Hoje há consenso sobre o fato de que os Evangelhos começaram a ser redigidos a partir do relato da Paixão; e que antes de serem constituídos na forma a que chegaram, já existia, como seu embrião, a narrativa da Paixão.
Por isso, quando os primeiros cristãos se reuniam, era para recordar a Paixão do Senhor. Ela é, efetivamente, o núcleo vital de tudo o que diz respeito a Jesus. E é a história que nos funda como cristãos, que nos confere a identidade, que nos faz ser.
Quer estejamos ou não conscientes, nós, cristãos, somos uma consequência da Paixão de Cristo. Disponhamos por isso o nosso coração a acolhê-la uma vez mais.
Pode dar-se o caso de nunca estarmos verdadeiramente confrontados com ela. Talvez nunca a tenhamos ainda considerado uma história especialmente dirigida a cada um de nós.
A Paixão de Jesus atesta a verdade fundamental do seu amor, que não é abstrato ou sem destinatário. É um amor real, que podemos experimentar sempre.
Jesus vive a sua Paixão como um ato de compaixão sem medida a nosso favor. Jesus abraça a nossa condição, a nossa inconsistência, abraça aquilo que em nós nos agrada e que não nos agrada, abraça aquilo que nos entristece ter acontecido ou simplesmente não ter acontecido.
Jesus aceita ser provado em tudo para abraçar tudo em nós: «Eu estive sempre ao vosso lado, nunca estive longe de vós, nunca alguma coisa vos separou do meu amor»
Normalmente, quando nos deslocamos de um ponto para outro conhecemos o motivo. Mas – temos de o reconhecer – uma viagem assim é demasiado curta. Uma viagem que se faz conhecendo os seus motivos não é a viagem.
A verdadeira viagem é aquela que interiormente dura tanto, que já não sabemos porque é que viemos ou porque é que estamos ali. As perguntas sobre aquilo que fazemos deixam de interessar.
Estamos ali, ponto final, e chega. Viemos. Demo-nos. Não são o saber ou a função que definem a vida, mas o próprio ser, a expressão profunda de si, o puro dom, e nada mais.
Escreve Rainer Maria Rilke naquele mapa indispensável que são as “Cartas a um jovem poeta”: «O tempo não é uma medida. Um ano não conta. Dez anos não são nada. Ser pessoa não quer dizer contar, quer dizer crescer, como a árvore que não instiga a sua seiva, que resiste confiante».
A beleza mais fecunda é aquela que não se deixa determinar pelas finalidades provisórias ou pelos utilitarismos de cada ocasião.
Antes, é aquela que, sem instigar a sua seiva, a degusta lentamente, deixando-se impregnar completamente por ela: até àquele horizonte em que já não se distingue o meu do teu, nem se separe o amor do objeto amado, nem o tempo seja dividido em passado, presente ou futuro.
Esta fecunda beleza, experimentá-la-emos unicamente no darmo-nos.
D. José Tolentino Mendonça
In: In Avvenire 9.04.2019
O místico medieval Ricardo de São Vítor escreveu: “Onde há amor há um olhar.” Não raro, esse olhar que o amor nos pede acontece no contexto de um sofrimento que preferíamos absolutamente não viver, mas do qual aprendemos alguma coisa — e alguma coisa preciosa — a que sem ele não chegaríamos. O mundo da dor é vasto e bem mais próximo do que supomos. Quando menos pensamos, damos por nós a habitar o seu território. E os sentimentos que, então, nos sobrevêm são tantos: entramos em negação, em revolta, em depressão, em ressentimento; apetece-nos fugir para longe; perguntamo-nos: “porquê?”, “porquê a mim?”, “porquê agora?”; a impressão que temos é que tudo em nosso redor naufraga e nós também; sentimo-nos impreparados para essa empresa exigente. E, relativamente a este último ponto, temos razão. A cultura dominante faz da doença, da velhice, da deficiência e do limite um completo tabu. Persiste uma espécie de interdito a respeito da vida vulnerável: não se fala dela socialmente, cada um deve viver essas situações em estrita solidão, não nos ajudamos a aprofundar essa experiência como um recurso e não como uma fatalidade. Contudo, a verdadeira realidade é tão diferente do desenho traçado pelo egoísmo ou pelo medo. Escutava há dias um pai, falando do seu filho afetado pelo Síndrome de Down, e ele dizia, sem esconder a comoção: “Este meu filho é o membro mais importante da nossa família. É o nosso elo de união. Fez de nós pessoas diferentes, mais humanas e atentas aos outros. Ampliou a nossa capacidade de amar. O que recebemos dele não tem preço.” E, na mesma linha, ouvia de uma amiga que, tendo começado a viver independente dos pais muito cedo, lhe coube depois acompanhar a mãe numa velhice muito sofrida. A vida desta amiga mudou da noite para um dia. De repente, dava por si em trabalhos e preocupações completamente diferentes, em que a mãe era o centro. A princípio, ainda pensava naquilo que estava a perder com esta mudança, mas assumiu-a depois como uma oportunidade de se reencontrar com a vida. Não é que tivesse grandes conversas com a mãe. Passavam, sim, tempo juntas. Caminhavam devagar, de braço dado, nos longos corredores do hospital ou quando desciam ao parque, vizinho da sua casa, para olhar as flores. Massajava com creme a cara, as mãos, os pés da mãe todas as noites. Tinham mil ocasiões para dizer “amo-te” ou “obrigado pelo teu amor”.
Recordo a peça de teatro de Romeo Castellucci, intitulada “Sobre a Definição do Rosto do Filho de Deus”, que esteve em cena em Lisboa, há uns anos atrás. A peça propõe uma reflexão em torno de duas imagens, e a primeira é esta: um filho que trata do pai, de um pai idoso, com muitas limitações de saúde. É até, para os espectadores, uma coisa dura de ver, porque um dos problemas daquele pai é uma incontinência fecal. De maneira que o filho tem de estar sempre a limpá-lo. E muitas vezes nos parece que vai soçobrar, que já não será capaz, porque está sempre a acontecer a mesma coisa. Apercebemo-nos do seu esforço extremo: é extenuante amparar as necessidades de outro ser humano. Mas ao mesmo tempo, com que delicadeza, com que transparente amor aquele filho se debruça para o pai e o sustenta. E há um momento belíssimo no meio daquele combate interminável em que ambos são aliados: agarram-se um ao outro e, abraçados, choram. Pai e filho choram perante o irremediável da própria vida, sentindo que já não vão conseguir resolver nada senão amar-se, senão perdoar-se, senão acompanhar-se até ao fim. Por paradoxal que possa ser, um dia apercebemo-nos que poucas coisas no mundo são tão importantes como essa.
D. José Tolentino Mendonça
In: imissio.net
«A piedade é a única maneira para escapar à aridez que a prática da reflexão cria inevitavelmente nas raízes da nossa sensibilidade. Saber não prepara para amar.»
Extraída de um escrito do conhecido pensador francês Jean Guitton (1901-1999), esta frase apoia-se na consideração de outro escritor, Joseph Joubert (1754-1824), que se referia à aridez a que pode conduzir a pura razão, exercitada de modo exclusivo, exorcizando e excluindo todo o sentimento ou piedade.
Todos na vida já encontrámos pessoas dotadas de grande inteligência mas privadas de humanidade. Houve nazistas intelectualmente muito apurados, mas de igual modo cruéis e implacáveis. Sim, porque como conclui Guitton, o «saber não prepara para amar».
Entendamo-nos bem: também para a amar é necessária pelo menos uma gota de inteligência, para não nos precipitarmos na cegueira ou no sentimentalismo. Mas um conhecimento racional gélido e exclusivo pode gerar monstros e monstruosidades.
«O “führer” tem sempre razão», dizia-se, e esta estúpida afirmação incarnava a degeneração de um pensamento totalitário que não sabe confrontar-se, que se torna ridículo na sua autolatria, isto é, na adoração de si, perdendo assim a luz da verdadeira razão.
«O último passo da razão – dizia outro grande filósofo francês, Pascal – é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam». Então, seguindo ainda as lições de Pascal, aprendamos a seguir «as razões do coração» e a evitar «dois excessos: excluir a razão, só admitir a razão».
Conheci-a numa tarde de verão, quando os ramos arqueados pelo peso da folhagem desenhavam uma longa sombra sobre a rua estreita. Serena e majestosa, abrigava naquele tempo uma pequena orquestra de pássaros selvagens e era ponto de encontro de amigos.
Os anos passaram. Tenho-a acompanhado nas adaptações às diversas estações do ano. Esta semana, por exemplo, a chuva caiu generosa e gratuitamente. O ritmo constante da água e a força do vento agitaram repetidamente os ramos secos e, mesmo assim, ela permaneceu silenciosa e serena, como se escondesse o segredo da juventude, a força que em breve a fará renascer. Amanhã será diferente. Amanhã, o vento voltará a agitar a folhagem, como se uma mão divina passasse os dedos pelas cordas de um instrumento.
Por agora, porém, a intempérie oferece ciclos de sucessivas provações. Despem-na do seu esplendor. Despojam-na da alegre companhia dos homens. Quase esquecida, ela está ali, à espera de um sinal da natureza para que volte a ser uma bênção. Ela persiste austera e silenciosa como um monge, de ramos erguidos para o céu, quais braços abertos à procura da eternidade. Serena e majestosa.
A Quaresma bate à tua porta como uma intempérie de sinais e palavras: cinzas, roxo, despojamento, jejum, abstinência, esmola, silêncio, oração e oração. A Quaresma é como um parto. A Quaresma é como se estendesses a mão e ouvisses pela primeira vez «não basta este pão». E a fome põe-te a caminho.
Como a copa da árvore num início de outono, descobres, nestes dias, que os quartos da tua casa estão arqueados de objetos imprescindíveis e imagens endeusadas sob as quais se escreve, num jogo de luz e sombras, «não me adores mais». Ali está também o velho relógio a medir o tempo com um ponteiro que não se cansa de repetir as mesmas voltas. Quantas voltas já deste aos mesmos temas? Quantas vezes já repetiste os esquemas obsoletos na esperança vã de vencer e dominar? Vais aprender, nesta Quaresma, que perder é ganhar?
Compreendes que é tempo de sair sem os artifícios do verão. Viajas em sentido contrário? Percorres ruas esquecidas? Lês mapas antigos? Reencontras aqueles que tens evitado? Não te arrependas nem tentes o Criador com os teus lamentos. A intempérie que te faz sofrer é também aquela que te fortalece. A provação que te despoja é aquela que te enriquece. E se a vocação daquela árvore, serena e majestosa, é confundir-se com o céu, tu também estás chamado a crescer, cada vez mais livre, em direção à eternidade.
É uma arte difícil, a alegria. Por um lado, sabemo-la próxima e acessível, como se os nossos dedos pudessem, a cada momento, e sem esforço, alcançá-la. Mas sabemos também como nos escapa, como é precária, dolorosa e inexplicável a alegria. Como nos obriga a procuras extenuantes e a desertos cujo fim não se divisa. Não admira, por isso, que muitos desistam da alegria e se metam a caminhar, vida fora, excluindo-a do seu alforge. A alegria, porém, é uma condição necessária da existência. Sempre que ela nos falta temos de interpretar isso como um iniludível sintoma, a que é preciso atender. Temos de nos interrogar sobre o porquê do nosso viver burocrático e tristonho, o porquê do nosso passo precocemente anoitecido, do nosso errar entre o peso e a cinza de onde a alegria se ausenta.
Não raro o problema é fazer depender a alegria de motivações acidentais, que nada têm que ver com a sua essência. Julgamos extrair a alegria do sucesso, da abundância, da força, da afirmação, da eficácia, do poder, mas o tempo encarrega-se de demonstrar o nosso equívoco. Os mestres espirituais ensinam, por exemplo, que a alegria não depende do imediato ou conjuntural: a alegria liga-se às razões profundas do viver. De fato, ela não deve ser reduzida a uma espécie de estado de graça que nos toca em certas estações ou a uma maravilhosa isenção face à turbulência e aos contrastes do mundo. Pelo contrário. Se pensarmos bem, a maior parte do tempo, a nossa vida é experiência de inacabamento e incompletude, é esboço e projeto, é movimento transformante. Como escrevia Montale: “Não existe um tempo inteiro:/ temos sempre tantos fios/ a correr em paralelo/ fios em sentido contrário/ que raramente coincidem.”
Conta-se nos ‘Fioretti’ (a célebre recolha hagiográfica que se tornou uma das fontes para conhecer o franciscanismo das origens) que regressando São Francisco de uma viagem para o seu convento de Santa Maria dos Anjos, fustigado por um inverno particularmente hostil, o seu companheiro Frei Leão lhe perguntou: “Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria.” E que São Francisco lhe respondeu desta maneira: “Imagina que ao chegarmos a Santa Maria dos Anjos, completamente encharcados, desfigurados pela lama da estrada, pela fome e pelo frio, batemos à porta do convento; o porteiro aproxima-se irritado e diz: ‘quem são vocês?’; e nós explicamos: ‘somos dois dos vossos irmãos’; mas ele responde, ‘vê-se claramente que estão a mentir, são, sim, vagabundos que roubam as esmolas destinadas aos pobres. Fora daqui!’. Quando o irmão porteiro nos fechar a porta, e nos abandonar sem apelo à neve e à fome, se soubermos suportar tal injúria de bom modo, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele, possuiremos então a perfeita alegria.”
É uma arte de paciência, a alegria. Ela pede de nós a capacidade de desconstruir as nossas expectativas, necessidades, idealizações — coisas a que estamos mais apegados do que supomos — e a provar aquela liberdade que vem de abraçar a vida nas suas não-coincidências (como sugeria o verso de Montale), com os seus sofrimentos, os seus revezes, as suas interrogações e pausas, as suas misteriosas travessias. E a fazê-lo sem ressentimento, mas aceitando que a esperança se expressa de um modo alternativo, prossegue por um caminho outro, capaz de nos surpreender. Na verdade, é um artesanato a alegria, não um produto prefabricado. É uma coreografia que avança por tentativas e não um enredo prévio, que já dominamos. Somos felizes quando, reconhecendo a nossa própria fragilidade, nos reconhecemos também prometidos não só à alegria, mas à perfeita alegria.
D. José Tolentino Mendonça
In: Missio.net 02.03.2019
Este seria um titulo improvável há uns anos atrás, diria mesmo impossível. Pois bem, desenganem-se aqueles que pensam que nos falta um acento numa das vogais ou estamos a falar de uma espécie de sheik das arábias porque estamos precisamente a falar da visita do Sumo Pontífice, chefe da igreja católica apostólica romana, magna organização dos cristãos com mais de 2000 anos, a um país árabe do golfo pérsico.
Quais são afinal, os impactos desta visita, já histórica, aos Emirados Árabes Unidos?
Comecemos pelo espírito de abertura que preside ao presente diálogo inter-religioso, num sinal claro de mudança e que promete e impõe uma aliança entre muçulmanos e católicos, tão necessária num mundo profundamente marcado pela influência dos religiosos, sobretudo pela negativa e fruto, diga-se em grande parte da atuação deficitária dos seus líderes.
Por outro lado, é razoável admitir-se um reconhecimento e cada vez maior afirmação de Al-Azhar, como a referência no mundo islâmico, estando para este último como o Vaticano está para o catolicismo. Al-Azhar é considerada a elite do mundo islâmico acadêmico sunita e é dotada de um discurso pacífico, com uma raiz e visão já per se ecumenista (não nos esqueçamos que começou por ser xiita) e moderada, orientada pelo seu grande Imã, Sheik Ahmed Al Tayeb, que esteve com o Papa Francisco seis vezes, nos últimos tempos.
A história recente do mundo globalizado em que vivemos trouxe consigo um rol de novos desafios, designadamente a mudança no paradigma da integração que, se por um lado deveria ser desnecessária tendo presente a ampliação das fronteiras anteriormente impostas, é cada vez mais necessária, sôfrega muito por culpa dos movimentos migratórios que se fazem sentir, sejam estes voluntários ou não (refugiados).
É preciso pois, refletir sobre se a religião pode e deve ter um espaço e/ou locais próprios ou se extravasa essa circunscrição, tendo por isso uma feição universalista. Achei especialmente curioso a forma como os cristãos do médio oriente fazem as suas preces, levantando as mãos para o céu (como fazem os muçulmanos de todo o mundo no Duá) ao invés de orarem como um típico católico de Lisboa faria, o que me faz crer que na subtileza dos pormenores assentam as vicissitudes de carácter cultural que impregnam a realidade religiosa, umas vezes bem, colorindo-a, outras nem tanto, conspurcando-a.
A ameaça global do terrorismo transporta-nos para a necessidade de perceber o papel das religiões e de se saber se estas estão demode, tantas vezes que são instrumentalizadas para cumprir com agendas de outra índole.
A somar a isto, os habituais avanços e recuos de natureza geopolítica e estratégica, que nos convocam a uma estabilidade periclitante e mais grave do que isso: são geradores de incertezas e impõem escolhas que nem sempre temos como certas.
É neste contexto que se insere a visita de Sua Santidade aos Emirados Árabe Unidos, afirmando que neste local no qual “areia e arranha-céus se encontram, continua a ser uma importante encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente, entre o Norte e o Sul do planeta, um lugar de desenvolvimento, onde espaços outrora inóspitos reservam empregos para pessoas de várias nações.” (Papa Francisco durante a visita aos EAU, discurso por ocasião do encontro com o Concelho Islâmico de Anciãos)
Visto como um melting pot das mais variadas religiões e culturas, os EAU são assim e do nosso ponto de vista inegavelmente uma terra de tolerância, conforme demonstra a iniciativa de realizar diversas actividades ao longo do ano nesse âmbito, promovidas pelo ministério com o mesmo nome.
A visita papal teve vários momentos relevantes, dos quais destacaremos apenas um — a missa — para a esmagadora maioria dos católicos, foi a primeira manifestação publica de fé, o que denota um facto histórico. A cruz é ainda proibida publicamente e as manifestações de cristianismo são permitidas, embora devam ser discretas. Espera-se que após esta visita tal venha a mudar, e que a liberdade religiosa no oriente seja uma plena realidade.
À boa maneira portuguesa eu e o meu companheiro de viagem, Pedro Gil, católico e que faz um programa de rádio comigo há mais de dois anos, fomos dar um passeio no jardim da tolerância, que assinala a visita conjunta do Papa Francisco e do grande Imam e onde coabitam ainda a catedral de Abu Dhabi, uma igreja copta ortodoxa e a mesquita que agora recebeu o nome de Maria mãe de Jesus.
Vizinhança essa aliás, muito útil, dado que o passeio foi precedido de uma missa e oração, respectivamente — cada um para seu lado — e separados por uma fé que se une por uma amizade, admiração e respeito inabaláveis.
Pois a verdadeira solidariedade entre os povos é demonstrada pelo abraço caloroso e cúmplice que o Papa e o Imam deram, num gesto de absoluta humanidade, que é também a nossa, sem máscaras nem artifícios, num verdadeiro amor incondicional.
[@Observador | Khalid Sacoor D. Jamal | Vogal da Direção da Comunidade Islâmica de Lisboa,
In: imissio.net 11.02.2019
Os gregos descreviam a experiência humana partindo de três dimensões. Trata-se de uma visão ancestral, mas que podemos acompanhar ainda. A primeira dimensão seria a da memória (mnemis), que fornece a base primária daquele conhecimento que torna viável a vida. Sem a memória teríamos de reaprender tudo, a cada instante. É por ela, por exemplo, que dormimos e, no dia seguinte, somos capazes de andar, capazes de comer, de reconhecer o mundo a nosso lado, de saber quem somos. Se a todo o momento tivéssemos de perguntar, “como se caminha?”, “como se fala?”, “como se ama?”, a vida emergiria lentíssima e, certamente, muito diversa. Outra dimensão fundamental para os gregos seria a aesthesis, isto é, a percepção sensível do presente. A nossa experiência concretiza-se numa prática sensorial: podemos ver, ouvir, cheirar, tocar, sentir. A vida é tátil, é isto de que nos podemos aproximar, é o que trazemos entre mãos. Mas atenção: a vida não se resume apenas à memória e ao presente que apreendemos com os sentidos. Os antigos nomeavam uma ulterior e necessária dimensão, que chamavam esperança (elpis), explicada como a consciência de que havia um além, um amanhã. A ideia de um futuro foi sempre tida também como determinante, mesmo se para os gregos a esperança era uma coisa na qual não se podia propriamente confiar. Píndaro explicita-o bem quando relata que, no princípio, os deuses colocaram todas as coisas boas para o homem dentro de um vaso e lhe puseram uma tampa, com a proibição de removê-la. Mas o homem avizinhou-se do vaso e destapou-o. Quando fez isso, todas as coisas saíram de repente e o único bem que ficou dentro foi a esperança, a esperança daquelas coisas perdidas.
Creio que daqui se extrai uma dupla conclusão: não podemos viver sem esperança, mas esta não é uma tarefa estável e fácil. Muito pelo contrário. No extraordinário poema que lhe dedicou Charles Péguy (e que Armando Silva Carvalho traduziu magnificamente para a nossa língua) garante-se que a única realidade que deixa o próprio Deus espantado, em relação ao homem, é a esperança: “Não é a fé que me espanta.../ A caridade, diz também Deus, essa não me espanta.../ Mas a esperança, diz Deus, essa sim causa-me espanto./ Essa sim, é digna de espanto./ Que essas pobres crianças vejam como tudo acontece/ E acreditem que amanhã será melhor./ Que elas vejam o que se passa hoje e acreditem/ que amanhã de manhã será melhor./ Isso é espantoso e essa é a maior maravilha da nossa graça./ E isso a mim mesmo me espanta.”
A esperança não é um lenitivo que adormece a dor até que ganhemos coragem para tratar a sério da vida, mas uma força que já hoje nos motiva para a transformação da história. A esperança não é um adiamento, mas um compromisso. Não é uma abstração idealizada, mas um dinamismo concreto, uma laboriosidade, um fazer. Precisamos de uma educação para a esperança.
Sobre o seu significado profundo, e de como se pratica, há aquela história do velho monge que se propunha alcançar o cimo de uma montanha e que, numa das etapas iniciais do caminho, pernoita numa estalagem. O estalajadeiro repara na sua fragilidade e tenta dissuadi-lo, enumerando os perigos que o espreitam, e que certamente acabarão por vencê-lo. O monge, porém, respondeu: “Tenho a certeza de que chegarei lá.” “E como é que um homem fraco como tu pode ter semelhante certeza? Para mais, vem aí um inverno duro.” O ancião retorquiu: “Coloquei lá em cima o meu coração e por isso sei que, mesmo assim inseguros, os meus passos hão de chegar lá.”
Pe. José Tolentino Mendonça
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Riquezas das Minas Gerais, seus minérios e tantas outras maravilhas, que tão generosamente nos foram dadas pelo Criador, transformaram-se em sua perdição. Minas vê, gravíssima e rapidamente, seus rios, lagos, afluentes, terras agricultáveis, comunidades e suas culturas sendo dizimadas. São cometidos crimes contra a vida humana, contra o meio ambiente e contra o direito de viver em comunidade e em família.
Na Encíclica Laudato si, o Papa Francisco nos alerta para a necessidade da urgente compreensão de que o Planeta agoniza e clama contra o mal que provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nele colocou.
O que foi legado ao homem para que prospere e tenha uma vida plena e a transmita às futuras gerações, a ação irrefreavelmente gananciosa e criminosa das mineradoras destrói em tão pouco tempo. Vemo-nos diante da débil regulação deste setor pelo Legislativo, eivado de pessoas financiadas por essas empresas e que são autorizadas pelo Executivo, imiscuído em múltiplos interesses nem sempre republicanos e precariamente fiscalizadas pelos órgãos que existem para isso. Soma-se a isso um Judiciário leniente, ensimesmado, caríssimo, insensível, pretensioso e divorciado do povo brasileiro. Foi assim em Mariana, pela Vale/Samarco, até hoje “na justiça”; é assim em Brumadinho, pela Vale. Não podemos deixar que assim continue.
Não houve um acidente nessas Minas Gerais. Houve um crime ambiental e um homicídio coletivo. Uma matança de pessoas, animais e do meio ambiente. Quase mataram também a esperança, a fé, a dignidade e o amor das pessoas que sobraram, agora terrível e indescritivelmente sofridas, mas em processo curativo, em reconstrução, soerguimento, revitalização e retomada de posse de sua brava dignidade. Como não há uma empresa mineradora em abstrato, as pessoas que nela atuam e têm responsabilidade sobre esta tragédia devem ser rigorosamente punidas, para que, juntamente com a mineradora, não caiam em desgraça também os que exercem os poderes acima citados e já tão pouco acreditados. Conscientemente, as mineradoras optam, por serem mais baratos, por modelos de exploração de minério de ferro e de outros metais mais danosos ao meio ambiente e à vida humana. O lucro exorbitante, quase ilimitado, com pouco retorno à sociedade por meio do poder público, é o único critério e preside, inconsequentemente, as decisões em relação aos modelos de exploração dos recursos naturais.
Por causa dessa sede insaciável e enlouquecida por riquezas cada vez maiores, “que a traça e a ferrugem destroem e os ladrões roubam” (Mt 6,19), concentradas sempre mais nas mãos de pouquíssimas pessoas, empresas mantêm trabalhadores na pobreza a vida inteira e expostos à morte. A mineração em nosso País se tornou eticamente insustentável, calamitosa e de altíssimo risco para a vida humana e toda a vida existente em suas áreas de atuação.
A dimensão cruel e potência danosa da reincidência desses crimes nos apontam que apenas o fato de não se tratarem de um contexto de conflito armado é que os distingue de que sejam entendidos como crimes de lesa-humanidade. As práticas de seus infratores, afinal, se mostram sistemáticas, resultam da clareza dos riscos e danos de suas ações em covardes atos desumanos e contra a população civil.
Por isso mesmo, urge que as pessoas, organizações e instituições que valorizam a vida humana, que querem defender a natureza dessa progressiva e suicida destruição, se insurjam contra esse modelo de negócio que enriquece tão poucos, destruindo a vida de tantos. Do modo que se realiza, esta economia mata, repito o Papa Francisco, o maior líder humanitário do mundo atual.
É inadmissível a persistência desse modelo econômico de enriquecimento pela destruição. É impossível continuarmos aceitando que a natureza, obra-prima de Deus, seja sistematicamente destruída. E que milhares de trabalhadores, idosos e crianças, mulheres e jovens, prevalentemente os mais pobres e humildes, sejam diariamente expostos ao risco de morrer em função de uma ganância deplorável.
Precisamos, talvez como nunca antes, como nos convoca o Papa Francisco, cujo nome tem inspiração em São Francisco de Assis, “exemplo por excelência pelo cuidado com o que é frágil e a ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade” (Laudato si), de um debate que una a todos, porque o desafio ambiental diz respeito e tem impacto sobre todos nós.
Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães
Reitor da PUC Minas
Bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte
Não é só o ano que começa. Qualquer que seja a nossa idade ou a estação em que nos encontremos a viver, a verdade é que somos, até ao fim, uma coisa no seu começo, a verdade é que habitamos unicamente começos. Nada mais. Não vimos outra coisa enquanto estivemos aqui. A nossa estirpe é a dos recém-nascidos, portanto. Uma das mais belas frases que conheço pertence a uma página bíblica, a Primeira Carta de Pedro. E a frase diz (ou ordena) o seguinte: “Como crianças recém-nascidas, desejai” (1Pd 2,2). Somos, mesmo com dezenas, com centenas de anos e séculos em cima, “crianças recém-nascidas”. E devemos muito à misteriosa fragilidade dos recém-nascidos que, no fundo, ainda é a nossa, que, sabemos, será sempre a nossa. O nascimento deve ser reconhecido como estrutura fundante da vida, a sua irremovível arquitetura primária, e não apenas como uma das suas formas ocasionais, furtivas e possíveis. Quanta sabedoria existe naquele poema de Lao Tsé: “Quando os homens ingressam na vida são tenros e frágeis; quando morrem são hirtos e duros. Por isso os hirtos e duros se tornam mensageiros da morte e os tenros e frágeis são os mais credíveis mensageiros da vida.” Gosto de pensar que o verbo nascer é um verbo incessante, que faz de nós “credíveis mensageiros da vida”. Se pensarmos bem, conjugamos o verbo nascer milhares de vezes ao longo do nosso percurso. E mesmo aquelas experiências que, pela sua exigência, esforço ou sofrimento, não percebemos logo como itinerários de nascimento, se revelam depois uma etapa desse parto perene que é a nossa condição. A vida é fluxo, circulação espantosa, sucessão no aberto. A vida é interminável ação de nascer. Há um paciente e necessário trabalho a realizar para passar da tentação de fixar a vida em momentos determinados, cristalizando-a em imagens tanto euforicamente utópicas como desalentadamente distópicas, à capacidade de hospedar a correnteza da vida como ela nos assoma, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Um amor sem expectativas, nem julgamentos. No fundo, aquele amor que não nos coloca a amar a vida hipoteticamente pelo que dela se espera, mas a amá-la incondicionalmente pelo que ela é, muitas vezes na completa impotência ou na extrema vulnerabilidade de vida recém-nascida. Por isso, felizes aqueles que cultivam mais o espanto do que a decepção ou os que exercitam mais a aceitação generosa do que o ressentimento. Felizes os que no incompleto e no inacabado são capazes de ver a insinuação de uma promessa, mais do que uma lacuna. O importante é assim saber, com uma força que jorre do fundo da própria alma, se estamos dispostos a amar a vida como esta se apresenta e não como a fantasiamos. Como recordava Françoise Dolto, a nossa hora de maturidade só chega “quando, como qualquer outro ser humano, sentimos um desejo suficientemente forte para assumir todos os riscos do nosso próprio ser. Aí estaremos prontos a honrar o nascimento de que somos portadores”.
Por vezes, cansados e confundidos, não conseguimos compreender que certas etapas cambaleantes nos servem para um reencontro benéfico com o nosso próprio passo. E podemos dizer que a alegria que provávamos no caminho não passou de um relâmpago breve, que nos precipitou em seguida no escuro. Ou da esperança podemos pensar que só nos iluminou porque ignorávamos que também ela era transitória. E da leveza, da gentileza ou da amizade podemos temer: chegará o outono e também elas voarão. Que injustiça, porém. O que vimos todo o tempo foi a vida a nascer.
José Tolentino Mendonça
In: Missio
«O futuro é como o paraíso: todos os exaltam, mas ninguém quer ir agora para lá.»
Encontro esta curiosa consideração – difícil, em todo o caso, de desmentir – num afro-americano hóspede de uma família de amigos e que a cita da obra intitulada “Ninguém sabe o meu nome”, de um escritor como ele negro e norte-americano, James Baldwin (1924-1987), cantor dos direitos civis, das minorias, da espiritualidade bíblica do bairro de Harlem em Nova Iorque e dos ritmos dos “blues”.
Há uma verdade indiscutível nestas palavras. Fala-se muito bem do paraíso, exalta-se outro mundo mais justo, espera-se um ano melhor que o anterior, mas na verdade fica-se plantado no hoje, nos interesses codificados, no pequeno horizonte habitual, nos hábitos inamovíveis.
Entendamo-nos bem: é perigoso viver de ilusões, tendo a mente e o coração inclinados apenas para um futuro evanescente. Pode, com efeito, nascer uma espécie de alienação que causa a renúncia em relação ao presente (e por vezes uma religiosidade mal compreendida produziu efeitos deste gênero).
Mas é de igual modo arriscado extinguir todo o desejo, eliminar todo o projeto, demolir toda a utopia, castigar a espera, tombando num cruel realismo, feito apenas de cálculos e vantagens imediatas.
É esta a escolha da pessoa tacanha e egoísta, da sociedade sem grandes ideias, da política que se contenta com a gestão do imediato, da pastoral que ignora os valores últimos e, portanto, também o além e o paraíso.
Dito com as palavras de outro escritor americano, Oliver Wendell Holmes, que viveu no século XIX, «a coisa mais importante na vida não é tanto onde estamos, mas em que direção estamos indo».
P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 14.01.2019 no SNPC de Portugal
Sabemos o tempo que já vivemos, mas ignoramos por completo quantos anos temos ainda para viver!
A vida vai-nos empurrando sempre para diante, fossilizando o que foi vivido e impedindo-nos de lá voltar, nem que seja por um segundo. O passado é imutável, embora seja sempre uma riqueza pessoal, qualquer que seja a proporção de sucessos e fracassos, de erros e decisões acertadas.
Podemos arrepender-nos, entregando o nosso futuro como penhor da culpa passada, alterando as nossas escolhas a fim de ultrapassarmos a falha. Mas também podemos fugir para o amanhã, como se o que fomos não fosse parte do que somos.
A vida é um dia, um instante passageiro, uma hora que sempre nos escapa. É certo que a vida se vive para diante… Mas para a compreender é essencial aceitar, assumir e analisar com o máximo cuidado todo o trajeto e cada um dos passos que foram dados.
Se o amanhã não é certo, devemos pensar bem sobre o que queremos e o que não queremos hoje, evitando deixar que o acaso guie a parte que nos cabe decidir.
Importa abrir o coração ao que nos ultrapassa, porque a vida é um mistério profundo e um milagre bondoso.
A nossa existência é essencial à vida, mas o mar é grande e o nosso barco é pequeno.
Que eu seja capaz de deixar as minhas misérias para trás e aventurar-me pelos oceanos desconhecidos da liberdade.
Que eu saiba escutar o Amor e aprenda, no silêncio da sua presença, a compreender o mistério da minha existência.
Artigos de opinião publicados no site da Agência Ecclesia
Uma das mais belas correspondências de Natal que conheço é a que o poeta Rainer Maria Rilke manteve com a mãe, ao longo de 25 anos. Claramente as cartas de ambos deveriam ser escritas e recebidas antes da festa. A mãe, Sophia Rilke, residia estavelmente em Praga, mas Rainer Maria era uma espécie de apátrida espiritual, girovagando por refúgios de empréstimo, em França, Itália, Alemanha, Espanha, Rússia, Suíça. A distância geográfica ou as dificuldades de comunicação não os impediram, porém, de manter, por longo tempo, um ritual preciso, cheio de ressonâncias: às dezoito horas em ponto de cada dia 24 de dezembro, quando as mil luzes natalícias brilham mais ainda como que intensificadas pela chegada do último crepúsculo antes da grande festividade, eles finalmente abriam, com viva e lentíssima emoção, a respetiva carta natalícia. Numa dessas missivas, o poeta explica em detalhe o cúmplice processo de escrita, definindo-o como uma comum experiência de gestação da alegria. Escrever a carta, antecipando o efeito que ela causaria no correspondente; selecionar as palavras, o papel, as imagens, os sons e as cores; calcular exatamente os tempos que garantiam a chegada ao destinatário — tudo era uma excitante pré-alegria que deixava o espírito em alvoroço até à vigília, quando o relógio batia as dezoito horas.
Contudo, o traço porventura mais surpreendente desta correspondência é que ela constitui um ensaio sobre aquela solidão que experimentamos no Natal, e que exploramos tão pouco. Há uma desaceleração interior que, por desconfortável que possa ser, constitui uma oportunidade para entrar dentro do próprio coração. E o coração, mesmo no seu quebrantado pulsar, mesmo no seu doloroso esvaziamento, é, como escreve Rainer Maria Rilke, “uma ilha de Deus, uma filial do céu”. A solidão própria do Natal vem descrita como uma irrevogável chamada ao recolhimento. É bom sentir que tudo em nosso redor, e que nós próprios, de repente, nos aquietamos. E que as horas se tornam pacatas, entreabertas e misteriosas num modo que nos é inabitual, para não dizer desconhecido, porque “o infinito nos quer assim surpreender”. É bom sentir que o vazio que se sobrepõe a todos os embrulhos que trocamos e que o silêncio interno que fala mais alto que o vozear querido que nos circunda têm, sem compreendermos como, a forma de um dom.
Esse vazio, que resiste à avalanche de consolações que recebemos, é, de fato, o verdadeiro dom: a possibilidade não de desejar isto ou aquilo, mas de provar a explosão de um desejo em estado puro, em grau tal que só o podemos abandonar nas mãos de (um) Deus. O resto, sim, são as circunstâncias externas, provisórias e passageiras. O poeta insiste em falar à mãe das vantagens desse máximo recolhimento perante “o antigo, o santo esplendor da soleníssima vigília”. E escreve: “Devemos permanecer silenciosos e solitários e pacientes para acolher em nós a graça de uma hora que a muitos não cega a revelar-se, porque neles há demasiado rumor e uma escassa ordem. Tudo depende, afinal, de aprender a ligar-se àquilo que é grande, àquilo que vivemos apenas no coração e que nada pode turbar. Se nestes momentos de grande recolhimento e elevação compreendemos que a vida está naquilo que, palpitante e solene, se move em nós e nos deslumbra com lágrimas que brotam do profundo mais luminoso, então a modesta confusão que nos circunda ainda, o ordinário e o turbulento que corre não poderão já fazer-nos desanimar.” Talvez precisemos de abraçar a solidão de que facilmente fugimos, pois nela, e de uma maneira carregada de prodígio, acontece o Natal.
José Tolentino Mendonça
In: ww.imissio.net
«O Natal é o nascimento absoluto que reflete e assume, ilumina e redime, abençoa e consagra todos os nascimentos anteriores e todos os nascimentos depois. Cada homem que vem à luz repete o milagre do Natal de Cristo;
porque é Deus que decide aquele nascimento; é Ele que quer aquela vida. É precisamente em cada um desses nascimentos, em cada uma dessas vidas, sem exclusão, que o impeliu desde sempre a fazer-se carne.»
Para os nossos votos natalícios quisemos deixar para trás a coreografia tradicional: não faltam textos literários e espirituais que se confiam a estrelas, neves, pastorinhos e música para dar vida ao presépio, um símbolo aliás querido a todos.
Desta vez damos espaço a uma citação “pesada”, um parágrafo “teológico” extraído do livro “A majestade da vida”, de Giovanni Testori, escritor italiano que morreu em 1993. É muito sugestiva a fusão que ele opera entre o «nascimento absoluto» e emblemático de Cristo e todos os outros nascimentos.
Jesus nasceu, isto é, quis ter um início como todas as suas criaturas, Ele que era eterno, precisamente para partilhar connosco o tempo, a história, a carne. E como todos nós quis ter um fim, uma morte Realizou isto para depor em todos os nascimentos e em todas as mortes, com a sua presença, uma semente divina.
Como escreve Testori, o Natal do Filho de Deus «reflete e assume, ilumina e redime, abençoa e consagra todos os nascimentos», todas as vidas.
Devemos por isso amar a vida dos viventes, de quem agora nasce até a quem morre, porque nela se celebra uma manifestação de Deus, um desvelamento da sua partilha com a nossa realidade, uma revelação do seu amor.
P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins:
Publicado em 21.12.2018 no SNPC (Portugal)
Quando penso neste tempo litúrgico do Advento que antecede o Natal, e que em grande medida aprofunda e desvela o seu significado, vem-me muitas vezes à cabeça um livro do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, “Morte e Vida Severina”. É um livro de poesia, como o são afinal tantos livros bíblicos. Mas este livro contemporâneo o que é que conta? Narra a história de Severino. Severino é o homem, o ser humano apenas, mais um de nós, um qualquer Adão. Severino é uma criatura provada, porque a vida é dura, implacável; a vida não retribui diretamente o sonho, o esforço, o investimento afetivo que nós nela colocamos. Aquele Severino — como muitas vezes nós — sente-se só, traído e espoliado sobre a terra. E vai numa espécie de demanda à procura de uma solução que não encontra. Percepciona, dramaticamente, a existência como inútil empresa. Repete a si mesmo que, se não encontra respostas para as áridas interrogações que traz, talvez o melhor seja pôr fim a tudo. Com estes pensamentos põe-se a caminhar perto de um rio e encontra, a dada altura, um carpinteiro chamado José, a quem pergunta se o braço de rio é suficientemente fundo e com lodo bastante para que uma vida nele se perca.
O carpinteiro percebe o seu tormento e tenta dissuadi-lo. Severino volta-se para José e suplica: “Então dá-me uma razão. Dá-me uma razão que seja, que diga que a vida vale a pena.” Quando estavam os dois nesta discussão, a conversa é interrompida por um coro de vizinhos, parentes e conhecidos do carpinteiro, que lhe vêm anunciar, cantando, que a sua mulher acaba de dar à luz. Somos, então, conduzidos ao lugar onde está o menino e José saúda com entusiasmo o seu nascituro. E dirigindo-se ao desesperado Severino diz que é verdade, que também ele não tem uma resposta para lhe dar, mas adianta: “Não há melhor resposta que o espetáculo da vida:/ vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida,/ ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica”. Na realidade, a vida responde manifestando-se, dando-se a si mesma, abrindo-nos ao desabalado espetáculo que é a própria existência, a esse inacreditável e despojado milagre que a vida é em si mesma. É olhando, acolhendo e abraçando a vida que podemos ser curados das nossas dúvidas, daquilo que em nós parece apenas rasgão, desolada ferida para tratar, vazio e subtração. É quando confiamos no milagre da vida que podemos olhar de outro modo para esta sensação que nos há de acompanhar até ao fim: a sensação de sermos algo de inacabado, inconclusivo, até irreparável. Penso que o Advento constitua um anual interromper a conversa.
Todos andamos ocupados com uma interlocução qualquer. Uma confabulação mais ou menos feliz, mais narcísica ou mais altruísta, mais isto ou mais aquilo. Esbracejamos por uma solução, pela âncora de um sentido que nem sempre é óbvio, que quase nunca é evidente ou fácil. O Advento traz uma interrupção. A conversa interrompe-se com um cortejo que vem anunciar um nascimento, que insiste em abrir-nos os olhos para repararmos antes de tudo na vida, na vida estreme, no valor da vida sem mais, nesse tesouro essencial. Na representação do Jesus que nasce não há ornamentos. Ele nasce desprovido como um Severino, sem nada, naquele curral de animais onde é só a vida que conta. O Advento é, assim, um tempo para suspender as nossas soturnas trocas de razões, os nossos longos percursos fechados, a nossa interminável inquirição. E para deixarmo-nos antes ficar diante do espetáculo da vida, da vida que incessantemente se faz nova, mesmo quando não nos apercebemos, mesmo quando julgamos qualquer saída impossível. A vida encarrega-se de fazer-nos sentir desarmados, repentinos e inocentes diante do parto de Deus.
José Tolentino Mendonça
17.12.2018
In: iMissio.net
Nós que muitas vezes, demasiadas vezes, colocamos tudo no mesmo saco, passamos a olhar com desconfiança para algumas palavras. Uma dessas, colocadas sob suspeita, é a palavra leveza. As razões para um crescente mal-entendido em relação a ela são múltiplas, e — temos de reconhecer — obrigam-nos a viagens não necessariamente fáceis ao interior de nós mesmos. Eu identificaria três dessas razões que nos fazem viver em conflito. A primeira de todas é que nós humanos, com todo o nosso peso, nunca deixamos de aspirar à leveza. Podemos não ter consciência disso, podemos sentir que os nossos dias são de chumbo, e que, no emaranhado de tudo o que nos cabe viver, experimentamos unicamente o contrário da leveza. Contudo, habita-nos um persistente e interminável desejo disso que a leveza significa, mesmo quando esse desejo se exprime apenas como um desencontro, um tormento ou uma sede. Vem-me à memória a passagem de um poema de Antonia Pozzi: “Trago o desejo daquilo que é leve/ no coração que pesa.” Nós somos esse “desejo daquilo que é leve”. Não é por acaso que, por exemplo, no seu extraordinário estudo sobre a morfologia dos contos populares, o russo Vladimir Propp insiste tanto na figura do “herói que voa pelos ares”. No dorso de um cavalo ou nas asas de um pássaro, num carro de fogo ou sobre um tapete voador, arrebatados por um espírito ou pela força do vento: todos nós conhecemos histórias em que os heróis rematam assim o seu percurso. Ora, há que dizer que não se trata apenas de um imaginário literário, mas que estamos sim perante uma simbólica capaz de descrever a nossa universal condição antropológica. Mesmo quando desistimos da leveza, a leveza torna, não desiste de nós.
A segunda razão que nos faz estar em luta com a leveza como que contraria esta primeira. E prende-se com a síndrome da “insustentável leveza do ser”. O escritor Milan Kundera, no célebre romance que adota esse título, faz a anatomia desse desacerto. Por que razão acontece — pergunta-se ele — que na vida de cada ser humano tudo aquilo que escolhemos e colocamos do lado da leveza acaba por revelar, cedo ou tarde, um peso insustentável que desconhecíamos? Isso é assim com tantas das nossas melhores ideias, com formas de organização cultural e política que julgamos primeiro fulgurantes, mas também com incontáveis pormenores da nossa humanidade. Um certo cinismo que caracteriza a vida adulta e que a barrica num niilismo encapotado tem a ver com a ativação do instinto de defesa face às reviravoltas inevitáveis no interior do binômio peso-leveza.
O terceiro motivo tem a ver com a necessidade de libertar o conceito de “leveza” dos seus equívocos e perceber que o caminho de aproximação a ela exige uma espécie de conversão do nosso modo de olhar a vida. Ítalo Calvino, que considerou a “leveza” uma das poucas palavras fundamentais para este novo milênio, escreveu que há uma leveza da frivolidade, mas há também uma leveza do pensamento e que esta “pode fazer a frivolidade parecer pesada e opaca”. Vale, por isso, a pena perguntar de que falamos quando falamos de leveza? Não é fácil explicar o que é a leveza. Calvino, mais do que um conceito, descreve-nos um processo pessoal de descoberta: “Cada vez que o reino humano me parece condenado ao peso, digo a mim mesmo que, como Perseu, eu devia voar para outro espaço. Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou o irracional. Preciso mudar de ponto de observação, preciso considerar o mundo sob uma outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controlo.” A leveza ensina-nos alguma coisa importante sobre a arte de renascer.
Por irônico que possa parecer, a ideologia da felicidade — que hoje contamina todos os planos da vida e da sua representação — tem disseminado de modo maciço a frustração, a tristeza e a infelicidade. Tornamo-nos mais infelizes a partir do momento em que erguemos a felicidade como idealização que absorve o nosso imaginário e ainda não percebemos até que ponto esse conceito abstrato se tornou uma armadilha que nos aprisiona no seu inverso. Numa sociedade que faz da apologia da felicidade a todo o custo o seu credo, todos nos sentimos culpados ou defraudados, incapazes de perceber que estado seja esse e como realmente se obtém. Basta olhar para as definições de felicidade: as únicas com sentido são as que escapam sabiamente a todo o esquematismo. Como aquela onde se pergunta: “Como explicarias a felicidade a uma criança?” E se ouve como resposta: “Eu jamais explicaria. Passava-lhe, antes, uma bola para os pés.” Em vez de felicidade deveríamos falar mais de alegria. A alegria tem raízes no quotidiano; mesmo quando nos surpreende, emerge de um itinerário existencial que podemos reconstruir; sabemos o que seja e como se alcança. Deveríamos falar mais de leveza, essa qualidade dos que permitem à vida manter um elan, uma espécie de transparência e gratidão, ligados não ao que a vida foi ou ao que poderia ter sido, mas ao indizível milagre que ela, a cada instante, é. Deveríamos falar de simplicidade, essa capacidade de partir continuamente do essencial, fazendo disso uma escolha, uma prática e um estilo. E falar daquelas pequenas esperanças, disso que recebemos e damos estabelecendo desse modo o movimento circular da vida, e que depois se torna o guia e o espelho das nossas aspirações maiores. Falar de coisas finalmente concretas, ao alcance da mão, coisas talvez triviais, mas que vêm sem mais brincar aos nossos pés. O que nos faz felizes tem de ser uma experiência infinitamente mais humilde do que o standard fantasioso requerido pela ideologia da felicidade.
Hoje ouve-se muitos pais dizerem acerca dos filhos e do seu futuro: “Não quero influenciar o rumo que o meu filho vai seguir; a escolha está completamente nas suas mãos; desejo apenas que ele seja feliz.” E ao dizer isto, os pais não se dão conta do problema que estão a criar para os filhos. O amor, na verdade, não é desejar que alguém seja feliz, e ainda menos que seja apenas feliz. Como ensina Santo Agostinho, o amor é antes um volo ut sis, “quero que tu sejas”. Mais do que os estados que se atravessa e do que as estações que experimentamos está o que somos. A arte de ser deve prevalecer para lá das horas solares ou noturnas, dos processos de florescimento ou de impasse, da dança descendente da penumbra ou do desenho aéreo do júbilo. Não podemos desejar que alguém seja apenas feliz. Isso equivale a coartar a vida e a fantasiá-la perigosamente. Cabe-nos estimular os que amamos à corajosa aceitação da vida, no que ela tem de plenitude, mas também de vazio e até de decepção. Pois a quanta sabedoria só acedemos por essa ponte de corda que nos aparece suspensa sobre o abismo e pela qual caminhamos de olhos vendados e trémulos. Lembro-me muitas vezes de uma passagem de um poema de Giuseppe Ungaretti que diz: “Jamais, jamais sabereis quanto me ilumina/ a sombra que vem, tímida, colocar-se a meu lado/ quando desisto de esperar.” Nem sempre a sombra é o contrário da luz, como a árdua fadiga de viver não é o contrário da felicidade. São etapas do mesmo rio que corre. Há lágrimas que nos consolam tanto ou mais do que muitos sorrisos. E há dores que nos introduzem numa experiência de gestação e de comunhão, que não julgaríamos possível.
José Tolentino Mendonça
In: www.imissio.net 28.09.208
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Um ramo sairá do tronco... brotará das raízes. Assim profetiza Isaías (11, 1).
Talvez o profeta fizesse alusão à videira. De folhagens e frutos frágeis, possui raízes e troncos fortes, de tal modo que, mesmo depois de uma queimada ou de uma devastação, é possível recuperar sua matriz vital. Após a catástrofe do povo, Deus ainda suscitará o Messias de suas raízes. Jesus é o fruto bendito do Espírito de Deus que germina e dá vida nova às raízes feridas da humanidade. Do germe da fé, virá o Salvador. Daquele silêncio divino e da indiferença humana, o Verbo... Para o profeta, o Messias não será um novo Davi, mas anterior a ele mesmo, do pai de todos os reis, de Jessé brotará a mais íntima e virginal esperança do Povo de Deus... Maria será a fé mais virginal encontrada por Deus para brotar o seu e o nosso Messias. O ramo da vida é brotado do ventre de Maria. Da súplica do ventre de Maria, da profundidade do crer humano, a Palavra encarnada.
Tempo de iluminar o céu...
Na fragilidade do ramo, a grandeza do tronco e a força das raízes, de Deus. Do alto da cruz, como no madeiro da manjedoura, o mesmo corpo nu, frágil e despojado de tudo. O corpo delicado, como novo ramo do tronco ferido e maltratado pela violência humana, torna-se o próprio corpo Dele, a Igreja. O corpo que se tornou o madeiro... do tronco fincado no calvário, sem sopro, sem luz, dilacerado para não mais viver... nasce a vitalidade do novo Povo de Deus. A menor dentre todas as hortaliças, que faz abrigo para os pássaros... para os passantes do caminho rumo ao céu. Que lança seus ramos pela extensão do mundo. Celebrar o Advento é sempre retornar às raízes mais íntimas da fé e do amor, às raízes de Deus em nós, entrelaçadas em nossa história humana...
Do pavio que se apagou, da impossibilidade do crer humano, ressurge a fé de Deus que ilumina a humanidade com a sua Luz... O jeito de Deus é eternamente o mesmo: ressurgir do caos, a vida; do crucificado, o Ressuscitado; do fracasso, a misericórdia salvadora; da vela que se gastou, o vigor da chama... Para tanto, é possível e urgente também hoje crer!
Advento é o tempo da espera de Maria, a mais prudente dentre todas as virgens. É o tempo de nossa espera. Também é o tempo da perturbação: como será isso se não conheço homem algum? Não conhecer homem algum é também a nossa inquietude: como se concretizará hoje o projeto salvífico de Deus, se ainda nos falta humanidade? No entanto, Advento é a meditação silenciosa da vontade de Deus. E do fruto da resposta: Emanuel. Advento é quando o céu sente a temporalidade da terra, à espera da resposta de Maria, após o anúncio do anjo. E é a resposta de Maria, o seu amém, matéria de sua vontade e de sua adesão que permitem a encarnação, a matéria da Revelação plena de Deus: o Verbo se fez carne.
É o tempo do silêncio
O frágil barro é revigorado no sopro de seu oleiro. No sopro de seu criador. Daquele não entender humano, a perfeita sabedoria de Deus que nos surpreende quando a vida parece carecer de luz e transparência. Ele vem clemente para congregar os que se encontram na ofensiva... reunirá o que está disperso. O vaso é Maria. E, dentro dele, a graça de Deus. O vaso é a humanidade. Barro e sopro se reúnem. A história do homem terá sempre o ato de Deus.
É tempo de gerar o Natal, que só o é se brota como clamor das vísceras da pessoa humana. Só há natal verdadeiro se advir aquele grito das raízes do coração: Vem, Senhor Jesus. Há natal quando o ramo renasce do tronco machucado das profundas e extensas raízes de Deus, que abraça a terra humana. É o tempo do silêncio da carne, do silêncio da terra que escuta... tudo é silêncio até ecoar numa noite iluminada um choro de criança. Assim Deus fala ao mundo!
Advento é tempo de, aproveitando as chuvas veraneias da graça de Deus, enxertar de novo a fé em nossa carne. É o tempo do enxerto, tempo de ferir nossa temporalidade. O advento tem de ferir-nos... Uma ferida que chegue a nos incomodar, que nos interrogue, que procure em nós uma resposta: como será isso? Como brotará a flor desta carne ferida?
É tempo do Advento do silêncio de Zacarias. Da profecia que silencia, que aguarda a promessa. E do Advento de José. Do sonho de Deus gerado no coração do homem, da cultura, da história... É tempo do Advento dos magos do oriente: a procura da luz... Da busca de uma inteligibilidade para a fé. Jesus é a fé inteligível. Não seja este o advento de Herodes, que disse também querer adorá-lo. Para este tipo, o Natal jamais chega, nunca atinge a profundidade existencial, não germina.
É o nosso tempo no tempo de Deus
O advento é caminho para o Messias encarnado, morto e ressuscitado. É caminho para o Messias esperado... E este Messias vem ferir nossa humanidade, romper nossas raízes, afim de que, com o cheiro de pasto dos pastores e a melodia dos anjos, também proclamemos: Glória a Deus nas alturas...
Enquanto a esperança for queimada até no seu tronco e cortada até em suas raízes e crucificada sob o solo santo, como crer na nova humanidade? Por isso, clamamos aos céus que façam chover a justiça e brotar do madeiro ferido do Povo de Deus um tempo de paz... Que a humanidade, banhada pelas novas águas da misericórdia, neste tempo favorável, se renove na ternura do Menino Deus, na eterna novidade do broto das raízes de Jessé.
Pe. Gilvair Messias
Padre da Diocese de Guaxupé-MG e mestre em teologia.
«Deve ser-se capaz de viver sem livros e sem nada. Existirá no entanto sempre um pedaço de céu para poder olhar, e espaço suficiente dentro de mim para juntar as mãos numa oração.»
Assim escrevia a 14 de Julho de 1942 Etty Hillesum, jovem judaica holandesa, um ano antes da sua eliminação ocorrida no campo de concentração nazi de Auschwitz, a 30 de setembro de 1943.
Já por várias vezes citamos o seu “Diário 1941-43”, rico de páginas de luta e de amor, de mística e de silêncio. Talvez seja precisamente porque temos à nossa volta tantas coisas e tantas presenças, que perdemos aquele «pedaço de céu» necessário para «juntar as mãos numa oração».
Já não somos capazes de criar um espaço mínimo de quietude e de paz, semelhante a um oásis, para onde nos retirarmos a fim de encontrar a nossa alma e o nosso Deus.
A verdadeira experiência de fé não é, todavia, isolamento e reclusão do mundo. Encerro-me em mim mesmo e no meu quarto para depois sair dele e ser sinal para os outros no quotidiano das opções.
É ainda Etty (ou seja, Ester) a guiar-nos e a sugerir-nos uma oração que nos ajuda a viver a fragmentariedade e a exterioridade do dia, iluminando-a e valorizando-a. Escrevia ela naquele “Diário”:
«Ajoelho-me no áspero tapete de coco, com as mãos que cobrem o rosto, e rezo: Senhor, faz-me viver de um único grande sentimento. Faz que eu cumpra amorosamente as mil pequenas ações de cada dia, e em conjunto reconduza todas estas pequenas ações a um único centro, a um profundo sentimento de disponibilidade e de amor».
Esta é, precisamente, a «única coisa de que há necessidade», como dizia Jesus a Marta: encontrar, através da oração, o nó de amor que reúna todas as «pequenas ações».
"Lamentar é algo que nos empobrece e nos faz lembrar vivamente de nossa pequenez. Mas é precisamente aqui, no meio da dor, da pobreza ou da fraqueza que o Dançarino nos convida a levantar e a dar os primeiros passos.
É dentro do nosso sofrimento, e nunca fora dele, que Jesus entra em nossa tristeza, toma-nos pela mão, puxa-nos gentilmente, fazendo-nos ficar de pé e nos convida a dançar.
E descobrimos o caminho da oração, como o salmista: "Converteste o meu pranto em dança" (Sl 30,11) porque, no âmago da nossa tristeza, encontramos a graça de Deus.
E, enquanto dançamos, percebemos que não precisamos ficar confinados ao diminuto espaço da nossa tristeza, mas podemos sair dali. Paramos de centralizar nossa vida em nós mesmos. Chamamos os outros para dançarem conosco a dança maior. Aprendemos a dar espaço a outros, e principalmente ao "Outro Gracioso' que está no nosso meio. E quando nos fazemos presentes para Deus e seu povo, nossa vida é ainda mais enriquecida.
Constatamos que o mundo é nossa pista de dança: nosso passo torna-se mais leve e ligeiro, porque Deus está chamando outros a dançarem também."
Henri Nouwen,
In: 'Transforma meu pranto em dança'.
Passou o primeiro turno das eleições, mas não a perplexidade. Esta, ao contrário, aumentou. Por quê? Primeiro, por causa da onda avassaladora que emergiu das urnas, transformando radicalmente a configuração política do Brasil em sua quase totalidade. Em seguida, pela percepção de um novo elemento que despontou como protagonista nos resultados dessas eleições: a religião.
Os resultados desse primeiro turno trouxeram surpresa após surpresa. Vários candidatos que as pesquisas davam como favoritos em diferentes estados não apenas não ganharam sequer direito a um segundo turno, como ficaram em último lugar na votação.
Partidos até então líderes no cenário político brasileiro encolheram sua presença nos governos estaduais, na Câmara dos Deputados e no Senado.
Outros até então pequenos e com parca representação cresceram exponencialmente. E a corrida presidencial, embora confirmando as previsões das pesquisas, superou-as consideravelmente.
Enquanto tentamos nos recuperar das surpresas, outro dado novo nos atropela: o protagonismo que a religião passou a ter nas campanhas de tantos candidatos, especialmente em boa parte dos vitoriosos.
O discurso sobre Deus, a compreensão da própria candidatura como vocação dada por Deus, a Bíblia utilizada como epígrafe de entrevistas transmitidas pela mídia se fazem sempre mais presentes na propaganda eleitoral e nos debates entre os candidatos.
Não se trata, porém, do discurso cristão que nos acostumamos a ouvir, característico das Igrejas históricas, católica ou protestante.
A ênfase é na afirmação da supremacia gloriosa de Deus sobre tudo e todos e a conexão disto com o patriotismo exacerbado: a pátria acima de tudo. Os versículos bíblicos – às vezes não citados corretamente – são isolados de seu contexto. E apoiam as afirmações do candidato e não o contrário.
Se Deus está acima de todos, não parece estar acima daqueles que o citam a torto e a direito, em perigosa proximidade com o segundo mandamento que manda “não tomar seu Santo nome em vão”.
Servem tais citações como respaldo e legitimação ao que os candidatos em questão querem propor ao público como ideias a assimilar e projetos aos quais aderir.
É a Bíblia a serviço do discurso eleitoral e não o contrário. É a Palavra de Deus utilizada como apoio para afirmações e declarações que andam distantes daquilo que as Escrituras apresentam como sendo o permanente diálogo de amor e vida em plenitude do Deus da Aliança e da Promessa com seu povo.
Nessas declarações encontram-se incitações à violência e promessas de armar a população e militarizar as escolas. Ouvem-se afirmações discriminatórias em relação a vários segmentos da população: merecem destaque os negros, as mulheres e os LGBT.
Fala-se com desprezo dos direitos humanos e das conquistas duramente conseguidas pela humanidade e concretamente pelos brasileiros ao longo de décadas. Direitos laborais, políticos e sociais são definidos como males a extirpar.
Percebe-se, portanto, uma explicitação da fé cristã descolada dos valores que os candidatos em questão pretendem defender: a família, a moral, a segurança.
Enquanto no Evangelho de Jesus Cristo o que se lê é a apologia do acolhimento ao outro, do perdão, da não violência, da inclusão de todos, os discursos políticos dessas eleições em nosso país vêm carregados de agressividade, eu diria até mesmo de morbosidade.
A ligação constitutiva do cristianismo entre a fé e o compromisso transformador com a justiça passa longe das eleições brasileiras. O que se vê é o louvor como fim em si mesmo, a afirmação da fé em Deus apoiando e legitimando propostas excludentes, agressivas e discriminatórias.
E, pior que tudo, a banalização da violência e da morte como preço necessário a pagar para trazer segurança a um povo cansado de ver a própria vida e de sua família permanentemente em risco.
Essa combinação explosiva de patriotismo ultramontano e religiosidade fundamentalista infelizmente não é nova. Já foi vista em outras situações e mais ou menos recentemente na Europa do final dos anos 30, inicio dos 40. O espaço onde aconteceu foram os países cristãos.
Ali também Deus foi convocado para justificar um novo regime que parecia empoderar países em crise. Os resultados são bem conhecidos. A humanidade amargou o maior genocídio de todos os tempos, pelo qual até hoje paga as consequências.
Ninguém acreditava que líderes que se diziam tementes a Deus pudessem realizar suas enlouquecidas propostas. Tiveram que pagar para ver.
E viram quando já era tarde. Às vésperas do segundo turno, acompanhamos com angústia o rumo que toma nosso país. Que nos ajude a esperança, virtude indispensável que a fé no verdadeiro Deus nos ajuda a não perder.
Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de de “Mística e Testemunho em Koinonia”(Editora Paulus), sua mais recente obra, entre outros livros.
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