Um Filme

 

 

Diretores: Eric Toledano, Olivier Nakache

Gênero: Comédia

França - 2012

 

Philippe e Driss não têm aparentemente nada em comum. Um é branco, outro negro; um é rico, outro pobre; um vive em uma mansão com coleções de raros objetos de arte e outro em um bairro da periferia de Paris, dividindo quarto e banheiro com oito primos e irmãos. Um ficou tetraplégico, após um grave acidente de parapente que lhe destruiu as cervicais. Outro é um monumento à saúde: alto, atlético e forte.

 

Cada um lida com sua exclusão – deficiente físico e dependente do cuidado alheio um; afro descendente e discriminado em um país branco outro – até que o destino faz com que seus caminhos se cruzem. E começa então para ambos uma jornada em direção ao resgate da própria dignidade como ser humano. A mediação para isso será um trabalho remunerado que evoluirá no sentido de uma profunda e bela amizade.

 

O filme de Olivier Nakache e Eric Toledano teve na França sucesso estrondoso de bilheteria. Fala aos sentimentos e provoca as consciências que diante do drama dos dois personagens transformado em inteligente e fina comédia pelos realizadores penetra facilmente no gosto refinado e culto da platéia francesa. Com excelentes atores, é um inegável sucesso e pode ser que repita este ano no tapete vermelho de Hollywood o sucesso do belo “The Artist” do ano passado.

 

No entanto, não é tanto por aí que o filme tocou-me uma fibra profunda da sensibilidade. O ponto álgido da trama parece-me ser o diálogo de Philippe com um amigo da família, quando este o interpela sobre o fato de haver contratado como cuidador pessoal alguém como Driss. O amigo – que como outros parentes e conhecidos – roda perto de Philippe de olho em uma possível herança escandaliza-se com a atitude de Driss, desassombrada e autêntica, radicalmente diferente de outros acompanhantes que mantêm prudente distancia do paciente que cuidam. E lhe pergunta como é possível que Philippe continue admitindo em sua casa e em sua intimidade alguém tão perigoso e sem nenhuma piedade.

 

A resposta que vem segura e cortante de dentro da cadeira de rodas onde Philippe sente, deseja e vive intensamente apesar de sua limitação física é de uma profundidade impactante: “É isso mesmo que eu quero. Nenhuma piedade”. Diante dos olhos do amigo perplexo, Philippe expõe sua exigente angústia, clamando por ser tratado como pessoa e sujeito, com desejo e liberdade, e não como um objeto que se deve cuidar mas com o qual não se estabelecem relações.

 

Totalmente heterodoxo em seus métodos de cuidar do paciente que lhe é confiado, Driss cria situações verdadeiramente perigosas, nas quais tudo pode acontecer. Mas são justamente essas situações que vão trazendo Philippe de volta a uma plenitude de vida perdida pelo caminho. Como quando parte dirigindo o carro de Philippe com este a bordo em alta velocidade, sendo parado pela polícia e driblando a mesma com a ajuda do companheiro. Ou quando concorda em acompanhar Philippe para saltar de parapente, apesar do medo, e partilha com ele a deliciosa e vertiginosa sensação de voar sobre o mundo. Ou quando indaga do amigo como e por onde, em seu corpo quase totalmente paralisado, acontece o prazer, levando Philippe à confissão de onde residem suas zonas erógenas.

 

Nenhuma piedade atravessa a interlocução do senegalês Driss e do tetraplégico Philippe porque entre eles reina uma relação honesta e transparente. Trata-se de duas pessoas que desejam viver e se empenham em desfrutar juntos dessa graça e desse dom dos quais se recusam a abdicar. O filme se desenrola em coerência com esse dinamismo vital que cresce até um ponto álgido e uma solução “improvável” que no entanto se torna não somente possível como real.

 

A piedade e a comiseração humilham aquele que se encontra em uma situação limitante, diminuído pela doença ou pela marginalidade social. Não o ajuda no caminho da superação de seu limite o olhar condoído que não é compassivo. Que sente pena, mas não compartilha essa pena, não compadece, não sofre com.

 

O ser humano nunca é digno de pena, pois sempre tem viva em seu interior a centelha divina que o faz à semelhança do Criador. E em uma relação franca e aberta, a chama que poderia estar bruxuleante e algo apagada ganha novo impulso e volta a brilhar. Assim é a história da amizade entre Philippe e Driss, que esse belo filme narra. Assim pode e deve ser a história de qualquer amizade verdadeira. O olhar amigo não diminui o outro pela piedade, mas o desafia a superar qualquer situação pela solidariedade alegre e criativa.

  

Maria Clara Bingemer

Teóloga e professora da PUC-Rio