“Vós o conheceis, porque Ele permanece junto de vós e estará dentro de vós” (Jo 14,17)

Segundo o evangelista João, Jesus não prometeu um magistério externo com dogmas e doutrinas; tampouco deixou uma estrutura de poder ou uma organização religiosa. Sua verdade se expressa no ensino interior do Espírito, que atua através do testemunho dos seus seguidores.

Acolher o Espírito de Deus quer dizer deixar de falar só com um Deus a quem quase sempre o colocamos longe e fora de nós, mas aprender a escutá-lo no silêncio do coração. Deixar de pensar em Deus só com a nossa cabeça, e aprender a percebê-lo no mais íntimo de nosso ser.

O Espírito é “o Deus de guarda”: está em missão ativa desde o primeiro dia da Criação, na inspiração dos patriarcas e profetas, no momento da concepção de Jesus e em sua vida pública, quando do alto da cruz “entregou seu espírito”, como último alento nesta vida (Jo 19,30), no seu primeiro Sopro como Ressuscitado (Jo 20,22), nas línguas ou labaredas de fogo em Pentecostes (At 2,3-4).

O Espírito da verdade sempre se manifestou e se revela como espírito forte, um vento e uma força que transforma os medrosos em valentes, os mudos em anunciadores, os desanimados em fiéis seguidores, comprometidos com a causa de Jesus, o Reinado do Pai.

O “Espírito da verdade” está sempre distante das instituições petrificadas e se revela presente nas situações mais surpreendentes.  Brisa suave, Vento impetuoso, Sopro primaveril, Hálito de vida, Línguas de fogo...: são diferentes formas de sua manifestação e que abrem nossas consciências, não nos deixa tranquilos, desperta o melhor que há em nós, nos impulsiona a viver o compromisso em favor da vida.

O Espírito nos livra da indiferença, do fantasma do relativismo. do medo à mudança, à pluralidade. Porque o Espírito nos ensina que a única coisa que não muda é seu Sopro que nos faz mudar, fazendo tudo novo.

Não é fácil expressar esta experiência. O Evangelista João chama “Espírito da verdade”. É uma expressão muito acertada, pois Jesus, que se deixou conduzir por Ele, revelou-se como força e luz que o fez “viver na verdade”. Qualquer que seja a situação em que nos encontremos na vida, acolher Jesus significa acolher seu Espírito em nós e que nos leva para a verdade.

O evangelista o chama também “Espírito defensor”, porque nos defende daquilo que nos poderia separar de Jesus. Este Espírito “estará sempre conosco”, continuará sempre vivo no mundo. Se o acolhemos em nossa vida, não nos sentiremos órfãos e desemparados.

O tempo pascal vem nos recordar que Jesus não prometeu uma sociedade sem excluídos, nem um mundo sem males, um corpo sem enfermidades, uma realidade sem conflitos; mas, sim, nos prometeu o Espírito Paráclito, que estará sempre conosco e tornará possível os sonhos de Deus sobre a humanidade.

No atual contexto, marcado por tanto ódio e violência, descobrimos sementes de bondade espalhadas sobre a terra, uma primavera de boas atitudes, de amizade, de ajuda mútua, de criatividade... Quem vive bloqueado e petrificado é incapaz de descobrir o Espírito que sopra em toda a criação, em toda a humanidade e de conectar-se a Ele para poder respirar.

O “Espírito da verdade” é o “Espírito do momento presente”. O Espírito não está no mais além, mas aqui, nos envolve e nos constitui em nossa essência; Ele não é patrimônio de nenhuma religião. É o fundamento de toda espiritualidade que responde à sede de transcendência, para que a vida seja algo mais que deixar passar o tempo, acontecimentos, etapas..., inclusive projetos, êxitos e fracassos. O Espírito nos lança para além de nosso individualismo absurdo e nos faz cair na conta de que não podemos buscar só nosso próprio bem-estar.

O Espírito Santo, é a “marca” de Deus no coração do ser humano, é a energia divina que nos faz capazes de participar do seu Reino, na condição de filhos e filhas, e continuar o caminho de Jesus, sem desviar-nos por outros caminhos, seduzidos por outros “espíritos”.

O Espírito do Ressuscitado, neste momento crucial da história, remorde nossas consciências e nos desafia a romper nossas atrofias; uns, conduzidos por Ele, transformam por completo seu estilo de ser para uma vida mais ecológica e despojada; outros salvam vidas, literalmente, dos ventos tempestuosos do mar ou dos desertos que separam países e fronteiras; outros ainda se atrevem enfrentar as máfias das drogas, das armas e do tráfego de pessoas; há ainda aqueles que acreditam que as pessoas são “redimíveis” e podem se transformar em novos seres com o acompanhamento devido; outros se fazem eco do Espírito em despertar consciências: sabem ler ler os sinais de seu tempo e não se amedrontam diante dos ventos contrários, da perseguição; têm consciência de sua missão profética na sociedade porque não buscam nem alimentam vaidade; sua autoridade não procede de seus conhecimentos, mas de seu interior, do espírito.

Ninguém nos poderá destruir, pois somos morada do Paráclito. O Espírito e nós não somos dois; somos “seres espirituais vivendo uma aventura humana” (Theilhard de Chardin).

Na nova perspectiva, o Espírito é não-separado de nada; mais ainda, é o “núcleo” de tudo o que existe, a “outra face” de todo o invisível.

Como “Espírito da verdade”, Ele des-vela nosso ser essencial, é o grande multiplicador do melhor de cada um, o portador das “células-tronco” de nossa vida interior. O Espírito nos faz forte em nossa fraqueza e nos faz amadurecer quanto mais nos humanizamos. Seu modo de nos proteger é abrindo-nos; seu modo de nos defender é desarmando-nos e quebrando nossa rigidez. Soltar as asas nos momentos mais petrificados e pesados de nossa vida é sinal de sua silenciosa Presença. De imediato, nos sentiremos livres do peso que fomos arrastando durante tanto tempo e nos atreveremos a “viver como filhos e filhas do Vento”.

O quarto evangelho nomeia o Espírito como “Defensor” (“Paráclito”) e afirma algo completamente novo: “vive em vós e está em vós”. É assim: o Espírito – outro nome para referir-se Àquilo que está mais além de todos os nomes – constitui simplesmente nossa mais profunda identidade. Nossa existência é expansão do Espírito, vivendo em cada um de nós uma aventura humana.

Tal reconhecimento não significa uma inflação do ego, mas, pelo contrário, sua dissolução. Porque não está identificando nosso “ego” com o Espírito, mas afirmando que o Espírito é a identidade real que transcende por completo o ego, “des-egocentrando-nos” por completo.

Ali onde nosso ego se esvazia, o Espírito toma o lugar que lhe pertence desde o princípio e para sempre.

Esse lugar não é um espaço físico nem está situado no tempo, senão que esse lugar está dentro, vai conosco lá onde vamos. São “terras do Espírito”, e habitá-las é nossa promessa.

A humanidade sempre sonhou e buscou a “terra prometida”; no entanto, esta não se reduz a um lugar geográfico ou um espaço paradisíaco. São as “terras do Espírito”, terras prometidas a nossos pais e mães que viveram a partir de sua própria interioridade.  É preciso descalçar-nos para entrar nessas terras, tornar-nos cada vez mais leves, mais humildes, peregrinos... Quem se deixa conduzir pelo Espírito, nenhuma terra lhe é estranha; ao contrário, tudo lhe é familiar.

 Texto bíblico:  Jo 14,15-21

Na oração:  Na Igreja, fala-se muito do Espírito, mas, onde e quando escutamos sua presença silenciosa no mais profundo do coração? Onde e quando acolhemos o Espírito do Ressuscitado em nosso interior? Quando vivemos em comunhão com o Mistério da Trindade a partir de dentro?

- No silencioso sussurro da voz do Espírito toda realidade interior fica abençoada: os sentimentos contraditórios, os dinamismos opostos... Ele “desce” para encontrar-nos e despertar nossa vida atrofiada. Com seu toque, uma identidade nova ressurge: não seremos mais estrangeiros, nem inimigos de nós mesmos. Sua presença dá calor e sabor à nossa existência.

- O Evangelho é experiência de nascimento: faz-nos ver que somos filhos(as) de Deus, com Jesus, no Espírito.

Pe. Adroaldo Palaoro sj

07.05.2026