Um Filme

“A SEPARAÇÃO (de Nader e Símin)

Asghar Farhadi – Irã - 2011

 

Sobre os valores que regem nossas vidas. E que estão acima de escolhas pessoais!

 

O filme ficou presente em mim, como um presente, por vários dias. Novamente Asghar Farhadi é brilhante: numa linguagem cinematográfica moderna e dinâmica, e desde situações atuais, ele nos apresenta temáticas “velhas” e universais como o tempo. Nader (N.) e Símin (S.) têm uma filha Termeh (T.). O pai de Nader mora com eles e está com Alzheimer. Símin quer outros horizontes para si e para sua filha, e acredita que os terá, indo viver em outro país. Nader não deseja isso, e não quer deixar o velho pai. Alega Símin: “Mas ele nem o reconhece como filho!”. E Nader: “Mas eu reconheço que ele é meu pai!” (a verdade está além dele!). Por incidentes domésticos, esta família vai ter seu dia-a-dia entretecido com o de outra, a deRazieh (R.) e Hodjat. Com este enredo central, poder-se-ia pensar que o filme vai tratar de problemas de casal e de questões culturais e religiosas do Irã. Nada disso! Esse é apenas um mote para trazer temas universais que atravessam o tempo, diferentes culturas, raças e religiões, como: verdade, responsabilidade, comprometimento, temores, reverência a valores e às gerações.

 

O filme começa com uma máquina “de xerox” fazendo cópias de documentos. E termina com as pessoas daqueles documentos, mas impossibilitadas de fazer uma “cópia” de si mesmas, pois o que há, é só e apenas a realidade!: o local da Justiça (do viver), entre tantos que passam, entrando e saindo sem cessar. NaderSímin sentados, compenetrados em si mesmos, separados por uma divisória, mas juntos pelo convívio permanente com um cotidiano que marca e demarca nossas ações com quem nos rodeia e com quem temos que conviver. Muitas vezes quis ater-me ao diálogo, expressões e cenas, mas tudo se passa muito rápido. Talvez como a vida de cada um de nós!

 

Embora diferentes na condição econômica, social, cultural e religiosa, vemos duas famílias com muitas semelhanças: pai, mãe e filha, sendo que em uma há um pai idoso, e na outra há um bebê a caminho. Ou seja, o tema das gerações e do cuidado e reverência a elas: isso nota-se nos diálogos e nos inquéritos, na delicadeza com que tratam as respectivas filhas e o idoso. Enfim, o cuidado com a família visto como valor que transcende a cada um deles, e não apenas como uma escolha pessoal. Todas as personagens respondem a algo que está além delas mesmas. Há sempre um princípio maior que as rege, e que norteia a relação consigo mesmo e com o próximo. É como se estivessem dizendo: “A verdade não é a minha! A verdade está além de mim!”. Todos estão genuinamente pré-ocupados com algo além deles: filhos, família, valores; e dentro da continuidade da vida têm temor do que acontecerá com a filha, caso pequem ou mintam, ou não cumpram com o que devem. Têm consciência de que tudo que se nos acontece é conseqüência de nossa ação no mundo, no aqui e agora; e por isso respeitam e buscam o melhor para todos, numa só direção: “Louvar (amor), reverenciar (respeito) e servir (estar para o outro)” são lemas embutidos na ação de cada um deles. Todos “temem” a Deus (ou Alá) e a uma Ética, como condição para pensar e viver a vida. O temor de pecar advém do grande e profundo Amor de Deus e a Deus; não necessariamente é temor de um Deus implacável e punitivo. Quando verdadeiramente AMO alguém, ele está além de meu eu e meus interesses; assim sendo, tudo quero fazer para manter-me no Amor e na relação com este que me ama e a quem amo.

 

No burburinho da vida e dos acertos e erros (representado na Delegacia e nos inquéritos e testemunhos): - Nader sabia da gravidez de Razieh, mas quando a vida do seu pai estava em risco, ele “não mais soube”, e essa era a verdade daquele momento; - Nader: pai e filha, a verdade acima de tudo; - o pai mente para preservar a filha; a filha faz o mesmo pelo pai; - Símin: quer reparar danos causados por sua decisão de ir-se de casa; Razieh: a verdade acima do que resolveria problemas financeiros; e...

 

Com quem a filha Termeh decidiu ficar importa pouco, dentro do que o filme nos conta, revela, desvela, aponta, interroga, inquieta e nos faz pensar. Os pais não a disputavam; todos se cuidavam.

 

A filha decidiu ficar com... o comprometimento consigo mesma e com a Verdade, acima de tudo!

 

Maria Teresa Moreira Rodrigues

01.03.2012