Verso e Reverso

Foto: site do Vaticano 

Uma antiga expressão, “Roma locuta, causa finita”, indicava com clareza a autoridade do papado e sua função como tribunal inapelável da resolução das contendas e da instrução doutrinária. São conhecidos os inúmeros processos que, chegados a Roma, tinham o aí seu desfecho final. Pois bem, parece que, com o papa Francisco, alguma inversão começa a se induzida. Ao invés constituir um ponto de chegada habitual, Roma, com Francisco, se assemelha agora, como foi em outras ocasiões, a uma origem, a uma fonte. As atitudes e os comentários do papa Francisco e sua insistência serena e firme na necessidade de mudanças agudas e conseqüentes na Igreja constituem efetivas propostas de transformação. 

Para além da simplicidade, da alegria e da sensibilidade que o caracterizam, o que, de fato, está em jogo é a coragem de expor as debilidades que cercam o cristianismo e a confiança nos recursos de que ele dispõe para enfrentar os desafios  postos pela contemporaneidade. A agenda proposta pelo papa Francisco é ampla e fecunda, resta saber se será acompanhada da disposição da Igreja, sobretudo disposição da hierarquia eclesial, para levá-la adiante. Por ora, a celebridade do papa, que  não conhece fronteiras,  não parece estar marcada de uma certa solidão? Ele avança e desconcerta, é certo e é o que se espera de uma liderança, mas vem sendo acompanhada pelo restante da Igreja? Ele tem aberto espaços, mas tem havido ocupação desses novos espaços? Se há um ideário proposto pelo Papa, e há, é preciso que ele encontre eco na Igreja e que permita a revisão de muito do que está sendo feito. O que se espera é que temas como a formação de sacerdotes, a organização das paróquias, a função dos leigos, a ocupação de espaços públicos, a dinâmica das instituições confessionais, a intervenção nos debates no campo da cultura, o enfrentamento das polêmicas, entre tantos outros, passem a fazer parte do cotidiano da hierarquia eclesial e da conversa dos fiéis.   

É de Roma, que até bem pouco as fechava, que brotam as questões. Não devemos ser nós a ignorá-las. 

Ricardo Fenati

Equipe do Centro Loyola