RASTROS E MARCAS EM TRÂNSITO

 

                                                                       Ilan Grabe 1991

 

O que é um Rastro? É a impressão deixada em um contínuo espaço-temporal por um comportamento que se repete. Até que finalmente se registre para nós como Marca. A impressão se torna então uma depressão, vale ou lombada na rede dos eventos. 

Para ilustrar, tomemos uma situação familiar como exemplo. Enquanto dirigimos um auto-móvel, notamos um outro à nossa direita, ansioso por ultra-passagem, e não podemos deixar de observar as “marcas” evidentes de um acidente anterior na carrosseria à esquerda deste mesmo veículo. Em uma lataria ainda não consertada. Mas atenção, que droga, não é que “o cara” vai nos “cortar” agora pela direita? Quase nosso carro “bateu” no lugar exato da lataria em depressão deste carro. Como é que êle foi “cortar” o carro de um concidadão exatamente do mesmo jeito, mais uma vez? Quase imprimimos o impacto de nosso próprio “móvel” em sua lataria. Acabaríamos involuntariamente reforçando as marcas de um acidente anterior. A Marca de um Acidente. 

Mas tal marca é somente o visível Rastro de um comportamento que se repete. Em tráfego (ou tráfico), aquele ilustre cidadão acima parece sempre reinvidicar o mesmíssimo erro por estas nossas vias e estradas da vida. Estas são, por sua vez, elas mesmas marcas registradas e convencionalizadas num determinado segmento do espaço-tempo em comum. A partir de acidentes naturais dados, geofísicos, trajetos são provisoriamente marcados, traçados e sinalizados, finalmente se cristalizam como o mapa de um dado território, ou melhor, como um território que é mapa. O mapa representa a marca de um comportamento que se impõe como via ou trilha em um percurso que se torna retroativamente de-terminante para o comportamento de-terminado que o precede. 

Só que os ímpetos e hábitos automóveis de cada cidadão em particular, inscritos no mapa cognitivo interno de cada um, não necessariamente “batem” bem com mapas consensuais. O “cara” do exemplo acima, mau motorista, parece não se dispor a relacionar-se  de maneira adequada com a cartografia do território, não harmoniza seu próprio mapa com os mapeamentos da cidade, com isso parece não respeitar leis, regras e convenções: em trânsito insiste em rastrear o próprio Rastro. Corre atrás do próprio rabo, como costumamos dizer. Ele não atualiza as informações sobre sua posição real no espaço-tempo compartilhado enquanto impõe seu próprio rastro-rabo sobre o meio em que vive. Mesmo ao seguir um monitoramento via satélite parece não apreender direito as leis dinâmicas da navegação. 

O que acontece, pois, quando o sujeito não mais conjuga os transitivos e impõe seus in-transitivos? Como ficam os rastros e as marcas de nossas próprias intransigências por estes caminhos afora?

A marca do intransitivo não só é a sequela de acidente automobilístico, mas também ferimento e trauma no organismo fisiológico, registro de dor e fratura da alma. Um psicanalista, detetive, um bom psicólogo, médico, um psiquiatra competente, estes procuram enxergar os rastros daquilo que em dor se repete. Em seu aspecto auditivo, por exemplo, o intransitivo é representado pelo rastro que quer (de) marcar-se através de surdas repetições ininterruptas, como ruído-violência que invade o espaço ambiental, que invade e domina, que condiciona e determina canais e ductos auditivos do ouvido alheio e do próprio. Lembremo-nos que o “crash” da batida automobilística é marcante, ele volta para o acidentado como resíduo memorial involuntário, como rastro fantasmático que o assombra. De modo similar, o perfume, o cheiro-fumaça (a etimologia latina de “perfume” é per-fumum, isto é, através de fumaça) deixado pelo animal para delimitar seu território é marca em seu aspecto olfativo. No animal homem, perfume “francês” é borrifado no corpo e levado ao ambiente como marca de “grife”[1] que “pega”, que agarra as células receptoras dos canais olfativos alheios para simular e dissimular, envolver e despistar. Ainda no reino olfativo, degustativo, pensemos no fumante inveterado que navega na volátil fumaça tóxica, para dali tentar se esquecer, anestesiar-se, até que se torne marca indelével a doença no fígado, no pulmão, no sistema nervoso, no sistema cardiovascular.  

Marcas e acidentes, pistas e pegadas, objetos e dejetos, os rastros do comportamento das criaturas encontram-se inseridos em um Corpo global, na cartografia geo-física de um território de responsabilidade maior. Mas este pode se apresentar em nosso mapa mental, na geo-grafia de nosso próprio cérebro, como corpo-território ainda intransitivo, sem que saibamos lhe reconhecer uma procedência  temporal, uma historicidade. Desta forma, corpos particulares podem se envelopar como corpos estáticos, casulos sedentários e imóveis, mesmo durante os deveres e obrigações do exercício nômade, como por exemplo, dentro de um veículo. Corpos intransitivos que de maneira devida não conjugam a tempo o tempo, produzem as rígidas trilhas de sinapses falhas. E sinapses falhas fabricam loucos per-cursos, insanos dis-cursos que decididamente levam às rotas de colisão.

Aqui Rastro se refere, pois, a um hábito de comportamento que se repete até virar Marca no Visível. O que assim se repete toma forma como corpo. Estes corpos realizados retornam e impressionam outros corpos. Corpos se comunicam com corpos, gerando linguagens que geram realidades. 

Os corpos tornam-se assim meios reais de transformações e diferenças, mediadores, comunicadores, dinâmicos, construtivos, contudo, desafortunadamente, no exemplo acima, o motorista que dirige seu auto-móvel veicula uma intransigência que acaba por provocar a “batida”, o “fim” do trajeto, o “terminal” para seu rastro. Batidas e trombadas, assim como tropeços e esbarrões, lapsos e atos falhos, não seriam, portanto, tão casuais assim, o retorno do recalcado, o retorno do intransitivo “cria problemas” para o próximo, geralmente “bate” em outro com violência. A “batida” não é encontro acidental, não é co-incidência, é vício mesmo. Vício rastro-lógico. Aqui em nossa ilustração, o motorista compulsivo é perseguido pelos proprios rastros enquanto aparenta persegui-los, mas é obrigado a parar na “batida”: “na marra”. Para novo desencontro marcante. O desencontro torna-se sua Marca registrada. Seu percurso vira percalço patológico, as linhas se enredam, o trajeto vira “nó” bem amarrado, ele se enrasca, finalmente cai no reincidente ai-cidente[2]. Como caso perdido ele se casa com o acaso. Cai na emboscada do destino. Carro batido, motorista abatido. 

Marcas se inscrevem na ordem do Visível, o Rastro na ordem do Invisível. Marcas podem ser vistas e ouvidas,  mas  Rastros precisam ser enxergados e escutados, pré-vistos e pré-ouvidos em outras dimensões para que eventualmente se possa pensar em mudar a rotina de ai-cidentes. É uma leitura que teria que ocorrer no mapa das Marcas ao mesmo tempo que em um mapa de Rastros. Isto porque o comportamento “rastral” determina a  sucessão de Marcas e estas Marcas passam então a de-terminar o comportamento. O circuito vicioso opera o transitório de um inconsciente que se repete. Em trânsito intransigente este inconsciente acaba por cunhar um labirinto aparentemente inescapável. 

As marcas na lataria do carro podem, em uma boa oficina mecânica, serem removidas e retocadas, retificadas e maquiadas, no entanto, os rastros do comportamento do motorista não. Marcas se apagam facilmente, não os Rastros. O Rastro pode permanecer em transe. Até que se torne novamente visível. Para o próprio motorista. Como Marca.  

Somente a boa consciência pode dar conserto ao desconcerto. Para isso ela nos faz voltar e olhar para trás, reparar e refletir as “pegadas” que deixamos. É a partir desta previsão do passado que podemos decidir nossos passos vindouros, com a responsabilidade devida. Quando repetimos con-sciência, a saída do labirinto que tanto nos desespera pode ser quiçá encontrada. Por outro lado, a mera repetição rastrológica gera o futuro impossível, futuro eliminado que é de um passado que se impõe como repetição pré-determinada que não deixa o passado “passar”. Procuremos enxergar e ouvir melhor, refletir as (con) sequencias de nossos passos e atos, para não sermos de-terminados pelo mal passado e ex-terminados por um futuro que não mais nos compete. Para não sermos tristes “terminadores[3] e sim os fiéis “iniciadores” de um verdadeiro futuro. 

 



[1] A palavra “grife” provém do francês “griffe” que, por sua vez, deriva do grego “gryps”, significando o que é “curvo, retorcido” por um bico ou uma garra animal, quer dizer, o que deixou uma marca indelével, passou assim a denotar “marca, selo, etiqueta, uma forma de identificação”. Constatamos isso também na língua alemã, “Griff”, substantivo do verbo “greifen”, significa pegar, prender na mão, agarrar com firmeza, e o termo “begreifen” denota “apreender, compreender”.     

[2] A palavra “caso” deriva do latim casus, que é o particípio do verbo cadere, ação de cair, suceder, o que nos deu palavras como decair, cadência, decadência, chance, ocasião, casualidade, acaso, acidente, ocidente, ocaso, cadáver, etc. Este verbo latino se relaciona com a raiz indo-germânica Kad = cair.

[3] Referência ao “Exterminador do Futuro” (Terminator), filme de 1984 dirigido por James Cameron, sucesso de bilheteria nos cinemas do mundo inteiro. O filme previa os nosso medos em relação aos perigos da chamada Inteligência Artificial (IA).