"Aqui não dá para passar" - observou o meu amigo. E tinha razão: a rua acabava numa parede. Decidíramos passar aquele dia propositadamente perdidos pelas ruelas de Veneza e, naquele momento, entráramos num beco. A confirmar isso mesmo, vimos o grupo à nossa frente parar, dar meia-volta e voltar para trás. "Não, mas… hum, acho que há ali uma passagem" - insisti. Avançámos mais uns metros e entre as duas paredes, de facto, lá estava ela: uma abertura estreita que ligava a outra ruela. Então disse: "já viste? Isto é como na vida. Às vezes parece que caminhamos contra uma parede e acabamos por a atravessar de uma forma inesperada".
 
Claro que não se trata de atravessar paredes literalmente - trata-se de atravessar aquilo que nós vemos como paredes. Isso fez-me pensar nas experiências-limite de vida e morte, de doença e dor, de separação e crise, de insegurança e repugnância, de deserto e aflição. São situações que levantam paredes à nossa volta. Ao ponto de pensarmos que não há passagem; que não há futuro; que não temos saída; que só podemos voltar para trás; ou que morreremos ali mesmo. "É impossível passar isto" - dizemo-nos a nós mesmos e a quem nos quiser ouvir. E aquilo que poderia ser um lamento, pode tornar-se um grito de desespero.
 
Ora, por nós próprios, pela nossa própria força e criatividade, pelas nossas capacidades naturais, podemos atravessar determinadas paredes. E, se às nossas forças, acrescentarmos a força daqueles que fazem parte da nossa vida, teremos aprendido com os seus erros, teremos ganho critérios de discernimento, teremos conquistado chão para andar nem que seja pelo fato de termos em quem nos apoiarmos. Mas a vida trata de nos surpreender e sacudir para lá do que é razoável e possível. E chegamos a pensar: "Deus não me pode estar a pedir isto". E é duro porque, uma e outra vez, a vida nos despe e nos expõe à nossa própria impotência e incompletude. Mas é saudável, porque é a realidade. E a realidade tem sempre razão. Ela apenas nos quer mostrar que ainda nos falta avançar para um outro nível de atravessar paredes.
 
E é com Jesus Cristo que aprendemos isto. Não se trata de uma capacidade natural; é algo que reclama a nossa sobre-naturalidade. E se passámos no passado, se vivemos no presente ou se viermos a passar por uma situação-limite, encontrar-nos-emos então em condições de compreender de que trata a Páscoa de Jesus. E poderemos, consequentemente, ser iluminados por ela. Através da sua vida, paixão, morte e ressurreição, Jesus atravessa todas as paredes -  as do medo, da rejeição, da separação, do ódio, da injustiça, da condenação, da dor, da cruz, da morte - para nos mostrar que, para alcançarmos a plenitude da vida, também nós devemos aprender a atravessar essas paredes. De uma coisa estou convencido: Deus não pode andar a brincar com as nossas vidas. E quando a vida insiste em trazer-nos becos sem saída, só pode ser para aprendermos a atravessar paredes. Todas as paredes.

João Delicado
in: blog "Ver para além do olhar"
Portugal