
«A Quaresma é um novo começo, um caminho que nos leva a um destino seguro: a Páscoa da ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E neste tempo recebemos sempre um forte chamamento à conversão: o cristão é chamado a voltar a Deus de todo o coração, a não contentar-se com uma vida medíocre, mas a crescer na amizade com o Senhor.»
Com estas palavras o papa Francisco começa a sua mensagem para a Quaresma. À luz deste documento recomendo alguns filmes que, como parábolas, nos podem ajudar a refletir na nossa vida, como a estamos a viver e como podemos voltar a Deus e aos outros de todo o coração.
"A Estrada da vida", de Federico Fellini (Itália, 1954, 104 min.)
Este filme fala-nos de um amor até ao extremo (cf. João 13, 1). Gelsomina (Giulietta Masina) é vendida pela sua mãe ao circense e brutal Zampanó (Anthony Quinn). Apesar da atitude agressiva e violenta de Zampanó, a jovem sente-se atraída pelo estilo de vida na estrada; sobretudo quando o seu "dono" a inclui como parte do espetáculo. Ainda que vários personagens com quem se encontra no caminho lhe proponham que se junte a eles, Gelsomina não se separa do seu amado. O papa Francisco diz-nos na mensagem quaresmal: «Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil». Gelsomina, a jovem da rua, é mestra nisso.
O falso culpado, de Alfred Hitchcock (EUA, 1956, 105 min.)
O filme centra-se na história real de Christopher Emmanuel Balestrero, acusado de um crime que cometeu. Chama a atenção o que significam os seus nomes: "Cristopher", o que leva a Cristo; "Emmanuel", Deus connosco. Com uma excelente interpretação de Henry Fonda, vemos este homem bom (honrado, com um casamento feliz, pai exemplar), levado de um lado para o outro como Jesus na sua paixão (cf. Lucas 22-23). Diante do tribunal, em cenas com impacto e comovedoras, podemos exclamar: «Verdadeiramente este homem era justo» (Lucas 23, 47). Uma película, como muitas de Hitchcock, que não nos deixa tranquilos e nos pode levar a refletir no que diz o papa Francisco: «A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a qualquer necessitado e reconhecer nele ou nela o rosto de Cristo».
"O Evangelho segundo S. Mateus", de Pier Paolo Pasolini (Itália, 1964, 130 min.)
Uma obra-prima da cinematografia que apresenta com respeito, emotividade e realismo a vida de Jesus segundo o Evangelho de S. Mateus. Com poucos recursos, com atores não profissionais, utilizando cenários mínimos, com uma banda sonora que vai desde as missas de Bach e Mozart até ao "blues", Pasolini cria uma história convincente de Jesus. O filme segue de maneira linear os 28 capítulos de Mateus, desde a anunciação até à ressurreição. Nunca poderemos saber com exatidão como era fisicamente Jesus de Nazaré; mas o Jesus que nos apresenta Pasolini convence, comove e pode ajudar a aproximar-nos do rosto repleto de amor, ternura e compaixão de Jesus. O filme venceu em 1964 o prémio OCIC (Organização Católica Internacional de Cinema), hoje SIGNIS.
"Gran Torino", de Clint Eastwood (EUA, 2008, 116 min.)
Walt Kowalski (Clint Eastwood) é um viúvo que vive com a sua cadela Daisy em Highland Park, Michigan, bairro recentemente "invadido" por imigrantes de procedência asiática. Walt mostra-se sempre frio e mal-humorado com os seus novos vizinhos, até que descobre um jovem chamado Thao Vang Lor (Bee Vang) que tenta roubar o seu automóvel Gran Torino. O espetador vê a transformação da personagem e como todo o filme pode ser uma parábola cristã. «A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido», diz-nos o papa na sua mensagem.
"Chocolate", de Lasse Hallström (Reino Unido, 2000, 121 min.)
O filme foca a sua ação em 1959, ano em que num plano de voo somos levados até a uma aldeia cinzenta e fria do campo francês. Na igreja do povoado, de portas fechadas, o sacerdote anuncia o início da Quaresma e exorta ao jejum e à penitência. Desde o púlpito o padre pergunta e pergunta-se: «Onde encontraremos a verdade? Onde se começa a procurá-la?». Antes de terminar o sermão, um forte vento abre as portas e irrompe na igreja. Precisamente no tempo quaresmal uma mulher e a sua filha chegam à povoação e abrem uma loja de chocolates. Comer ou não comer, sair ou fechar-se, acolher ou repelir são os dilemas que os protagonistas desta história enfrentarão.
"Casino", de Martin Scorsese (EUA-França, 1995, 184 min.)
Ace Rothstein (Roberto de Niro) administra um casino. Ele mesmo conta-nos a sua história: «No meio do deserto ganhamos dinheiro, é o resultado de todas essas luzes brilhantes, as viagens oferecidas por cortesia, o champanhe, as suites grátis, as mulheres e o álcool. Tudo se dispôs para que nós fiquemos com o seu dinheiro. Essa é a verdade sobre Las Vegas». Rothstein sabe que teve uma boa mão e que, segundo ele, recebeu um paraíso na Terra. A verdade, como veremos ao longo do filme, é que este grande apostador terá de as perder. «O apóstolo Paulo diz que "a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro" (1 Timóteo 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico», lemos na mensagem do papa.
"Citizen Kane", de Orson Welles (EUA, 1941, 119 min.)
Charles Foster Kane (Orson Welles) é um multimilionário, magnata da imprensa, que vive na sua suntuosa propriedade Xanadu durante os últimos anos da sua vida. Morre na cama pronunciando a palavra "Rosebud", enquanto uma bola de neve cai das suas mãos e desfaz-se. O jornalista Jerry Thompson (William Allad) investiga a vida privada de Kane com o objetivo de descobrir o significado da sua última palavra antes de morrer, enigma que é o centro de todo o filme. «Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira», diz-nos o papa Francisco na sua mensagem. Reflitamos: como viveu o cidadão Kane? O que é que o cegou na vida? Que nostalgia manifesta antes de morrer?
"Irmão sol, irmã lua", de Franco Zeffirelli (Itália, 1972, 130 min.)
Trata-se de um filme repleto de cor, beleza e poesia sobre a vida de S. Francisco de Assis (1181-1226). Em pouco mais de duas horas podemos contemplar Francisco quando regressa doente e a arrastar os pés depois de uma guerra, quando recorda a sua vida cheia de luxos, quando vai à tinturaria do seu pai e se comove até às lágrimas com a miséria dos operários, quando começa a sua conversão e se despoja da sua roupa para viver em pobreza e com mais liberdade, quando vai ao campo e reconstrói uma velha igreja, quando inspira muitos jovens a viver o Evangelho. Francisco (irmão sol) e Clara (irmã lua) são dois grandes santos que podem dar-nos muita luz, cor e esperança neste tempo em que o papa Francisco nos convida a sair e a ver o outro como dom.
Sergio Guzmán, S.J.
In "SIGNIS"
Trad.: SNPC
Publicado em 14.03.2017

Título Original: Journal D’un Curé De Campagne
Título no Brasil: Diário de Um Pároco de Aldeia
Direção: Robert Bresson
Gênero: Drama
Ano de Lançamento: 1951
Duração: 110 min
País: França
Diário de um Pároco de Aldeia (em francês: Journal d'un curé de campagne) é um romance de Georges Bernanos publicado em 1936 pela editora Plon tendo recebido o Grand prix du roman de l'Académie française desse ano. Em 1950, este romance foi incluído na lista do Grand prix des Meilleurs romans du demi-siècle. O livro foi adaptado para o cinema pelo grande cineasta Robert Bresson.
Um jovem padre é nomeado pároco em Ambricourt, uma pequena aldeia em Artois, na França. Os moradores locais o recebem com certa hostilidade. Com uma personalidade frágil e saúde debilitada, o padre tem dificuldades em se impor aos paroquianos. Narra o cotidiano da sua vida como padre num diário: as dificuldades, a aridez espiritual, os confrontos com os paroquianos, sua vida de diálogo com Deus, sua saúde frágil.
Pouco a pouco o jovem padre vai conhecendo os paroquianos, tem o costume de visitar a todos. O filme mostra a hostilidade, rejeição e até maldade de alguns personagens e apostura do padre que é a de sempre ajudar a pessoa a ver a bondade de Deus. Chega a duvidar em alguns momentos da sua própria fé, mas logo percebe que nunca a perdeu. O diário é o espaço de diálogo consigo mesmo e com Deus. O encontro central do filme é com a condessa que é cética em relação a vida e à Deus. O padre a faz ver com outros olhos sua grande dor, a perda do seu filho querido. No mesmo dia em que consegue ver sua dor com novo horizonte, morre subitamente. E vários moradores criticam o padre. Mas ele sabe que ela se reconciliou consigo mesma e com Deus, antes da morte.
A amizade do padre jovem com um padre mais velho também nos brinda com diálogos interessantes. A saúde do padre se deteriora e ele descobre que sua vida está próxima do fim. O filme termina com a conclusão do padre de que "tudo é graça".
Um grande filme. Um jovem padre que coloca a sua vida serviço dos outros, quer o bem e o melhor para cada pessoa. Desdobra-se para ajudar a todos. E, no diário que escreve narra sua busca de sentido, sua fé, sua entrega a Deus, sua percepção do bem e do mal que mora em cada pessoa.
Equipe do site

Mistura aventurosa entre cinema flibusteiro, "western" e horror, o novo capítulo da saga Disney "Piratas do Caribe" apresenta ao público o enésimo rival do corsário mais amado de sempre: Salazar (Javier Bardem).
Através de recorrentes "flashbacks" é reconstruído outro mosaico do passado de Sparrow (Johnny Depp), que descobrimos ter sido apelidado pelo temido caçador de piratas espanhol. Mas as surpresas, como é óbvio, não acabam aqui.
Eis que voltam à cena o capitão Hector Barbossa (Geoffrey Rush), ligado à bela astronôma Carina por um destino que se diria pouco "estelar"; e conclui-se com a entrada de Henry (Brenton Thwaites), que deseja libertar o pai do terrível encantamento que o mantém prisioneiro no navio fantasma "Holandês voador".
O duo Rønning-Sandberg dirige com mestria um filme de ritmo avassalador e com sequências subaquáticas memoráveis, incluindo a três dimensões.
Os efeitos visuais e especiais constituem a joia da coroa de uma rodagem que não negligencia nada, recuperando elementos da melhor tradição "western", passando pelo "filme de tubarões" até ao horror mais clássico, com uma memorável interpretação de Barden e o recurso a técnicas inovadoras que todas vívida e envolvente como nunca esta nova "armada das trevas".
Mas entre episódios rocambolescos, abordagens corpo a corpo com fantasmas e aventuras impossíveis, o que o novo capítulo da saga pretende acentuar é o tema da reunificação. E se o derradeiro desafio entre Sparrow e Salazar parece ser a fase crucial de um argumento tão rico como emocionante, na realidade são enquadrados em primeiro plano os laços consanguíneos e a necessidade do reencontro.
Entre o sacrifício posto em ato por um (improvável) pai como Barbarossa pelo seu único verdadeiro "tesouro", a filha Carina, e a corajosa missão concluída por Henry para reaver o pai (Orlando Bloom) e rever a sua família unida, eis Sparrow a recuperar a sua família e a regressar ao comando do seu galeão "Pérola negra".
Olhando para o todo, o filme confirma-se uma vez mais à altura das expetativas, sabendo dirigir-se a um público amplo e tocando temas tão profundos como as águas protagonistas.
Ainda que demasiado intenso e longo no final, "Piratas das Caraíbas: a vingança de Salazar" conserva o fascínio do tesouro a descobrir, considera a comissão da Igreja católica em Itália que analisa os filmes, acrescentando que o filme é «brilhante».
Nico Parente
In "Cinematografo"
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 25.05.2017
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