Felicidade

Nessa conversa sobre felicidade vou me valer de uma observação mais sagaz que sábia, como ocorre com o que, algumas vezes, Freud diz. Numa passagem do Mal Estar na Civilização, ele diz que a felicidade não estava nos planos da Criação. E mais adiante ele acrescenta que são três as razões que inviabilizam nossa pretensão de felicidade: a submissão inevitável aos fenômenos da natureza, a fragilidade de nosso corpo e a dificuldade da vida em sociedade. Tais riscos estarão sempre presentes e, com certeza, nos deixam inquietos e, certamente, são fontes de angústia.

Bom, mas vamos caminhar na direção oposta. Se, por uma espécie de experimento imaginário, chegarmos à supressão desses fatores de infelicidade, com que cenários nos defrontaríamos? Um controle absoluto da natureza viabilizado pelo desenvolvimento tecnológico, um avanço inédito dos processos médico-terapêuticos e uma organização social da qual todo mal estivesse excluído.

Mas num cenário assim, improvável, é claro, esse ideal de felicidade não reitera, antes de mais nada, o sonho tão humano, e tão antigo, da exigência de onipotência, da extensão ilimitada do nosso poder? Não decorre da resistência à admissão de nossa finitude? Dizer que a felicidade não pode envolver sombra, temor, inquietação e angústia não é o mesmo que o desejo de um controle absoluto das circunstâncias, de uma sociedade da qual estariam ausentes desavenças ou qualquer outra figura do mal? Um tal mundo é requisito necessário da felicidade? E a felicidade é mesmo essa ausência de obstáculos, essa convivência com o mesmo?

Estaríamos, no caso de nosso experimento, num mundo inteiramente desenhado por nós, construído à luz de nossas condições?. Desse mundo estariam ausentes todo fator extra-humano, toda intromissão de qualquer estranheza e, enfim, toda imperfeição.

Talvez esteja aí o ponto a ser examinado. Ao negarmos a possibilidade da felicidade tendo em vista os obstáculos apontados por Freud, não estamos de fato exigindo que o mundo seja feito à imagem e semelhança dos nossos desejos? Apenas assim a felicidade teria lugar.  Não sendo dessa maneira, e não é, como falar de felicidade? O que acima parecia uma observação pessimista mais se parece com o ressentimento, como aprendemos com a raposa que dizia que as uvas estavam verdes?

E, para não nos estendermos exageradamente, vamos lembrar não somente que a melhoria parcial dos males da existência é possível, o que é sempre defensável, mas que a ideia de que a felicidade depende de um controle absoluto das circunstâncias já está entre nós. O ideal que associa felicidade a um bem-estar exaustivo, ao afastamento de qualquer dor e a uma organização social perfeita atravessou todo o século XX e hoje parece ainda mais atraente. Não é preciso muita argúcia para perceber entre nós a falácia dessa pretensão. E não é uma lição dolorosa a que nos ensina que o esforço de afastamento completo do mal traz um mal ainda maior?

Ora, como lembra a tradição cristã não há solução humana para os problemas humanos, o que não nos leva a qualquer inércia, mas à aposta de que para nós, humanos, é justamente essa aceitação dos limites que abre campo não apenas à felicidade possível, mas, também, à percepção de que, assim como as margens criam o rio, são os limites que tornam possível uma vida humana.

Ricardo Fenati

Equipe do site 

06.08.2026

imagem: pexels.com