Desdobramentos

 

A misericórdia divina é uma temática que ainda não está superada, antes é uma mensagem de grande atualidade. É justamente a atualidade desta temática que nos estimula a escavar na tradição do pensamento humano por uma resposta à nossa situação.

Nas Sagradas Escrituras, encontramos a misericórdia de Deus em diferentes formas de revelação. No Antigo Testamento, esta aparece, algumas vezes, associada ao nome de Iaweh, outras à santidade de Deus, outras ainda à fidelidade do Senhor de Israel.

 São Tomás de Aquino, na célebre Suma Teológica, apresenta-nos a Misericórdia associada à Justiça de Deus.

Ao recorrermos ao pensamento do Doutor Angélico, é de esclarecer que, com esta temática tocamos no fundamento e no mistério profundo do cristianismo, no Mistério de um Deus que se faz pequeno para resgatar a indigência da condição humana. Por misericórdia e justiça, Deus se enamora da nossa pequenez, manifestando um amor visceral por cada um de nós: “Ao longo do caminho da história, a luz que rasga a escuridão revela-nos que Deus é Pai e que a sua paciente fidelidade é mais forte do que as trevas e do que a corrupção. (…) A mensagem que todos esperavam, que todos procuravam nas profundezas da própria alma, mais não era que a ternura de Deus: Deus que nos fixa com olhos cheios de afeto, que aceita a nossa miséria, Deus enamorado da nossa pequenez” (Papa Francisco, 2014).

Por isso mesmo, Tomás de Aquino nos mostrará que a misericórdia e a justiça pressupõem um fundamento geral, que remonta à criação do ser humano. O homem é querido e precioso aos olhos do Pai. Pela Encarnação de seu Filho Unigênito, Ele nos justifica e nos eleva até ao seu Coração Misericordioso: “São Tomás mostra, de modo convincente, que a misericórdia opera já na criação. Segundo ele, a misericórdia é a condição sine qua non da justiça, pois a justiça pressupõe sempre a existência de alguém a quem se deve justiça; a existência das criaturas é imerecida e deve-se unicamente à bondade de Deus” (Kasper, A Misericórdia – Condição fundamental do Evangelho e chave da vida cristã, 2015).

Afirmar que Deus é Justo e Misericordioso é compreender que Deus tem um amor incondicional pelos miseráveis, que Ele não é um Deus alheio às mazelas humanas, distante, mas antes se compadece e se deixa tocar pela indigência do homem. Não que Deus se comova mas, por causa da sua soberania amorosa, num sentido ativo e livre, Ele se deixa comover e tocar pela miséria humana. Em Deus não há paixão, mas há compaixão.

Tudo isto refere-se à bondade suprema do Criador. O amor e a bondade em Deus nunca têm fim e estas estão intrinsecamente relacionadas com a justiça. Percebemos aqui que é possível conciliar justiça e misericórdia, como bem demonstra S. Tomás: “Deus dá a cada um o que é devido. É devido a Deus que seja realizado nas coisas aquilo que na sua sabedoria e bondade se manifesta” (S. Th., I, q. 21, a. 1). Por outras palavras, a ideia da misericórdia e da justiça em Deus não são meras ideias abstratas, mas é uma realidade experiencial, na qual Ele próprio revela o Seu amor incondicional. No dizer do Papa Francisco, na Bula Misericordiæ Vultus, nº 6, “é verdadeiramente caso para dizer que se trata de um amor «visceral». Provém do íntimo como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão.”.

Um sacerdote dominicano, ao falar destes atributos divinos, descreve que “se a justiça é um galho da árvore do amor de Deus, esta árvore não é senão a sua misericórdia e a sua bondade, sempre desejosa de comunicar-se aos homens e irradiar-se” (Garrigou-Lagrange, Providence, 1998). Em suma, compreendemos que a justiça divina sempre se manifesta na vida dos homens através de um amor entranhado e da misericórdia incondicional de Deus Pai. A existência das criaturas deve-se unicamente à bondade misericordiosa de Deus e, por isso mesmo, não é a justiça que fundamenta a misericórdia de Deus, mas antes a misericórdia é que é a prima radix à qual se há-de atribuir todo o resto (cf. S. Th., I, q. 21, a. 3).

Desta forma, percebe-se em S. Tomás a precedência primordial da misericórdia, através da Graça Divina, em relação ao pensamento unilateral da justiça castigadora. O próprio apóstolo Paulo, na Carta aos Romanos, exalta a revelação da justiça misericordiosa de Deus: “Agora, porém, independentemente da Lei, se manifestou a justiça de Deus, testemunhada pela Lei e pelos Profetas, justiça de Deus que opera pela fé em Jesus Cristo, em favor de todos os que creem, - pois não há diferença, visto que todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus - e são justificados gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus” (Rm 3, 21).

Assim sendo, não podemos compreender a justiça de Deus numa perspectiva legalista, reduzindo o seu sentido original ou obscurecendo o seu valor profundo, pois nas Sagradas Escrituras e, também no pensamento tomista, a justiça é concebida como um abandonar-se inteiramente nas mãos ternurentas de Deus, com plena confiança e perseverança no amor misericordioso.

O Beato Miguel Sopoko, confessor de Santa Faustina Kowalska, dizia que um fator decisivo para a obtenção da misericórdia Divina é a confiança. A confiança em Deus deve ser firme e perseverante, sem hesitações nem fraquezas.

S. Tomás diz que “a misericórdia deve ser ao máximo atribuída a Deus; porém, como efeito e não como emoção, fruto da paixão” (S. Th., I, q. 21, a. 1). Pode-se compreender que a misericórdia divina é a perfeição da ação de Deus, que Se debruça sobre os seres humanos com o objetivo de retirá-los da miséria e de apagar as suas falhas. O ato singular de misericórdia é a compaixão, e o estado imutável de compaixão é a misericórdia. Este é o grande mistério de um Deus que revela a Sua ternura perante a fraqueza humana. A sua justiça consiste em sarar as feridas abertas no coração de cada homem.

Afirma o Papa Francisco: “A misericórdia vai além, faz a vida de uma pessoa de tal modo que o pecado é colocado à parte. É como o céu. Nós olhamos para ele e vemos tantas estrelas, mas quando vem o sol, pela manhã, com tanta luz, não as vemos mais. Assim é a misericórdia divina: uma grande luz de amor, de ternura. Deus perdoa não com um decreto, mas com um carinho, acariciando as nossas feridas do pecado. É grande a misericórdia de Deus, é grande a misericórdia de Jesus. Ele nos perdoa e nos acaricia” (Homilia em Santa Marta, 15 de abril de 2015).

A união da miséria humana somada ao Coração de Deus, cheia de amor, resulta na misericórdia. A misericórdia divina não consiste no entristecer-se de Deus com os nossos defeitos, pois Ele é perfeito e entristecer-se é algo impossível para Deus; porém, a sua misericórdia consiste em eliminar os nossos defeitos (cf. S. Th., I, q. 21, a. 3). Conforme nos exorta Tomás de Aquino, Deus atua sempre com justiça, pois tudo o que faz nas coisas criadas, o faz com ordem e proporção. A misericórdia não suprime a justiça, antes é a plenitude da justiça. É o momento que Deus Se doa totalmente para resgatar o género humano. Por isso mesmo, o perdão só é possível à mercê da ação salvadora de Deus em Cristo Jesus: “Mas agora foi sem a Lei que se manifestou a justiça de Deus, testemunhada pela Lei e pelos Profetas: a justiça que vem para todos os crentes, mediante a fé em Jesus Cristo. É que não há diferença alguma: todos pecaram e estão privados da glória de Deus. Sem o merecerem, são justificados pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus. Deus ofereceu-o para, nele, pelo seu sangue, se realizar a expiação que atua mediante a fé; foi assim que ele mostrou a sua justiça, ao perdoar os pecados cometidos outrora, no tempo da divina paciência. Deus mostra assim a sua justiça no tempo presente, porque Ele é justo e justifica quem tem fé em Jesus” (Rm 3, 21-26).  

Quando Deus concede o dom do perdão é então que somos introduzidos na alegria celeste, como reza a Oração de Coleta da XXVI Semana do Tempo Comum: “Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e Vos compadeceis, infundi sobre nós a vossa graça, para que, correndo prontamente para os bens prometidos, nos tornemos um dia participantes da felicidade celeste.”

A fé é uma virtude teologal, pela qual o homem adere a Deus, movido pela vontade que recebe o influxo da graça. A fé alimenta a esperança, a caridade e a misericórdia. S. Tomás afirma que toda a vida cristã se resume na misericórdia pelos outros quanto às obras exteriores. Porém, o sentimento interno da caridade, que nos une a Deus, está por cima tanto do amor como da misericórdia pelo próximo. Essa caridade se funda na fé. De facto, a caridade nos faz semelhantes a Deus, unindo-nos a Ele, agindo também com misericórdia para com o nosso próximo.

Santa Maria Alacoque diz que do Coração do Senhor brotam três canais de graça: a misericórdia, a caridade e o amor: “O primeiro é o da misericórdia, que infunde o espírito de contrição e penitência. O segundo é o da caridade para auxílio de quantos padecem tribulações e em especial dos que aspiram à perfeição, a fim de que superem todas as dificuldades. O terceiro é de amor e luz para os seus amigos verdadeiros, que deseja unir a Si participantes da sua ciência e dos seus desígnios” (Vie et Oeuvres, 1991). Também nós, depois de experimentar a eficácia do amor divino, somos convidados a testemunhar a Verdade da misericórdia e da graça santificante de Deus.

Por isso mesmo, a prática da misericórdia consiste num verdadeiro processo de conversão, que nasce do encontro pessoal com Cristo e do seguimento da Sua Palavra. De fato, a palavra de Deus vem ao nosso encontro, ilumina o nosso agir e convida-nos a seguir o caminho da misericórdia. As obras de misericórdia são motivadas pela fé que age pela caridade. A conversão do coração consiste sempre na descoberta da Sua misericórdia, daquele amor que é paciente e benigno como o é o Criador e Pai, fiel até às últimas consequências, na história da Aliança com o homem; até à cruz, morte e ressurreição do seu Filho. A conversão a Deus é sempre fruto do retorno do filho pródigo para junto deste Pai, que é rico em misericórdia.

O Apóstolo Paulo rende graças ao Pai da Misericórdia: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação” (2Cor 1, 3). Segundo Walter Kasper, é por isso que “a Igreja tem de narrar a história concreta do Deus compassivo com os homens, tal como ela é testemunhada na Antiga e na Nova Aliança; e deve apresentá-la do modo como Jesus o fez nas suas parábolas, dando testemunho do Deus, que revelou definitivamente a sua misericórdia na morte e na ressurreição do Seu Filho” (A Misericórdia – Condição fundamental do Evangelho e chave da vida cristã, 2015).

O verdadeiro significado da misericórdia não consiste apenas no olhar, ainda que este seja o mais penetrante e o mais cheio de compaixão, mas sim quando reavalia, promove e sabe tirar o bem de todas as formas de mal existentes no mundo e no homem.

No Mistério Pascal de Cristo está a força, a justiça e a misericórdia de Deus. É na cruz e ressurreição do Senhor que encontramos a ternura divina que nos envolve nos amorosos braços do Pai onde, pelo Seu Espírito e através da Santa Mãe Igreja, continua a dispensar as graças necessárias para que cada homem alcance a plenitude da vida eterna.

Pe. Alexsander Baccarini Pinto

Mestre em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa, UCP / Lisboa

e Investigador do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião, CITER / UCP

12.03.2021