Tenho na memória, a primeira vez que me senti inquieta durante a Semana Santa. Estava de férias e ouvia-se a indolência do calor, no quintal da casa dos meus pais. Debaixo de um chapéu de sol e recostada numa cadeira baixa, daquelas de pano florido que todas as casas tinham, devia estar a ler um romance antigo, encontrado nos livros da minha mãe. Lembro-me de ter parado, surpreendida pelo silêncio, pela quietude daquela tarde. Desde então, vivo a Semana Santa nesta permanente surpresa inquieta, que só se tranquiliza no amanhecer de Domingo, também ele silencioso, mas pleno de uma brisa que  toca e reconforta.

A pedra rolada, o túmulo vazio, o espanto, a consolação…. tomam conta do meu coração, até hoje.

Semana Santa. Esses poucos dias em que tudo aconteceu. Conhecemos a sequência das Celebrações que nos levam a Jerusalém, nos encaminham pelas ruas, nos abrem a porta daquela casa, onde estava posta a mesa. Os gestos, as palavras os olhares trocados entre amigos que se querem. O vazio da traição, na mão estendida sobre a taça. Judas. A ignorância da dimensão do mal e do sofrimento que iriam ver, ao longe, acontecer. A consciência e o medo. As oliveiras centenárias, onde se recostaram e fecharam os olhos. A solidão orante de Jesus. Os passos metálicos dos soldados, a precipitação de Pedro, feita de uma coragem momentânea. A prisão.  As dores, a humilhação, os pés nus e magoados pelas pedras das ruas, de um lado para o outro. Jesus. A procura da verdade e da justiça, talvez por receio ou discreta bondade. Uma toalha estendida para daí lavar as mãos. Pilatos. E a cruz, uma cruz maciça, que Lhe rasgava a pele e O curvava. Jesus. Levantada, como deveria ser enorme aquela cruz. E o fim anunciado, a aceitação.  Maria e as mulheres. Maria e João. Palavras escutadas e repetidas para sempre. Na lentidão dolorosa da falta de ar que traria a morte, a dor de todas as mães. A Mãe de Jesus. Que chegue o silêncio depressa. Que se fechem as janelas, se corram as cortinas. Que se esconda o medo e o desespero de quem tudo perde em horas breves, capazes de tanto. Que role a pedra, pesada fechada. Semana Santa.

Como seríamos pobres, tristes e desolados, sem a manhã de Páscoa. Como ficaríamos perdidos, corpos sem alma, vidas sem vida. Morte sem eternidade.

A manhã de Páscoa, traz o anúncio da vitória da vida, da esperança, da alegria. Os ramos das árvores têm ninhos. Ouve-se o barulho das ervas que crescem, das flores que abrem, da brisa que agita o tempo. A manhã de Páscoa traz uma nova plenitude, uma alegria que rebenta o peito, uma surpresa, um espanto. Jesus Ressuscitado. Nada mais será igual, porque foi testemunhada a Palavra, o Anúncio, o Perdão, a Misericórdia, o Amor. Para sempre.

Não voltei a ler romances durante a Semana Santa. Não voltei a ficar estendida ao sol, nem a ir de férias para qualquer lado. Sei o que me espera. A Missa da Ceia, o Lava-Pés. A Celebração da Paixão, o beijar da Cruz. A Adoração silenciosa. A longa Vigília, marcada pelos ritos que se repetem, num embalo lento e doce. A Liturgia das Horas, que nos acompanha. As campainhas, o tocar dos sinos. Os abraços e os sorrisos. Ressuscitou, Aleluia, Aleluia.

Apetece pedir que se viva cada Semana Santa como se fosse a última, a única; que se viva cada Semana Santa na certeza de que tudo nos escapa, porque é tanto, mas tudo entendemos porque nos sabemos amados.

Mistérios assim, capazes de transformar cepos de madeira, em redenção, capazes de mover montanhas, de tornar santos, os pobres pecadores… Mistérios assim, capazes de nos elevar, de nos inquietar, de pedir a Fé, como sequiosos de água. Mistérios assim, dão-nos alento para viver cada dia como se fosse Domingo, cada semana como se fosse Santa, num rodopiar de júbilo e de espanto, que dá a cada coisa o seu devido valor.

Jesus está Vivo. Ressuscitou, Aleluia, Aleluia. Que seja esta a nossa certeza, no começo desta Semana Santa.

Isabel Figueiredo

In: pontosj.pt 30.03.2026