Volta e meia aparece, nas redes sociais, a defesa de uma vida sem filhos. Filhos, e inumeráveis são os motivos apresentados, embaraçariam e/ou dificultariam, financeira e emocionalmente, a vida. Mais gastos, menos viagens, mais privações, menos liberdade, mais compromissos de longo prazo, menores chances de reviravoltas na vida. Parece fazer sentido. Foi Schopenhauer, se não me engano, quem disse que “a vida é um negócio que não cobre seus gastos”. Com filhos, estaríamos ainda mais endividados. Portanto, filhos, por que tê-los?

 

Mas, um pouco de reflexão, e essa tese esbarra numa contradição. Se a vida é melhor sem filhos, se essa é uma idéia a ser propalada e um ideal ético, dentro em pouco não haveria quem pudesse encampá-los, não é mesmo? Interrompida a procriação, quem iria se beneficiar doravante das delícias e da qualidade de uma vida sem filhos? Simples assim? Nem tanto. Os que abominam filhos podem estar defendendo a vontade de ser a última geração humana sobre a terra, o que o seria o mais acabado exemplo de auto-suficiência. Libertos de todas as amarras e de todos os deveres, inclusive o último e mais decisivo, aquele que o futuro põe diante de nós.  Será isso mesmo?

olhares.com 

Sabemos, com a força que vem da pressão da espécie, que isso não ocorrerá. Não temos conhecimento de espécies suicidas, a vida continua clamando por mais vida, sempre. Assim sendo, os defensores de uma vida sem filhos, é o que a contradição acima apontada parece deixar claro, estão apenas legislando em causa própria. Preferem, à vista daquilo que consideram como vantagens, não ter filhos. O que lhes é evidentemente possível. Perdem eles, entretanto, qualquer autoridade argumentativa, já que aquilo que é apresentado como um ideal desejoso de universalização é, de fato, a mera racionalização de uma escolha estritamente pessoal. Que deve ser suportada sem um suposto amparo vindo do campo das ideias.

 

Ps. Para quem se interessa por esse tema, vale a pena consultar o livro de Rémi Brague, Âncoras no Céu, recentemente editado pela Loyola.      

 

Ricardo Fenati

Equipe do Centro Loyola