Iludidos com a folha caída do calendário, fazemos as promessas do costume. Mais exercício físico. Mais tempo para nós e para os nossos. Uma alimentação mais saudável. Mais tempo para o autocuidado. Menos negatividade e menos queixumes. Mais gratidão pelo que temos e nos foi dado. 

Tudo bonito, na teoria. Muito pouco verdadeiro, na prática. 2022 caiu, finalmente, e cansou-nos de todas as formas possíveis e imagináveis. Trouxe-nos a guerra e choros não tão distantes assim. Trouxe-nos os restos tristes de uma pandemia que está mais viva do que, agora, parece. Quebrou-nos o poder de compra e a vontade de acreditar em tempos melhores. Trouxe-nos a confirmação da desconfiança naqueles que nos deviam governar. 

2023 aparece quase como uma continuação pouco feliz do que já cá estava. E nós só queríamos uma folha em branco para escrever coisas bonitas. Queríamos um ano que nos estreasse por dentro. Que nos desse a coragem que nunca tivemos para dizer o que nunca dissemos. Que nos desse aquele pontapé na alma capaz de nos fazer avançar com a vida que podia ser nossa, se soubéssemos recebê-la de peito aberto.

Queríamos um ano de concretizações. De apagar o que não presta. De rasgar os cadernos de memórias trágicas ou bolorentas. De começar tudo outra vez. De não ter vergonha do que somos e do que temos. 

Queríamos tanto uma vida nova. E mais dinheiro no bolso, por favor. E mais alegria aos pés do coração. E mais juventude em todas as nossas partes velhas. Aquelas que quase nunca condizem com a nossa idade, mas que nos fazem viver de bengala. Apoiados nas raízes que não nos dão tréguas. Que bom que era se nos pudéssemos plantar de novo. Regar os dias com água fresca e com sonhos que cheiram a relva acabada de cortar. 

O ano é novo. Mas nós… não. E não podemos esquecer-nos disso. Precisamente para que possamos fazer diferente. Para compreendermos que as oportunidades que nos são dadas nada têm que ver com o virar do calendário. 

O carrossel é o mesmo. Mas as voltas são as que o teu coração quiser dar. 

2023 de tudo o que mais precisares de compreender.

Marta Arrais

in: imissio.net 04.01.22