“Ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se”. (Mc 1,31)

 

A cena da cura da sogra de Pedro faz parte da chamada “jornada de Cafarnaum” (Mc 1,21-38), como se fosse o relato de um dia típico na vida pública de Jesus: na manhã do sábado dirige-se à sinagoga onde cura um endemoniado; ao meio dia entra em casa de Pedro e cura sua sogra; ao entardecer, muitos enfermos são conduzidos até Ele; de madrugada retira-se para orar.

 

No relato de hoje(5º dom. Comum), Jesus desloca-se da sinagoga, lugar oficial da religião judaica, à casa, onde se vive a vida cotidiana, junto aos seres mais queridos. Nessa casa vai sendo gestada a nova família de Jesus. As comunidades cristãs devem recordar que não são um lugar religioso onde se vive da Lei, mas um lar onde se aprende a viver de maneira nova em torno a Jesus.

 

Os olhos e as esperanças daqueles que sofrem buscam a porta dessa casa onde está Jesus. É sábado, e pela segunda vez, no mesmo dia, Jesus está de novo transgredindo um preceito sagrado, porque Ele só considera sagrado o que agrada a Deus: a qualidade da vida para todos.  Para Ele o importante é a vida sadia das pessoas, não as observâncias religiosas.

 

O relato descreve com todo detalhe os gestos de Jesus para com a mulher enferma. Podemos contemplar o texto observando o desenrolar das três cenas: na primeira, uma mulher está na posição horizontal dos mortos, separada da comunidade e dominada pela febre. Na última, a encontramos de pé, curada e prestando um serviço, ou seja, ocupando o lugar do próprio Jesus que, segundo suas palavras “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida” (Mc 10,45);  quando Marcos nos apresenta a sogra de Pedro “servindo”, está nos dizendo: aqui está alguém que entrou na órbita de Jesus, que respondeu a seu convite de colocar-se aos pés dos outros e por isso ela começou a “ter parte com Ele” (Jo 13,8). A cena central nos oferece o segredo de sua transformação: é o primeiro gesto silencioso de Jesus, que se repetirá em Marcos, e bastam três verbos para expressá-lo com sobriedade” – “Ele se aproximou”, “segurou sua mão” e “ajudou-a a levantar-se”.

 

“Jesus se aproximou”. É o primeiro gesto que Ele sempre faz: quebra distâncias, faz-se próximo daquela que sofre, olha de perto seu rosto e compartilha seu sofrimento. A dor vista de longe não dói em ninguém; a dor vista de longe não chega ao coração. É preciso olhar o sofrimento de perto. Aproximar-se já é começar a identificar-se com quem sofre. E quem sofre, começa a ficar curado quando sente a proximidade solidária dos outros.

 

“Segurou-a pela mão”. É um gesto próprio de Jesus; toca a enferma, não teme as regras de pureza que o proíbem; quer que a mulher sinta sua força terapêutica. Esse contato sanador é que vai possibilitar a cura. Tomar alguém pela mão é gesto cheio de ternura, sinal de carinho e proximidade, sinal de amizade e confiança; sinal de solidariedade; sinal de querer ativar o ânimo em quem sofre. É um gesto simples e cotidiano com o qual Jesus não só curou a mulher da febre senão que está nos indicando um novo modo de fazer comunidade, de ir pela vida estendendo a mão para ajudar a levantar a quem, caído no caminho da vida, espera que alguém lhe dê uma mão para pôr-se também de pé.

 

Quantas distâncias se encurtam quando se toma alguém pela mão! Quantas suspeitas se dissipam quando se toma alguém pela mão! Quantos medos são superados quando se toma alguém pela mão!. Por fim, «ajudou-a a levantar-se», pondo-a de pé, devolvendo-lhe a dignidade. Mais um gesto próprio de Jesus. Este último verbo é o mesmo que se usa para falar da ressurreição.


Para Jesus, as mãos são para isso: levantar o outro, ajudar o outro a colocar-se de pé, devolver ao outro a capacidade de dar direção à própria vida. O Evangelho utiliza, com muita frequência, o verbo “levantar” para designar a intervenção de Jesus em favor daqueles que estão caídos, estendidos, prostrados no chão. É a postura da humilhação, opressão e aniquilamento, enquanto que “levantar-se”, pôr-se de pé, é símbolo da dignidade humana. O homem e a mulher vivos e postos de pé experimentam a liberdade e a partir desta posição podem agir, falar, cantar... É a postura da dignidade, autoridade, transcendência e altura luminosa.

Toda a ação de Jesus poderia resumir-se no gesto simbólico de levantar, endireitar e pôr de pé.

 

Assim está Jesus sempre presente entre os seus: com uma mão estendida que nos levanta, como um amigo próximo que nos infunde vida. Jesus só saber servir, não ser servido. Por isso, a mulher curada por Ele se põe a “servir” a todos; ela foi integrada em seu grupo de seguidores e pode então “servir”, construindo a comunidade de iguais que Jesus queria, rompendo com a mentalidade patriarcal. Seus seguidores deverão viver acolhendo-se e cuidando-se uns dos outros.

 

Este relato nos dá a conhecer a nova ordem das relações que devem caracterizar o Reino no qual a vinculação fundamental é a da fraternidade no serviço mútuo. A maneira de atuar de Jesus desestabiliza as relações que se estabelecem através do poder-dominação e desqualifica qualquer manifestação de domínio de uns sobre os outros; inaugura-se um estilo novo no qual o “desenho circular” desloca e declara caduco o “modelo hierárquico”. Sua maneira de se relacionar com as pessoas prostradas e marginalizadas põe em marcha um movimento de inclusão, devolvendo a todos a dignidade perdida.

 

Graças a muitas pessoas que se deixaram “tomar pela mão” por Jesus, “levantar-se” e “servir”, o cristianismo primitivo foi se constituindo em pequenas comunidades domésticas, reunidas em suas casas, onde muitas mulheres assumiram funções eclesiais tanto como missionárias itinerantes como responsáveis pelas igrejas domésticas, onde presidiam a oração e a fração do pão.

 

Muitas das dificuldades que temos na vida comunitária vem de nossa resistência a nos situar na atitude básica de um serviço que não pede recompensas, nem reclama agradecimentos. A Igreja só atrai de verdade quando as pessoas que sofrem podem descobrir, dentro dela, a Jesus curando a vida e aliviando o sofrimento. À porta de nossas comunidades há muita gente prostrada e sofrendo.

 

O evangelho nos convida a deslocar-nos e aproximar-nos dos lugares onde estão os prostrados da vida, tomá-los pela mão e ajudá-los a levantar-se. Então, todos juntos, nos disporemos a servir, teceremos o manto da solidariedade social e eclesial a partir da cotidianidade; seremos assim testemunhas mobilizadoras numa sociedade cansada de palavras e necessitada de experiências que se façam verdade histórica.

 

Texto bíblico:  Mc 1,29-39 

 

Na oração: Coloque-se diante do Pai e peça-lhe que toda sua corporalidade, como a de Jesus, se ponha a serviço daqueles que estão prostrados na vida. Contemple  suas mãos: para quem as estende?

A quem elas seguram e envolvem? A quantos elas levantam? A quantos elas acariciam? A quantos elas incitam a ter ânimo?

Mãos que curam sem dizer nada; mãos que levantam com um sorriso; mãos que despertam o sentido do serviço.

Contemple seus pés: para junto de quem eles o conduzem? Criam proximidade? Rompem distâncias?

Contemple seu coração: é espaço de compaixão, ternura, amor solidário...?

 

Pe. Adroaldo Palaoro sj

Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI