Um Filme

 

Diretor: Juan José Campanella – (Parte 2) -

Argentina/Espanha – 2009

 

Eu olho. Tu olhas. Ele olha. Nós olhamos. Nos olhamos! E nos revelamos! “Nossos olhos falam. É preciso que eles se calem!”. Silêncio! E se fez silêncio! Silêncio sobre o amor que sentiam. Silêncio sobre a separação que as circunstâncias lhes impuseram. Silêncio sobre as mortes que a ditadura fazia. Benjamín Espósito volta ao local em que tudo começou. 25 anos já se haviam passado. E sua cabeça dava voltas e voltas em torno de lembranças. É o passado que retorna, numa lembrança sem cura. E o vazio dos anos o invade. É preciso viver a vida nessa vida! Não há outra! E a vida dele não é a do outro! E Cecília Meirelles nos traz “Retrato”: “Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas, eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil. Em que espelho ficou perdida a minha face?”.

 

Há uma lembrança sem cura. Há uma face perdida em algum espelho. É preciso buscar-se nas lembranças! Retornar e retomar! É preciso reabrir, internamente, o processo vivido. O vazio clama por preenchimento! É preciso reescrever a história, na mesma máquina, no mesmo registro, no mesmo sentir. Mas, agora, colocando o “a” em cada palavra. Misturo-me às cenas em que Irene (I.) e Benjamin (B.) se falam. Entre um diálogo e outro, vão se revelando nos interstícios das palavras e das lembranças. No momento exato em que iam se encontrar, num local distante do trabalho, ou seja, distante do que os limitava e enquadrava (ele, funcionário; ela, juíza), a morte do amigo evidencia o perigo dos desmandos do regime militar. No instante em que o amor se revelou no olhar um do outro, a vida fez com que esse amor ficasse no segredo dos seus olhos. Ele se foi de BsAs, com a ajuda dela, para não ser morto. Casou e descasou. Ela ficou, e no previsível seguiu: ama os filhos, mas não a vida conjugal. Pois é... Sobre quantos temores e amores não falaram! E não falamos nós! A vida e nossas parcas escolhas! Escolhemos? Ou as escolhas se fazem em nós? Pudemos olhar o que sentimos, outrora? Embaçado pelas circunstâncias políticas e sociais, o segredo do olhar não pode ser desvendado. Mas, segredo clama por ser revelado!

 

Pergunto-me: o que, em mim, clama por ser revelado e até para mim mesma? Dei-me conta de que me esquivava desse clamor interno, pela maneira como escrevi, antes, sobre o filme. Fui “um olhar sobre o filme”, e não “um olhar sobre o filme, em mim”. Quis me ocupar de detalhes técnicos, de desvendar o criminoso e terminei por confundir personagens e enredos. Pergunto-me: não foi isso que aconteceu com B.? Com I.? Olhamos para fora e não para dentro de nós. Claro que, muitas vezes, é o único que podemos fazer. Mas, pode haver tempo para desvendar o que não pudemos antes. É o que acabo de fazer, ao escrever a “parte 2” do filme (risos condescendentes para comigo mesma). E é o que seguirei tentando, com tantas partes de minha vida. E conto para vocês, o que não é um segredo! Entrei no cinema para assistir a este filme, no sábado, depois de 200 km de estrada, vindo de minha cidade natal e da festa de 60 anos de uma prima. Imaginem quantas pessoas reencontrei! E que não via há 25 anos?! Quantas passagens de nossas vidas foram retomadas! Quantas me fizeram lembrar daquela que já fui e que eu mesma havia esquecido! Não foi à toa que perdi a naturalidade ao escrever, não é mesmo? Não foi à toa que demorei a dormir, depois do filme!

 

Voltando ao filme: entre portas que se abrem e se fecham, antes que a última se fechasse, foi possível ver, na mesa de I., o mesmo “solitário” (vaso de uma só flor) que ali sempre esteve, agora com duas rosas vermelhas! B. pôde olhar pelo “buraco da fechadura” de sua história, e ao desvendar seu processo pessoal “Morales”, apropriou-se do seu amor, e assim pôde colocar o “a” no seu “temo” – te a mo! Ou seja: do temor ao amor! Ah! Se pudermos também fazer o mesmo com nossa história!

 

 

Maria Tereza Moreira Rodrigues

Psicanalista – Espiritualidade Inaciana

01.11.2012