Palavras são como pessoas, de umas nos lembramos sempre, de outras nos esquecemos. Entretanto, pessoas, esquecidas por nós ou não, estarão sempre presentes, terão sempre o seu lugar. A permanência, o surgimento ou o desaparecimento das palavras depende, mais do que cada um de nós, do meio cultural, do seu lugar no conjunto dos recursos simbólicos em meio aos quais vivemos. Virtude que indicava um comportamento meritório, corajoso, passou a significar um modo de vida associado a alguma forma de repressão de nossos desejos. Hoje, devido ao renovado interesse pela Ética, a ideia de virtude volta à cena (ver Sponville, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes). Outra palavra com a qual mantemos uma convivência confusa é a palavra Moral.  Mencionada, há mais tempo, de forma positiva (“que moral você tem para dizer isso?”) ou na gíria de nossos dias (“na moral, pode crer”), trata-se de hoje de uma palavra evitada, uma vez que ela está associada a limites, preconceitos, códigos, tudo isso que nossa época recusa por princípio. Protestamos, insistimos na substituição plena de Moral por Ética, que parece uma expressão protegida dos males associados à palavra Moral. Se alguém insiste que a ação humana é sempre uma ação moral, associada a valores e oposta ao determinismo, aprendemos que a troca de palavras não deve nos distrair do problema. Por fim, faço referência a uma palavra – alma – de longa e complexa história no Ocidente e, entendida de forma mais ampla, na história humana. Apesar de, por exemplo, na tradição simbólica cristã não haver qualquer possibilidade de hierarquização absoluta entre corpo e alma – ver a singularidade da Encarnação -, insistimos na imagem de que a alma deve estar atenta à rebeldia do corpo, que sua dignidade é superior, etc. Isso é uma longa história que interessa a muita gente, mas vamos ficar apenas na menção do tema. Por fim, o exercício que eu gostaria que fizéssemos é outro: como, muitas vezes, o desejo de clareza se impõe sobre a complexidade das questões, vale a pena ver, longe de qualquer intenção mais exaustiva, que significados podem, com proveito, ser associada à expressão alma. Se alma não é mente, não é razão e nem, pelo menos não predominantemente, consciência, a que podemos associá-la? Aprendemos, ao longo do século XX, que a vida mental não se reduz à consciência, que há significado ali onde a consciência não domina a cena. E não estou falando apenas da psicanálise, que é importante, mas de estudos em história da arte, em teoria da literatura e mesmo em correntes decisivas da filosofia contemporânea. Isso, dada essa boa possivel companhia, não deveria nos animar a olhamos uma vez mais a eventual riqueza dessa expressão – alma -como meio de alguma decifração da existência humana?

 

Ricardo Fenati

Equipe do Centro Loyola

05.09.2026