
“Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti” (Mt 20,14)
Toda parábola é um espelho para nós: nela, nos vemos. No relato deste domingo Jesus demonstra um conhecimento muito profundo da psicologia humana. Constantemente nos surpreendemos comparando com as outras pessoas. É o “pecado de raiz” da inveja que envenena as relações, alimenta competições e nos esconde atrás do muro das lamentações. Quantas vezes reagimos como os trabalhadores da “primeira hora” que, ao recebermos um “denário”, começamos a reclamar: “trabalhamos a vida toda, sacrificando-nos, e agora todos somos iguais, recebendo o mesmo pagamento...”?
E nosso mal-estar aumenta porque, no fundo, o mais grave é que não temos nenhuma injustiça que denunciar: “não te contratei por um denário?” – diz o dono da vinha.
Na parábola deste domingo nos deparamos com um Deus surpreendente que dá o mesmo salário para os que tem tempos diferentes de trabalho; um Deus a quem lhe importa que estejamos todos na sua vinha, independente de quando temos chegado; um Deus que decidiu, desde sempre, dar-nos a cada um o que necessitamos para viver plenamente, sem precisar regatear ou manipular sua vontade a nosso favor.
A sabedoria da parábola revela uma perspectiva radicalmente diferente diante do trabalho.
Hoje, todo o mundo trabalha para acentuar as desigualdades, para competir, para comparar-se...; ou seja, para ter mais que o outro, estar por cima e assim diferenciar-se dele. Isto acontece não só com relação a cada indivíduo, mas também no nível de povos e nações. Também no campo religioso nos foi inculcado que temos de ser melhores que os outros para receber um prêmio maior. Esta foi a filosofia que moveu a espiritualidade cristã de todos os tempos. O que a parábola propõe é algo completamente diferente.
Quando nos deixamos determinar pelo nosso ego, ele compreende a si mesmo como “fazedor” e atua em função do benefício que pensa obter. Não só se percebe, de maneira insensata, como que separado da vida, senão que atribui a si a autoria de tudo o que faz e se apropria do resultado, exigindo uma recompensa.
Enquanto persiste a identificação com o nosso ego, não podemos ver as coisas de outro modo. Mais ainda, julgamos como indevido ou inclusive “injusto” o fato de que todos recebam o mesmo “prêmio”.
Mas Jesus nos convida a assumir outro ponto de vista, ver a nossa vida de forma diferente e sentir gratidão pelo fato de termos sido chamados a colaborar com o Reinado do Pai.
Para os antigos Padres da Igreja, o “denário” era um símbolo para a completude do ser humano. Nosso salário nunca será maior do que nossa transformação em um ser humano completo, em harmonia conosco mesmo. Isso basta!
Em vez de nos comparar com os outros e sentir inveja, a parábola desperta em nós a vivência da gratidão e da alegria por perceber que outros, embora tardiamente, responderam ao chamado do Senhor para trabalhar em sua vinha. Muitas vezes, uma hora de trabalho pode ser vivida de maneira muito mais intensa e inspiradora que uma longa jornada.
De fato, a inveja envenena as relações humanas até tal ponto que, às vezes, a pessoa prefere prejudicar-se com a condição de que o outro se prejudique mais ainda.
O invejoso não está preocupado que tudo lhe corra bem, mas que aconteça o pior com o outro. A inveja pode representar um muro intransponível entre o invejoso e o invejado, impedindo o prazer que representa o ato de compartilhar.
A inveja é um sentimento vergonhoso que ninguém se atreve a reconhecer; ela, quando sentida, nunca pode ser sadia. Só é realmente sadio o que sentimos a respeitos dos outros quando sentimos admiração, apreço ou alegria pelos seus êxitos ou dons.
Quando Deus nos chamou para trabalhar na sua vinha? Ao amanhecer de nossa vida, em nossa primeira juventude, mais tarde ou já quase no final da vida? Ele não contabiliza a quantidade de horas trabalhadas, nem lhe importam o número de anos investidos... Ele sempre sai para buscar-nos, nos admite em sua vinha e promete nos dar “o que necessitamos para viver plenamente”. Pare Ele, nunca é tarde; sempre é tempo.
É então que caímos na conta que o que mais nos incomoda é a bondade de Deus. “Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?” Tanta bondade nos assusta e nos ultrapassa!
No fundo, preferimos um Deus mesquinho como nós, um Deus calculador, que só dá bens àqueles que merecem por seu trabalho. Em definitiva, um Deus a quem possamos exigir: “fiz isto, me deves dar isto...”
É um bom momento para revisar a imagem de Deus: é aquele que imaginamos ou naquele que Jesus nos anuncia? O Deus que Jesus revela é Aquele que dá a salvação a todos gratuitamente, Aquele que trata a todos como filhos(as) muito amados(as) e lhes concede o que necessitam para viver mais plenamente.
Deus já nos “pagou o salário” antes mesmo de começarmos a trabalhar em sua vinha. Ele já “investiu” pesado em cada um de nós, dotando-nos de recursos, capacidades, inteligência, criatividade...
É uma maneira equivocada de falar que Deus nos concede isto ou aquilo. Deus está totalmente disponível a todos; Ele é “mão aberta” e derrama continuamente suas graças. Ele não trabalha com meritocracia.
A pessoa que se sente cuidada assim por Deus, supera a dinâmica do “salário devido” e entra na dinâmica da gratuidade. Como se sentiram os trabalhadores que chegaram por último e viram que suas famílias estariam protegidas por mais um dia? Com certeza, estariam agradecidos. E, a partir do agradecimento, nasce o compromisso com o Senhor da vinha, o compromisso em favor do Reino.
A mentalidade “mercantilista” não torna as pessoas comprometidas, implicadas..., só mercenárias.
Há um outro aspecto que é preciso realçar, inspirado na parábola deste domingo: quando respondemos afirmativamente ao chamado do Senhor da vinha, desperta-se em nós uma consciência comunitária; encontramos outros muitos que também responderam afirmativamente; ninguém se encontra no trabalho como solitário.
O fato de ser acolhido na vinha do Senhor implica, naturalmente, ser recebido com outros, trabalhar “com outros”; o colaborar com Ele é inseparável do “co-laborar” com tantas pessoas que trabalham em favor do Reino, constituindo assim o grande corpo apostólico de colaboradores.
Além disso, nosso “co-laborar” tem maior visibilidade quando a missão é vivida em comunidade, quando a colaboração com outros e a partilha em comum tornam-se um “modo de proceder”, esvaziando-nos de toda pretensão de sermos proprietários para sermos simples servidores.
Assim vivido, o “trabalho colaborativo” nos faz “amigos no Senhor” e se converte em espaço de companheirismo e em oportunidade única de encontro e comunhão com outras pessoas, movidas pelo mesmo espírito; o trabalho se revela lugar de humanização, e não lugar de competitividade e agressão.
“Trabalhar” com os outros, inspirados e animados pelo Espírito de Jesus, é o que torna “espiritual” nossos atos, nossos pensamentos e orações, nossos trabalhos, nossa vida inteira.
Texto bíblico: Mt 20,1-16
Na oração: Que o Senhor da vinha alargue nossos corações para que possamos saborear, desfrutar e agradecer sua bondade e seu amor para com todos.
“Por que afligir-se em comparações? Não queira ser o melhor, se certamente não é o pior. Contente-se por ser diferente na missão que recebe para que algo em você passe a enriquecer os outros.
Deixe-se acompanhar pela eterna surpresa e, encantado, exercite a divina criatividade” (Frei Cláudio)
Pe. Adroaldo Palaoro sj
17.09.26


