“... e as ovelhas escutam a sua voz” (Jo 10,3)

Somos seres em permanente comunicação. Comunicamo-nos com nossos gestos, com nossa postura corporal, com nosso olhar, com nossa roupa, com nossa expressão facial, com nosso silêncio e, sobretudo, com nossa voz: uma voz que, por sua vez, comunica com seu volume, com seu timbre, com sua força ou com seus balbucios ou titubeios... Tudo em nós é permanente comunicação.

“...porque conhecem a sua voz”. Já somos mais de oito bilhões de pessoas que compartilhamos este planeta. Não há duas vozes iguais. A voz nos dá identidade, faz parte da nossa genética, do nosso ser, como a cor dos olhos, nosso jeito de andar, nossa impressão digital ou nossa caligrafia.

Através da voz nos reconhecemos e nos identificamos. A mãe reconhece a voz do seu filho muito antes que ele possa emitir qualquer som articulado. Pela voz, tanto como pelo olhar, mostramos a “alma”, canalizamos e refletimos nossas alegrias, nossas conquistas e nossos fracassos e tristezas: “posso notar pela tua voz”. Todos nós já experimentamos isso alguma vez: há vozes que nos enchem de ânimo e vida, e outras, pelo contrário, nos causam pequenas ou grandes mortes. Há vozes que gostaríamos de escutar com mais frequência e as guardamos como um tesouro em nossas lembranças; outras, no entanto, que gostaríamos de apagá-las para sempre da nossa memória.

Como cristãos, somos seguidores e seguidoras de uma Pessoa, Jesus Cristo, o verdadeiro Pastor. Quando Ele é o centro de nossas vidas, a identificação com Ele vai assumindo feições sempre novas e inspiradoras. Suz Voz inconfundível passa a ter um timbre diferente em nosso interior: voz que nos eleva, que comunica vida, que rompe nossos medos, que nos faz sair de nosso “redil” estreito e nos impulsiona a sermos presenças comprometidas com a vida.

É preciso discernir para reconhecer a Voz do Pastor entre tantas vozes que ressoam ao nosso redor todos os dias; é preciso distingui-la e interpretá-la como sua saudação vivificadora, como fonte de vida, de futuro, de projeto e de esperança; é preciso permitir que essa Voz gere vida, que pulse em nosso interior e que se derrame no mundo como uma voz construtiva, uma voz de “Boa Nova”.

Mesmo no interior das comunidades cristãs surgem “vozes” que estão muito distantes da Voz original do Pastor; são vozes egóicas, autocentradas, que apelam para o medo, o poder, o julgamento... São os “mercenários da fé” que não estão a serviço das “ovelhas”, mas de seus interesses.

Para discernir os pastores dos mercenários, a última frase do evangelho de hoje nos oferece uma pista interessante: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10b). O que quer dizer que cada vez que escutamos uma palavra que liberta, que salva, que reconforta, que dá esperança e vida, devemos seguir a voz de quem a profere. Trata-se de uma voz que prolonga a Voz do Pastor da Vida. Mas quando ouvimos uma voz que julga, condena e exclui, há fortes indícios de que estamos na presença de um mercenário, de um falso pastor, de um ladrão ou de um salteador. Esse último não está a serviço das ovelhas; ele se serve delas para se convencer de seu poder e do seu prestígio pessoal.

Neste tempo pascal celebramos Jesus como “pastor da liberdade”: sua voz nos arranca dos nossos estreitos lugares, das atitudes petrificadas, das visões limitadas..., e nos conduz para a vida livre. Certamente não somos “ovelhas” em sentido literal, mas pessoas. E Jesus, bom pastor, abre a porta da Vida e nos permite sair para o espaço amplo da Liberdade e da Páscoa. Este Pastor, desprovido de poder, revela sua autoridade na força de sua Voz, no assobio amoroso de sua melodia, no conhecimento pessoal de cada ovelha. A única forma de fazer com que a porta se abra e de conduzir as ovelhas à liberdade é chamá-las de um modo pessoal, com a palavra da vida e do amor. Este é o Jesus que liberta, que conduz as ovelhas para as pastagens da vida, para o campo aberto do amor compartilhado.

As ovelhas atendem à sua voz porque a conhecem. Uma frase com profundas ressonâncias bíblicas. Ouvir a voz do Senhor é conhecer e realizar sua vontade. Sua voz é libertadora. Ele as chama pelo seu nome, porque para Ele não existe massa; cada uma tem nome próprio; cada ser humano é único e irrepetível; cada uma é importante para Deus e para o mundo.

Este Pastor, a quem lhe abrem a porta, é alguém que, com sua voz, vai traçando uma rota de vida. Depois de ter chamado as ovelhas e tê-las tirado do aprisco, caminha à frente, sabe aonde vai. Abre um caminho de humanidade.

A Igreja está carente de “bons pastores”, homens e mulheres como Jesus que nos ajudem a sair do aprisco onde nos encontramos fechados, controlados e manipulados, para assim buscar e celebrar a liberdade, com Ele (Jesus) e com todos os homens e mulheres da terra. Este aprisco pode ser um tipo de Igreja fechada em si mesma, em seu dogmatismo, em seus ritos estéreis, em sua doutrina fria, que não escuta os clamores que surgem da realidade tão desumanizada. Uma Igreja assim torna-se incapaz de impulsionar seus fiéis para que saiam, respirem um novo ar, deixem-se afetar pelos desafios e provocações do mundo. É preciso que venha alguém para despertar e conduzir as “ovelhas” ao campo da vida, para que caminhem, para que amem, para que vivam em liberdade.

Todos nós, como seguidores(as) do verdadeiro Pastor, podemos e devemos ser “pastores(as)” e “porta de liberdade” para os outros, pastores(as) que os ajudem a encontrar o caminho e os acompanhem.

No caminho do Seguimento percebemos que há portas que já se abriram e que nos permitem transitar pelos caminhos da vida; há portas que devem manter-se fechadas, para deixar para trás estilos autocentrados que nos afastam de Jesus e dos outros; por fim, há outras portas que devem se abrir, para que um novo ar renove nosso interior e nos encha de fé, esperança e amor. “Abrir portas” é abrir-nos às novas possibilidades, ao futuro, ao encontro, à vida expansiva... Sabemos, por experiência, como é a alegria que nos acompanha quando nos abrem uma porta, cruzamos o umbral e nos chega o abraço, a acolhida e nos é oferecido o dom de uma amizade.

A vida é um êxodo permanente. Podemos afirmar que esse é o dilema da Igreja através dos séculos: ou fechar-se atrás dos muros do poder e autossuficiência, ou abrir-se missionariamente. Os melhores e mais criativos seguidores de Jesus, ao longo dos séculos, foram aqueles que se lançaram abertamente ao exterior, para servir, para acolher os desafios da realidade, para assumir uma atitude de serviço e cuidado, para se colocar no lugar dos últimos, das vítimas da história.

Tivemos grandes eventos na Igreja (Vaticano II, Medellin e Puebla...) que foram grandes “portas” e que lançaram as bases para uma abertura e diálogo com a sociedade atual. Infelizmente, continuam as tentativas por fechar portas e janelas numa atitude defensiva e medrosa. Mas, a esperança por uma Igreja pobre para os pobres continua se revelando como voz e apelo a um deslocamento contínuo para as “periferias existenciais”, convidando-nos a um novo êxodo.

A vivência pascal nos torna mais sensíveis e capazes de escutar os acontecimentos, alimentando uma atenção contemplativa frente à realidade que nos cerca, respondendo a seus apelos e tomando decisões maduras e evangélicas.

Texto bíblico:  Jo 10,1-10

Na oração: Seguir o Bom Pastor e ouvir a sua voz é deixar-se “con-figurar” por Ele, é movimento pelo qual cada um vai sendo modelado à imagem d’Ele.

- A Voz do Bom Pastor modela identidades únicas e originais; deixe ressoar em seu coração esta Voz, para que ela se visibilize nos seus gestos e no seu cuidado em favor da vida.

Pe. Adroaldo Palaoro sj

23.04.2026