São muitos os sinais que marcam nossa época, entre eles, uma inclinação pela explicação em desfavor da narração. Explicar, encontrar causas, esse hábito das ciências, parece ofuscar, ou subordinar, quaisquer outras formas de lidar com a realidade. Mais que isso, se a narração costumas ser mais fiel à experiência vivida, os partidários da explicação como que desidratam a experiência, considerando-a, uma vez explicada, com decifrada e capturada. Exemplos: vamos tomar o caso da arte, um quadro impressionista ou uma obra de Dostoiévski, vá lá, Os Irmãos Karamázov.

Podemos nos debruçar sobre as condições históricas que deram lugar ao impressionismo ou à obra do autor russo. Ou, isto varia, podemos recorrer a materiais vindos da psicanálise ou da sociologia. Isto é desnecessário, deve ser deixado de lado? De modo algum, tem seu valor de um instrumento entre outros.

Vamos votar à contemplação do quadro, onde ocorre a efetiva experiência proporcionada pela arte ou ainda à leitura do romance. Mesmo tendo no bolso a explicação, não é verdade que a experiência da arte é algo que emerge e que nos conduz para além de qualquer explicação? Assim, por que privilegiar a explicação em relação à experiência? Essa devoção à explicação, essa espécie de receio da experiência, não é um efetivo impedimento não acaba por fazer com que percamos o que é tão próprio da arte, ou seja, o desvendamento de paisagens internas que, de outra forma, permaneceriam ocultas, perdidas?

Podemos, continuando essa conversa, examinar, no campo da espiritualidade, as relações entre crença e experiência religiosa ou experiência espiritual. Também aqui há o mesmo hábito, igualmente injustiçado, de perder de vista a singularidade da experiência espiritual/religiosa em favor de um ou outro recurso explicativo. Mas isso fica para outra coluna.

Ricardo Fenati

Equipe do Centro Loyola

07.05.2026

imagem: pexels.com