
“O Espírito conduziu Jesus ao deserto...” (Mt 4,1)
O primeiro domingo da Quaresma nos desloca até o “deserto das tentações”; ali Jesus se deparou com as grandes “forças que desumanizam”: “pão do ego”, “poder autocentrado”, “vaidade estéril”.
Jesus foi conduzido ao deserto imediatamente depois do seu batismo, com a palavra do Pai ressoando em seu coração: “Tu és meu filho amado...”; mas agora, no deserto, vai escutar outras palavras que “tentam” convencê-lo para que não ponha o centro de sua vida nesse amor, mas no poder, na vida fácil, na fama, nas posses... O relato das tentações resume simbolicamente outros momentos da vida de Jesus nos quais esteve submetido à alternativa entre “a maneira de pensar de Deus” ou “a maneira humana”.
Conduzido pela força do Espírito, Ele viveu uma integração a partir de seu coração e não se deixou levar pelas aparências enganosas. Sua vocação à messianidade ficou clara no batismo; daí em diante, buscou os melhores meios para viver sua missão. No seu discernimento, Jesus sentiu que o poder, a riqueza, o prestígio, não eram “meios” para realizar a Vontade do Pai; pelo contrário, inspirado pelo Espírito, elegeu o caminho do esvaziamento de si, da pobreza e do compromisso solidário com os mais pobres e excluídos. Sua missão como Messias devia começar nas periferias, junto aos abandonados pelo poder religioso e civil da época.
O deserto, na tradição bíblica, é um lugar ambivalente: por um lado, é o cenário das maiores dificuldades, onde o ser humano, sem seguranças às quais apegar, se sente submetido às provas mais duras; por outro, no entanto, aparece como o espaço no qual se goza de uma especial intimidade com Deus: “Levá-la-ei ao deserto e lhe falarei ao coração”, diz Oséias (2,14). Sem dúvida, não é casual que ambos significados apareçam unidos.
Mas existe outro “deserto” não buscado e, por isso, com frequência, mais desconcertante e mais difícil de assimilar. Entram aí todas aquelas situações e circunstâncias que a vida nos apresenta, geralmente em forma de crise ou fracasso, nas quais somos convidados a viver um despojamento, um esvaziamento daquilo com o qual tínhamos nos identificado. Trata-se de uma experiência de “deserto” porque também acontece uma quebra das falsas seguranças, nas quais fundamentávamos a vida e, assim, nos encontramos diante daquilo que que se revela como o mais vulnerável e obscuro de nossa existência.
Trata-se de um momento tão difícil como privilegiado. Difícil, inclusive doloroso, porque nos sentimos sacudidos. Este deserto inesperado se caracteriza pela aridez, pela secura, pelo sem-sentido e pela desesperança. A obscuridade parece invadir o espaço que antes nos parecia luminoso e o desconcerto ameaça introduzir-nos numa espiral de vazio.
E, no entanto, é então quando acontece o milagre. Leonard Cohen afirma: “Há uma greta, uma greta em tudo. Por aí é onde entra a luz”. Deus tem mais facilidade de entrar em nossa vida pelas fendas dos fracassos, das feridas, das crises... Esvaziados de nosso ego inflado e inflamados pela força divina, começamos a reescrever nossa história a partir de novas bases, mais humanas, mais inspiradoras... Este é o processo de conversão a que somos chamados a viver: sair dos “lugares estritos” e entrarmos no movimento de plenitude e sentido.
No relato das tentações de Jesus destacam-se os impulsos mais fortes do ego. É facilmente compreensível: nossa primeira e permanente tentação é a de nos identificar com o ego e viver para ele.
É um engano que conduz à confusão e ao sofrimento, porque implicae esquecer-nos de nossa verdadeira identidade e reduzir-nos a “algo” que nos escraviza. O ego, alimenta necessidades e medos, obscurece nossa visão e nos faz ver a realidade a partir de uma reduzida lente contaminada. Prisioneiro de uma insatisfação constante, o ego dedica toda sua vida a acumular, a ser o centro das atenções, a alimentar vaidade e buscar prestígio: esse é o único modo de sentir-se vivo.
O tempo quaresmal nos sacode e nos desnuda, porque desmascara nossas falsas seguranças, centradas na riqueza, no poder, na vaidade. Inspirados pelo “discernimento” de Jesus no deserto, somos também movidos a buscar nossas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido de maneira intensa, o Espírito nos conduzirá ao fundo estável e sereno, nos conduzirá à “casa”, à nossa verdadeira identidade, à
“Terra prometida”, onde há fartura de nutrientes. É preciso retornar à nossa “casa interior” para esvaziá-la de todo desejo de poder, de vaidade, de prestígio e de ridículos ídolos; somente Deus é Senhor de nossa vida.
O tempo quaresmal põe às claras aquelas atitudes que afogam a possibilidade de viver o seguimento de Jesus com mais inspiração; tal vivência desmascara um modo de viver acomodado aos critérios do mundo que petrifica nosso coração: deixar-nos prender pelas garras do consumismo, concretizado nos “afetos desordenados” ou apegos aos bens, poder, autoimagem, lugares, pessoas, títulos..., que esvaziam a vida e nos deslocam do essencial.
Diante das carências existenciais, surge a tentação de buscar compensações, que exigem investimento afetivo, nos tiram do foco e nos fazem cair em estado de letargia e acomodação. Todas essas compensações têm algo em comum: elas nos fazem adormecer e, desse modo, abortam a novidade que poderia brotar em nós e atrofiam a esperança, pois nos prende ao mais imediato (fixação afetiva).
É preciso ter os olhos abertos para além das preocupações cotidianas e poder entrar em sintonia com a presença d’Aquele que vem sempre ao nosso encontro. O maior inimigo de nossa existência é a dispersão, ou seja, investir afetivamente nas coisas cotidianas mais imediatas e esvaziar o horizonte de sentido de nossa vida. Para investir afetivamente no seguimento de Jesus, é preciso alargar espaço em nossas moradas internas, reordenar os afetos, expandir o coração.
Assim, a contemplação de Jesus no deserto nos move à liberdade e se manifesta como um chamado a uma vida mais simples, partilhada, apaixonada, natural, livre, transcendente, intensa, comprometida...
Como seguidores(as) de Jesus, todos nós também temos a experiência do que significa a tentação do poder. Em um mundo onde as relações se estabelecem através da força, da dominação, de uma maneira de exercer o poder, onde o forte se impõe sobre o fraco, o rico sobre o pobre, o que possui informação sobre o ignorante..., o fruto do discernimento de Jesus nos introduz na nova ordem de relações que devem caracterizar o Reino: nele a vinculação fundamental é a da irmandade no serviço mútuo.
A partir do deserto, a prática de Jesus vai desestabilizar todos os padrões e modelos mundanos de poder, desqualificando qualquer manifestação de domínio de uns sobre os outros: inaugura-se um estilo novo no qual o “desenho circular” desloca e dá por superado o “modelo hierárquico”. Sua maneira de se relacionar com as pessoas marginalizadas e excluídas vai pôr em marcha um movimento de inclusão onde, uma casa acolhedora e uma mesa partilhada com os menos favorecidos, invalidam qualquer pretensão de poder, de prestígio, de situar-se acima dos outros, devolvendo a todos a dignidade perdida.
À luz do tema da Campanha da Fraternidade (Fraternidade e moradia), podemos dizer que, no Projeto-Reino de Jesus, a casa-lar ocupa o centro, pois ela convida, convoca e abre espaço na vida de seus moradores, possibilitando a sociabilidade, a partilha, a vivência de valores interpessoais, de humanização.
Nela e com ela aprendemos a acolher o outro como dom; aprendemos a nos doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade.
A casa é também o lugar onde acolhemos as alegrias e as tristezas do outro, os êxitos e os fracassos... Ela é o lugar do suporte das relações, espaço que garante o sustento que alimenta o corpo, o emocional, o psíquico, o espiritual e o social. Esse lugar humano é revelador de cultura, de aprendizado e base para a vivência dos valores individuais e coletivos. Lugar fecundo, onde o imprevisível pode acontecer.
Texto bíblico: Mt 4,1-11
Na oração: No silêncio de seu deserto, entre em diálogo profundo com Aquele que faz morada em seu interior.
- Você é convidado(a) a adentrar-se no território sagrado, chamado “deserto do encontro”. Tão rico é esse lugar que sua espiritualidade, vista como manancial da vida, não exclui nenhum momento: situações tristes, felizes, momentos de sofrimento, de luta, de vitória...
- Nesse espaço, onde o Eterno quer habitar, é que você encontrará o bálsamo e o alívio para sua existência psíquica e espiritual. Nessa fonte sagrada, o sofrimento pode ser compartilhado, a tristeza transformada em alegria, as trevas em luz, o desejo em realidade, a esperança pode ser reacendida...
Pe. Adroaldo Palaoro sj
19.02.26


