Desdobramentos


Affonso Romano de Santana

 

"Mas você sabe que a pessoa pode encalhar numa palavra e perder anos de vida?" Clarice Lispector

 

 

Vejam só: encalhar numa palavra. A pessoa lá vai no seu barquinho vida adentro e, de repente, encalha numa palavra. Pode ser “marxismo”, “Deus”, “pai”, “vanguarda”, “revolução”, “Paris”, “aposentadoria”. As palavras são paralisantes. O Brasil, por exemplo, no princípio do século estava encalhado na “febre amarela”. Nos últimos anos reencalhou na “ditadura” e na “censura”. Tem hora que encalha na “inflação”. Agora encalhou no “desemprego”. E está difícil desencalhar da “reforma agrária”, da “corrupção” e do “subdesenvolvimento”. (...)

Open art

 

Quem leu O nome da rosa se lembra que havia lá na biblioteca medieval um texto impossível, envenenado, como o fruto interditado no meio do jardim. É que as palavras, com essa coisa de se plantarem em nossa vida, nos alimentam e nos matam, são remédio e veneno, e, como os produtos de uma farmácia, são drogas que podem sarar ou curar.

 

Aurélio Buarque de Hollanda, enfatizando o lado positivo das palavras, me disse um dia: “nós temos que dar oportunidade às palavras”. Entendi isto como uma sugestão para a gente se desencalhar e ir desfrutando palavras novas, como o amante que com um novo amor renasce vida afora.

 

Em algumas culturas, certas palavras não podem sequer ser pronunciadas, pois trazem desgraças. Mas em algumas narrativas, certos vocábulos abrem grutas, cofres e corações. Sim, algumas palavras ajudam o barco a flutuar: “esperança”, “amanhã”, “utopia”. Pode-se também passar uma estação com algumas delas, como se pode passar uma temporada num determinado lugar, num certo corpo, num certo amor. Certas palavras são como hotéis: nelas fazemos pernoite, mas outras demandam moradia maior, são grutas ou catedrais que exigem contemplação.

 

 

Com as palavras a gente tem que tomar cuidado, pois no primeiro encontro nos libertam, depois nos aprisionam. Há palavras tão duras e montanhosas, que nem com trator, só dinamitando. E o fato é que um simples “bom dia” ou “alô” pode salvar uma vida. A psicanálise pretende ser o método da “cura pela fala”, mas também pode se tratar pelo ouvido. As palavras ouvidas também curam. Vejam a mãe soprando o dedinho do filho dizendo: “já passou o dodói, pronto”.


Viver também é a arte de lidar com as palavras. E como já disse alguém - as palavras são caminhos para encontrar as coisas perdidas.


(Adaptação. In: http://midiaeopiniao.blogspot.com - acessado em 06/10/2010)

 

 

Equipe do Centro Loyola

30.04.2013