Todos se extraviaram e todos se corromperam. Não há quem faça o bem, não há sequer um” (Rm 3,12).

O Brasil assistiu, no dia 14/09/26, com a sessão do Supremo Tribunal Federal voltada a esclarecer as possíveis implicações de ministros do Supremo Tribunal Federal com o banqueiro Daniel Vorcaro, mais um capítulo de uma “novela” que começou há alguns anos, ganhando grande visibilidade na Operação Lava-Jato. Os dias que se seguiram à divulgação de mensagens de Vorcaro a Alexandre de Moraes, revelaram que o próprio ministro encarregado do processo do Banco Master, André Mendonça,  também havia recebido mensagens do mesmo banqueiro, mostrando que ele também estava envolvido. Parte da mídia nacional e certas visões simplistas da opinião pública já se habituaram a associar política com corrupção. Isso se acelerou com descobertas de “esquemas” envolvendo o legislativo e o executivo, em âmbito local, estadual e federal, e agora atinge o judiciário nacional, instância encarregada de zelar pela lei e pela justiça.

No caso da Lava-Jato, a principal empresa que estava na origem dos escândalos era uma estatal, a Petrobrás, e os contratos com grandes indústrias da construção civil. No caso do Banco Master, trata-se de uma instituição privada, do mercado financeiro, e dos laços que estabeleceu com bancos estatais, num esquema que envolveu, entre outros, desvios de recursos do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), das contas de aposentados. No primeiro caso, ganhou destaque o juiz Sérgio Moro, que aos olhos de muitos foi identificado como uma espécie de “salvador da moralidade e da justiça” da pátria. Sua atuação revelou-se, porém, parcial e muitos dos processos que julgou foram anulados. Para muitos brasileiros, contudo, ele havia se tornado o paladino da justiça e do direito. Tanto assim que foi eleito senador, após ter sido ministro da justiça do governo Bolsonaro, e está concorrendo na eleição atual ao governo do estado do Paraná.

No caso do Banco Master, depois de sua liquidação pelo Banco Central, iniciaram-se as investigações que levaram à prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, e o imbróglio implicando, entre outros, vários ministros do Supremo Tribunal Federal: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e André Mendonça, este último encarregado do inquérito. O vasamento de conversas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, nas quais o atual candidato do PL à presidência lhe pedia recursos para o filme sobre seu pai, criou certa pressão na opinião pública para que todas as conversas fossem tornadas públicas. Ao invés de avançar nessa direção, o ministro divulgou o conteúdo de algumas mensagens de Vorcaro a Alexandre de Moraes. Por sua vez, o Portal Intercept Brasil revelou conversas do próprio André Mendonça com o banqueiro, criando então uma verdadeira “guerra de narrativas”, dificultando saber quem tinha razão e culminando na sessão de 14/09/2026.

Alguns analistas consideram os desvios do Banco Master o maior escândalo de corrupção ocorrido no Brasil, envolvendo não só o sistema financeiro, mas também autoridades dos três poderes, mostrando o quanto parte da elite financeira nacional tem se imiscuido nas distintas esferas do poder para enriquecimento ilícito, desvio de recursos indevidamente apropriados, corrupção e crimes de todos os tipos. Como os detalhes da operação em curso são muito técnicos e parte da imprensa divulga informações seletivas, privileginado alguns personagens em detrimento de outros, tem-se a impressão de que todos “são farinha do mesmo saco”, de que todos os políticos e juízes são corruptos. O sentimento geral tem algo a ver com o que o Salmo 14 diz: “todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos; não há quem faça o bem, não há um sequer” (Sl 14,3), e que é retomado pelo Apóstolo Paulo em Rm 3,12, ao descrever a situação dos judeus, mostrando que apesar de ser povo eleito, não foi fiel à lei. Mais adiante no mesmo texto, concluindo a descrição da situação de pagãos e judeus, ele afirma que “todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (Rm 3,23). O sentimento que predomina em muitas consciências e a sensação de que a corrupção atinge a todos, pode suscitar indignação, mas também gerar desilusão e até cinismo. De fato, quem tem uma consciência mais crítica, se indigna e busca compreender melhor o que está em jogo, com posicionamentos importantes nas redes sociais ou em manifestações públicas. Quem se desilude, tende em geral a não mais acreditar na política ou nas instituições, deslegitimando-as e deixando-se levar por discursos salvacionistas, de caráter autoritário, ou, pior, conformando-se com atitudes cínicas que tendem, muitas vezes, a concordar com a lógica da corrupção, no conformismo do “todos fazem assim”.

O excesso de informação, presente nas plataformas e redes digintais, tende a “matar a informação”. Mais ainda, torna-se difícil discernir qual informação é falsa ou verdadeira. Não por acaso, a desinformação tem se tornado a estratégia de muitos meios de comunicação, ao selecionar e, muitas vezes, acentuar certas notícias, em geral, tiradas do contexto, escondendo outras ou até não informando a veracidade dos fatos apresentados. Na encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV faz uma série de observações sobre a manipulação da informação. Segundo ele, “uma ordem justa na era digital”[..] protege os pequenos e mais frágeis, combate o ódio e a desinformação, submete a utilização dos dados e das tecnologias à inspecção pública” (MH, n. 80). Muitas “ferramentas” disponibilizadas pela era tecnológica em que vivemos, ao invés de favorecer o debate e a participação, têm sido utilizadas para “construir narrativas distorcidas e anular as distinções entre o verdadeiro e o falso, misturando dados e opinições” (MH, n. 132). As guerras, continua o Pontífice, são muitas vezes construídas através de “narrativas simplistas, lógicas de amigo-inimigo, desinformação e medo” (MH, n.192). Os conflitos que atravessam as sociedades hoje, têm levado a guerras, que também são travadas em “âmbito econômico, financeiro e informático, com o recurso à desinformação e a campanhas que alimentam o medo para influenciar a opinião pública” (MH, n. 204). Muitos erros gravíssimos presentes no mundo hoje se entrelaçam e normalizam, afetando também a política através da desinformação, da ridicularização do adversário e da construção “sistemática de medos e ressentimentos” (MH, n. 206).

No caso específico do que está em curso no Brasil no Supremo Tribunal Federal, é importante estar atento. Alguns analistas consideram que o golpe de Estado tentado em janeiro de 2022 tem como segundo ato o que acontece hoje na Suprema Corte do país, deslegitimando o que nela é julgado, desestabilizando mais uma instituição, para abrir espaço para a ideia de um “salvador da pátria”, que resolveria todos os problemas da nação. Na verdade, enquanto cidadãos e cidadãs, temos que estar atentos, não nos deixando enganar, não nos contentando com o que a grande mídia tem divulgado, buscando acompanhar leituras e análises feitas por outros veículos, sobretudo os de perfil mais crítico, para que cada um possa realizar o próprio discernimento. O estopim que causou a aceleração das informações vazadas de forma seletiva tem como meta espalhar confusões nas eleições que ocorrerão em outubro. Enquanto cristãos, mais que deixar-se seduzir pelo desencanto com a política, é necessário, como tão bem indicou o Papa Francisco, criar pontes, reconstruir o “nós”, evitar polarizações inúteis, e apostar, como propõe a CNBB, no “reencantamento da política”, apostando no bem comum e naquilo que vale a pena gastar energia, sonhos e esperança, pois ninguém se salva sozinho.

Geraldo Luiz De Mori, SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

17.09.2026