Um Filme

 

 

Diretores: Mariano Cohn, Gastón Duprat

Argentina - 2009

 

A difícil (às vezes até impossível) Arte de conviver com o que nos “invade”...

 

O enquadre inicial já é muito interessante e revelador. Na tela, de um lado a parede sendo martelada, martelada... e do outro, a parede e os estragos que as marteladas vão fazendo...

 

Na cena final, estão os dois homens: o que “martelou” e o que foi “martelado”. Ambos, invasor e invadido sucumbem, de forma diferente, ao que tão intensa e maciçamente foi vivido.

 

Claro está que não estamos frente a um problema de “vizinhos” de casa, certo? Estamos frente a frente com uma situação séria e dificílima, que é a delimitação de territórios, o convívio com as diferenças, a agressão recíproca que os diferentes podem gerar entre si.

 

Meus amigos, se me tivesse sido dado viver com tamanho barulho, teria tido um “treco”! Preciso demais do silêncio. “Invasões” externas (barulhos dissonantes) e internas (sentimentos que não compreendo e ficam a me habitar) têm efeito devastador sobre mim; são como “janelas” que se abrem em paredes do meu interno, e me deixam exposta às minhas fragilidades e inquietações, até que... até que seja possível “defender-me” e assimilar o significado das “invasões”. E isso não é um problema pessoal, entendem? Isso é condição humana! Assim, posso identificar-me com Leonardo (Leo) e compreender seu drama como cidadão e pessoa.

 

Vejamos: Leo é um artista, é o que faz desenhos novos do que já é conhecido; seu olhar apreende a realidade em sua sutileza de detalhes e a inova, sempre buscando aliar harmonia, conforto e praticidade. Leo quer preservar o belo e possui a casa construída por Le Corbusier. Victor (Vic) é grosseiro, vive a vida em seus detalhes mais básicos e instintivos, sem nenhum cuidado com a beleza e o respeito. Claro que se pode pensar Leo como um covarde que não soube “enfrentar” uma situação de agressividade no cotidiano. Ou pode-se pensar Vic como um cidadão apenas rude, mas que tem direito de buscar “seus raios de sol”. Atenção, atenção! Atentemos a detalhes: Leo: 1. Não quis que aparecesse na reportagem a seu respeito sobre seus trabalhos sociais e com aborígenes; 2. Disse à mulher que comprasse xícaras verdes novas para a empregada, e não apenas lhe desse o que já estava velho e esgarçado, como as camisetas (a do Kiss, a do Metrô de Londres, e uma que não lembro); 3. Acorda na madrugada e vai observar as luzes nas pequenas janelas dos grandes conglomerados de edifícios, como que a tentar compreender o que devem sentir os que se vêem uns pelas janelas dos outros. Depreendemos ser alguém sensível que não quis e não quer criar problemas e nem desrespeitar o outro. Mas, ele está “ilhado” nessa luta. Sua mulher só quer ver a situação resolvida (barulho e invasão do olhar) e reclama dos que não fazem o que deveriam fazer, como seu próprio marido; só tem soluções legalistas à mão; fala sem parar e quando para, quer um “beijinho”. Sinto muito; não estou a defender o Leo, mas... ele estava sozinho naquela casa! Ele até tenta alguns chavões psicanalíticos para ver se a filha pode se aproximar dele. Em vão! A conversa mais espontânea e sincera foi com a empregada, a que conseguia apontar os fatos: sua filha não quer falar com você; o patrão não quer atender o vizinho, etc. Ah! E a entrevista da televisão? Terrível! Como usual, “ditavam” o que ele deveria falar... ensurdecido com o barulho do vizinho, e emudecido com os ditames da entrevistadora, Leo paralisa e não consegue seguir na conversa; é chamado de autoritário. Mas não, ele sucumbiu foi às invasões: vizinho e mídia.

 

A situação de Leo é terrorífica. Ingênuo, e talvez até um tanto quanto prepotente, quer encontrar solução com alegações lógicas e legais, no que é rebatido não apenas por Vic, mas também pela própria realidade: desde quando as leis são respeitadas?! E o mais difícilVic é escorregadio e usa de alegações que mexeriam qualquer cidadão minimamente “politicamente correto”: - só quero uns raios de sol: - não mexa com meu primo deficiente (que com certeza não o era!); - só quero conversar; - fiz presente para você! Impotente e imobilizado, Leo vai perdendo-se e emaranhando-se. É agressivo com os jovens iniciantes e assedia de forma pobre e ridícula a jovem estudante. Perde prazos para a entrega de trabalhos e perde-se de si. Como as “invasões” são tantas, sua casa será invadida por pequenos ladrões. Encomendados? Não importa. Importa que o desfecho é dado pela própria realidade que segue invadindo... a tudo e a todos. Que saibamos nos defender!

 

Maria Teresa Moreira Rodrigues

Psicanalista – Espiritualidade Inaciana

16.06.2012