Todos sabemos por experiência que as convicções e determinações mais fortes de nossa vida, nossas inclinações e afetos mais enraizados, ou, pelo contrário, os maus sentimentos que às vezes carregamos em nossa intimidade mais secreta, tudo isso não brotou em nós por coisas que ouvimos ou aprendemos, senão por experiências muito fortes que nos marcaram.

 

O mesmo acontece com a fé em Deus. Ou seja, a fé no Deus vivo não se faz vida em nós como resultado de alguns argumentos ou teorias, mas, sobretudo por aquilo que vemos e sentimos, por aquilo que apalpamos com nossas próprias mãos, por tudo aquilo que, ao senti-Lo, se faz vida em nós. Deus entra pelos sentidos e O encontramos na vida.

 

Por isso, o sinal decisivo de que alguém crê no Deus de Jesus está na vida que leva. Quando alguém se deixa invadir pelo humano, quando uma pessoa se humaniza de verdade e é sensível à dor do mundo, então é porque Deus entrou-lhe pelos sentidos, então é quando de verdade ela se encontra com o “Deus desconcertante”, o Deus que Jesus de Nazaré nos revelou.

 

É exatamente por isso que Deus quis se fazer presente e comunicar-se conosco mediante Jesus, um homem de carne e osso, o qual não só se pode ouvir, para aprender suas ideias, senão que  se pode ver e tocar, apalpar e experimentar, sentir e gostar, o que é e o que representa a bondade de Deus, a proximidade de Deus, a delicadeza e a ternura de Deus. É por isso que a primeira carta de João começa dizendo: “o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e o que apalpamos com nossas mãos acerca da Palavra da vida” (1Jo. 1,1).

 

O autor desta carta começa seu escrito repassando os sentidos. Ou seja, chegamos a Deus pelos sentidos.

 

Assim o alcançamos e nos relacionamos com Ele. É um Deus que se comunica a nós no mais humano que há em nós. E bem sabemos que a vida é, não só espírito, ideias e conhecimentos, mas também sentidos e sensibilidade, ou seja, o que apalpamos, o que sentimos, isso é o que nos entra em nosso ser inteiro e se faz vida em nós.

 

O relato do Evangelho de hoje trata justamente da realidade dos sentidos com mais claridade.

 

Está claro que os discípulos de Jesus não só ouviram sua “doutrina”, senão que, juntamente com isso, viram, tocaram e sentiram de perto sua “maneira de viver”. Quando nós percebemos ambas as coisas, não só a doutrina, mas também sua vida, seu estilo, seus costumes, sua maneira de relacionar-se com as pessoas, então é quando se faz possível a fé. Porque então é quando o Ressuscitado se faz vida em nós.

 

Esta é a experiência de Ressurreição. Por isso, é decisivo “ressuscitar os sentidos”; em outros termos, é decisivo cristificar os sentidos.

 

“Ressuscitar os sentidos” significa harmonizá-los com a presença do Espírito, torná-los silenciosos, despojados diante d’Aquele que é.

 

Quando falamos de “sentidos espirituais” estamos fazendo referência aos sentidos ressuscitados, habitados, animados pelo Espírito de Deus. Os sentidos não são destruídos, mas transfigurados; eles se tornam “sentidos divinos”, pois tornam o ser humano cada vez mais “capaz de Deus”.

 

É preciso “ressuscitar os sentidos” para que encontrem seu lugar insubstituível na experiência de fé. E só podemos descobrir o “lugar”  dos sentidos através do encontro com a “sensibilidade de Jesus”.

 

O mestre de Nazaré desenvolveu a sensibilidade no seu sentido mais belo. Educar nossa sensibilidade “ao estilo de Jesus” implica empapar-nos de sua forma de ser e de sentir, de vibrar com tudo aquilo que lhe fazia vibrar, de rejeitar tudo aquilo que Ele rejeitava, e assim reagir frente à realidade e às pessoas do mesmo modo que Ele reagia.

 

Ele conseguia ver encanto numa pobre viúva e percebia as emoções represadas numa prostituta. As dores e as necessidades dos outros mexiam com as raízes de seu ser. Na realidade, trata-se de querer ter sempre – na expressão de S. Paulo – os “mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. Buscando e desejando a identificação com Jesus, nossos sentidos aprendem d’Ele a ter ternura, visão, escuta, sabor...

 

“Despertar a sensibilidade”  ao estilo de Jesus não se limita somente a ver, ouvir, gostar e tocar .

 

Nascemos com olhos, mas não com o olhar; temos, sim, ouvidos, mas não sabemos escutar; podemos cheirar e gostar as coisas, mas nem sempre somos capazes de desfrutar e saborear a vida. Tocamos e abraçamos os outros, mas não nos comprometemos.

 

Uma opção de seguimento evangélico que não conte com a “ressurreição dos sentidos” está destinada ao fracasso, pois, sem uma identificação com a sensibilidade de Jesus nossos sentidos passeiam vazios e sem bússola pelo mundo, como que afundados na noite.

 

Estamos vivendo uma cultura profundamente desconectada do sensitivo. Os sentidos estão ficando atrofiados e nos lançamos desesperadamente em busca de compensações virtuais. Nossos medos estão impossibilitando os sentidos ocuparem o lugar que lhe corresponde em nossos comportamentos e atitudes.

 

Talvez hoje, mais do que nunca, precisamos de uma ascese que purifique nossos sentidos de tantos estímulos que invadem nossa intimidade, nos intoxicam, nos aprisionam e deturpam nossa sensibilidade, impedindo-nos de perceber como “Deus faz novas todas as coisas” (Apoc. 21,5).

 

Precisamos fazer um jejum de imagens e sons que nos invadem com cobiças impostas de satisfações imediatas, para que no vazio humilde da alma e do corpo, possamos ser surpreendidos pela presença  transparente e reveladora do Ressuscitado.

 

Nesse processo de purificação poderá renascer em nós uma nova sensibilidade para “buscar e encontrar”, com mais nitidez, a proximidade do Ressuscitado, tanto na beleza como na dureza do mundo.

 

Na oração: diante do Ressuscitado “repassar” os cinco sentidos:

Atrofiamos nosso olfato pelo temor a um mau odor. Desprezamos com indiferença os odores de nosso entorno, das pessoas, dos objetos...se não vem com a garantia de um perfume etiquetado. Buscamos espaços descontaminados, assépticos..., pois o odor da pobreza, da exclusão... nos inquieta e nos causa medo.

 

Em estreita relação com o olfato, nossa respiração, fonte vital de energia, se faz cada vez mais doentia. Praticar uma respiração profunda e tranquila está se transformando em um luxo.

 

O “viver com sabor” transformou-se numa loteria onde poucos tem possibilidade de acessá-la. Ficamos cada vez mais impossibilitados de “gostar” a fruta pelo sabor, para passar à alimentação ingerida mais pelos olhos. São os invólucros de nossos alimentos que nos alimentam. O sabor não conta para os experts em manipulação genética. O “saborear as coisas” pertence ao passado.

 

Nossos ouvidos, assaltados pela música virtual e por ruídos estridentes, se desconcertam ao descobrir o silêncio. Perdemos a sintonia dos sons naturais. É exagerado pedir que distingamos o cantar de um pássaro. A contemplação auditiva não registrada em CD nos parece uma perda de tempo.

 

 

A visão que, sem dúvida, é o sentido por excelência e o mais estimulado, é, ao mesmo tempo, o mais manipulado e violentado pelo excesso de imagens virtuais. Nosso campo de visão é cada vez mais reduzido, unicamente ampliado pelas telas digitais. Vemos tudo e não olhamos nada.

 

A urgência em “ver” tudo tira a atenção e o tempo necessário para poder “olhar pausadamente” e captar o “mistério” das coisas e das pessoas.

 

Portanto, um olhar desprovido de sentimento, de imaginação, de profundidade, de horizontes... Daí o olhar reprimido, desviado, insensível, frio, duro, ríspido... olhar supérfluo e imediatista, olhar narcisista, olhar morno, sem vibração, sem brilho, sem assombro... Nesse olhar não há lugar para a admiração e o assombro, nem para a acolhida e a presença do outro.

 

O tato supõe proximidade, imediatez... Tocar ou nos sentir tocados é, em determinadas circunstâncias, a linguagem mais inteligível do amor. No entanto, nosso mundo está cheio de alambrados, muros, valas e fronteiras; usamos de artimanhas para “ver de longe”. Com isso nos defendemos dos que são de outra raça, cor, religião, sexo, classe social... e nos fechamos no preconceito e na rigidez dos relacionamentos.

 

Precisamos de um autêntico transplante de pele.

 

 

Pe. Adroaldo Palaoro sj

18.04.2012