O tempo quaresmal nos sacode e nos desnuda, porque desmascara nossas falsas seguranças, centradas na riqueza, no poder, na vaidade. Inspirados pelo “discernimento” de Jesus no deserto, somos também movidos a buscar nossas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido de maneira intensa, o Espírito nos conduzirá ao fundo estável e sereno, nos conduzirá à “casa”, à nossa verdadeira identidade, à
“Terra prometida”, onde há fartura de nutrientes. É preciso retornar à nossa “casa interior” para esvaziá-la de todo desejo de poder, de vaidade, de prestígio e de ridículos ídolos; somente Deus é Senhor de nossa vida.
O tempo quaresmal põe às claras aquelas atitudes que afogam a possibilidade de viver o seguimento de Jesus com mais inspiração; tal vivência desmascara um modo de viver acomodado aos critérios do mundo que petrifica nosso coração: deixar-nos prender pelas garras do consumismo, concretizado nos “afetos desordenados” ou apegos aos bens, poder, autoimagem, lugares, pessoas, títulos..., que esvaziam a vida e nos deslocam do essencial.
Diante das carências existenciais, surge a tentação de buscar compensações, que exigem investimento afetivo, nos tiram do foco e nos fazem cair em estado de letargia e acomodação. Todas essas compensações têm algo em comum: elas nos fazem adormecer e, desse modo, abortam a novidade que poderia brotar em nós e atrofiam a esperança, pois nos prende ao mais imediato (fixação afetiva).
É preciso ter os olhos abertos para além das preocupações cotidianas e poder entrar em sintonia com a presença d’Aquele que vem sempre ao nosso encontro. O maior inimigo de nossa existência é a dispersão, ou seja, investir afetivamente nas coisas cotidianas mais imediatas e esvaziar o horizonte de sentido de nossa vida. Para investir afetivamente no seguimento de Jesus, é preciso alargar espaço em nossas moradas internas, reordenar os afetos, expandir o coração.
Assim, a contemplação de Jesus no deserto nos move à liberdade e se manifesta como um chamado a uma vida mais simples, partilhada, apaixonada, natural, livre, transcendente, intensa, comprometida...
Como seguidores(as) de Jesus, todos nós também temos a experiência do que significa a tentação do poder. Em um mundo onde as relações se estabelecem através da força, da dominação, de uma maneira de exercer o poder, onde o forte se impõe sobre o fraco, o rico sobre o pobre, o que possui informação sobre o ignorante..., o fruto do discernimento de Jesus nos introduz na nova ordem de relações que devem caracterizar o Reino: nele a vinculação fundamental é a da irmandade no serviço mútuo.
A partir do deserto, a prática de Jesus vai desestabilizar todos os padrões e modelos mundanos de poder, desqualificando qualquer manifestação de domínio de uns sobre os outros: inaugura-se um estilo novo no qual o “desenho circular” desloca e dá por superado o “modelo hierárquico”. Sua maneira de se relacionar com as pessoas marginalizadas e excluídas vai pôr em marcha um movimento de inclusão onde, uma casa acolhedora e uma mesa partilhada com os menos favorecidos, invalidam qualquer pretensão de poder, de prestígio, de situar-se acima dos outros, devolvendo a todos a dignidade perdida.
À luz do tema da Campanha da Fraternidade (Fraternidade e moradia), podemos dizer que, no Projeto-Reino de Jesus, a casa-lar ocupa o centro, pois ela convida, convoca e abre espaço na vida de seus moradores, possibilitando a sociabilidade, a partilha, a vivência de valores interpessoais, de humanização.
Nela e com ela aprendemos a acolher o outro como dom; aprendemos a nos doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade.
A casa é também o lugar onde acolhemos as alegrias e as tristezas do outro, os êxitos e os fracassos... Ela é o lugar do suporte das relações, espaço que garante o sustento que alimenta o corpo, o emocional, o psíquico, o espiritual e o social. Esse lugar humano é revelador de cultura, de aprendizado e base para a vivência dos valores individuais e coletivos. Lugar fecundo, onde o imprevisível pode acontecer.
Texto bíblico: Mt 4,1-11
Na oração: No silêncio de seu deserto, entre em diálogo profundo com Aquele que faz morada em seu interior.
- Você é convidado(a) a adentrar-se no território sagrado, chamado “deserto do encontro”. Tão rico é esse lugar que sua espiritualidade, vista como manancial da vida, não exclui nenhum momento: situações tristes, felizes, momentos de sofrimento, de luta, de vitória...
- Nesse espaço, onde o Eterno quer habitar, é que você encontrará o bálsamo e o alívio para sua existência psíquica e espiritual. Nessa fonte sagrada, o sofrimento pode ser compartilhado, a tristeza transformada em alegria, as trevas em luz, o desejo em realidade, a esperança pode ser reacendida...
Pe. Adroaldo Palaoro sj
19.02.26

“Tu, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido” (Mt 6,6
A Quaresma chega de novo, sempre nos chamando a acolher a Boa Notícia a partir de dentro, a partir da conversão do coração. Embora “sejamos pó e ao pó retornaremos”, o que é mais autêntico em nós se revela no serviço e no amor, como Aquele que afirmou ser o caminho, a vida e a verdade.
Estamos iniciando mais um percurso quaresmal, centrados na pessoa de Jesus Cristo, crescendo na identificação com Ele e dando uma feição nova ao seguimento.
Sabemos que a Quaresma é um caminho de discernimento e mudança. Os meios que ela oferece para esta transformação espiritual são as chamadas “práticas quaresmais”: jejum, oração e esmola. O jejum nos ajuda a recuperar a liberdade frente às desordens de todo tipo, adotando um estilo de vida mais simples; a oração faz com que todo o nosso ser se volte para Deus e nos deixemos conduzir por Ele; a esmola nos arranca de nossa comodidade e ativa em nós as atitudes de compaixão, solidariedade e cuidado, fazendo-nos passar da indiferença à responsabilidade diante dos outros, sobretudo dos mais pobres e excluídos.
“Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas” (Mário Quintana). Para podermos viver o tempo quaresmal com mais intensidade e inspiração, vamos entrar em sintonia com a Igreja no Brasil que nos propõe a Campanha da Fraternidade como mediação para despertar nossa sensibilidade diante de situações desumanizantes em nossa realidade. Com o tema: “fraternidade e moradia”, e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a CF quer trazer à tona o drama da falta de moradia que afeta grande parcela de nosso povo.
O que é “estar em casa” para nós hoje, num mundo estranho e em constante mudança? O que significa “casa” para nós atualmente? Que tipo de sentimento está conectado a ela? Onde nos “sentimos em casa”? O drama da falta de moradia para todos é sintoma do caos presente no interior de cada um. O problema da moradia não é só uma realidade externa; existe uma crise de moradia muito mais grave que a falta de casas: é a escassez de pessoas interiormente acolhedoras e disponíveis para seus irmãos.
Uma das metáforas bíblicas mais adequadas para entender nosso momento atual é aquela que fala do “regresso à casa”. Embora existam demasiados ruídos, fugas, competições, vivências superficiais nesta sociedade incerta e estressada e que parecem afogar a pessoa, não é difícil perceber um anseio interno que se expande e que pode ser resumida nesta expressão: “desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa!”.
Com frequência, as pessoas se acomodam em sobreviver, não investem seus recursos internos numa causa mobilizadora e acabam atrofiando o sentido de suas vidas. E, no entanto, se elas prestarem um mínimo de atenção à voz interior, sentirão o brotar do desejo de uma vida mais plena, ativarão a escuta do Mestre interior que, com frequência, sussurra: “retorna à tua casa!”
O ser humano aspira viver em sua casa interior e, por mais distante que esteja da mesma, o sentimento mais forte é o da saudade. Na vida de cada pessoa acontece uma transformação radical quando ela é capaz de experimentar, em si mesma, esse “lugar” interior, referido com a imagem da “casa”. Um lugar de silêncio, em meio a qualquer agitação das ondas; de calma, em meio a qualquer tempestade; de luz, em meio a qualquer obscuridade; de alegria serena em meio a qualquer mal-estar ou angústia...
Esse é o lugar onde a pessoa se reconhece a si mesma: ali ela sente o seu ser, para além daquilo que ela faz. E só ali é possível o “descanso”, no sentido mais profundo dessa palavra. E é justamente desse lugar onde brota o convite que se repete: “retorna à tua interioridade!”
“O ser humano só está em casa no mistério de Deus” (Clemenz Schmeing). Só quando ele experimenta o “mistério de Deus” que está presente nele é que poderá verdadeiramente se “sentir em casa”. Ele só pode permanecer nele mesmo porque se sente habitado pelo próprio Deus que o sustenta e lhe fala ao coração.
Trata-se da “tenda interior” na qual o próprio Deus faz sua morada nele; ali, é plenamente ele mesmo, verdadeiramente em casa. Ele precisa apenas olhar para dentro e transitar pelos espaços interiores. Descobrirá, então, que o céu está nele e ali, no céu interior, está a verdadeira “terra prometida” que ninguém pode roubar ou destruir.
No contexto social pós-moderno as pessoas relatam que perderam não somente seu lar exterior, mas também o interior. Elas se percebem sem o sentimento de acolhida e proteção; elas já não sabem mais quem são; perderam seu vínculo de pertença, além de não mais saberem o que as sustenta; não sabem mais onde poderão encontrar segurança e acolhimento.
Diante da “cultura líquida” e “deslocada” na qual vivemos, é urgente gerar espaços e tempos que facilitem reabrir as vias da interioridade, possibilitar o retorno à “morada interior”, onde é gestada a própria identidade e as opções mais sólidas. Espaço e tempo no qual podemos entrar em contato com algo que a plenifica e a expande.
Nesse sentido, a vivência da Quaresma revela-se como uma excelente oportunidade para “voltar à casa interior”. Pacificados em nossa “casa interior”, brotará em nós uma sensibilidade solidária para lutar em favor de uma moradia digna para todos.
Neste mundo disperso e distraído, a vivência quaresmal pode dar referências e amparo; no percurso que fará, cada um vivenciará sua casa interior; entrará em contato com algo nobre no coração que pode estar encoberto por feridas, traumas, fracassos, sentimentos negativos...; ativará o anseio pelas raízes, a partir das quais poderá viver com mais inspiração e criatividade.
Quem habita em si mesmo, quem está desperto para aquilo que é mais nobre e que cuida dos seus movimentos interiores (inspirações, intuições, desejos...), construirá uma casa que será convidativa para que outros se aproximem, se sintam acolhidos, protegidos, amados...
No evangelho indicado para esta Quarta-feira de Cinzas, Jesus nos convida a retirar-nos para o nosso “quarto”; é aí o nosso deserto: trata-se de um lugar íntimo, sagrado, onde nenhum estranho tem acesso, todo impregnado de solitude e silêncio. É o lugar sagrado da nossa casa. Esse “quarto interior” é habitado por uma Presença providente e compassiva; só quem tem acesso ao seu “eu” mais profundo descobrirá que ele é “morada” do Senhor e que quer estabelecer um diálogo amoroso com ele.
Em grego, o termo “quarto” (“tameión”) significa também celeiro, local onde se guardam as provisões. Por isso “quarto” quer dizer também lugar onde estão guardados os alimentos, o sustento de cada dia, as energias, a criatividade, os sonhos, as intuições... É o lugar dos nutrientes indispensáveis para a vida.
Jesus insiste no caráter secreto desse lugar, de onde podemos escapar dos olhares alheios. É decisivo que a nossa única preocupação seja a de nos colocar apenas diante o olhar de Deus; o que conta é rezar com o coração: trata-se de reservar aí um espaço destinado exclusivamente a Deus.
Quando fazemos a experiência desse retorno à nossa “morada interna”, descobrimos que esse é o tesouro escondido, tão próximo, tão íntimo, capaz de transformar a nossa vida, nosso modo de proceder, de nos relacionar e de nos comprometer.
Texto bíblico: Mt 6,1-6.16-18
Na oração: - Quê mediações você vai ativar durante a Quaresma para ajudar a esvaziar sua “casa interior” e abrir espaço para a atuação livre de Deus?
- Como você se sente em sua casa interior? Precisa abri-la, arejá-la, modificá-la, iluminá-la... É espaço de acolhida, de gratuidade, de serviço...? Ou há falsos senhores que a habitam, travando o fluir de sua vida?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
16.02.2026

“Vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo”
Estamos no início do Sermão da Montanha, onde Jesus nos ensina e nos proporciona belas imagens, parábolas e histórias; elas só permanecem no coração e na mente quando são consideradas através da imaginação e não meramente explicadas como uma lição.
A proclamação das Bem-aventuranças desemboca nesta constatação: quando as vivemos, nós nos tornamos, naturalmente, “sal da terra e luz do mundo”. Trata-se de duas imagens profundamente eloquentes, que tem a ver com dois de nossos sentidos e que apontam para algo que todos aspiramos: o sabor e a luz.
As imagens não precisam de explicação nem de comentário. Explicam-se por si mesmas. Exigem, isso sim, uma resposta vital do leitor ou ouvinte. Quando nos deixamos interpelar por elas, descobriremos uma nova dimensão da existência à qual somos convidados. Podemos aceitar o desafio ou rejeitá-lo. As imagens nos colocam frente uma alternativa: ou continuar como estávamos em nosso modo de ser e viver, ou aceitar a nova maneira de assumir a vida que elas nos sugerem.
Embora o sal e a luz não tenham nada em comum, há um aspecto no qual coincidem. Nenhuma das duas é proveitosa em si mesma. O sal sozinho não serve para a saúde, só é útil quando acompanha os alimentos. A luz não é para ser vista; ela possibilita ter uma visão clara das coisas.
O sal e a luz têm duas formas diferentes de realizar sua ação: o sal remete a uma ação invisível; no entanto, próprio da luz é brilhar. De acordo com o texto, as formas de presença, significadas pela luz e pelo sal, não se eliminam; as duas são inseparáveis. Sal e luz são elementos expansivos; a importância não está neles mesmos, mas na relação com a realidade onde se fazem presentes: o sal realça o sabor dos alimentos; a luz revela a realidade escondida na escuridão.
O sal atua no anonimato. Se um alimento tem a quantidade precisa, passa desapercebido, ninguém se lembra do sal. Quando a um alimento lhe falta sal ou tem demasiado, então nos lembramos dele. Não se pode comê-lo diretamente. Se não há comida, o sal é simplesmente veneno. O que importa não é o sal, mas a comida temperada com sal. Quando a comida tem excesso de sal se faz intragável. A dose tem que estar bem calculada.
O significado é tão simples como profundo: o sal serve para que os alimentos realçam seu sabor; a luz serve para que se possa ver o que já existe. Ambos têm uma só função: servir para que outras coisas sejam válidas, para que sejam o que são. Ser sal e luz é ressaltar e potenciar tudo o que é positivo na vida humana.
“Vós sois a luz do mundo”: não é uma expressão de futuro, mas de uma realidade que já é presente.
Um pouco antes, Mateus nos havia dito que Jesus era “a luz que brilhou na Galiléia” (4,16). Agora, Jesus afirma que é luz todo aquele que encarna o espírito das bem-aventuranças. Ou seja, somos luz, como Jesus, na medida em que, esvaziando-nos de nosso eu, permitimos simplesmente que a luz “passe” através de nós sem encontrar obstáculo.
O texto do evangelho de hoje constitui uma clara afirmação de que a missão dos discípulos no mundo faz parte de sua própria identidade. Neles aparecem os traços fundamentais que caracterizam esta missão. “Vós sois” diz Jesus e não “vós deveis ser”, ou “tendes que se transformar em...” Os discípulos “são”, querendo ou não, pela força do chamado que lhes foi dirigido. “Sois”: este tempo verbal no presente refere-se a uma identidade marcada pelo modo de ser e de agir de Jesus. Quem o segue, afetado pelo seu chamado, fica plenamente transformado em sal da terra e luz do mundo.
Na brisa calma do monte, Jesus evoca uma imagem cálida e pede que imaginemos uma pequenina chama. É de uma lamparina que ilumina uma casa. Vemos uma chama dançante que expande sua luz.
E Ele pergunta aos seus ouvintes: “onde deve ser colocada a lamparina: dentro de um alqueire ou no candeeiro?” O alqueire era um recipiente que se utilizava para medir a quantidade de grãos. Não tem nada a ver com a lamparina. É absurdo utilizar um alqueire para cobrir uma chama que ilumina uma casa escura. Se está acesa, é evidente que a luz deve ser visível e tornar visível as coisas.
O tom das palavras que emprega revela uma grande preocupação por parte de Jesus: é como se quisesse nos alertar de que em nós há uma tendência inata à obscuridade, à penumbra, que corremos o risco de deixar na sombra o que deveria brilhar (nossos dons, nossos recursos...).
Por isso, suas palavras estão cheias de amor, são fogo, são chama. Isso é o que nós, como seus seguidores devemos ser, e não presenças obscuras e, talvez, sem sol. Suas palavras são pronunciadas para despertar a luz vacilante e tímida de nosso interior, e assim expandi-la amplamente.
Somos portadores da “luz nova”; não extinguir essa luz que ilumina dentro. Abafar essa luz é menosprezar a vida da Graça, o tesouro que nos foi confiado no batismo. Devemos guardá-la ciosamente, velar por ela, valorizá-la pela nossa colaboração, estimá-la e protegê-la, como a chama olímpica que nos levará à vitória.
Se voltamos ao início do relato da Criação, a primeira coisa que ouvimos é que Deus cria a luz; “faça-se a luz”: esta é a primeira palavra que Ele pronuncia como potência criadora e que possibilita a vida.
As trevas, as sombras, a obscuridade é não-ser e não-existir. Nossa fonte original é Luz.
O simbolismo da luz está muito presente em toda a Escritura, mas, de maneira especial, em dois momentos: a) na sua primeira carta, João define a Deus como Luz sem mistura de trevas; b) a afirmação de Paulo de que somos filhos da luz, a caminhar na luz, a desmascarar as trevas, a conectar com a Luz fontal, para que nossas obras sejam luz.
Através do apelo de Jesus, no evangelho deste domingo, somos convidados a aprender a gerir nossa luz e sabor/sabedoria, a viver em conexão com nossa verdadeira identidade, a gerar espaços de conhecimento daquilo que é essencial para que nós mesmos, nossas comunidades, nosso mundo, nossa casa comum, sejam reflexo do movimento profundo da fonte da Vida.
No último parágrafo do evangelho deste domingo, há um ensinamento esclarecedor: “...para que vejam as vossas boas obras e louvem o Pai que está nos céus”. A única maneira eficaz para transmitir a mensagem são as obras. Uma atitude verdadeiramente evangélica se transformará inevitavelmente em obras.
Evangelizar não é propor uma doutrina muito bem elaborada e convincente. As obras que os outros percebem devem desvelar as nossas atitudes internas. Quando elas são fruto só de uma programação externa, não ajudam os outros a encontrar seu próprio caminho. Só as obras que são reflexo de uma atitude vital autêntica, são canal por onde flui iluminação para os demais. O que existe em nosso interior, só pode chegar aos outros através das obras. Toda obra feita a partir do amor e da compaixão é luz.
Quando nos é pedido que sejamos luz, está nos dizendo algo decisivo para a vida espiritual, própria e dos outros. A luz brota sempre de uma fonte incandescente. Se o nosso coração não arde, não poderemos emitir luz. Mas se há brasas incandescentes, não poderemos deixar de emitir luz. Só se vivemos nossa humanidade, poderemos ajudar os demais a desenvolver a sua própria humanidade.
Ser luz significa pôr toda nossa bagagem espiritual a serviço dos outros.
Texto bíblico: Mt 5,13-16
Na oração: “O amadurecimento da experiência e uma visão de fé mais profunda evidenciam a grande Luz que nos precede, acompanha e segue no percurso da vida”.
- Deixa-te iluminar, leva a Luz nas suas pobres e frágeis mãos, iluminando os recantos do seu cotidiano.
- Deixa-te iluminar para seres presença que desperta o sabor da vida.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
08.02.2026

“Quando entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe” (Mt 2,11)
Para a Igreja do Oriente, hoje é o dia da Natividade, o dia que Jesus se manifestou como a Luz do mundo, o dia que Deus elegeu para manifestar-se a todos os homens através da pequenez do filho de Maria. Esta festa nos convida a descobrir a “epifania” não só em nós, mas em tudo e em todos. Tudo é transparência de Deus, tudo é manifestação de Sua presença providente e iluminadora.
O evangelho de Mateus nos faz aproximar do nascimento de Jesus através de um relato original, carregado de simbolismos que nos orientam e nos ajudam a captar o verdadeiro significado deste evento divino.
Por isso, é importante não ler o texto de forma linear, mas dando atenção aos diferentes cenários que se cruzam para ter uma visão panorâmica de tudo o que está acontecendo.
O primeiro cenário, que abre e fecha o relato, é o fato simples e cotidiano do nascimento de um menino numa pequena aldeia. Um menino em quem transparece a salvação de Deus, renovada e persistente em seu desejo de convidar todo ser humano a vivê-la.
Mas essa iniciativa divina carregada de gratuidade e ternura é vista como ameaça pelo rei Herodes e pela elite religiosa de Jerusalém que protagonizam a ação do segundo cenário. Herodes usa estratégias para cortar pela raiz a ameaça ao seu poder, quando fica sabendo que o anúncio da salvação de Deus brota a partir de baixo, da periferia, das fendas cotidianas da história.
Por sua parte, os Magos vindos do Oriente, que ignoravam os grandes desígnios divinos, só conhecidos pelos representantes religiosos de Israel, aparecem como buscadores honestos, pondo todo seu conhecimento e seu esforço em encontrar Aquele que salva e dá vida. Para isso, não duvidam em colocar-se a caminho, em questionar sua própria verdade e arriscar tudo a partir de uma intuição do coração.
Os Magos, dos quais Mateus se refere, representam o dinamismo próprio das religiões que vão mais além delas mesmas; um dinamismo que é busca da verdade, a busca do verdadeiro Deus, a busca da sabedoria, a busca de um sentido para a vida. Por isso, os magos são representantes dos “buscadores” de todos os tempos. Eles deixam transparecer a verdadeira identidade de todo ser humano, que se define como buscador.
Viver é desafiador na medida que viver é buscar. A dinâmica da busca marca a caminhada humana e define os rumos da vida. Vive-se em permanente busca e só à medida que se vive para buscar é que a vida se torna, de verdade, vida, com mais sabor e sentido. O que se busca define e determina o que é a vida da pessoa. “Diga-me o que você busca e lhe direi quem você é”.
É decisivo ter claro o que é que se busca. No supermercado da vida pode-se buscar tudo. As ofertas são muitas e são sedutoras. Viver para buscar “outras coisas” é correr o risco de perder o rumo, priorizar o menos importante, apegar-se ao que é passageiro, não perceber o que é e onde está o essencial. Muitas buscas, que permanecem na superfície da vida, acabam gerando prejuízos graves porque a atitude de busca, tão própria do ser humano, desemboca em algo sem sentido, sem horizonte, vazio.
É difícil alimentar o “espírito de busca” quando nossa realidade insiste na vivência do imediato, entendido como carência de um projeto de vida consistente, de uma causa mobilizadora, de uma razão por viver enraizada no coração. É difícil buscar quando alguém se encontra acomodado e satisfeito de tudo e, ao mesmo tempo, de nada. Então, para que buscar? Como despertar e alimentar a fome e sede da busca?
A força da busca que move o próprio coração exige cuidado e especial atenção. Toda busca inclui a purificação de motivações para permitir, como fruto, o encontro de tudo o que garante e promove a vida. É exercício de discernimento constante: “o quê busco? Por que busco? Tem sentido e valor aquilo que busco? Para onde me leva a força da busca?...” É preciso buscar sempre, pois é esta atitude que dá garantias de fecundidade e criatividade à vida.
Nesse sentido, o relato dos Magos é uma das passagens bíblicas mais belas que descrevem o sentido, o valor e a dinâmica da busca. De fato, todo o relato e todos os protagonistas são pessoas que estão em busca: Herodes e toda Jerusalém, os sumos sacerdotes e os escribas do povo e, obviamente, os Magos. Todos envolvidos na inquietante busca do Messias. No entanto, quanta diferença nas motivações e nos êxitos desta busca.
Herodes não é somente o cínico e perverso rei que teme pela estabilidade do seu trono. É também aquele que vive na mentira e que tem medo da verdade. Quer, portanto, buscar a verdade, mas para eliminá-la radicalmente da face da terra. Tudo faz para conservar egoisticamente o seu poder. Este é o seu ídolo e este é o seu verdadeiro deus. Os sumos sacerdotes e os escribas sabem onde buscar a verdade, tem a Escritura, são “experts” em indagar e investigar a verdade, mas permanecem fechados e resistentes em sua posição. No fundo estão a serviço do poder e tem medo de perder seu lugar.
Quão diferente, contrastante e diametralmente oposto foi a atitude de busca dos Magos!
E não foi ingenuidade o fato de irem perguntar ao rei da Judéia onde tinha nascido o Rei dos judeus; foi, antes de tudo, o desejo de envolver os outros na própria busca da verdade. Não viram grandes prodígios, mas experimentaram uma grande alegria. Compreenderam que a aventura da busca não se dá nas alturas, mas no encontro com a humanidade. Por isso, depois de um longo e penoso percurso, encontraram-se diante d’Aquele que se humanizou. Só lhes restou “caírem de joelhos diante dele e o adoraram”. E quando aqueles homens se levantaram, já não eram mais os mesmos.
Ajoelhar-se pode parecer um gesto servil, mas, em ocasiões como esta, é um gesto de humildade. Implica descer do pódio do ego, sobre o qual ele busca subir constantemente, acreditando ser o melhor, o mais sábio, o mais famoso, o mais perfeito. De joelhos, clama-se por compaixão, ajuda, clemência, compreensão, misericórdia. E levantar-se é poder de novo estar de pé, tendo passado pela experiência da pequenez.
Além disso, pôr-se de joelhos diante daquele menino significa abrir passagem na própria vida à ternura, à grandeza que não está em saber mais, nem ser mais forte, mas a de ser mais humano e, por isso, profundamente imagem de Deus. Ajoelhar-se diante daquele menino é, acima de tudo, despertar o deslumbramento, o assombro, a admiração. Quando alguém se encontra com aquele que “é” luz, parece que tudo em sua vida se torna mais luminoso, e essa luz se revela expansiva.
Herodes e sua corte representam o mundo do “ego” inflado, prepotente, que busca seus próprios interesses e vê ameaça por todos os lados. Tudo vale nesse mundo quando se trata de garantir o próprio poder: o cálculo, a estratégia e a mentira. Vale inclusive a crueldade, o terror, o desprezo ao ser humano e a destruição de inocentes. Apresenta a falsa imagem de ser defensor da ordem e da justiça, mas é vulnerável e mesquinho, pois termina sempre buscando um “menino” para matá-lo.
Para reconhecer a dignidade do ser humano, em vez de destruí-la, é preciso percorrer um caminho oposto àquele que Herodes segue. Como os Magos saem de sua terra para buscar o Menino, nós precisamos sair de nosso “ego”, de nossas seguranças terrenas para buscá-Lo. Sem essa atitude, embora tenha nascido o Menino, embora apareça a estrela, o encontro não acontecerá.
Texto bíblico: Mt 2,1-12
Na oração: Diante de milhões de estrelas de nosso mundo que ofuscam nossos olhos, é preciso aprender a discernir aquela que nos conduz a Jesus. Nesse sentido, o relato dos Magos é paradigma de discernimento.
- Pedir a graça de ser libertado(a) das atitudes e comportamentos que geram resistência e acomodação; e graça de saber descobrir e discernir no céu, na história e em si mesmo(a) os sinais externos, as moções interiores e os caminhos que levam ao Deus da Vida e à vida plena das pessoas que Deus ama.
Pe. Adroaldo Palaoro sj
02.01.2026
imagem: Bartome Estevaban Murilo
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