Uma Música

Juro que não morro

Tiago Cavaco

O ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.

Ouvi o Belchior cantar e bem concordo. Juro que não morro, juro que não morro.

Conheci um velho, chamado Nicodemus, disse-me que tinha nascido de novo.

Juro que não morro, juro que não morro.(bis)

 

Tiago Cavaco assim escreveu na página do seu facebook: "Desta vez partilho convosco uma canção (na prática, um texto falando sobre uma canção). Fi-la há um ano e tal, inspirado numa canção do cantor brasileiro Belchior (como a letra mostra). Já não me lembro de como fui parar a ele e ao seu disco chamado “Alucinação”, mas sei que nas férias de 2018 eu, a Ana Rute, a Maria, a Marta, o Joaquim e o Caleb o ouvíamos bastante no carro durante os dias passados no Algarve. E sentia-me arrebitado sempre que chegava à parte de: “ano passado eu morri/ mas esse ano eu não morro”.

Aqui há umas semanas o site musical brasileiro “Scream & Yell” convidou músicos do Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Colômbia, Grécia, EUA e Portugal para gravarem em casa alguma canção que pudesse servir de companhia neste período de quarentena. Gravei a minha terceira versão desta canção, “Juro que não morro”, do modo mais despojado que consegui (as duas primeiras versões são mais rock). Para isso, limitei-me à guitarra de cordas de nylon (porque os meses passados no Mississippi também serviram para compreender a excelência do Willie Nelson), ao baixo eléctrico à moda do folk dos anos 60 e 70, e ao harmónio que temos na sala (que precisa de uma limpeza nos foles mas ainda funciona nas notas graves e numas quantas agudas). Depois, o Nando Frias, líder do louvor da Igreja da Lapa e meu companheiro musical nos últimos anos, acrescentou o piano.

De certo modo, esta é uma canção acerca de como pessoas que já levam muito tempo de vida nos podem ajudar a compreender que, na realidade, a vida nunca acaba. Velhos de vida que nos mostram que a vida poder ser sempre jovem. E tudo isto sem negar que a juventude da vida não significa a ausência de trevas. Fuço nisto porque receio que grande parte dos elogios à vida relativizam as suas trevas. E isso só a torna mais desnecessariamente complicada.

O Belchior soa a alguém que andou à rasca e que agora está um pouco melhor. Nicodemos é alguém que no evangelho é mais mostrado a querer entender, do que propriamente a entender mesmo. Ou seja, a Bíblia dá mais detalhe à dificuldade que Nicodemos tem com a ideia de nascer de novo, que ouviu do Nosso Senhor Jesus (em João 3), do que à capacidade de se ter tornado num discípulo dele (que sugere em João 20:39). Mas acredito que, quer o Belchior quer Nicodemos, ainda que de modos diferentes, têm vozes que afirmam que o estardalhaço da morte não tem a palavra final.

Estes dias desafiam-nos porque, por um lado, lembram que a morte é a sério e está agora mesmo à nossa frente, por muito que no passado a previsibilidade com que cumpríamos as nossas expectativas disfarçasse a sua presença. Por outro lado, estes dias desafiam-nos porque se ficarmos apenas no passo anterior, acolhendo a chegada da morte, provavelmente desesperamos. Estes dias podem ajudar-nos a, usando uma expressão antiga, fazermo-nos homenzinhos, e, contraditoriamente, a ficarmos feitos crianças assustadas. Acredito que tem mesmo de ser Jesus a deslindar o dilema.

Tiago Cavaco

30.04.2020